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Juizo Final e Reino de Deus no Apocalipse




1- O Messias entronizado
2- A vinda de Jesus como rei universal
3- Os Eleitos Estão Junto ao Trono de Cristo
4- O Dia da Ira
5- O Milenarismo
6- A Nova Jerusalém



1- O Messias entronizado

O autor do Apocalipse não é o mesmo que escreveu o evangelho de São João. O autor do Livro do Apocalipse tem uma visão apocalíptica e milenarista que de modo algum existe no evangelho de São João. A visão da segunda vinda de Cristo descrita no Livro do Apocalipse nada tem a ver com a visão do juízo e da justiça realizada pelo Espírito Tanto de que fala o evangelho de São João.

O Apocalipse é uma síntese genial dos apocalipses do Antigo e do Novo Testamento. O autor parece ter tido a preocupação de fazer uma colectânea completa de todos os apocalipses bíblicos. É por esta razão que o livro não traz grandes novidades em relação aos diversos apocalipses do Antigo e do Novo Testamento. A grande novidade reside no facto de se situar numa fase tardia e fazer a interpretação de alguns acontecimentos eclesiais como prenúncios da iminente vinda do Filho do Homem.

O Livro do Apocalipse tem essencialmente uma intenção consoladora, convidando os crentes perseguidos a ser corajosos e perseverantes, pois o Senhor vai chegar muito em breve. O dia do Filho do Homem é o dia da ira anunciado pelos profetas como o dia da tragédia universal. Só o resto fiel, isto é, o conjunto dos eleitos escapará à destruição definitiva. As condições essenciais para a vinda do Senhor estão criadas, pois o sangue dos mártires clama por vingança urgente.

Embora não pertença ao mesmo autor do quarto evangelho, o Livro do Apocalipse já tem uma visão preexistente do Filho de Deus. Por outras palavras, Jesus Cristo é o Verbo Incarnado, o cordeiro, o princípio e o fim. Estes elementos confirmam que o Livro do Apocalipse é tardio, mesmo posterior ao quarto evangelho.

O autor interliga os dados apocalípticos do Antigo e do Novo Testamento. Podemos dizer que o Livro do Apocalipse é um apocalipse de apocalipses. O autor faz convergir todo o seu trabalho para o reino messiânico. Como o autor tem uma teologia milenarista, orienta os acontecimentos para o Reino Messiânico que durará, mil anos sobre a terra e culminará com a vitória do bem e a condenação definitiva sobre o mal. Só o resto fiel escapará à tragédia da destruição final, como disseram os profetas (cf. Is 10, 21; 8, 11-13; Am 3, 12; 9, 8-10; Jer 23, 3-6; Miq 2, 12-13; Zac 3, 8; Rm 9, 19; 9, 27-29).

A salvação de Deus não é apenas para o resto dos justos que ainda vivam, aquando da vinda do Filho do homem. O resto, para o Livro do Apocalipse, é constituído pelos justos pertencentes ao povo bíblico. Este é simbolizado nos cento e quarenta e quatro mil, um múltiplo das Doze Tribos. Os cento e quarenta e quatro mil justos significam um modo de dizer que o resto fiel é constituído hebreus pertencentes às doze tribos de Israel. O resto fiel é a mediação da salvação da grande multidão dos pagãos salvos.

Os Doze Apóstolos eram um símbolo escolhido por Cristo para afirmar que ele vinha reunir os justos de Israel e com eles salvar a Humanidade. Por outras palavras, o resto fiel de Israel é mediação da salvação universal sonhada por Deus para toda a Humanidade. O Messias é o Filho do Homem, isto é, o rei entronizado no Céu ao qual foi concedido uma soberania Universal, como diz o profeta Daniel (Dan 7, 12s). Jesus Cristo foi constituído como rei Messiânico entronizado ao subir para junto de Deus. Foi este Jesus que, através de uma revelação (Apocalipse), mostrou a João que o dia do juízo está próximo (Apc 1, 1).

João escreve esta revelação para animar e consolar os justos que estão em sofrimento: Estes justos formam um povo eleito no qual todos são sacerdotes e reis (Apc 1, 5-6; cf. 2Ped 2, 9; Ex 19, 6). O dia do Senhor está iminente (Apc 1, 3). O Messias vai chegar sobre as nuvens do céu. Todos os povos O verão, incluindo aqueles que o trespassaram (Apc 1, 7; cf. Mt 24, 30; Zac 12, 10).

Jesus, entronizado no Céu como Filho do Homem, conheceu a morte, mas agora vive por todos os séculos. Tem domínio sobre a morte e o “Sheol”, isto é, a morada dos mortos (Apc 1, 18). O Senhor quer consolar todos os que sofrem pelo nome de Jesus. Por isso lhes dirige esta palavra, dando-lhes a garantia de que ele vai chegar em breve (Apc 2, 3). Os que decaíram no fervor devem reanimá-lo, pois o dia está próximo (Apc 2, 4-5). Os que são perseguidos pelos judeus animem-se. Deus vai julgar esses falsos hebreus que formam a Sinagoga de Satanás (Apc 2, 9).

