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Final da História Humana e Salvação

FINAL DA HISTÓRIA HUMANA E SALVAÇÃO


... A História Humana é um Projecto com Sentido. À luz da Páscoa de Jesus, a morte tem o rosto de um Nascimento pleno do Homem Novo na Comunhão Universal dos Ressuscitados em Deus. O Pecado é superado pela acção do Espírito Santo que restaura o Homem Interior configurando-o com Cristo, o Novo Adão. A Linguagem do Juizo e da Segunda Vinda apontam para a Esperança fundamental de que Deus está a renovar a História Humana e que esta tem a sua plena realização em Cristo ...


1. A Nova Aliança inicia uma Nova Criação
2. Pecado e Juizo Final na Bíblia
3. Os Apóstolos e a Segunda Vinda de Cristo
4. Juizo Final e Reino de Deus no Apocalipse

5. História Pessoal e Ressurreição da Carne
6. Ressurreição e Vida Eterna
7. Final da História e Vida Eterna

Final da História e Vida Eterna





a) A Vida Eterna em Perspectiva Bíblicas
1- A Vida Eterna Como Dom de Deus
2- Vida Eterna e Comunhão com Deus
3- Encarnação e Vida Eterna
4- Vida Eterna e Conhecimento de Deus
5- Jesus Cristo e a Vida Eterna
6- O Espírito Santo Como Água da Vida

b) Final da História e Salvação
1- O Plano de Deus é um Projecto de Amor
2- A Nova Criação em Cristo
3- Assumidos na Comunhão Familiar de Deus
4- O Dia do Juízo
5- O Dia da Salvação

c) O Reino de Deus tem Como Lei o Amor
1- Reino de Deus e Amor Universal
2- O Reino de Deus Como Processo
3- São João e o Reino de Deus
4- Jesus e a Emergência do Reino de Deus
5- O Reino Como Comunhão Orgânica

d) Espírito Santo e o Mistério da Salvação
1- Espírito Santo no Mistério de Cristo
2- Espírito Santo e Salvação
3- A Presença do Espírito Santo em Nós
4- Espírito Santo e Humanização do Homem

e) O Céu Como Festa do Amor Total
1- A Alegria Sem Condicionamentos
2- Encontro no Espírito Santo
3- Envoltos na Ternura de Deus


a) A Vida Eterna em Perspectivas Bíblicas

1- A Vida Eterna Como Dom de Deus

Deus não é uma realidade histórica, mas as pessoas divinas estão empenhadas na história do Homem. Na sua ternura infinita Deus quis que o Humanidade tivesse parte na festa da vida eterna. Eis o que diz o evangelho de São João: “Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, de modo que o teu Filho manifeste a tua glória, segundo o poder que lhe deste, a fim de ele dar a vida eterna a todos os que lhe entregaste. Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, Pai, como único Deus verdadeiro e a teu Filho Jesus Cristo a quem enviaste” (Jo 17, 1-3).

Podemos dizer que a vida eterna é o grande dom que Deus nos oferece em Cristo. Eis o modo como São Paulo vê o dom da vida eterna em Cristo: “Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, em ordem à fé dos eleitos de Deus e ao conhecimento da verdade, que conduz à piedade. Assim é fortalecida a esperança na vida eterna, prometida desde os tempos antigos pelo Deus que não mente. Este mistério foi manifestado no devido tempo pela pregação da qual fui incumbido por mandato de Deus, nosso Salvador” (Tit 1, 1-3).

A vida eterna é um dom totalmente gratuito que Deus nos proporciona mediante a acção do Espírito Santo em nós: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com a Humanidade, ele salvou-nos. Esta salvação não é devida às obras de justiça que tivéssemos praticado, mas sim à sua misericórdia, através de um novo nascimento e renovação mediante o Espírito Santo, que ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador. Deste modo, uma vez justificados pela sua graça, vamo-nos tornando herdeiros da vida eterna que já vivemos na esperança” (Tt 3, 4-7).


2- Vida Eterna e Comunhão com Deus

A vida eterna é a Festa da Família de Deus. O Livro do Apocalipse descreve de modo muito bonito a vida eterna como comunhão de Deus com a Humanidade: “Vi então um Novo Céu e uma Nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo. E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia:
“Esta é a morada de deus entre os homens. Ele habitará com os seres humanos e estes serão o seu povo. Deus estará com eles e será o seu Deus, enxugando todas as lágrimas dos seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas passaram”. O que estava sentado no trono disse: “Eu renovo todas as coisas!” E acrescentou: “Escreve, porque estas palavras são verdadeiras. Eu sou o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim! Ao que tiver sede eu lhe darei a beber gratuitamente da nascente da Água da Vida. O que vencer receberá estas coisas como herança. Eu serei o seu Deus e ele será o meu filho!” (Apc 21, 1-7).

A vida eterna é uma dinâmica relacional e interactiva e não algo que uma pessoa possa possuir de modo isolado. Como princípio animador de relações e vínculo maternal de comunhão orgânica, o Espírito Santo é o elo da comunhão que constitui a vida eterna.

3- Encarnação e Vida Eterna

O evangelho de São João diz que a Encarnação é a fonte da vida eterna: “Aos que o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue. Também não nasceram de um impulso da carne nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, essa glória que ele possui como Filho unigénito do Pai, cheio de Graça e Verdade” (Jo 1, 12-14).

A vida eterna implica, pois, a nossa incorporação na Família de Deus cujo resultado é a nossa divinização. A Primeira Carta de São João diz que a dinâmica da vida eterna é o amor: “Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. Todo o que tem ódio ao seu irmão é um homicida e vós bem sabeis que nenhum homicida tem dentro de si a vida eterna” (1 Jo 3, 14-15).

A vida eterna é um dom que nos vem de Deus através de Jesus ressuscitado: “Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida, quem não tem o filho não tem a vida” (1 Jo 5, 11-12).

4- Vida Eterna e Conhecimento de Deus

Deus é o Senhor da Vida Eterna. Por ser amor Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna, condenam-se por sua própria decisão. No Reino de Deus todos dançam o ritmo do amor, mas cada qual com o jeito que tiver treinado agora na história. Isto quer dizer que a vida eterna atinge a sua plenitude no Reino de Deus, mas está a emergir na História. Graças ao acontecimento histórico de Jesus Cristo, a pessoa vai sendo divinizada na medida em que se humaniza.

Jesus propõe-nos um jeito novo de viver, o qual nos possibilita uma interacção nova com o Espírito Santo, condição para atingirmos o conhecimento de Deus. O evangelho de São João diz que a vida eterna consiste em conhecer a Deus: “Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tu enviaste” (Jo 17, 3).

Conhecer, na Bíblia, significa interagir de modo amoroso e fecundo. O conhecimento de Deus e de Jesus Cristo implica, portanto, uma comunhão orgânica, a qual confere uma nova qualidade à vida: “Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11, 27).

Conhecer Deus é, pois, interagir de modo amoroso e fecundo com as pessoas divinas. Este conhecimento não é resultado de um simples treino humano, mas algo que só pode acontecer pela acção do Espírito Santo: “Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque foi esta a tua vontade e o teu agrado” (Lc 10, 21).

Como este texto nos indica, o conhecimento de Deus não é uma questão teórica, mas uma experiência viva feita no Espírito Santo. A Primeira Carta de São João diz-nos que o conhecimento de Deus é uma questão de amor: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. Todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. O que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus á amor” (1 Jo 4, 7-8). Depois acrescenta: “A Deus nunca ninguém o viu, mas se nos amarmos, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós” (1 Jo 4, 12).


5- Jesus Cristo e a Vida Eterna


A razão de isto ser assim é porque Deus é amor: “Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). O evangelho de São João diz que Jesus revela o Pai pelo seu jeito de ser e amar: “Há tanto tempo que estou convosco e não me ficastes a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que ainda me dizes mostra-nos o pai” (Jo 14, 8-9).

O Espírito Santo é quem nos guia neste caminho do conhecimento de Deus. Não por nos comunicar muitos conceitos, mas por nos conduzir para atitudes de amor idênticas às de Cristo: “Fui-vos dizendo estas coisas enquanto estava convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, recordando-vos tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 25-26).

O evangelho de São João diz que o Espírito Santo tem a tarefa de completar a missão de Jesus, conduzindo-nos para a Verdade plena, isto é, para um jeito de viver idêntico ao de Cristo: “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender por agora. Quando ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a verdade completa” (Jo 16, 12-13).

A verdade plena é o conhecimento de Deus que culmina na comunhão com Deus através de Cristo. Jesus diz que não há conhecimento de Deus que não passe pelo amor aos irmãos: “Então os justos vão responder a Jesus: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te? Então o rei responder-lhes-à: “Em verdade em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 37-40).

No coração do amor humano acontece sempre a acção do Espírito Santo que optimiza esse amor. Podemos dizer que o conhecimento de Deus é uma experiência que passa pelo jeito de agir face ao amor. Isto significa que a vida eterna é algo que já está a emergir no nosso coração, graças ao modo como nos deixamos conduzir pelos apelos do amor.

6- O Espírito Santo Como Água da Vida

Jesus disse à Samaritana que o dom da Salvação acontece no interior da pessoa, graças à acção da Água Viva, isto é, o Espírito Santo. “Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é aquele que te está a pedir água, tu é que lhe pedirias e ele dar-te-ia uma Água Viva” (Jo 4, 10). O profeta Jeremias denuncia a infidelidade do povo que ousa voltar as costas a Deus que é a fonte da Água Viva.

A Carta aos Romanos diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos de Deus Pai e irmãos do Filho de Deus: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes com medo, mas sim um Espírito de adopção graças ao qual clamamos “Abba”, papá. É o próprio Espírito que dá testemunho no nosso íntimo de que somos filhos de Deus. Se somos filhos, somos igualmente herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14-17).

São Paulo também utiliza a simbologia da Água para falar do Espírito Santo: “Todos nós fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, tanto judeus como gregos, escravos ou livres. Todos bebemos de um mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13). Em relação às dúvidas da Samaritana a propósito da Água Viva, Jesus diz-lhe que á Água Viva não é como a água do poço de Jacob, símbolo da Antiga aliança. A água do poço de Jacob, não mata a sede de modo definitivo: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da Água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pois esta Água converter-se-á nele em Fonte de Vida Eterna” (Jo 4, 13-14).

O profeta Ezequiel diz que o Messias vem conduzir as pessoas para a autenticidade de vida, graças à acção do Espírito Santo: “Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Porei o meu Espírito no vosso íntimo, fazendo que sejais fiéis às minhas leis e preceitos” (Ez 36, 26-27). Na Carta aos Efésios, São Paulo convida os cristãos a não se embriagarem com vinho, mas a encher-se do Espírito Santo (Ef 5, 18).

O profeta Isaías, diz que o Espírito Santo é uma água que mata a sede e faz desabrochar a vida em abundância: “Vou derramar água sobre o que tem sede e fazer correr rios sobre a terra árida. Vou derramar o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes. Estes crescerão como plantas junto das fontes e como salgueiros junto das águas correntes” (Is 44, 3-4).

São Paulo reconhece que Jesus ressuscitado iniciou os tempos da abundância do Espírito Santo. Na Carta aos Romanos ele diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Os Actos dos Apóstolos vêem no acontecimento do Pentecostes os tempos da plenitude do Espírito anunciado pelos profetas.

Face ao entusiasmo e alegria dos apóstolos, os judeus acusavam-nos de estar embriagados. Os Apóstolos respondem dizendo que a sua exultação é a realização do oráculo do profeta Joel: “Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia. Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel” (Act 2, 15-16).

Na verdade, o profeta Joel anunciou os tempos messiânicos como a plenitude do grande dom do Espírito Santo: “Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre toda a Humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão e os vossos anciãos terão visões. Também derramarei o meu Espírito sobre os vossos servos e servas naqueles dias” (Jl 3, 1-2).

A vida eterna brota da dinâmica do Espírito Santo em nós, diz São Paulo na Carta aos Gálatas: “Quem semear na carne, da carne colherá a corrupção. Mas quem semear no Espírito do Espírito Santo colherá a vida eterna” (Gal 6, 9). O profeta Isaías via o Espírito Santo como a fonte da Salvação: “Cheios de alegria tirareis água das fontes da Salvação” (Is 12, 3). Graças ao facto de Deus estar a fazer história com o Homem, a Vida eterna está a emergir no nosso coração.


b) Final da História e Salvação

1- O Plano de Deus é um Projecto de Amor

A fé cristã ensina-nos que a História terá um fim e o Homem será incorporado na Família de Deus. Eis o que diz a primeira carta a Timóteo: Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tim 2, 4). No evangelho de São João, Jesus diz que ele mesmo é a porta e todo aquele que passar por esta porta entra na salvação (Jo 10, 9). A vontade do Pai que me enviou é que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu (Jo 6, 39). Deus chamou-nos para uma vocação santa, não pelas nossas obras, mas em virtude do seu plano de salvação e pela graça (2 Tim 1, 8-9).

Quando chegar o final da História acontecerá a plenitude da Humanidade como um todo. Todos os eleitos, isto é os que têm coração para comungar com Deus e os irmãos sãos incorporados na comunhão da família de Deus. A Carta aos Efésios diz que fomos eleitos em Cristo antes da criação do mundo (Ef 1, 3-4). Isto quer dizer que Deus nos talhou para comungarmos com ele.