Paulo argumenta que os verdadeiros judeus, filhos de Abraão, não são os que circuncidam o prepúcio. Judeu diz ele, é aquele que o é no interior. A verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o Espírito e não segundo a letra. O seu louvor não vem dos homens, mas de Deus (Rm 2, 29).

O autor do Apocalipse garante a todo aquele que vencer no meio das presentes tribulações que o Messias lhe dará o fruto da Árvore da Vida, quando o Paraíso for reaberto (Apc 2, 7). Uma vez restabelecido, o Paraíso terrestre será o reino terrestre do Messias, o qual durará mil anos. O que come do fruto da Árvore da Vida não experimentará a segunda morte (Apc 2, 11). Este comerá o verdadeiro maná e será marcado com um nome novo para habitar na cidade celeste de Deus: a nova Jerusalém (Apc 2, 17).

Mas isto só é concedido aos que se afastam da heresia (Apc 2, 14-15). Os cristãos de Tiatira estão fora do caminho da salvação, pois praticam ritos pagãos, entre os quais a prostituição sagrada, convivendo com uma falsa profetisa (Apc 2, 20). Estes cristãos, se não se converterem, sofrerão a ira. Só o que vencer no meio das tribulações tomará parte no poder real do Messias. Os que permanecerem fiéis exercerão o poder sobre todas as nações (Apc 2, 26).

Como rei messiânico, Jesus exercerá as funções de juiz supremo, pois tem a chave de David (Apc 3, 7). Os vencedores são as colunas do templo de Deus e as pedras vivas da nova cidade de Jerusalém (Apc 3, 12; cf. 1Ped 2, 5). Assim como Jesus, vencendo, se sentou no trono do pai, os que vencerem sentar-se-ão no trono de Jesus (Apc 3, 21).


2- A vinda de Jesus como rei universal

A morada de Deus é a Nova Jerusalém. Como Senhor Universal, Deus está sentado num trono adornado com pedras preciosas. A glória de Deus resplandece por toda a cidade (Apc 4, 2). O Messias também está entronizado e tem nas mãos o livro com as indicações do juízo (Apc 5, 1). O livro do juízo está selado. Ninguém é capaz de o abrir a não ser o Leão de Judá, o descendente de David (Apc 5, 2-5).

Ele é o juiz dos vivos e dos mortos. Foi Ele quem resgatou para Deus homens de todas as tribos, línguas, povos e nações. Foi Ele quem fez deles reis e sacerdotes para Deus (Apc 5, 9-10). Ele é o cordeiro que foi imolado, mas agora está entronizado. Foi-lhe dado todo o poder, honra e glória, tal como aconteceu ao Filho do Homem na profecia de Daniel (Apc 5, 12; cf. Dan 7, 12s).

A vinda do Messias será precedida de uma série de flagelos e sofrimentos terríveis: a guerra, a fome e a peste (Apc 6, 4-8). Os mártires que derramaram o sangue pela causa de Deus clamam por vingança (Apc 6, 10). O Messias pede-lhes para aguardarem apenas mais um pouco. Está mesmo a chegar. Este pouco que ainda falta destina-se a que o número dos eleitos se complete (Apc 6, 11). Os sinais precursores, como o escurecimento do Sol, a transformação da Lua em sangue e a queda das estrelas sobre a terra, estão próximos. Estes sinais anunciam o dia da ira do Cordeiro do qual ninguém escapará (Apc 6, 15-17).

Tal como aconteceu com os hebreus no Egipto, os servos de Deus devem ser assinalados a fim de serem poupados (Apc 7, 3). Os assinalados são cento e quarenta e quatro mil, doze mil de cada tribo de Israel (Apc 7, 4-8). Surge depois uma multidão incontável de pagãos que aderiram à fé por intermédio deste resto fiel (Apc 7, 9). Naturalmente que os cento e quarenta e quatro mil são os discípulos judeus e todos os justos do antigo povo bíblico.

A nova Jerusalém tem doze pórticos assinalados com os nomes das doze tribos de Israel (Apc 21, 12). Está assente sobre doze colunas assinaladas com os nomes dos doze apóstolos (Apc 21, 14). Toda esta simbologia em volta do número doze já nos ajuda a compreender o que Cristo quis significar com a escolha dos doze apóstolos. Símbolo da messianidade de Jesus, o Filho de David cujo reino assentava sobre as doze tribos. Os doze patriarcas, tal como os doze apóstolos, formam os vinte e quatro anciãos que estão junto ao trono de Deus. Todos eles estão sentados em tronos, vestidos de roupas brancas e com coroas de oiro na cabeça (Apc 4, 4). Os vinte e quatro anciãos proclamam o Senhorio universal de Deus (Apc 4, 10).

Junto ao trono de Deus estão ainda quatro seres cheios de olhos por diante e por trás. Trata-se de uma alegoria para designar os quatro evangelistas. A multiplicidade dos seus olhos representam o dom da revelação que os capacitou para ver e escrever o plano salvador de Deus. Com os seus escritos abriram os olhos da fé aos homens de todas as raças, línguas, povos e nações. Em uníssono com os vinte e quatro anciãos, os quatro viventes proclamam incessantemente a santidade de Deus (Apc 4, 6-7).

Inspirando-se em Zacarias, o Livro do Apocalipse fala ainda de duas oliveiras (cf. Zac 4, 11-14) que estão mais próximas do trono de Deus. Na simbologia do Apocalipse trata-se nitidamente do Apóstolo São João, o discípulo amado e de São Pedro. Segundo a teologia da escola joanina, João é o único a quem Jesus revela o nome do traidor (Jo 13, 25). Quando ouvem as mulheres dizer que o túmulo está vazio, correm os dois em direcção ao túmulo. João, como é mais jovem chega primeiro, mas espera por Pedro. Pedro entrou e nada acontece. Apenas vê as ligaduras no chão (Jo 20, 6-7). O discípulo entra e dá-se o milagre da experiência pascal: a fé (Jo 20, 8). Foi João que entendeu as Escrituras segundo as quais o Cristo devia ressuscitar (Jo 20, 9). No evangelho de João, o discípulo amado foi o primeiro a reconhecer o Senhor ressuscitado (Jo 21, 7).

As duas oliveiras estão, tal como na profecia de Zacarias, junto do altar de Deus (Apc 11, 4). O Quarto Evangelho, as três cartas de João e o Apocalipse pertencem às comunidades evangelizadas pelo Apóstolo João, chamado nestas comunidades o discípulo amado. Nos escritos joaninos, o discípulo amado aparece sempre ao lado de Pedro.

São Paulo diz que João, o seu irmão Tiago e Pedro formavam a cabeça da Igreja primitiva: Eis o que ele diz na Carta aos Gálatas: “Tiago, Cefas e João, são considerados as colunas” (Gal 2, 9b). Com a morte de Tiago (Act 12, 2), ficaram Pedro e João como colunas. Os dois têm a mesma autoridade. Ambos têm o poder de Elias (cf. 1Rs 18, 42-45). Podem fechar e abrir as comportas do céu, fazendo cair a chuva ou retendo-a (Apc 11, 6a). Ambos têm o poder de Moisés (cf. Ex 7, 10), pois podem converter a água em sangue e ferir a terra com toda a espécie de flagelos (Apc 11, 6b).

Depois de testemunharem a fé, surgirá a besta, isto é, o imperador que, na altura já perseguia os cristãos. A besta vai chegar do abismo, a morada de Satanás e martirizará os crentes (Apc 11, 7). Pedro e João são também comparados a Elias e Moisés. Segundo os evangelhos sinópticos, Jesus estava rodeado de Moisés e Elias quando se transfigurou no Monte Tabor (Mc 9, 4; Mt 17, 3; Lc 9, 30). João e Pedro devem ser corajosos no testemunho de Jesus até que a besta os mate (Apc 11, 7). O martírio de Pedro e João será motivo de alegria para muitos, pois deste modo vêem-se livres da sua mensagem incómoda (Apc 11, 8-10).

No entanto, estes vão ressuscitar depois de três dias e meio. Com este pormenor, o autor do Apocalipse quer dizer que ninguém ressuscitou antes de Jesus. Depois de terem sido ressuscitados, serão levados ao céu numa nuvem à vista dos seus inimigos (Apc 11, 11-12). Uma vez no Céu, vão tomar parte no julgamento de Jerusalém, o qual aconteceu pelos anos setenta e foi o prenúncio do juízo que se avizinha (Apc 11, 13). A seguir, ouve-se a proclamação da realeza do Messias a quem foi entregue o império do mundo. Reinará eternamente (Apc 11, 5). Começa então o dia da ira de Yahvé. Os profetas, os santos e os servos de Deus vão ser vingados. Os que corromperam a terra vão ser exterminados (Apc 11, 18).


3- Os Eleitos Estão Junto ao Trono de Cristo

A Jerusalém celeste é a cidade santa, a capital do Reino de Deus. É comparada a uma mulher vestida de Sol com a Lua debaixo dos pés. Está coroada de doze estrelas, símbolo do novo povo de Deus (Apc 12, 1). É semelhante à esposa ataviada para receber o seu esposo (Apc 21, 1-2). Está grávida. Contém no seu seio o Messias que ela vai dar à luz (Apc 12, 2).