A Segunda Carta a Timóteo diz que as Escrituras nos comunicam a Sabedoria que conduz à Salvação pela fé em Cristo (2 Tim 3, 15). Estes textos ajudam-nos a olhar a História como um projecto com um sentido salvador. O conteúdo central do Novo Testamento é, de facto, a Boa Nova da Salvação em Cristo.

2- A Nova Criação em Cristo

Graças a Cristo e ao Espírito Santo que ele nos envia os seres humanos já são filhos e herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com o Filho de Deus (Rm 8, 14-17). O evangelho de São João diz que Jesus não veio para julgar o mundo mas para o salvar (Jo 12, 47). Ainda que o homem exterior se vá degradando e envelhecendo, o interior vai-se renovando diariamente pala acção do Espírito Santo (2 Cor 4, 16). Assim como a morte veio por um homem, por um homem veio a salvação que é a vida eterna (Rm 5, 12-21).

Se alguém está em Cristo é uma nova criação. Passou o que era velho. Tudo isto nos vem de Deus Pai que, em Cristo, reconciliou a Humanidade consigo não levando mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19). Na verdade Deus destinou-nos para sermos seus filhos adoptivos em Cristo (Ef 1, 5). Com Cristo, portanto, seremos herdeiros (Ef 1, 9-11). Este mistério esteve oculto durante milénios, mas foi-nos revelado através do seu Filho nestes tempos que são os da plenitude (Col 1, 26). Ao chamar-nos à fé, Cristo incorporou-nos no grupo do resto fiel, o qual está livre da ira que está para vir (1 Ts 1, 10).

A nossa plenitude é a comunhão universal do Reino de Deus. Ninguém é filho de Deus de modo individual ou a título pessoal. Somos filhos porque fazemos um todo orgânico com Cristo. Somos convidados a dizer Pai-Nosso, a fim de compreendermos que Deus é nosso Pai na medida em que formos irmãos dos outros. É este o modo de ser irmão de Deus Filho e filho de Deus Pai.


3- Assumidos na Comunhão Familiar de Deus

Fomos chamados a unir-nos ao Filho, a fim de fazermos uma unidade orgânica com o Pai mediante o Espírito Santo (Jo 17, 21-23). Vista à luz da fé, a História está cheia de sentido, pois é um projecto de amor sonhado de Deus. Ao ressuscitar, Jesus introduziu a História na plenitude, isto é, na fase dos acabamentos. Os Apóstolos associavam o final da História com a Segunda vinda de Cristo.

São Paulo imaginava que o fim dos tempos estava para muito breve. Deus enviou o seu Filho, a fim de se tornar o primogénito de muitos irmãos e, deste modo, nos integrar na plenitude do Reino (Rm 8, 29). E porque Cristo ressuscitado nos introduziu na Família de Deus, todos nós já podemos proclamar “Abba”, ó Pai! (Gal 4, 4-7). As primeiras comunidades cristãs julgavam que a História estava precisamente a atingir o seu fim. Os Apóstolos pensavam que ainda estariam vivos no dia da segunda vinda de Cristo (Lc 21, 20-30).


4- O Dia do Juízo

Influenciados pela visão trágica dos apocalipses judeus, os apóstolos, após a ressurreição de Jesus, começam a associar a segunda vinda de Cristo com o dia da ira. O dia da ira significava para o judaísmo do tempo de Jesus, o dia em que Deus enviaria os seus anjos para destruir os pecadores. Pouco a pouco começam a associar o dia da ira com a vinda do Messias. Nesse dia apenas um pequeno resto, o chamado resto fiel, escaparia à destruição.

São Paulo interpretava a segunda vinda de Cristo na linha do dia da ira. Ele julgava que as comunidades cristãs como o pequeno resto fiel que escaparia à punição final ele diz o seguinte aos Tessalonicenses: “Deus não nos destinou para a ira mas para a salvação em nosso Senhor Jesus Cristo (1 Ts 5, 9).

O livro do Apocalipse vê o resto fiel constituído pelos justos do Antigo Testamento. O número dos justos da Antiga Aliança é de cento e quarenta e quatro mil. Trata-se de um múltiplo de doze que simboliza os doze patriarcas multiplicados pelos doze apóstolos. Vem depois a multidão dos cristãos vindos do paganismo e oriundos dos diversos quadrantes da terra: “Não danifiqueis a terra nem o mar nem as árvores até termos marcado com o selo a fronte dos servos do nosso Deus. Ouvi depois o número dos que foram assinalados: “cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos de Israel (…). Depois disto apareceu uma multidão que ninguém podia contar, a qual provinha de todas as nações, povos e línguas” (Apc 7, 3-9).


5- O Dia da Salvação

Pouco a pouco, o Espírito Santo foi conduzindo as comunidades para a verdade do plano de Deus. Pouco a pouco os crentes começam a compreender que a vinda gloriosa de Jesus Cristo não será uma tragédia, mas sim a plena realização do amor salvador de Deus. Jesus vai conferir plenitude à História realizando não a destruição dos pecadores, mas a realização do juízo de Deus, o qual é um juízo de salvação, não de condenação.

O juízo de salvação consiste em que Deus não permite que se perca nada daquilo que existe de salvável na pessoa humana. Por outras palavras, o juízo final de Deus não se compara com os julgamentos dos tribunais humanos, mas sim com os julgamentos dos pais, os quais são feitos pela lei do amor.

No final da História, e com o juízo final realizado segundo a lei do amor, o Reino de Deus atingirá a sua plenitude. Nesse dia realizar-se-à a afirmação da Primeira Carta a Timóteo, a qual afirma: “A vontade de Deus é que todas as pessoas se salvem e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tim 2, 4). Eis o que diz a Carta a Tito: Manifestou-se a graça de Deus para salvação de todos os homens (Tt 2, 11).

Quanto à maneira de se realizar este juízo e plenitude humana não devemos imaginar uma multidão homens e mulheres reunidos em qualquer canto da terra. Na verdade esta plenitude final acontecerá no íntimo do coração das pessoas que estejam em comunhão com Deus. Eis o que diz São Lucas sobre a plenitude do Reino: “O Reino de Deus não vem de modo aparatoso, pois o Reino está dentro de cada um de vós (Lc 17, 20).

c) O Reino de Deus Tem Como Lei o Amor

1- Reino de Deus e Amor Universal

O Reino de Deus é uma comunhão de grandeza humano-divina cuja dinâmica é o amor. Quando a lei de um reino é o amor, todos reinam, pois as relações são de comunhão. Jesus é um rei que fez de nós seus irmãos e amigos: ele ensinou-nos que o Reino de Deus não é uma realidade distante. Como comunhão orgânica e dinâmica de grandeza humano-divina, o Reino de Deus começou a emergir no interior de Jesus de Nazaré, graças à dinâmica da Encarnação.

No momento da sua morte e ressurreição, Jesus Cristo entra nas coordenadas da universalidade, tornando-se presente a tudo e a todos a partir de dentro. Neste momento, o Reino de Deus passa para o interior das pessoas. Eis o que Jesus diz a este respeito no evangelho de São João: “Se alguém me tem amor guardará a minha palavra e meu Pai o amará. Então nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23).

O que delimita a nossa participação na plenitude do Reino de Deus é a nossa realização espiritual como pessoas livres, conscientes, responsáveis e capazes de comunhão amorosa. Uma vez inseridos na Comunhão do Reino de Deus dançaremos eternamente o ritmo do amor com o jeito que tivermos treinado aqui na terra.


2- O Reino de Deus Como Processo

Felizes dos que sabem dar conteúdo ao seu futuro, construindo-se como pessoas no presente. Com efeito seremos assumidos e incorporados na Festa do Reino de Deus na medida em que nos tenhamos construído como pessoas capazes de relações de amor e reciprocidade comunitária. Por outro lado, a interioridade pessoal-espiritual emerge progressivamente mediante opções, atitudes e relações de amor.

Jesus tinha consciência de ser um homem a viver uma condição original face a Deus. Isto era notado pelo modo como falava da sua relação com Deus. Jesus sabia que a génese do Reino de Deus estava em processo no seu íntimo. São Lucas exprime esta consciência que Jesus tinha da sua originalidade face a Deus dizendo: “Jesus veio a Nazaré, onde se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ungiu-me para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos, a recuperação da vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos e a proclamar o ano da graça.” Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Depois, Jesus dirige-lhes a palavra, dizendo: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 16-21).

Os evangelhos insistem na proximidade do Reino de Deus. Eis o que diz São Marcos: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava a Palavra de Deus, dizendo: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-15).


3- São João e o Reino de Deus

No evangelho de São João, o tema central é a Hora de Jesus, isto é, o momento da sua morte e ressurreição. É este o momento da Salvação, pois o Senhor, ao ressuscitar, dá-nos a Água Viva, isto é, o Espírito Santo que faz jorrar no nosso coração rios de Vida Eterna (Jo 7, 37-39; 4, 14). Como vimos acima, enquanto Jesus vivia na História, o Reino de Deus estava a emergir no interior de Jesus. Esta emergência era a dinâmica da Encarnação, isto é, o enxerto do divino no humano a acontecer.

Esta interacção humano-divina era tanto mais forte quanto mais Jesus crescia como interioridade espiritual humana. Por outras palavras, antes da ressurreição de Jesus, o Reino de Deus, estava entre os homens. No momento da sua ressurreição, Jesus passa das coordenadas exteriores da raça, da língua, do espaço e do tempo para as coordenadas da interioridade total: equidistância a tudo e a todos.

Nesse momento, Jesus torna-se a cabeça da comunhão orgânica que incorpora a Humanidade na comunhão da Santíssima Trindade. Nesse momento, o Reino de Deus deixa de estar no meio dos homens para estar no interior das pessoas. Por outras palavras, no momento da ressurreição de Jesus Cristo, o Reino de Deus passa da face exterior para a face interior da realidade. Esta passagem do Reino para a interioridade máxima do real significa a sua universalização.

É neste momento que se dá a comunicação universal do Espírito Santo, tornando-se a fonte da Vida Eterna no coração dos seres humanos: “No último dia, o mais solene da Festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim e o que acredita em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura hão-de correr do seu coração rios de água via”. Ora, Jesus disse isto, referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que nele cressem. Na verdade, o Espírito Santo ainda não tinha vindo por Jesus ainda não ter sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

Jesus foi-se apercebendo gradual e progressivamente de que, com a sua morte, o Reino de Deus atingiria um alcance universal, como diz o evangelho de São João: “Nesse dia compreendereis que eu estou no meu Pai, vós em mim, e eu em vós” (Jo14, 20).


4- Jesus e a Emergência do Reino de Deus

Jesus acreditava que o Reino de Deus já estava a emergir em si e que, com a sua morte e ressurreição começaria a génese universal do Reino de Deus. Por isso, no Pai-Nosso ele ensina os discípulos a pedir ao Pai que o Reino venha e que a vontade do Pai se faça (Mt 6,9-13; Lc 11, 2-4). No início do seu evangelho, São Marcos convida as pessoas a converterem-se em virtude da proximidade do Reino de Deus. (Mc 1, 15).

E nós podemos acrescentar o seguinte: através da acção libertadora de Jesus as pessoas experimentavam a proximidade do Reino em forma de uma acção transformadora. Por outras palavras, os milagres de Jesus exprimiam a dinâmica da libertação do Reino a acontecer entre as pessoas. Na verdade, as pessoas experimentavam os efeitos libertadores da presença do Reino através da actividade de Jesus. Referindo-se ao resultado libertador da sua palavra e dos seus gestos, Jesus disse aos fariseus que o facto de ele expulsar os demónios pelo Espírito Santo é o sinal de que o Reino de Deus chegou até eles (Lc 11, 20; Mt 12, 28).

O evangelho de São João diz que o Reino de Deus é a Comunhão Universal da Humanidade com a Divindade. O Reino de Deus diz Jesus, é a morada de Deus com o Homem. Neste Reino as pessoas humanas são divinizadas mediante a incorporação na Família Divina: “Não se perturbe o vosso coração. Assim como acreditais em Deus, acreditai também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse eu não vos teria dito que ia preparar-vos um lugar. Quando eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente a vós e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde eu estou vós estejais também” (Jo 14, 2-3).


5- O Reino Como Comunhão Orgânica

No Reino de Deus cada pessoa é um ponto de encontro e uma mediação para acontecer a Comunhão humano-divina. São Paulo diz que o Reino de Deus não é uma questão de comida ou bebida, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14, 17). Como mediações de introdução na Comunhão Universal, as pessoas são uma concretização única, original e irrepetível do património da Comunhão Universal. Na verdade, o Reino de Deus é constituído apenas por pessoas que se encontram em perfeita reciprocidade amorosa. O Reino de Deus, portanto, é a esfera da Comunhão e da novidade permanente.

Na Festa da Vida Eterna os seres humanos dançam o ritmo do amor, mas cada qual com o jeito com que treinou durante a sua génese pessoal na História. Por outras palavras, os ressuscitados continuam com a identidade resultante da sua realização pessoal na história. Somos pessoas em construção. A nossa identidade espiritual é precisamente o jeito de interagir e comungar com as pessoas humanas e as divinas. É com este jeito que nós tomaremos parte na Comunhão Universal da Família de Deus. O Reino de Deus é a esfera do amor, essa dinâmica universal de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

A universalização do Reino de Deus aconteceu com o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus. Na verdade, Jesus Cristo venceu a morte no próprio acto de morrer. Enquanto, sobre a cruz, ia morrendo o que no homem é mortal, o imortal ia sendo glorificado e incorporado na comunhão da Santíssima Trindade. Deste modo, ao morrer o último elemento daquilo que em Jesus era mortal, o imortal, isto é, a sua interioridade espiritual, estava plenamente ressuscitada. Isto quer dizer que Cristo não esteve um só minuto sob o domínio da morte, como convinha ao Senhor da Vida! Foi assim que Cristo, ao morrer, destruiu a nossa morte e ao ressuscitar restaurou e conduziu a nossa vida à plenitude.

Deste modo o Espírito Santo realizou em Cristo a vitória sobre a morte, não apenas para si, mas também para todos nós. Foi assim que aconteceu a plenitude dos tempos, isto é, a fase da recriação e da divinização da Humanidade. Se não tivesse havido pecado, a salvação em Cristo consistiria apenas na nossa divinização, pois não era necessário restaurar o Homem distorcido pelo pecado. Neste caso teria bastado conduzir a Humanidade à sua plenitude pela assunção na comunhão da Santíssima Trindade.

Eis as palavras de São Paulo sobre a plenitude à qual Deus nos conduziu em Cristo: “Foi assim que Deus nos escolheu em Cristo, antes da fundação do mundo, a fim de sermos santos e fiéis ao amor, caminhando na sua presença. Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos por meio de Jesus Cristo de acordo com a sua vontade, a fim de ser louvado e glorificado pela graça que derramou sobre nós (…). Foi este o modo como Deus nos manifestou o mistério da sua vontade e o seu plano amoroso, a fim de conduzir os tempos à sua plenitude, reunindo sob o domínio de Cristo tudo o que existe.” (Ef 1, 4-10). Podemos dizer que o Reino de Deus é a esfera da Comunhão Universal cuja dinâmica é o amor.


d) Espírito Santo e o Mistério da Salvação

1- Espírito Santo no Mistério de Cristo

Até à ressurreição de Cristo, o Espírito Santo actuava no coração dos homens à maneira de um pedagogo que interpela, ilumina e conduz. No momento da sua ressurreição, Jesus Cristo comunica-nos o Espírito Santo deforma intrínseca, isto é, fazendo dele a nascente da vida eterna nos nossos corações: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé disse em voz alta: “Se alguém tem sede venha a mim. Quem acredita em mim que sacie a sua sede! Na verdade, do seu coração há-de brotar um rio de água viva, como diz a Escritura”. Jesus dizia isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que acreditassem nele. Na verdade, ainda não tinham recebido o Espírito Santo, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado pela ressurreição” (Jo 7, 37-39).

O Espírito Santo é o Sangue de Cristo ressuscitado, o qual actua em nós como princípio comunicador devida divina. A carne de Jesus é o seu ser interior que, tal como o nosso, está estruturado para a comunhão orgânica com todos os seres humanos. Na verdade, o termo carne, na bíblia, significa a pessoa humana enquanto ser estruturado para as relações e fazendo um todo orgânico com toda a Humanidade.


2- Espírito Santo e Salvação

No momento da sua ressurreição, Jesus entrou nas coordenadas da Universalidade, tornando-se a cabeça da Nova Humanidade, assumindo-a na comunhão da Santíssima Trindade. Esta incorporação acontece mediante a acção do Espírito Santo que, com seu jeito maternal de amar, nos conduz ao Pai que nos acolhe como filhos e ao Filho de Deus que nos acolhe como irmãos. A Carta aos romanos diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Como sangue de Cristo, ele tornou-se o princípio vital que alimenta a nossa inserção na Família da Santíssima Trindade. Eis as palavras de São Paulo: “Na verdade, todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas um Espírito de adopção graças ao qual clamais Abba, ó Pai! Este mesmo Espírito dá testemunho no nosso íntimo de que realmente somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus somos também seus herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14-17).

Na verdade, o Espírito Santo é em nós o sangue de Cristo ressuscitado que nos comunica a vida divina. Por outras palavras, é pelo Espírito Santo que Cristo vai realizando de modo gradual e progressivo a nossa glorificação, fazendo-nos participar da sua ressurreição. Dizer que o Espírito Santo é um dom significa que ele é uma pessoa cujo jeito de ser é dar-se de modo pleno e permanente.


3- A Presença do Espírito Santo em Nós

Deus é a interioridade máxima do Universo. O Espírito Santo interage connosco sempre a partir de dentro. Deus é a transcendência máxima. Isto quer dizer que a nossa interioridade espiritual e a interioridade divina não coincidem. O ponto onde termina a nossa interioridade pessoal limitada, começa a interioridade ilimitada de Deus. Deus, portanto, vem à nossa interioridade a partir de dentro.

Como podemos ver não existe distância entre a nossa interioridade espiritual e a interioridade espiritual divina. O ponto de encontro da pessoa humana com Deus acontece no nosso íntimo. A bíblia chama coração a esse ponto de encontro e comunhão orgânica com a Santíssima Trindade.
Apesar de estar tão próximo, o Espírito Santo não nos invade e nunca se nos impõe. Como é o amor de Deus derramado nossos corações, o Espírito Santo nunca se nos impõe. Está sempre connosco, mas nunca está em nosso lugar. Ele é o amor maternal de Deus a introduzir-nos constantemente na Família Divina. É também pela ternura maternal que os seres humanos são introduzidos na família humana.

A presença do Espírito Santo no nosso íntimo é extremamente dinâmica, pois ele é uma pessoa que está sempre disposto a criar laços de comunhão com Deus e os irmãos. Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo vai-nos ajudando constantemente a nascer de novo, pois a nossa dimensão espiritual é uma génese. Na verdade, a pessoa humana é um ser em processo de espiritualização cujo princípio dinamizador é o Espírito Santo. Podemos dizer que a nossa dimensão espiritual emerge dentro do nosso corpo como o pintainho dentro do ovo.

4- Espírito Santo e Humanização do Homem

O Espírito Santo é o sopro que Deus insuflou no barro primordial do qual saiu Adão, como diz o Livro do Génesis: “Então o Senhor Deus formou o Homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o Homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2, 7). Esta intervenção especial de Deus aconteceu com nenhum outro animal, pois os animais não são seres em processo de espiritualização. Com efeito, nenhum animal se está a realizar como pessoa livre, consciente, responsável e capaz de comunhão amorosa.

O evangelho de São João diz que temos constantemente de nascer de novo através do Espírito Santo: “Em verdade em verdade te digo: quem não nascer do Alto, não pode ver o Reino de Deus” Perguntou-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer sendo velho? Porventura poderá entrar de novo no ventre de sua mãe e nascer? Jesus respondeu-lhe: “Em verdade em verdade te digo quem não nascer da Água e do Espírito Santo não pode entrar no Reino de Deus. Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito” (Jo 3, 3-6).

Isto quer dizer que o Espírito Santo é o impulso que activa a dinâmica histórica da humanização cuja lei é a seguinte: “Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal.


e) O Céu Como Festa do Amor Total

1- A Alegria Sem Condicionamentos

O Céu não é um lugar. São Paulo diz o Reino de Deus não é uma questão de comida e bebida, mas sim justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14, 17). Por outras palavras, o Céu é uma festa que acontece no íntimo das pessoas cujo coração está aberto à comunhão. O Céu é uma Comunhão Universal constituída pelas pessoas da Santíssima Trindade, com as pessoas divinas e todas as pessoas humanas capazes de comungar com Deus e os irmãos.

A ansiedade e a angústia não têm lugar no Reino de Deus. O medo já não existe, pois as pessoas amam-se todas e o sofrimento e a morte já não têm lugar. Também não há preocupações com qualquer tipo de necessidade. De facto, no Reino de Deus ninguém se preocupa com a roupa que vai vestir, ou com os alimentos que vai comer.

No Céu o egoísmo e a inveja já não existem. A alegria das pessoas está em dar o melhor de si para que os outros sejam felizes. E como é dando que se recebe, na Comunhão da Família de Deus todos vivem em plenitude. Por outras palavras, a felicidade, no Céu, está mais em dar do que em receber. Como existe uma comunhão perfeita entre as pessoas, no Céu todos recebem na medida em que dão. Já ninguém pretende amontoar, pois ninguém pretende ter mais que os outros. Foi por esta razão que Jesus nos ensinou a orar deste modo: “Pai-Nosso que estás no Céu. Santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu Reino. Faça-se a tua vontade, assim na Terra como no Céu” (Mt 6, 9-10).

2- Encontro no Espírito Santo

No Céu os seres humanos são todos membros da Família de Deus: Filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho. Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo é o laço que une e dinamiza as relações entre os membros da Família de Deus. O jeito de ser do Espírito Santo é actuar como laço de comunhão e princípio animador de relações e comunhão amorosa.

É esta razão pela qual São Paulo diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos de Deus Pai e irmãos do Filho de Deus (Rm 8, 14-16). Ninguém precisa de comprar nada, pois estamos no Reino da graça, onde tudo é dado gratuitamente e em abundância.

Todos se sentem irmãos e por isso ninguém pretende dominar ou espezinhar os outros. As pessoas sentem-se plenamente saciadas da ternura de Deus. As pessoas já não têm medo, pois a única lei é o amor. Ninguém se sente cansado ou saturado, pois o amor é a fonte da qual brota a novidade constante das relações e do encontro.


3- Envoltos na Ternura de Deus

E se ainda houver alguma memória do sofrimento desta vida, Deus passa amorosamente por todos, limpando todas as lágrimas que ainda possam existir. Depois dá-nos o beijo da felicidade, comunicando-nos a plenitude do Espírito Santo, o qual nos faz esquecer para sempre a lembrança dos sofrimentos da vida terrena.

Eis a maneira como a bíblia descreve a ternura de Deus para nós: “Eis a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles e eles serão o seu povo. Deus estará com eles e será o seu Deus. Enxugará todas as lágrimas dos seus olhos e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas passaram” (Apc 21, 3-4).

Ninguém é capaz de se sentir feliz fechando-se à comunhão amorosa. Eis a razão pela qual a felicidade está em comungar com os demais. Já ninguém sofre com a saudade dos que estão longe, pois já não há lonjura nem distância. O amor circula e difunde-se por todos os que fazem parte desta grande comunhão.

A Bíblia fala de um rio de Água Viva e resplandecente como se fosse um grande diamante a brilhar. Este rio está no centro do Paraíso e chama-se o rio da Água Viva que é o Espírito Santo. Os que têm sede entram no rio e bebem e o seu rosto fica a brilhar como o de Cristo Ressuscitado. Todos os que purificaram o coração, acolhendo a Palavra de Deus, têm direito a beber no rio da Água Viva e a comer o fruto da Árvore da Vida cujo fruto dá a vida eterna.

Todos estão saciados e ninguém voltará a morrer. Já não são precisas as estrelas, o sol ou a lua, pois a luz do Espírito de Deus ilumina todas as pessoas, como diz o Apocalipse: “O Espírito diz: “Vem! Digam também todos os que escutam a Palavra de Deus: “Vem!”. O que tem sede que se aproxime e beba gratuitamente a Água da Vida” (Apc 22, 17). Isto quer dizer que Deus nos criou para a Vida e a felicidade eterna.

Ressurreição e Vida Eterna




a) A Ressurreição da Carne na Bíblia
1- A Humanidade é um Corpo Cuja Cabeça é Jesus Cristo Ressuscitado.
2- A Humanidade Forma Uma União Orgânica
3- Espírito Santo e Ressurreição
4- Unidos à Ressurreição de Cristo
5- A Ressurreição da Carne
6- Adão e Jesus Cristo
7- Densidade Espiritual da Ressurreição

b) Imortalidade ou ressurreição?
1- Cristo e a Ressurreição Universal
2- Jesus e a Vida Eterna
3- Da Imortalidade à Ressurreição
4- Espírito Santo e a Dinâmica da Ressurreição
5- A Identidade Histórica dos Ressuscitados

c) A Experiência Pascal de São Paulo
1- São Paulo e a Ressurreição de Cristo
2- São Paulo e o Senhor Ressuscitado
3- Ressurreição e Unção Messiânica de Jesus
4- A Salvação em Cristo Ressuscitado
5- Ressurreição e a Mudança de São Paulo

d) Espírito Santo e a Vida Eterna
1- Espírito Santo e Nascimento Pessoal
2- Espírito Santo e Fecundidade Espiritual
3- O Espírito Santo Como Força da Salvação
4- Espírito Santo e a Plenitude dos Tempos


a) A Ressurreição da Carne na Bíblia

1- A Humanidade é um Corpo Cuja Cabeça é Jesus Cristo Ressuscitado.

Para o pensamento bíblico, a Humanidade forma um todo orgânico e dinâmico. Para indicar o sentido desta união que nos liga de modo orgânico a Cristo, São Paulo diz que Cristo nós fazemos um só Corpo. Jesus Cristo é a cabeça desse corpo do qual nós somos os membros (1 Cor 10,17; 12, 27). São Paulo acrescenta a seguir que o princípio vital que alimenta e fortalece este corpo é o Espírito Santo. Eis o que ele diz na Primeira Carta aos Coríntios: “Fomos baptizados num mesmo Espírito, a fim de formarmos um só Corpo” (1 Cor 12, 13).