Em oposição à Jerusalém celeste representada pela mulher vestida de sol, aparece a Jerusalém terrestre. Esta é a grande prostituta, destinada à perdição. É a Babilónia pecadora. Trata-se de uma referência negativa em relação à cidade de Jerusalém e do povo judeu que matou o Messias.
Esta prostituta está sentada sobre sete colinas (Apc 17, 9). Vai ser flagelada e sofrimentos os tormentos da destruição. Os eleitos deverão sair do meio dela para não sofrerem os seus flagelos (Apc 18, 4). O autor do Apocalipse tem como pano de fundo das suas descrições a tragédia sofrida por Jerusalém e os relatos dos sinópticos que se referem a estes factos. Lembremo-nos do relato de São Mateus, onde Jesus manda os justos fugir da Jerusalém pecadora:”Os que se encontrarem na Judeia fujam para os montes” (Mt 24, 16).

Mas o grande inimigo de Cristo é o dragão, isto é, a serpente que programou a ruína da Eva. Como diz o Livro do Génesis, o dragão lutará contra o descendente da mulher, isto é, o Messias (Gn 3, 15). O Messias foi entronizado no céu; à maneira do Filho do Homem. O imperador romano a quem o Livro do Apocalipse apelida de besta, foi entronizado na terra pelo dragão. Agora, o dragão está diante da mulher vestida de Sol, esperando que esta dê à luz, a fim de lhe devorar o filho. A besta e os sete reis combaterão contra o filho da mulher, mas este vai vencê-los porque é o rei dos reis e senhor dos senhores (Apc 17, 11-14).

Esta encenação fabulosa é feita, tendo como pano de fundo as imagens literárias inspiradas nos textos apocalípticos do Antigo e do Novo Testamento. O estilo apocalíptico não se preocupa com a lógica das imagens e da sua sucessão. A atenção do autor do Livro do Apocalipse está concentrada nos efeitos obtidos junto dos leitores. O Messias entronizado para o Livro do Apocalipse é o descendente de David. Vai governar com um ceptro de ferro, como dizia o Salmo dois a propósito do Filho de David (Apc 12, 5; cf. Sal 2, 9). Como está cheio da força de Deus, o Messias vai esmagar a cabeça do dragão, o seu grande inimigo (Apc 19, 11-20).

O dragão conferiu poder à besta (imperador), a fim de estar forte e fazer guerra aos discípulos do Messias. Chega mesmo a vencê-los durante algum tempo (Apc 13, 7). De facto, Satanás deu-lhe poder para fazer prodígios e seduzir muitos. É por esta que muitas pessoas adoram a besta, após a sua entronização pelo dragão (Apc 13, 14-15). O cordeiro cheio da força do Espírito vai destronar e matar tanto a besta como o dragão. Depois de ter vencido o dragão e a besta, o Messias formará o Reino de Deus com gente escolhida de todos os povos, línguas, raças e nações (Apc 5, 9). Os eleitos formarão o Reino de Deus, o qual é constituído como um povo de sacerdotes e reis que reinarão sobre a terra (Apc 5, 10). Os eleitos habitarão para sempre com o Messias, pois são as testemunhas de que o Cordeiro venceu e foi entronizado como Messias (Apc 5, 32).

Os eleitos, juntamente com Cristo, vão proceder ao julgamento. O julgamento é encenado em forma de uma grande liturgia. Os eleitos são apenas os que foram assinalados com o selo da salvação. Só estes escaparão à ira e à destruição decretada pelo juízo. Podemos dizer que os assinalados são os baptizados.

Eis a ordem de chegada para o grande acontecimento do juízo: Primeiro, os cento e quarenta e quatro mil, que são o resto do Povo bíblico. Estes pertencem ao povo de Israel (Apc 7, 3-8). São Paulo diz que, graças a este resto de Yahvé, Israel não se tornou como Sodoma e Gomorra, sofrendo a destruição total (Rm 9, 29). Após a entrada do resto fiel, vem a grande multidão dos salvos (Apc 7, 9). Todos, em coro, cantam a bondade de Deus e as maravilhas da Sua salvação (Apc 7, 10). Estes formam o povo dos eleitos para a festa do Reino de Deus onde não haverá fome, nem sede, nem calor, nem dor (Apc 7, 14-17).

Depois segue-se um momento solene: todos adoram em silêncio o Senhor. O incenso e os perfumes sobem para o trono de Deus. Terminado este momento de profunda adoração, começa o dia trágico da ira de Deus.


4- O Dia da Ira

O dia da Ira começa com flagelos terríveis: saraiva, fogo e mistura de sangue são lançados sobre a terra. Uma terceira parte da terra é destruída pelo fogo (Apc 8, 7). Um terço do mar converte-se em sangue (Apc 8, 8ss). Depois vem o juízo (Apc 9, 7-21). O autor reúne uma série de imagens apocalípticas do Antigo e Novo Testamentos para encenar o juízo e a vingança de Deus: Repetem-se as pragas do Egipto, a destruição de Sodoma, os castigos infligidos por Deus aos hebreus no deserto, os possessos do Demónio.