O evangelho de São João vai nesta mesma linha dizendo que Cristo é a cepa da videira da qual nós somos os ramos (Jo 15, 1-8). Como ramos da videira, nós só podemos viver e dar fruto na medida em que estivermos unidos à cepa (Jo 15, 4-5). O mesmo se passa com a visão bíblica do pecado de Adão: Adão e a Humanidade fazem uma união orgânica. Adão era a Cabeça deste Corpo que é a Humanidade. A cabeça ao romper com Deus, conduz todos os membros do corpo para o caminho do malogro e da fracassa (Gn 3, 17-24). As consequências não se fizeram esperar, pois os filhos de Adão, em vez de caminharem na via da fraternidade, entram no caminho do fratricídio: Caim mata Abel (Gn 4, 8-13). Infelizmente, mesmo nos nossos dias ainda são muitos os seres humanos que caminham nesta via do fratricídio.


2- A Humanidade Forma Uma União Orgânica

Segundo o pensamento bíblico, o homem carne (basar) é o ser humano estruturado para a união orgânica e interactiva. O homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, formando com ela uma só carne, diz o livro do Génesis (Gn 2, 22-24). Podemos dizer que o Homem carne é o ser humano com interioridade talhado para o encontro e a comunhão com os outros seres humanos. Isto é tão fundamental para o pensamento bíblico que o ser humano, separado desta união orgânica e interactiva está em estado de morte.

Segundo a maneira de ver da bíblia, o acontecimento da morte biológica não destrói totalmente a pessoa humana. O homem exterior, com o acontecimento da morte torna-se pó (Gn 3, 19). Mas o homem interior subsiste no Shéol, isto é, na morada dos mortos, mas está em estado de morte, pois não podem comunicar com os outros seres humanos. Isto quer dizer que a ressurreição, tal como a salvação, não é um acontecimento para indivíduos isolados.

É precisamente esta argumentação de São Paulo uma pouco mais à frente: “Na verdade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram, pois assim como por um homem veio a morte, por um só homem veio a ressurreição dos mortos. E assim como todos morrem em Adão, assim todos ressuscitam em Cristo” (1 Cor 15, 20-23). Depois conclui: “Eis o que dizem as Escrituras: “O primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão, um espírito vivificante. Mas o primeiro Adão não foi o espiritual, mas o terreno. O espiritual vem depois. O primeiro homem tirado do barro é terreno. O segundo vem do Céu. Tal como era o terreno, assim são os terrenos. Tal como é o celeste, assim são também os celestes” (1 Cor 15, 45-48).

Na verdade, começamos por ser um dado puramente biológico, isto é, um ovo. A partir deste ovo inicia-se um processo de estruturação orgânica que atinge a complexidade própria do ser humano. Ao atingir a complexidade própria de homem, a vida dá um salto de qualidade para o limiar da vida pessoal-espiritual. É a este nível que a Humanidade forma um todo orgânico e dinâmico cuja cabeça é Jesus Cristo.

3- Espírito Santo e Ressurreição

Ao criar o Homem do barro, Deus insuflou-lhe o hálito da vida, isto é, o Espírito Santo, e o Homem tornou-se um ser de diálogo e comunicação (Gn 2, 7). Segundo o pensamento bíblico, a morte acontece quando Deus decide retirar de um ser humano concreto o seu hálito da vida. Nesse momento, a pessoa humana entra em estado de morte, isto é, fica incapaz de comunicar. A ressurreição da carne podia acontecer se Deus voltasse a insuflar o Espírito Santo no coração dos seres que permanecem no shéol, isto é, na morada dos mortos.

Jesus Cristo, como tinha a plenitude do Espírito, não ficou em estado de morte. É verdade que foi à morada dos mortos, mas para comunicar a dinâmica do Espírito a todos os que o tinham precedido na História. Eis as palavras da Primeira Carta de São Pedro: “Também Cristo padeceu por causa dos nossos pecados, de uma vez para sempre. Morto na carne, ele foi vivificado no Espírito. E foi assim que ele foi à morada dos mortos pregar aos espíritos cativos da morte. Muitos deles eram os incrédulos do tempo de Noé. Deus aguardava-os enquanto Noé construía a Arca, mas só um pequeno grupo, oito apenas, entraram na Arca e se salvaram (1 Ped 3, 18-19).

4- Unidos à Ressurreição de Cristo

Eis o que diz o evangelho de São Mateus: “E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou. Então o véu do templo rasgou-se em dois de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos que tinham morrido, ressuscitaram. Saindo dos túmulos, entraram na cidade santa e apareceram a muitos após a ressurreição de Jesus”. (Mt 27,50-53)

Para o pensamento bíblico, portanto, a ressurreição da carne não significa restauração biológica, sim comunicação orgânica do Espírito Santo. Ao ressuscitar, Jesus difundiu para a humanidade a Águas Viva, isto é, o Espírito Santo que faz emergir em nós regatos devida Eterna (Jo 7, 37-39). Os que bebem desta Água Viva, disse Jesus à Samaritana, nunca mais terão sede (Jo 4, 14). O evangelho de São João diz que no momento da morte e ressurreição de Jesus um dos soldados abriu o coração de Jesus do qual saiu sangue e Água, os dois grandes símbolos do Espírito Santo (Jo 19, 33-35).

A carta aos Romanos diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). O Coração é a morado do Espírito Santo, diz a Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 3, 16). Com a simbologia da Água e do sangue a sair do coração de Jesus, São João quer dizer que nesse momento chegou a Hora de Jesus, isto é, o início da ressurreição universal.

É esta a linguagem profunda do mistério da Eucaristia, sobretudo a comunhão da carne e do sangue de Cristo. Comer a carne de Cristo não é um acto antropofágico, isto é, não se trata de comer carne humana. Do mesmo modo, ao beber o sangue de Cristo. Os cristãos não estão a realizar um acto próprio de vampiros. Trata-se da comunicação do Espírito Santo que inicia e fortalece em nós o processo da ressurreição. Eis o que o evangelho de São João diz a este propósito: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem come a minha carne e bebe o meu sangue viverá por mim” (Jo 6, 56-57).


5- A Ressurreição da Carne

No evangelho de São João, Jesus diz que a carne que ele nos dá a comer é a carne de um ressuscitado e não uma realidade de ordem biológica (Jo 6, 62-63). Na realidade, o homem carne, na cultura bíblica, é mais um conceito genealógico e espiritual do que biológico, embora o pensamento bíblico não fizesse esta dissociação. Firme era certeza de que o homem carne, após a morte, continua a subsistir, apesar de estar em estado de morte. De facto, o ser humano só vive na medida em que convive.

Com a morte, diz o Livro do Génesis, o corpo do ser humano volta ao pó do qual fora tirado: “Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra da qual foste tirado, pois tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Reduzido a si, o ser humano não encontra a sua plenitude, pois a pessoa só se encontra e possui através das relações de fraternidade e comunhão. Privada do diálogo e do face a face amoroso, a pessoa está em estado de morte.

Aplicado aos seres humanos, o termo carne é a pessoa como interioridade que se estrutura em comunicação com os outros e só encontra plenamente em relações com os demais. Por outro lado, a plenitude das relações com Deus e os outros não pode acontecer sem a acção do Espírito Santo. A difusão do Espírito por toda a carne, significa precisamente a ressurreição universal da Humanidade em Cristo.

Foi assim que os actos dos apóstolos entenderam as palavras do profeta Joel: “Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: “Nos Últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar. Os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos terão sonhos (Act 2, 16-17). De facto, o homem carne é a pessoa estruturada em relações e talhada para a comunhão. Unir-se a Cristo ressuscitado, diz São Paulo, é fazer com ele um só Espírito: “Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito” (1Cor 6, 17).

Ressuscitamos em Cristo na medida em que formamos com ele uma só carne, isto é, uma comunhão orgânica e interactiva. Fomos baptizados no mesmo Espírito, diz São Paulo, a fim de formarmos um só corpo com Cristo (1Cor 12, 13). É este o sentido da comunhão na Eucaristia, diz a Primeira Carta aos Coríntios: “Comemos do mesmo pão porque formamos um só corpo (1Cor 10, 17).


6- Adão e Jesus Cristo

São Paulo diz que todos fomos prejudicados por fazermos uma só união orgânica com Adão. Por ele nos veio a morte (Rm 5, 12). Do mesmo modo todos fomos beneficiados sendo vencedores da morte com Cristo, o Novo Adão (Rm 5, 17). O matrimónio é sacramento desta união de Cristo com a Humanidade. Eis o que diz a Carta aos Efésios: “Os maridos devem amar as mulheres como os seus próprios corpos. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo. De facto, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne. O homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à sua mulher e passarão a ser uma só carne” (Ef 5, 28-31).

É nesta perspectiva que a bíblia vê a ressurreição da Carne. Trata-se, na verdade, de uma visão rica e profunda, além de realista. Os seres humanos começam por ser aquilo que os outros fizeram deles. Ninguém escolhe a sua raça, língua ou cultura. Ao habitar-se, isto é, ao tornar-se consciente, o ser humano já está habitado pelos outros. Dos outros recebemos os talentos, isto é, a matéria-prima para nos realizarmos. Mas só nos podemos realizar em relações com os outros.

O Novo Testamento não entende a ressurreição da carne como uma restauração biológica, mas como a incorporação na comunhão orgânica com Cristo, o Novo Adão. Isto quer dizer que a incorporação e glorificação dos seres humanos na Comunhão do Reino de Deus dá-se de modo orgânico. É esta a visão de São Paulo quando afirma: “O marido é a cabeça da mulher como Cristo é a cabeça da Igreja, Seu corpo, e da qual é o Salvador” (Ef 5, 23).

Na Carta aos Filipenses, São Paulo fala das razões que tinha para se gloriar na carne. Ao dizer isto, o Apóstolo não estava a pensar nas suas impressões digitais ou no seu ADN. Eis as suas palavras: “Também eu poderia confiar na carne. Se os outros o fazem, quanto mais eu poderia fazê-lo: Fui circuncidado ao oitavo dia. Sou da raça de Israel e da tribo de Benjamim. Na verdade, sou hebreu, filho de hebreus. Quanto à Lei, fui fariseu. No que se refere ao zelo, persegui a Igreja de Deus. No que se refere à justiça da Lei vivi de modo irrepreensível” (Flp 3, 4-6).

Um dia, diz o evangelho de São Mateus, Jesus chamou Satanás a São Pedro, pois este só entendia as coisas segundo os critérios da carne, isto é, do judaísmo e não segundo os critérios de Deus (Mt 16, 23). Também aqui Jesus não se estava a referir à biologia mas à visão estreita do judaísmo. Pelo contrário, ao abençoar a fé de São Pedro, Jesus diz-lhe que não foi a carne nem o sangue quem lhe revelou a verdade de Cristo e do Evangelho, mas sim o Pai que está nos céus (Mt 16, 16-17). É nesta perspectiva que os Apóstolos afirmavam a sua fé na “Ressurreição da Carne”.


7- Densidade Espiritual da Ressurreição

Na Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo afirma a dimensão espiritual da ressurreição de maneira muito bonita. Os coríntios, como eram pagãos, estavam a deturpar a verdade da ressurreição da carne, pois imaginavam-na em termos de reanimação de cadáveres. Então São Paulo corrige essa visão grosseira, dizendo-lhes que se trata de uma realidade espiritual: “Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória. Semeia-se na fraqueza e ressuscita-se na força. Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual. O que digo, irmãos, é que a carne e o sangue (a biologia) não podem tomar parte no Reino de Deus, nem a corrupção pode herdar a incorrupção” (1Cor 15, 42-50).

Nesta mesma linha vai a afirmação de São João ao afirmar que comer a carne de Cristo ressuscitado é ser animado pelo Espírito Santo que ele nos comunica (Jo 6, 62-63). A alegoria da videira exprime muito bem esta nossa união orgânica a Cristo: os que comem a carne e sangue de Jesus são os ramos alimentados pela seiva que vem da cepa e os torna fecundos (Jo 15, 4-5). A nossa união orgânica a Cristo ressuscitado culmina na comunhão familiar com as pessoas da Santíssima Trindade, diz Jesus: “Que todos sejam apenas um como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Que também eles sejam um em nós” (Jo17, 21).

Vendo as coisas à luz do pensamento bíblico, é mais bonito e pleno falar da ressurreição da carne do que da ressurreição dos corpos. Para evitar confusões junto dos pagãos helenistas, São Paulo começou a utilizar o termo ressurreição dos corpos. Mas depois teve de explicar que se trata, não do corpo biológico, mas de um corpo espiritual: “Semeado corpo terreno, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo terreno também há corpo espiritual” (cf. 1 Cor 15, 44).

A Boa Nova da ressurreição da carne leva consigo o pressuposto de que nós ressuscitamos porque fazemos um todo orgânico com Cristo ressuscitado. Eis o que São Paulo diz na Primeira Carta aos Coríntios: “Se pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição para os mortos, então também Cristo não ressuscitou. Ora, se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vã e também é vã a vossa fé. Sendo assim, nós somos falsas testemunhas de Deus, pois dizemos que ele ressuscitou a Cristo, quando na verdade não o ressuscitou, se os mortos não ressuscitam” (1 Cor 15, 12-16).