Tudo isto serve de encenação para o juízo e vingança de Deus. É o dia da grande batalha de Yahvé (Apc 16, 14b). Este dia vai chegar como um ladrão (Apc 16, 15). Os pecadores vão beber a taça da ira de Deus, como disse Isaías (Apc 16, 19b; cf. Is 30, 25; 51, 22). Assim como os hebreus, uma vez libertos da escravatura, cantavam a glória de Deus (Ex 15), do mesmo modo, os salvos, contam a salvação e a bondade de Deus (Apc 15, 2-4).

Joel dizia que Deus viria no dia do juízo recolher a Sua seara (Jl 3, 13). O Livro do Apocalipse diz que o Messias tem a foice para ceifar a Sua seara (Apc 14, 14b). A capital dos judeus já não é a Jerusalém de Deus. Pelo contrário, ao rejeitar e matar o eleito de Deus, tornou-se a Sodoma escatológica e o Egipto do Faraó (Apc 11, 8).

O Faraó não se converteu. Nem mesmo as pragas o fizeram mudar de atitude (Ex 9, 34-35). Do mesmo modo, os perseguidores dos cristãos, sobretudo os judeus, não se converteram após a destruição de Jerusalém. Vão ser exterminados no dia da ira (Apc 9, 20-21). Deus vai agir pelo fogo tal como fez em Sodoma (Apc 8, 8). O Sol e a Lua obscurecer-se-ão. As estrelas cairão sobre a terra para a destruir (Apc 8, 10; cf. Miq 3, 6; Am 8, 9; Is 24, 23; 66, 16; Dan 8, 10). O orgulho de Jerusalém vai ser destruído. Julgava-se a rainha, a amada de Deus, mas agora vai ser flagelada (Apc 18, 4-19).

Os Apóstolos, os profetas e todos os santos se podem alegrar. Com a sua vida de prostituição a velha Jerusalém contaminou muitos reis da terra (Apc 18, 9). Matou profetas, apóstolos e santos. Agora Deus vai vingá-los (Apc 18, 20). No interior desta Babilónia pecadora vão deixar de se ouvir cânticos e instrumentos musicais (Apc 18, 22). O autor aplica a Jerusalém o que Isaías e Ezequiel aplicaram à cidade de Babilónia (cf. Is 24, 8; Ez 26, 13). O Verbo de Deus, montado sobre um cavalo branco, vai surgir como rei dos reis e Senhor dos senhores (Apc 19, 16b). Vai prender a besta e os falsos profetas que a apoiam. Vai destruí-los pelo fogo. Os seus adoradores serão dizimados à espada (Apc 19, 20-21).


5- O Milenarismo

Entronizado no céu como Messias, Jesus vai voltar de novo, a fim de instaurar sobre a terra o reino messiânico. Na simbologia do Livro do Apocalipse o reino messiânico sobre a terra é a restauração do paraíso terrestre destruído pela inveja de Satanás (Gn 3, 1-5). O novo paraíso terrestre durará mil anos, tempo este em que Satanás estará acorrentado. Os maus estarão todos mortos, devido à destruição da vida sobre a terra. Esta destruição foi uma purificação cujo elemento purificador foi o fogo.

Os apocalipses do novo Testamento concebem a segunda vinda em termos de restauração do reino de David sobre a terra. O Apocalipse acrescenta-lhe a novidade e o entender como a restauração do Paraíso, fechado devido às ciladas do antigo dragão que desorientou Eva. Durante os mil em que dura o reino messiânico, Satanás está amarrado, a fim de não voltar a fazer o que fez com Eva. Passados os mil anos, Satanás será solto por algum tempo (Apc 20, 2), a fim de ser julgado. Só os justos tomarão parte neste reino messiânico. Todos reinarão com Cristo durante os mil anos (Apc 20, 4). Entretanto os discípulos, sentados em tronos, recebem o poder de julgar (Apc 20, 4).

Entretanto, os maus que foram destruídos pelos flagelos nos dias purificadores que precederam a vinda de Cristo, permanecerão na morte durante estes mil anos. Não participam da primeira ressurreição que se destina apenas aos justos que tinham morrido (Apc 20, 5). O milenarismo é uma elaboração feita a partir de uma leitura deturpada de textos do Novo Testamento. Em primeiro lugar faz uma interpretação incorrecta da passagem da Segunda Carta de Pedro, segundo a qual um dia para Deus é como mil anos (2Ped 3, 8). Pedro está a citar o Salmo 89, 4 onde se fala da eternidade de Deus e da brevidade da vida humana.

Citando o salmo, o autor da Segunda Carta de Pedro pretende animar os cristãos dizendo-lhes que, se a vinda de Cristo está a tardar mais do que se imaginava isso deve-se à misericórdia de Deus que quer dar mais tempo aos pecadores, a fim de se arrependerem (2Ped 3, 9). Em seguida, a Carta diz que o dia do Senhor vai chegar como um ladrão, acentuando que o Senhor virá de surpresa (2Ped 3, 10).

Pegando neste texto da Segunda Carta de São Pedro o Apocalipse interpreta a expressão de um dia igual a mil anos, como uma afirmação sobre o reino messiânico, o qual durará mil anos. O profeta Isaías dizia que Deus iria criar novos céus e uma nova terra (Is 65, 17). O reino messiânico significa os novos céus e a nova terra.