Como teólogo judeu, São Paulo está a argumentar tendo presente o pensamento bíblico: Cristo é a Cabeça da Nova Humanidade, como Adão era a cabeça da decaída pelo pecado. Não é possível a cabeça ressuscitar e o corpo ficar sem participar na mesma ressurreição. Isto quer dizer que a ressurreição, tal como a salvação, não é um acontecimento para indivíduos isolados.

É precisamente esta argumentação de São Paulo uma pouco mais à frente: “Na verdade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram, pois assim como por um homem veio a morte, por um só homem veio a ressurreição dos mortos. E assim como todos morrem em Adão, assim todos ressuscitam em Cristo” (1 Cor 15, 20-23).

Depois conclui: “Eis o que dizem as Escrituras: “O primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão, um espírito vivificante. Mas o primeiro Adão não foi o espiritual, mas o terreno. O espiritual vem depois. O primeiro homem tirado do barro é terreno. O segundo vem do Céu. Tal como era o terreno, assim são os terrenos. Tal como é o celeste, assim são também os celestes” (1 Cor 15, 45-48).

Na verdade, começamos por ser um dado puramente biológico, isto é, um ovo. A partir deste ovo inicia-se um processo de estruturação orgânica que atinge a complexidade própria do ser humano. Ao atingir a complexidade própria de homem, a vida dá um salto de qualidade atingindo o limiar da vida pessoal-espiritual, a qual atinge a sua plenitude em Cristo ressuscitado.


b) Imortalidade ou Ressurreição?

1- Cristo e a Ressurreição Universal

Se Cristo Ressuscitou, então a morte não tem a última palavra. É este o núcleo de uma Boa Nova que confere um sentido totalmente novo à vida. Depois de Jesus Cristo, qualquer anúncio da fé que não tenha a ressurreição como horizonte não é um anúncio de Evangelho. A ressurreição de Cristo é Boa Notícia, não apenas por ser algo que diz respeito a Jesus Cristo, mas sobretudo por se tratar de algo que também nos diz respeito.

Na verdade, a ressurreição de Cristo é a garantia da ressurreição de todos os seres humanos, pois Jesus, por ser um homem perfeito, faz uma união orgânica com todos os seres humanos. Eis o que diz a Primeira Carta aos Coríntios: “Se nós pregamos que Jesus ressuscitou dos mortos, como é que alguns de entre vós dizem que os mortos não ressuscitam. De facto, se não há ressurreição dos mortos, então também Cristo não ressuscitou” (1 Cor 15, 12-13).

Mais à frente acrescenta: “Se Cristo não ressuscitou a vossa fé não tem qualquer fundamento e vós ainda permaneceis nos vossos pecados (…). Mas não é assim! Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Assim como por um só homem (Adão) veio a morte, também por um só homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como todos morrem em Adão, assim todos ressuscitam em Cristo” (1 Cor 15, 17-22). São Paulo diz todos nós fazemos um só corpo com o Senhor ressuscitado (1 Cor 10, 17; 12, 27; 12, 13). É esta a garantia da nossa ressurreição.

O Evangelho de São João compara Jesus Cristo com a Árvore da Vida cujo fruto dá a vida eterna a todos os que o comem. Segundo o Livro do Génesis, no centro do paraíso primordial estava a Árvore da Vida. Com esta imagem, o Génesis queria dizer que Deus não nos criou para a morte mas para a Vida Eterna. Mas para isso, o Homem devia comer o fruto da Árvore da Vida Eterna. Isto quer dizer que a pessoa humana está chamada a colaborar na construção da sua Vida Eterna.


2- Jesus e a Vida Eterna

O Livro do Génesis diz que após o pecado de Adão, Deus expulsou-o do paraíso. Deste modo, Adão ficou sob o domínio da morte, pois ficou sem acesso à Árvore da Vida (Gn 3, 22-24). O Novo Testamento apresenta-nos Jesus como o Redentor que veio corrigir as distorções provocadas por Adão. Jesus ressuscitado é o Novo Adão, diz São Paulo (Rm 5, 17).

O evangelho de São João associa a missão de Cristo com a Vida eterna. Jesus tem dá-nos o fruto da Vida Eterna graças ao qual nós viveremos para sempre. O Novo Testamento não confunde Vida Eterna com simples imortalidade. Jesus dá-nos o fruto da Vida Eterna, a qual não é uma simples imortalidade. A Vida Eterna implica ressuscitar com Cristo. Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia (Jo 6, 54).

O fruto da Vida Eterna que Jesus nos dá é o Espírito Santo. No nosso íntimo, o Espírito Santo é como uma nascente de Água Viva que alimenta e fortalece em nós a Vida Eterna (Jo 7, 37-39). Ao romper a aliança com Deus, Adão fechou-nos as portas do paraíso (Gn 3, 22-24). Jesus Cristo é o Novo Adão fiel à vontade de Deus, aquele que tornou possível a realização da Nova e Eterna Aliança.

3- Da Imortalidade à Ressurreição

Graças à sua fidelidade incondicional, Jesus abre-nos as portas do paraíso, como ele disse ao Bom Ladrão no momento da sua morte e ressurreição: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43) No momento da sua ressurreição, Jesus oferece à Humanidade o fruto da Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo. Por outras palavras, Jesus é a Árvore da Vida que nos oferece o fruto da Vida Eterna que implica a ressurreição e não a simples imortalidade. É verdade que os seres humanos, por serem pessoas, têm uma interioridade espiritual e por isso imortal. Mas a simples imortalidade é uma garantia de subsistência após a morte, mas não de uma Vida Eterna, a qual implica tomar parte na comunhão universal da Família de Deus. As pessoas que, porventura estejam em estado de inferno são imortais, mas não possuem a alegria e a plenitude da Vida Eterna.

Jesus enviou os Apóstolos a pregar a ressurreição, não a vida eterna. O conceito de imortalidade é muito anterior a Jesus Cristo e não tem origem no pensamento bíblico. O núcleo do Evangelho é a Vida Eterna, a qual implica a assunção e incorporação da pessoa humana na comunhão com a Santíssima Trindade. É verdade que o acontecimento da ressurreição dos seres humanos assenta no facto de estes serem imortais. Mas a simples imortalidade não é suficiente para podermos participar na festa dos ressuscitados com Cristo.


4- Espírito Santo e a Dinâmica da Ressurreição

Por ter a plenitude do Espírito Santo, Jesus venceu a morte no próprio acto de morrer. Jesus não esteve um só momento sob o domínio da morte, pois no próprio acto de morrer sobre a cruz a morte foi vencida. Na medida em que ia morrendo aquilo que havia de mortal no homem Jesus, o Espírito Santo ia glorificando e incorporando na comunhão Divina, o que nele havia de imortal.

Isto quer dizer que Jesus não ficou um só segundo sob o domínio da morte. A morte foi tragada pela vitória da ressurreição. De tal modo o acto de morrer e a dinâmica ressuscitadora actuavam em simultâneo que Jesus, no momento em que acabou de morrer, já estava totalmente ressuscitado. Isto quer dizer que os seres humanos, após a sua morte, não ficam reduzidos a uma simples alma imortal. Pelo contrário, são assumidos na comunhão universal como pessoas com uma identidade histórica.

5- A Identidade Histórica dos Ressuscitados

A identidade histórica dos ressuscitados consiste no seu modo e capacidade de interagir amorosamente com Deus e os outros. O evangelho de São Mateus diz que no momento Jesus morrer e ressuscitar muitos santos ressuscitam e começam a aparecer (Mt 27, 52-53). Ressuscitar com Cristo é participar da dinâmica ressuscitadora que emana dele e nos torna participantes da sua vitória sobre a morte. O evangelho de João exprime isto de maneira muito bonita ao falar da Eucaristia (Jo 6, 51).

A fé cristã leva consigo a certeza jubilosa de que a nossa meta não é o vazio da morte, pois esta foi vencida por Cristo ressuscitado. Não basta o facto de a pessoa humana ser imortal para atingir a plenitude da Vida Eterna. Esta atinge-se mediante a ressurreição com Cristo. A salvação e a Vida Eterna é um dom de Deus para todos os seres humanos, seja qual for a sua raça, língua, nacionalidade ou religião. No entanto, Ninguém atinge a plenitude da Vida Eterna fora de Cristo ressuscitado.

Para participar nessa plenitude basta ter a veste nupcial, isto é, um coração capaz de comungar com Deus e os irmãos. Todas as pessoas que tenham um coração capaz de comungar ressuscitam com Cristo e são assumidas na plenitude da Vida Eterna. Por outras palavras, a ressurreição de Cristo proporciona-nos a Vida Eterna, não a imortalidade, pois esta é um dado inerente ao facto de sermos pessoas, isto é, seres com vida espiritual. Do mesmo modo, a imortalidade, só por si, não é suficiente para participarmos na plenitude da ressurreição com Cristo.

Só na medida em que fazemos um todo orgânico com Jesus Cristo somos ressuscitados e divinizados mediante a incorporação na comunhão da Família Divina. Isto quer dizer que a dinâmica da Vida Eterna é constituída por relações de comunhão amorosa. A ideia pagã da imortalidade da alma não tem qualquer fundamento bíblico. De facto, a teoria da imortalidade da alma é um produto sobretudo da filosofia grega.

Jesus Cristo é o salvador de pessoas, não de almas. A Divindade é constituída por três pessoas, não por três almas. Do mesmo modo, a Humanidade é constituída por uma multidão incontável de pessoas, não de almas. As pessoas humanas estão chamadas a ser divinas, pois são pessoas capacitadas para comungar com as pessoas divinas.


c) A Experiência Pascal de São Paulo

1- São Paulo e a Ressurreição de Cristo

A Conversão de São Paulo é a maior prova da ressurreição de Cristo. Sem a sua experiência pascal a difusão do Evangelho no século primeiro seria outra coisa totalmente diferente. A figura de São Paulo é o centro do Livro dos Actos dos Apóstolos. Tal é a importância que São Lucas atribui à conversão de São Paulo que a relata duas vezes nos Actos dos Apóstolos: “Quando ia a caminho de Damasco, Saulo viu-se subitamente envolvido por uma luz intensa vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Ele perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz do Céu respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens que fazer” (Act 9, 3-6).

O fariseu agarrado à letra da Lei, aos preceitos, às normas, vê-se de uma momento para o outro liberto de todas estas amarras. A experiência pascal de São Paulo foi de tal modo profunda que alterou radicalmente o sentido da sua vida. Eis o que ele escreve na Carta aos Gálatas: “Na verdade, eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo. De facto, já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (…). Se a justiça viesse pelas normas e preceitos da Lei, a morte de Cristo teria sido inútil” (Gal 2, 19-21).

Na Carta aos Romanos, São Paulo insiste em que devemos entregar-nos a Deus como ressuscitados com Cristo, pois é dele e não da Lei que nós recebemos a graça da Salvação: “Entregai-vos a Deus como homens novos e vivos. Utilizai as armas da justiça ao serviço de Deus. O pecado não tem mais domínio sobre vós uma vez que não estais sob a Lei, mas sob a graça” (Rm 6, 13-14).


2- São Paulo e o Senhor Ressuscitado

São Paulo não foi discípulo do Jesus histórico. Por isso não o conheceu. Eis a razão pela qual ele só fala do Senhor ressuscitado. Como não tinha sido discípulo de Jesus, São Paulo não teve parte nas primeiras aparições de Jesus ressuscitado. Neste ponto ele limita-se a repetir o que os Apóstolos lhe comunicaram, como ele mesmo explica na Primeira Carta aos Coríntios: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: “Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez. A maior parte destes irmãos ainda vive, embora alguns já tenham morrido. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos (missionários itinerantes).
Em último lugar apareceu-me também a mim como a um aborto. De facto, eu sou o menor dos Apóstolos, nem sequer mereço ser chamado Apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou. Com efeito, a graça que me foi concedida não foi estéril. Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles. Não eu, mas a graça de Deus que está comigo. É isto o que temos pregado, tanto eu como eles. E foi assim também que vós acreditastes!” (1 Cor 15, 3- 11).

Jesus de Nazaré é o Messias. Ele é o Filho de David anunciado pelos profetas. Foi ungido pelo Espírito Santo e entronizado no Céu no momento da sua ressurreição. Eis as palavras com que São Paulo inicia a sua Carta aos Romanos: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho que Deus antecipadamente prometera por meio dos profetas e das Santas Escrituras, acerca do seu Filho, Jesus Cristo. Nascido da descendência de David segundo a carne, ele foi constituído Filho de Deus em todo o poder pelo Espírito Santo e através da sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Rm 1, 1- 4).

3- Ressurreição e Unção Messiânica de Jesus

Como não conheceu o Jesus histórico o seu anúncio do Evangelho parte da ressurreição e não do baptismo de Jesus. Os outros Apóstolos, pelo contrário, começam por fundamentar a autenticidade messiânica de Jesus nos milagres que ele realizou durante a sua vida pública. Por outras palavras os discípulos que viveram com o Jesus histórico tinham tido a experiência do seu modo de actuar e a multidão de milagres e sinais que confirmavam a sua autenticidade messiânica.

Os Apóstolos fundamentavam a vida messiânica do Jesus terreno recorrendo ao seu baptismo (Lc 3, 21-22¸c 1, 9-11; Mt 3, 13-17). O Livro dos Actos dos Apóstolos diz que Jesus passou toda a vida a fazer o bem em virtude de ter sido ungido com o Espírito Santo no momento do seu baptismo: “Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou. Como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo maligno, pois Deus estava com ele. E nós somos testemunhas do que ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. Mataram-no, mas Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com ele, depois da sua ressurreição de entre os mortos. Foi ele que nos mandou pregar ao povo e confirmar que ele é o Messias constituído por Deus como juiz dos vivos e dos mortos” (Act 10, 37-42).


4- A Salvação em Cristo Ressuscitado

Como não observou os milagres operados pelo Jesus histórico, São Paulo fixa-se apenas nas maravilhas operadas pelo Senhor ressuscitado. A ressurreição de Jesus Cristo é o centro da pregação de São Paulo. Os outros Apóstolos fundamentam a autenticidade messiânica de Jesus, não apenas na ressurreição, como também nos milagres do Jesus histórico, os quais são também uma confirmação da autenticidade messiânica de Jesus. O Deus que o confirmou com tantos prodígios e sinais, é o mesmo Deus que o ressuscitou e glorificou como Messias.

São Paulo, pelo contrário, fixa-se sobretudo no Senhor ressuscitado e nas maravilhas que ele agora realiza com a força do Espírito Santo. Eis algumas passagens significativas de São Paulo: “Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

O simbolismo da água do baptismo, apesar de ser um rito de purificação muito usado entre os judeus, agora é interpretado por São Paulo à luz da morte e ressurreição de Jesus: “Pelo baptismo fomos sepultados com Cristo na morte, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova. De facto, se estamos incorporados em Cristo por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. O homem velho que havia em nós foi crucificado com Cristo, a fim de ser destruído o corpo do pecado. Deste modo, já não somos escravos do pecado (…). Se morremos com Cristo, acreditamos que também com ele viveremos. Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais. Na verdade, a morte não tem mais domínio sobre ele (…). Do mesmo modo, considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6, 4-11).

Graças à ressurreição de Cristo também nós seremos ressuscitados, proclama São Paulo, pois fazemos uma união orgânica com ele: “E Deus que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar a nós pelo seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6, 14-15).


5- Ressurreição e a Mudança de São Paulo

A mudança de atitude dos Apóstolos após a experiência pascal é o grande sinal confirmativo da Ressurreição de Jesus. A Força transformadora de Cristo Ressuscitado faz-se sentir não apenas ao nível espiritual, mas também nos efeitos sociais e históricos que provoca através acção dos Apóstolos: Formação de comunidades cristãs, o anúncio do Evangelho e um novo estilo de vida, sobretudo as relações fraternas e a partilha dos bens. Por outras palavras, o dinamismo recriador do Senhor ressuscitado transforma, não apenas o coração e a mente de São Paulo, mas através e de todos os apóstolos iniciou uma dinâmica nova na marcha histórica da Humanização.

O regresso dos discípulos que na Quinta-feira Santa fugiram, deixando o Senhor sozinho, reaparecem três dias depois a gritar nas praças públicas que Jesus é o Messias anunciado pelos profetas. Mas o sinal mais espantoso foi a mudança operada no teólogo judeu, Saulo de Tarso, o qual veio dar o grande Apóstolo São Paulo. O inimigo acérrimo dos cristãos que perseguia uns e matava outros, agora torna-se o grande pregador do Senhor ressuscitado. O excelente teólogo judeu, foi capaz de ultrapassar o seu rigorismo teológico fundamentado nos escritos da Lei e dos profetas, tornando-se o maior teólogo cristão do primeiro século da nossa era.

A ressurreição de Cristo torna-se o centro da sua nova teologia e o acontecimento que lhe dá força para ir pelos quatro cantos do Império anunciar Jesus Cristo Ressuscitado. A aparição do Senhor ressuscitado foi de tal modo marcante para São Paulo que este se dispôs a dar o melhor de si, incluindo a própria vida, para anunciar o Evangelho da ressurreição. Os seus escritos são o testemunho inequívoco de que o mistério de Cristo ressuscitado era o centro da sua fé e a fonte da energia que o movia a anunciar sem descanso a Boa Nova da Ressurreição.

Eis o que ele diz na Primeira Carta aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é inútil e falsa, como inútil e sem fundamento é a vossa Fé” (1 Cor 15, 14). Se Cristo não ressuscitou a pregação dos evangelizadores não passa de palavreado oco e sem valor. Na verdade, se Jesus não tivesse ressuscitado a pregação do Evangelho seria uma fraude ignominiosa. Por outras palavras, a experiência pascal de São Paulo capacitou-o para anunciar a Boa Nova da salvação humana em Jesus Cristo.

Como judeu que era, são Paulo esperava a vinda do Messias. Mas as suas ideias sobre o Messias não coincidiam nada com um Jesus simples, pobres e ainda por cima morto pela mão dos pagãos. As aparições do ressuscitado, afinal, acabaram por confirmar a sua esperança messiânica. Deus não nos defraudou, argumentará ele mais tarde. Jesus é o filho de David segundo a carne, constituído Filho de Deus pelo Espírito Santo no momento da sua ressurreição (Rm 8, 14-16). Podemos dizer que a experiência pascal de São Paulo operou uma viragem total na sua vida, dispondo-se a dar tudo a Cristo e a perder a própria vida.


d) Espírito Santo e a Vida Eterna

1- Espírito Santo e Nascimento Pessoal

Chamamos-lhe a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ao nomear as pessoas da Santíssima Trindade damos-lhe o nome de Espírito Santo. A fé cristã diz que O Espírito Santo é Deus com o Pai e o Filho. São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações. Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo gera a vida nova no íntimo dos seres humanos. O evangelho de São João, para exprimir o dinamismo salvador do Espírito Santo no coração das pessoas, diz que ele é semelhante a uma Água Viva que faz brotar no nosso íntimo uma nascente de Vida Eterna (Jo 7, 37-39; 4, 14).

Na Carta aos Romanos, São Paulo diz que ele é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Depois acrescenta que é o Espírito Santo que no introduz na Família de Deus como filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação ao Filho de Deus (Rm 8, 14-15). Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo veio sobre Maria, capacitando-a para amar com qualidade divina o seu Filho que é também o Filho de Deus (cf. Lc 1, 33-35). São Paulo diz que uma pessoa animada pelo Espírito Santo é incapaz de negar Jesus Cristo. Do mesmo modo, ninguém é capaz de reconhecer Jesus como o Salvador ressuscitado a não ser pelo mesmo Espírito Santo (1 Cor 12, 3).

2- Espírito Santo e Fecundidade Espiritual

Os evangelhos reconhecem que a força e a vitalidade espiritual de Jesus Cristo deve-se ao facto de ele estar cheio do Espírito Santo (Lc 4, 1-2; Mt 4,1). Como tinha a plenitude do Espírito, Jesus iniciou na História Humana a dinâmica recriadora do baptismo no Espírito (Mc 1, 8; Lc 3, 16). Para fazer parte da comunhão dos ressuscitados com Cristo, o ser humano tem de nascer de novo pela força geradora do Espírito Santo.

Foi o Espírito Santo que consagrou Jesus para anunciar a Boa Nova aos pobres, dar vista aos cegos, fazer caminhar os coxos e iniciar os tempos da Graça que diviniza as pessoas humanas (Lc 4, 18-21). Eis a razão pela qual Jesus, ao dar-se conta da acção salvadora de Deus a actuar nas pessoas exultava de alegria no Espírito Santo (Lc 10, 21).

Após a sua ressurreição, Jesus consagra os discípulos com a força do Espírito Santo, capacitando-os para a grande missão de evangelizar o mundo (Lc 24, 49). No evangelho de São João, Jesus diz que temos de nascer de novo pela acção do Espírito Santo, a fim de tomarmos parte na plenitude do Reino de Deus (Jo 3, 6). De tal maneira a sua missão é central na obra da salvação que todo o pecado tem perdão excepto o pecado contra o Espírito Santo (Mt 12, 31-32, Mc 3, 29; Lc 12, 10-12). Pecar contra o Espírito Santo é negar a verdade evidente, atribuindo o bem às forças do mal. Isto significa opor-se ao Espírito Santo, pois é ele que nos conduz à Verdade, como diz o evangelho de São João (Jo 14, 26).

O Livro dos Actos dos Apóstolos diz que as pessoas que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são capacitadas para dar testemunho do amor de Deus, anunciando as suas maravilhas em favor da Humanidade (Act 4, 31). Os primeiros cristãos, diz o Livro dos Actos dos Apóstolos, viviam repletos da consolação do Espírito Santo (Act 9, 31).


3- O Espírito Santo Como Força da Salvação

São Paulo diz que a sua pregação era eficaz, não por ser fruto do saber humano, mas porque o Espírito Santo actuava nele (1 Cor 2, 4). A presença do Espírito Santo no nosso íntimo é a garantia de que estamos marcados para a Salvação. Eis o que diz a Carta aos Efésios: “Não contristeis o Espírito Santo com o qual fostes selados para o dia da Salvação (Ef 4, 30). O Espírito Santo está no centro de todo o processo evangelizador. Isto quer dizer que só é eficaz a evangelização que é feita em sintonia com o Espírito Santo.

O Livro do Génesis diz que no centro do Paraíso estava plantada a árvore do fruto proibido. Comê-lo era cair nas garras da morte. Mas ao lado desta árvore de morte, estava a Árvore da Vida cujo fruto concedia a Vida Eterna a todos os que o comessem (Gn 3, 22-23). O Novo Testamento reconhece que a Árvore da Vida é Cristo ressuscitado cujo fruto é o Espírito Santo (Jo 6, 62-63). Segundo o evangelho de São Lucas, Jesus garantiu ao Bom Ladrão que no momento da sua ressurreição, o Paraíso, fechado a Adão, será aberto de novo (Lc 23, 43).

Como vimos mais acima, o Espírito Santo é a Água Viva que Cristo, ao ressuscitar, dá a todos, comunicando-lhes a Vida Eterna (Jo 7, 37-39). Por isso, no momento da morte e ressurreição de Jesus, saiu água e sangue do coração de Jesus (Jo 19, 34). Dois símbolos fundamentais para falar do Espírito Santo: A Água é a Água Viva que faz brotar uma nascente de Vida Eterna no nosso coração, como Jesus disse à Samaritana (Jo 4, 14).

O Espírito Santo é também o Sangue da Nova Aliança que nos comunica a própria vida de Cristo ressuscitado, ressuscitando-nos com ele (Jo 6, 54-56). Por outras palavras, o Espírito Santo é o Sangue de Cristo ressuscitado, a circular em nós de modo a fazer emergir em nós a vida divina. São Paulo diz que ele é a força ressuscitadora de Cristo a actuar no nosso íntimo (Rm 8,11).

A Segunda Carta aos Coríntios diz que o alicerce da Nova Aliança é o Espírito Santo e não as normas, preceitos ou leis criadas pelos homens. A eficácia da evangelização, diz São Paulo, assenta na força do Espírito Santo e não na letra das normas e leis judaicas. Na verdade, acrescenta ele, a letra mata. Mas o Espírito vivifica (2 Cor 3, 6). Com seu jeito maternal de amar ele é a semente da Vida Eterna no mais íntimo de cada um de nós, diz a Primeira Carta de São João (1 Jo 3, 9).

4- Espírito Santo e a Plenitude dos Tempos

Através de Cristo ressuscitado, a Humanidade começa a interagir com o Espírito Santo de modo orgânico. Isto quer dizer que o Espírito Santo se tornou uma presença intrínseca ao nosso ser, tal como a seiva da videira é uma presença intrínseca à cepa da videira e aos ramos (Jo 15, 1-8). O Espírito Santo é a dinâmica da plenitude dos tempos, isto é, da fase dos acabamentos. A plenitude dos tempos é a fase da divinização do Homem mediante a sua incorporação na família divina. São Paulo diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos de Deus Pai e irmãos do Filho de Deus.

O Espírito Santo é o sangue do Corpo glorioso de Cristo que leva a Vida Eterna aos membros do mesmo corpo (1 Cor 12,13). É o Espírito Santo que vai restaurando em nós o Homem Novo, corrigindo as distorções operadas no projecto humano pelo pecado de Adão. Isto acontece porque estamos unidos de modo orgânico a Jesus Cristo, o Novo Adão (Rm 5, 17-19). A Segunda Carta aos Coríntios descreve a acção recriadora do Espírito Santo em nós com as seguintes palavras: Mesmo que o nosso ser exterior se vá degradando e envelhecendo com a idade, o nosso ser interior vai-se robustecendo cada dia mais, graças à acção do Espírito Santo (2 Cor 4, 16).

A sua presença situa-se na interioridade máxima de cada pessoa humana. Podemos dizer que o Espírito Santo elegeu o nosso coração como ponto de encontro do Humano com o Divino, pois é aí que ele habita como num templo (1 Cor 6, 19). O Livro dos Actos dos Apóstolos diz que é o Espírito Santo quem ilumina os corações dos não cristãos, capacitando-os para acolher a Palavra de Deus quando esta lhes é proclamada (Act 10, 44-45).

É o Espírito Santo quem nos ensina a discernir as coisas de Deus, capacitando-nos para separarmos, no nosso coração, a luz das trevas. Com a sua ternura maternal ele estimula e convida os seres humanos a realizarem-se como pessoas livres, conscientes, responsáveis e capazes de comunhão amorosa.