Os justos, no reino messiânico, são os convidados das bodas do cordeiro (Apc 19, 6-9). Os adornos da esposa do cordeiro são as virtudes dos santos (Apc 19, 8). Todos os habitantes do reino messiânico estão marcados pela testemunha de Jesus, isto é, o Espírito Santo (Apc 19, 10; cf. Act 5, 32).

O Apocalipse fala de uma segunda morte. Trata-se de uma referência à condenação. A segunda morte não terá qualquer poder sobre os justos. Passados os mil anos, os justos julgarão os pecadores juntamente com Cristo. “Chegou o momento de começar o julgamento pela casa de Deus. Refere-se aos sofrimentos dos mártires e às perseguições dos crentes. Se o julgamento começa por nós, qual será a sorte dos que não obedecem ao Evangelho? E se o justo a custo se salva (dificuldade das perseguições), que será do ímpio e do pecador? Os que sofrem segundo a vontade de Deus confiem as suas vidas ao criador fiel, praticando o bem” (1Ped 4, 17-19).

Segundo o Apocalipse, os justos que participam do reino messiânico são numerosos como as areias do mar (Apc 20, 9a). Realiza-se assim a Aliança que Deus fizera com Abraão: “Abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e a areia das praias do mar. Todas as nações na terra serão abençoadas na tua descendência” (Gn 22, 17-18).

Após os mil anos do Reino messiânico, o Demónio é solto e dar-se-á a segunda ressurreição. Trata-se da ressurreição dos que vão ser condenados, pois os justos já tinham ressuscitado no dia da vinda de Cristo. Após a segunda ressurreição cai fogo do céu e devora os pecadores (Apc 20, 9b). Satanás é lançado no fogo de enxofre onde será atormentado em conjunto com a besta e o falso profeta (Apc 20, 10). A multidão dos pecadores cujos nomes não estavam escritos no Livro da Vida são julgados e lançados neste fogo que constitui a segunda morte (Apc 20, 11-15). Inspirando-se nesta encenação trágica, a Idade Média vai elaborar as terríveis imagens do Inferno que chegaram até nós. É a partir desta teologia trágica que a Idade Média vai elaborar o terrível canto litúrgico do “Dies irae”.


6- A Nova Jerusalém

Segundo o esquema milenarista do Apocalipse, a ressurreição dos maus dá-se apenas no final do reino milenário do Messias. A ressurreição dos maus coincide com a libertação momentânea de Satanás. Em seguida dá-se a batalha final entre os bons e os maus, cujos vencedores é Jesus Cristo e os eleitos. Satanás, a besta e os maus são finalmente condenados e laçados ao lago do enxofre ardente.

O reino messiânico da terra termina com esta luta. Surge então a Nova Jerusalém, isto é, a família de Deus que é um povo de reis e sacerdotes. A nova Jerusalém é elevada ao céu onde permanecerá eternamente. Surge assim um novo céu e uma nova terra. O primeiro céu e a primeira terra desapareceram. O mar já não existe (Apc 21, 1). A nova Jerusalém não foi edificada pelos homens, mas pelo Espírito de Deus. Desceu do céu. É bela. Parece uma esposa adornada e preparada para receber o seu esposo (Apc 21, 2).

A Nova Jerusalém é o Reino dos Céus. Deus habitará com os seres humanos que formam o seu Povo. Estes serão os filhos de Deus com os quais o Senhor Deus habitará para sempre (Apc 21, 3). A partir de agora não haverá mais dor, nem sofrimento, nem pranto, pois Deus enxuga as lágrimas dos olhos dos Seus filhos. Está inaugurado o Mundo Novo. As primeiras coisas passaram (Apc 21, 4).
A todos os que reinam consigo dá a beber a água viva, isto é o Espírito Santo (Apc 21, 6). O evangelho de São João diz que esta Agua Viva seria dada por Jesus no momento da sua ressurreição (Jo 7, 37-39). Para o Apocalipse a glorificação de Jesus acontece ao assumir a realeza universal. O Cristo do Apocalipse é realmente o “Pantocrator”, isto é, o Rei do Universo. O Alicerce da Nova Jerusalém é o resto fiel dos justos do Antigo e do Novo Testamento. A cidade tem doze portas. Em cada porta está escrito o nome de uma das doze tribos de Israel (Apc 21, 12).

As muralhas da cidade estão assentes sobre doze colunas. Cada uma destas colunas está marcada com o nome de um dos doze Apóstolos (Apc 21, 14). A teologia do Apocalipse é marcadamente judaica. Está na linha da teologia do evangelho de São João segundo a qual a salvação vem dos judeus (Jo 4, 22). A teologia do Apocalipse tem subjacente a profecia de Natã a David (2 Sam 7, 12-16). Segundo Natã, o descendente de David devia construir um templo para Deus (2Sam 7, 13).