História Pessoal e Ressurreição da Carne




a) No Acto de Morrer, Cristo Venceu a Morte

b) O Apóstolos e a Ressurreição
1- A Pregação dos Apóstolos
2- O Relato das Aparições em São Paulo
3- O Túmulo Vazio não Serve de Argumento
4- A Identidade de Jesus Ressuscitado
5- O Aparecimento das Mulheres

c) A Nossa Identidade Histórica no Reino de Deus

d) A Bíblia e a Ressurreição da Carne


a) No Acto de Morrer, Cristo Venceu a Morte

Fazendo alusão à oração de Jesus no jardim das Oliveiras, a Carta aos Hebreus diz que Cristo fez orações àquele que o podia libertar da morte e foi atendido, devido à sua piedade (Heb 5, 7). Esta libertação da morte, para ser de facto uma libertação da morte deve ser entendida como algo simultâneo ao próprio acto de morrer. Por outras palavras, Jesus não esteve um só momento sob o domínio da morte.

A vitória de Cristo sobre a morte aconteceu pela acção do Espírito Santo em simultâneo com o próprio acto de morrer. A primeira Carta de São Pedro diz que Jesus não podia permanecer sob o domínio da morte, pois nele estava o Espírito Santo, a dinâmica da ressurreição. Jesus é a própria ressurreição como diz o Evangelho de São João: “ Jesus disse a marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido viverá” (Jo 11, 25).

Como o grupo apostólico só fez a experiência do ressuscitado ao terceiro dia, o autor da carta de Pedro diz que Jesus nesse intervalo não esteve sob o domínio da morte. Nesse tempo intermédio entre a ressurreição e as aparições, Jesus esteve profundamente dinâmico. Foi à morada dos mortos, acrescenta a Primeira Carta de São Pedro, levar o Evangelho e ressuscitar os que estavam sob o domínio da morte (1 Pd 3, 18-19).

Graças à união orgânica que existe entre nós e Jesus, o Espírito Santo tem condições para realizar a nossa ressurreição. Jesus, no evangelho de São João, diz que a força ressuscitadora de Cristo na Humanidade acontece graças ao facto de existir uma união orgânica entre Jesus e a Humanidade. Esta união, diz Jesus no evangelho de São João, é idêntica à união orgânica e vital que existe entre Cristo e Deus Pai: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

Devemos entender a ressurreição de Jesus como um acontecimento progressivo a acontecer em simultâneo com o acto de morrer: À medida em que, no alto da cruz, Jesus ia morrendo, a ressurreição ia acontecendo, pela acção recriadora do Espírito Santo. Por outras palavras, à medida que ia morrendo aquilo que no homem é mortal, o imortal ia sendo assumido e glorificado. Isto quer dizer que no momento em que morreu o último elemento do que no homem é mortal, o imortal ou espiritual de Jesus Cristo ficou plenamente ressuscitado e glorificado em Deus.

Deus libertou Jesus da morte, não permitindo que ele estivesse um só momento sujeito à morte. Quando Jesus acabou de morrer estava totalmente ressuscitado. Enquanto a morte ia aniquilando o que no homem é destrutível pela morte, o Espírito Santo ia recriando e incorporando na comunhão divina o que tinha densidade para ser assumido e glorificado na Família da Santíssima Trindade. Portanto, não existe qualquer distância temporal entre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Na verdade, à medida que Jesus ia morrendo, o Espírito Santo ia realizando a vitória sobre a morte. Eis as palavras da Carta aos Hebreus: “Nos dias da sua vida terrena, Jesus apresentou orações e súplicas, com clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade” (Heb 5, 7).

No momento da morte e ressurreição de Cristo, inicia-se a ressurreição da Humanidade. Os que tinham vivido antes de Cristo entraram com ele na plenitude da vida eterna, como Jesus garantiu ao Bom Ladrão: “Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Mateus exprime esta mesma verdade dizendo que, no momento em que Jesus morre, os túmulos começam a abrir-se e os justos a ressuscitar (Mt 27, 52-53).

O evangelho de São João, referindo-se a este momento, chama-lhe a “A Hora de Jesus”. Esta hora, na perspectiva do quarto evangelho, é o momento da glorificação de Jesus Cristo (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14, 2-4). É o momento no qual Jesus ressuscitado é glorificado junto de Deus Pai (Jo 6, 62). É também o momento da difusão do Espírito Santo (Jo 16, 7-8; 7, 37-39).

Em relação à morte cruel sofrida por Jesus, temos de dizer com toda a clareza que, aquilo que agradou a Deus, não foi essa morte bárbara e cruel, mas sim a fidelidade total de Jesus. Na verdade, Jesus apercebeu-se de que os seus inimigos o iam matar, mas apesar disso continuou a realizar fielmente a missão que o Pai lhe confiou.

Sobretudo o evangelho de João acentua esta fidelidade incondicional de Jesus à vontade do Pai: “O meu alimento, diz Jesus, é realizar a vontade daquele que me enviou bem como a sua obra” (Jo 4, 34). E ainda: “O mundo há-de saber que amo o pai e faço como ele me ordenou” (Jo 14, 31). Disse ainda que não procurava a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou (Jo 5, 30).

A partir do acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, a força ressuscitadora do Espírito Santo está plenamente activa na marcha histórica da Humanidade. A ressurreição implica assunção e incorporação da pessoa humana na Família de Deus. Esta acção está em processo, graças à presença dinâmica do Espírito Santo no coração das pessoas.

Em relação à ressurreição da Humanidade esta começa acontecer apenas após a morte e ressurreição de Jesus como diz São João: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, exclamou: “Se alguém tem sede venha a mim. E os que crêem em mim que saciem a sua sede. Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de água viva”. Ora ele disse isto referindo-se ao Espírito que iam receber os que cressem nele. Com efeito ainda não possuíam o Espírito, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

Como acabámos de ver, ressuscitamos porque temos uma dimensão espiritual e, portanto, imortal, pois, como proclama São Paulo, a ressurreição não é uma restauração biológica (1 Cor 15, 42-45). Por outro lado, a ressurreição também não se reduz a uma simples imortalidade, pois pressupõe a glorificação, isto é, a assunção e incorporação na Comunhão da Família Divina.

Apesar de implicar esta transformação tão radical, a ressurreição não dilui a identidade histórica da pessoa na Comunhão Universal. A nossa identidade histórica é o jeito de amar que fomos adquirindo ao longo da nossa história. A pós a ressurreição de Cristo, a pessoa é restaurada e glorificada, mediante a sua assunção na comunhão da Santíssima Trindade.

A ressurreição de Cristo inaugura a plenitude dos tempos como diz São Paulo: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama “ABBA”, Papá. Deste modo já não és escravo mas filho e, se és filho, és herdeiro pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7). Na carta aos Romanos, São Paulo repete esta ideia de modo ainda mais explícito quando diz: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).


b) Os Apóstolos e a Ressurreição

1- A Pregação dos Apóstolos

O anúncio de Cristo ressuscitado não foi uma tarefa fácil para os Apóstolos. Os primeiros anúncios da ressurreição de Jesus incluíam apenas aspectos espirituais. Mas à medida que o tempo passa, o Novo Testamento tende a incluir cada vez mais aspectos físicos nos relatos das aparições. Naturalmente que isto acontece para fazer frente às acusações dos judeus que acusavam os discípulos de terem alucinações e de inventarem coisas sobre a ressurreição.

Os apóstolos tentam fazer frente a estas acusações, dizendo que as aparições, mas sim o reconhecimento do Senhor, pois a sua identidade, após a ressurreição continua a mesma que tinha enquanto viveu com eles. Isto quer dizer que o Senhor ressuscitado é o mesmo Jesus com o qual eles conviveram e comeram. Na verdade, os discípulos nunca perguntam ao ressuscitado quem é ele. Acabam sempre por reconhecê-lo!


2- O Relato das Aparições em São Paulo

Ao atribuir actividades físicas ao ressuscitado, os discípulos estão a afirmar que Jesus ressuscitado mantém a sua identidade histórica. São Paulo, como não conviveu com o Jesus histórico, não o identificou quando o Senhor lhe apareceu: “Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou, quem és tu, Senhor?” Jesus respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues” (Act 9, 4-5).

Na pregação das primeiras quatro ou cinco décadas o túmulo vazio ainda não era utilizado como argumento para falar da ressurreição de Jesus. São Paulo afirma aos Coríntios que a sua pregação sobre a ressurreição de Jesus Cristo se apoia nos testemunhos que os apóstolos lhe comunicaram de viva voz: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras. Apareceu a Pedro (Cefas) e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez. A maior parte destes ainda vive, se bem que alguns já tenham morrido. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar apareceu-me também a mim como a um aborto” (1 Cor 15, 3-8).

Estamos perante o relato mais antigo sobre a ressurreição de Jesus. Foi isto que os Apóstolos anunciaram durante as primeiras décadas da pregação. Aparece o nome de Tiago, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus: Tiago, José, Simão e Judas (Mc 6, 3; Mt 13, 55). No período em que São Paulo escreve a Primeira Carta aos Coríntios, Tiago era o chefe da comunidade de Jerusalém. Na Carta aos Gálatas, São Paulo menciona Tiago, o irmão do Senhor, e afirma que ele era dos principais (Gal 1, 19).

O relato de São Paulo sobre as aparições ainda está profundamente condicionado mentalidade judaica. É esta a razão pela qual entre os nomes das testemunhas da ressurreição não aparece nenhum nome de mulher. Se pudessem aparecer nomes de mulher, em vez de Tiago estaria certamente o nome de Maria. Algumas décadas mais tarde Maria e os irmãos de Jesus são mencionados por São Lucas no Livro dos Actos dos Apóstolos: “E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus com seus irmãos” (Act 1, 14).

A referência explícita a Tiago como mais uma aparição do Senhor ressuscitado significa que o grupo familiar de Jesus teve uma experiência pascal separada da dos discípulos. Não foi por lapso que Paulo não menciona o túmulo vazio como argumento para falar da ressurreição de Jesus. Ele diz expressamente que a ressurreição não é uma restauração biológica, mas uma optimização espiritual da mesma pessoa que viveu na história: “Semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno também há um corpo espiritual. Por isso está escrito: “o primeiro homem, Adão, foi feito um espírito vivente. O segundo Adão um Espírito vivificante”. Mas o primeiro não foi o espiritual, mas sim o terreno. O espiritual vem depois” (1 Cor 15, 44-46).


3- O Túmulo Vazio não Serve de Argumento

A tradição do túmulo vazio está ligada à introdução das mulheres no grupo das testemunhas da ressurreição. Isto aconteceu apenas com os relatos evangélicos, depois dos anos setenta: “Terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto houve um terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela. O seu aspecto era como o de um relâmpago e a sua túnica branca como a neve. Os guardas com medo dele puseram-se a tremer e ficaram como mortos. O anjo tomou a palavra e disse às mulheres: ‘Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou como havia dito. Vede o lugar em que jazia e ide dizer aos discípulos que o Senhor ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis. Eis o que tinha para vos dizer”. Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos. Jesus saiu ao seu encontro e disse-lhes: ‘Salve! ‘. Elas aproximaram-se, abraçaram-lhe os pés e prostraram-se diante dele. Jesus disse-lhes: “Não temais. Ide dizer aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão” (Mt 28, 1-10).

Como vemos, está aqui bem realçado o aspecto da identidade histórica do Jesus que elas conheceram. Segundo o evangelho de São Mateus, os onze foram para a Galileia tal como Jesus lhes ordenou. Aí lhes apareceu e confiou a missão de evangelizar o mundo: “Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram adoraram-no. Alguns, no entanto, ainda duvidavam. Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 16-19). Note-se que para São Lucas as aparições de Jesus ao grupo dos Apóstolos dão-se em Jerusalém.


4- A Identidade de Jesus Ressuscitado

Apesar de manter a sua plena identidade histórica, o modo de existir de Jesus ressuscitado era diferente do modo de existir que ele tinha quando vivia na história. Este mandato de evangelizar os pagãos em pé de igualdade com os judeus é uma conquista das comunidades apostólicas. Se fosse um mandato explícito associado à aparição do Senhor ressuscitado, Pedro e a comunidade da palestina não teriam oferecido resistência à evangelização dos pagãos (cf. Act 10, 9-16). Esta relutância de São Pedro e do grupo de Jerusalém gerou uma tensão forte entre São Paulo e São Pedro. Na Carta aos Gálatas, São Paulo diz que enfrentou são Pedro com dureza, pois ele não estava a agir de acordo com o Evangelho (Gal 2,11-14).

Lc 24, 13-35: O relato dos discípulos de Emaús é dos mais bonitos dos diversos relatos de aparições do ressuscitado. Apesar de manter a sua identidade histórica, o Senhor vive em coordenadas totalmente diferentes. Sem deixar de ser o mesmo, Jesus é de modo diferente. Por isso ele não é imediatamente reconhecido pelos discípulos. Mas na medida em que a comunicação se vai intensificando, os discípulos vão-se apercebendo de que o caminhante é Jesus ressuscitado. Quando têm a certeza que é Jesus este desaparece deixando de se ver (Lc 24, 31). Isto significa que o Senhor ressuscitado não se pode reter em coordenadas espacio-temporais, pois já as transcendeu. Também em São Marcos, as mulheres dizem aos discípulos que vão para a Galileia, a fim de verem o Senhor ressuscitado.