Segundo o apocalipse, Jesus supera inteiramente o templo dos judeus. Já o evangelho de São João acentuava que o templo, o culto e os adoradores que Deus quer, situam-se no nível pneumático. O lugar não o elemento decisivo (Jo 4, 21). É em Espírito e verdade que Deus que ser adorado pelos seus adoradores (Jo 4, 23-24). O novo culto supõe um novo templo. Segundo a teologia joanina, o novo templo é Cristo ressuscitado.

Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João: “Jesus respondeu: destruí este santuário e eu reedificá-lo-ei em três dias (...). Jesus falava do santuário do Seu Corpo. Por isso, quando ressuscitou dos mortos, os discípulos recordaram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra que Jesus dissera” (Jo 2, 19-22).

A nova Jerusalém tem as medidas do novo templo anunciado pelo Apocalipse de Ezequiel (Ez 41, 21; 42, 16; 45, 2; 48, 16). A nova Jerusalém é a cidade dos ressuscitados, tal como o profeta Ezequiel tinha visto nos seus sonhos (Apc 21, 16). É este o templo para onde acorrem as riquezas fabulosas segundo a visão do profeta Zacarias a respeito da Jerusalém messiânica (Apc 21, 18-21; cf. Zac 2, 4-8).

O templo do Senhor é a comunhão dos seus eleitos. Deus habita no coração dos eleitos. A nova Jerusalém não tem templo algum, pois Deus habita no meio dos seus eleitos que formam o templo de Deus e do Cordeiro (Apc 21, 22). Todos têm acesso ao Senhor e comungam directamente com Ele. A Primeira Carta de São Pedro diz que os crentes são as pedras vivas do templo do Senhor (1Ped 2, 5).

Do mesmo modo, São Paulo diz que a comunidade cristã é o templo do Senhor: “Nós somos o templo do Deus vivo, diz o próprio Deus: Habitarei e andarei entre eles. Serei o seu Deus e eles serão o Meu povo (...). Serei para vós um Pai e vós sereis para mim filhos e filhas» (2Cor 6, 16-18). Os crentes são o templo de Deus porque Cristo lhes comunicou o Espírito Santo. É por esta razão que os crentes já não se pertencem a si (1Cor 6, 19).

Por outras palavras, a Nova Jerusalém é a comunhão dos salvos com Deus no Espírito Santo. Já não existe o Sol nem a Lua na Nova Jerusalém. Na morada dos eleitos, isto é, na Nova Jerusalém, a iluminação é a glória de Deus. Tudo se fez novo. Na Nova Jerusalém já não há noite. Deus está permanentemente no meio dos seus eleitos. Por isso o dia é permanentemente dia (Apc 21, 25). Apenas os que estão inscritos no Livro da Vida que o Cordeiro possui, têm morada na Nova Jerusalém (Apc 21, 27).

O Pai e o Cordeiro são a nascente do rio da vida, isto é, o Espírito Santo. Este rio é resplandecente como o cristal (Apc 22, 1). Os seus habitantes reinarão pelos séculos dos séculos (Apc 22, 5). Ninguém é mais que os outros. Todos são irmãos, quer se trate dos anjos, dos santos ou dos profetas (Apc 22, 9). O que tiver sede venha e beba gratuitamente a água da vida (Apc 22, 17; cf. Jo 7, 37).

Os crentes devem consolar-se e animar-se uns aos outros, diz o Livro do apocalipse, pois estas coisas estão próximas. Animados pelo Espírito Santo, os eleitos gritam: “Ámen! Vem, Senhor Jesus” (Apc 22, 20b). Trata-se de uma fórmula litúrgica usada pelas comunidades primitivas que revela bem a expectativa da Segunda vinda de Cristo nestas comunidades.

Os Apóstolos e a Segunda Vinda de Cristo




a) Fim do Mundo e Juízo Final em São Paulo
1- O Final da História em São Paulo
2- Em Cristo, Deus Suscitou Uma Nova Criação
3- São Paulo e o Juízo Final
4- Reinado Messiânico e Resto Fiel
5- A Vinda do Senhor

b) O Apóstolos e a Segunda Vinda de Cristo
1- Visão Apocalíptica dos Profetas
2- Deus Planeia a Renovação do Homem
3- Jesus e o Reino de David
4- A vinda triunfal do rei messiânico
5- A vinda de Jesus como rei messiânico
6- A Segunda vinda de Cristo no Evangelho de João

c) A Nova Jerusalém no Livro do Apocalipse
1- A Criação de um Mundo Novo
2- A Realeza Universal de Cristo
3- A Morada de Deus Com os Eleitos

d) A Nossa Identidade no Reino de Deus
1- Os Ressuscitados Como Seres Espirituais
2- A Emergência do Homem Espiritual
3- Unidos Organicamente a Cristo
4- Espírito Santo e Vida Eterna


a) Fim do Mundo e Juízo Final em São Paulo

1- O Final da História em São Paulo

Falar de São Paulo é falar do maior teólogo da primeira geração cristã. Por ser um teólogo judeu convertido à Fé Cristã, São Paulo encontrava-se numa situação privilegiada para compreender o plano salvador de Deus realizado em Cristo. Com Jesus Cristo, Diz São Paulo, chegou a plenitude dos tempos, isto é, a História entrou na fase dos acabamentos (1Cor 10-11). Com a ressurreição de Jesus Cristo, a Humanidade recebe o dom do Espírito Santo que a incorpora na Família de Deus (Rm 8, 14-16; Gal 4, 4-7).