5- O Aparecimento das Mulheres

A partir dos anos setenta, as mulheres são reconhecidas como testemunhas válidas da ressurreição Jesus. O aparecimento das mulheres vai dar origem aos relatos do túmulo vazio. Enquanto as mulheres em São Mateus eram duas, em São Marcos são três (Mc 16, 3-8). O evangelho de São João fala apenas de uma mulher: Maria Madalena. Ao ver o sepulcro aberto, Maria correu a avisar Pedro e João.

Graças à mediação de Maria Madalena, São Pedro e São João são os primeiros a acreditarem na ressurreição de Jesus (Jo 20, 1-10). Só depois de Pedro é que vem a experiência pascal de Maria Madalena. Maria vê dois anjos e, logo a seguir, vê o Senhor, tomando-o pelo jardineiro (Jo 20, 11-16). Ao aperceber-se de que era Jesus, Maria tenta abraçar os pés de Jesus, mas este não lho permite, pois tem de ir para o Pai (Jo 20, 17).

No evangelho de São Mateus, as mulheres lançam-se aos pés de Jesus e abraçam-no sem que Jesus tenha feito qualquer reparo qualquer reparo (Mt 28, 9). No final do evangelho de São João, a afirmação da identidade histórica de Jesus atinge o cúmulo do fisicismo. Há um relato em que aparece Jesus a assar peixe junto ao lago, a fim de os discípulos comerem quando regressarem da pesca. Depois come com eles. Naturalmente que isto corresponde aos procedimentos do Jesus histórico, mas não à realidade do Senhor ressuscitado. No entanto, Este relato sublinha que o jeito de ser do Senhor ressuscitado é o mesmo do Jesus histórico que repartia o pão e o peixe com eles (Jo 21, 9-13). Algumas décadas antes destes relatos, São Paulo dizia que o corpo do Senhor ressuscitado não é uma realidade de ordem biológica, mas sim um corpo espiritual (1 Cor 15, 42-50).


c) A Nossa Identidade Histórica No Reino de Deus

Mediante a sua ressurreição, Jesus ficou totalmente diferente, embora, a sua identidade histórica ficasse rigorosamente a mesma. A ressurreição, portanto, não é um regresso à vida que o ser humano tinha antes de morrer. O evangelho de São Mateus tem um ensinamento muito importante sobre a condição espiritual dos ressuscitados. Eis as suas palavras: “Estais enganados, pois desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. Na ressurreição nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos. Serão como anjos no Céu” (Mt 22, 29-30).

Enquanto vivemos na história somos seres com uma interioridade pessoal-espiritual a emergir dentro do nosso ser exterior. Podemos dizer que o nosso ser interior emerge dentro do nosso ser exterior como o pintainho dentro do ovo. Servindo-nos desta imagem, podemos dizer que a morte é o momento em que nasce o pintainho. A partir desse momento, o nosso ser biológico começa a entrar nos circuitos físico-químicos da natureza, enquanto o nosso ser espiritual, por ser pessoal, é assumido na comunhão das pessoas divinas.

Semeia-se corpo natural, diz São Paulo, e ressuscita-se corpo espiritual (1 Cor 15, 44). A nossa incorporação em Deus acontece porque fazemos uma unidade orgânica com Cristo: “Os que comem a minha carne e bebem o meu sangue vivem em mim e eu neles. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, os que comem a minha carne e bebem o meu sangue viverão por mim” (Jo 6, 56-57). No evangelho de João, Jesus diz que ele é a cepa da videira e nós os ramos. Os ramos apenas podem dar fruto se estiverem unidos à videira.

A tradição chama corpo glorioso à configuração histórica da pessoa. É uma maneira de afirmar a identidade histórica dos ressuscitados. Ao falar do corpo glorioso, a tradição afirma que o corpo dos ressuscitados não é uma grandeza biológica, mas sim uma realidade espiritual. É a configuração da nossa emergência temporal ou, se quisermos, o modo de a pessoa comunicar com os outros, a partir da sua realização na história.

No Reino de Deus, todos os eleitos dançam o ritmo do amor. Mas cada qual dança com o jeito que foi adquirindo na história. Este jeito de dançar o ritmo do amor foi treinado e adquirido através do modo como nos realizámos pessoalmente. Fora da comunhão do Reino, a pessoa não encontra a sua identidade, pois a plenitude da pessoa não está em si mas na reciprocidade do amor. Isolada da comunhão, a pessoa não se possui nem conhece plenamente. As pessoas que estão em estado de perdição, isto é, reduzidas a si, não têm corpo glorioso, pois são incapazes de comunicar e comungar com alguém. Isto quer dizer que Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria decisão. A pessoa apenas se possui dando-se. Só se encontra plenamente na reciprocidade da comunhão.

A seiva que alimenta a nossa união a Cristo é o Espírito Santo. É a Água viva que faz jorrar vida eterna no nosso íntimo (Jo 4, 14; 7, 37-39). Na base da nossa realização pessoal está uma cadeia de decisões, opções, escolhas e acções orientadas no sentido do amor. Já vimos que ninguém se pode realizar sozinho. À medida em que o ser humano se realiza como pessoa constitui-se um ser com os demais. Eis a razão pela qual os outros são mediações para nos realizarmos, mas não podem programar nem executar a nossa realização. Por outras palavras, os outros podem favorecer ou condicionar a nossa realização pessoal, mas a última palavra é sempre nossa. Aqui radica o fundamento da nossa dignidade e também da nossa responsabilidade.

A nossa realização pessoal-espiritual, portanto, é o conteúdo da nossa identidade histórica. Agora já podemos compreender que cada ser humano, à medida em que se realiza, está a edificar-se como pessoa livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa. Isto quer dizer que seremos eternamente a pessoa que realizarmos na história. A recriação e optimização operada pela ressurreição consistem na nossa divinização que acontece pela nossa incorporação na Família Divina.

É verdade que Deus diviniza o que somos como realização humana. Mas a humanização é tarefa nossa. Isto quer dizer que será eternamente mais divino quem mais se humanizar na história. Deus criou-nos inacabados e deu-nos a missão histórica de nos criarmos a partir do que recebemos dos outros. Jesus Cristo veio restaurar as distorções do pecado de Adão. Por isso ele é, como diz São Paulo, o Novo Adão (Rm 5, 17-19). No momento da sua morte e ressurreição, o Novo Adão reabriu-nos as portas do Paraíso e a Humanidade ficou com acesso ao fruto da Vida Eterna. Quando estava para morrer e ressuscitar, Jesus disse ao Bom Ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Deste modo, o Paraíso fechado à Humanidade pelo pecado de Adão, foi reaberto por Jesus Cristo.

Ao ser assumida na Comunhão Universal dos ressuscitados com Cristo, a pessoa humana é optimizada nas suas possibilidades de se relacionar amorosamente. Isto quer dizer que na comunhão universal do Reino de Deus a identidade da pessoa não é anulada mas optimizada. A simples imortalidade não é parte importante da Boa Nova do Evangelho. No coração do Evangelho está a ressurreição como condição de plenitude para a pessoa humana.

A ressurreição em Cristo implica a assunção, ou seja, a plena incorporação na Comunhão da santíssima Trindade. À luz da ressurreição, a morte natural é o parto final, a derradeira possibilidade de renascer para a plenitude. A morte é o acontecimento que possibilita o nascimento total. Nesta perspectiva, o amor surge como a única razão válida para viver e para morrer. Por outras palavras, tanto vale viver para amar como morrer por amor.

O nosso ser pessoal-espiritual não é atingido pela morte natural. Pelo contrário, fica liberto das amarras e condicionamentos do nosso ser exterior, individual, egocêntrico, constantemente impelido a girar sobre si mesmo. Portanto, não basta ser imortal para atingir a plenitude da vida. As pessoas que estão em estado de inferno são imortais, mas não estão na plenitude dos ressuscitados em Cristo.


d) A Bíblia e a Ressurreição da Carne

A Bíblia tem uma visão orgânica e interactiva da Humanidade. O termo carne (Basar), quando aplicado ao Homem, não é de ordem biológica, mas antes de tipo genealógico e orgânico. O varão e a mulher, ao juntar-se, formam uma só carne (Gn 2, 24). São Paulo, falando da prostituição, dá este argumento para dizer que tal comportamento não é permitido aos crentes. O cristão é membro do Corpo de Cristo (1Cor 6, 15a). Ligar-se à prostituta é tornar-se membro, isto é, uma união orgânica com a prostituta (1Cor 6, 15b).

O cristão está organicamente ligado a Cristo pelo Espírito Santo: “Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito” (1Cor 6, 17). Fomos baptizados no mesmo Espírito para formarmos um só corpo com Cristo (1Cor 12, 13). Somos membros de Cristo, cada um com sua função própria (1Cor 12, 27). Ao falar da Eucaristia, Paulo diz que comemos do mesmo pão e, por isso, formamos um só corpo (1Cor 10, 17).

Segundo a visão bíblica, a Humanidade forma um todo orgânico e interactivo do qual Adão é a cabeça. Por um só homem o pecado e a morte, diz São Paulo, entraram no mundo, atingindo a todos (Rm 5, 12). Eis a razão pela qual Deus pensou em suscitar uma Nova Cabeça para a Humanidade: Jesus Cristo. Através desta nova cabeça, Deus derramou no coração dos homens o Espírito Santo, o qual vence a morte e o pecado.

O matrimónio é sacramento desta comunhão orgânica que une a Humanidade e a sua Nova Cabeça, isto é, Cristo ressuscitado: “Os maridos devem amar as mulheres como sua carne. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo, pois ninguém jamais aborreceu a sua própria carne. Na verdade, o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à sua mulher e passarão a ser uma só carne” (Ef 5, 28-31).

É neste sentido que Paulo fala do marido como cabeça dessa união orgânica, fecunda e dinâmica que é o marido e a esposa. Eis o que diz a carta aos Efésios: “O marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo, e da qual ele é o Salvador” (Ef 5, 23). Na carta aos Filipenses, o conceito de carne é não apenas aplicado à união do marido e da esposa, mas à união do povo hebreu: “Também eu poderia confiar na carne. Se os outros o fazem, quanto mais eu poderia fazê-lo: Fui circuncidado ao oitavo dia. Sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim. Sou hebreu, filho de hebreus. Quanto à Lei, fui fariseu. Quanto ao zelo, persegui a Igreja de Deus. No que se refere à justiça da Lei vivi irrepreensivelmente” (Flp 3, 4-6). São Paulo sente-se um membro integrado e interactivo desse todo orgânico que é o povo hebreu.

Jesus chamou Satanás a Pedro, pois este não entendia a missão messiânica de Jesus segundo Espírito Santo, mas segundo a carne (Mt 16, 23). Numa outra ocasião, Jesus abençoa a fé de Pedro, dizendo-lhe que não foi a carne nem o sangue quem lho revelou o mistério de Cristo, mas o Pai que está nos céus (Mt 16, 16-17).

Do mesmo modo, a visão bíblica da ressurreição da carne não é a de um acontecimento biológico mas sim espiritual: “Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória. Semeia-se na fraqueza e ressuscita-se na força. Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual. O que digo, irmãos, é que a carne e o sangue não podem tomar parte no Reino de Deus. A corrupção não herdará a incorruptibilidade.” (1Cor 15, 42-50).

O Evangelho de São João, ao falar da Eucaristia, revela já a preocupação de se defender da acusação de antropofagia. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e ressuscitá-lo-ei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim eu nele. (Jo 6, 32-63)

Comer a carne e beber o sangue, portanto, significa entrar em reciprocidade de comunhão no Espírito de Deus. “A carne (biologia) não serve para nada. O Espírito é que dá vida. As palavras que vos disse são Espírito e Vida.” (Jo 6, 63b) Cristo é a cepa da videira e nós os ramos. Os ramos vivem e dão fruto na medida em que permanecem unidos à cepa (Jo 15, 4-5). A seiva que circula e alimente esta unidade orgânica é o Espírito Santo (1Cor 12, 13; 6, 17). Jesus tem a plenitude do Espírito Santo, diz o evangelho de São João: “Aquele que Deus enviou refere as palavras de Deus, pois Deus não lhe deu o Espírito por medida” (Jo 5, 34).

Os antigos profetas reis foram ungidos com o Espírito de Deus. Jesus Cristo, pelo contrário, possui a plenitude do mesmo Espírito. É o Espírito Santo que dinamiza a união entre nós e Cristo, bem como entre Cristo e o Pai: “Que todos sejam um como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Que também eles sejam um em nós” (Jo17, 21).

No interior dos que bebem a Água Viva que Jesus tem para nos dar, isto é, o Espírito Santo, começa a jorrar uma fonte de vida eterna (Jo 4, 14; 7, 37-39). O Espírito Santo é o portador de uma vida nova, a qual é a própria vida de Deus: O que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito (Jo 3, 6). Por isso São Paulo diz que todos aqueles que são movidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus (Rm 8, 14). Foi-nos dado o poder de nos tornarmos filhos de Deus, não pela vontade do Homem nem pelo impulso da carne, mas pelo querer de Deus. Foi para isto que o Verbo Encarnou (Jo 1, 12-14).