O fim da História humana vai acontecer com a segunda vinda de Cristo constituído rei e Cabeça da Nova Humanidade (Col 1, 15-20; Flp 2, 6-11). Com a sua ressurreição, Jesus foi constituído rei e investido como Senhor de toda a Criação (Rm 1, 3-5). No dia em que o Senhor aparecer (parusia), os mortos ressuscitarão e os vivos serão arrebatados nos ares e, num abrir e fechar de olhos, ficarão plenamente espiritualizados.

São Paulo estava convencido de que a segunda vinda de Jesus Cristo ia acontecer muito em breve. Estava absolutamente convencido de que graças à ressurreição de Jesus Cristo, a morte tinha sido vencida para toda a Humanidade (1 Cor 15, 26). Como teólogo judeu, São Paulo tinha uma visão orgânica da Humanidade: Os seres humanos fazem uma união orgânica e dinâmica como os ramos de uma árvore gigante com o seu tronco. Se Cristo ressuscitou, então também nós somos ressuscitados e glorificados com ele.

2- Em Cristo, Deus Suscitou Uma Nova Criação

Isto significa que o futuro da Humanidade está cheio de sentido (Col 1, 27; 1 Cor 15, 12-24). A ressurreição de Jesus Cristo não é uma transformação meramente individual. O Senhor Jesus Cristo é um homem em tudo igual a nós, excepto no pecado. É esta a razão pela qual ele faz com todos nós uma união orgânica com a Humanidade. Para São Paulo, a relação que existe entre a ressurreição de Cristo e a nossa põe-se de modo muito claro: Se nós não ressuscitamos, então também Cristo não ressuscitou. Por outras palavras, se Cristo não ressuscitou, então também nós não ressuscitamos e a salvação humana ainda não aconteceu (1 Cor 15, 12-13).

Com a ressurreição de Jesus Cristo, a dinâmica da salvação está a actuar na Humanidade pelo poder do Espírito Santo. O Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). O acontecimento da ressurreição de Cristo inaugura de modo definitivo, o futuro da Humanidade. A dinâmica da salvação já está a activa no coração dos que se abrem a Cristo (Rm 3, 26; 11, 5; Ef 2, 8).

Cristo é o Novo Adão que tem a missão de anular as forças do pecado e da morte que o primeiro Adão introduziu no tecido da Humanidade (1 Cor 15, 51-52). Assim como a morte veio para todos por intermédio de Adão, do mesmo modo, a vitória sobre a morte vem por Jesus Cristo, o Novo Adão (1 Cor 15, 54-56). Quando Jesus Cristo aparecer como rei glorioso, então também nós seremos glorificados com ele (Col 3, 4). O nosso ser presente será transformado e ficará como Cristo glorioso (Flp 3, 21).


3- São Paulo e o Juízo Final

Os discípulos de Jesus estavam convencidos de que ele era o Filho de David prometido, isto é, o rei messiânico que em breve iria subir ao trono. Isto nada tem de extraordinário, pois era esta a compreensão judaica da sua época. Como podemos verificar no evangelho de São Lucas foi nestes termos que o anjo anunciou a Maria o nascimento do seu Filho (cf. Lc 1, 32-33). Convencidos de que Jesus em breve se sentaria no trono real, os Apóstolos Tiago e João pedem a Jesus para lhes conceder o privilégio de ocuparem os primeiros lugares ao lado do rei. Os outros dez Apóstolos, ao ouvirem as pretensões de Tiago e João, protestam, pois também eles tinham pretensões no sentido de ocuparem esses lugares.

Pouco a pouco, Jesus tenta mudar esta mentalidade dos discípulos (Mc 10, 35s). Apesar dos seus esforços para mudar a visão dos discípulos, mas conseguiu muito pouco (Mt 16, 23). Esta tarefa ficaria para o Espírito Santo realizar após a Páscoa (Act 3, 19-21; 2, 32-36). Após a experiência pascal, a compreensão dos discípulos acerca da realeza de Jesus começa a transformar-se. Uma vez que ele morreu sem subir ao trono, os apóstolos começam a recorrer à profecia do Filho do Homem de Daniel e dizem que Jesus foi entronizado no Céu, após a sua ressurreição (Rm 1, 3-5). Na verdade, argumentam eles, Deus já tinha anunciado através do profeta Daniel que as coisas aconteceriam assim (Dan 7, 13-14). Uma vez entronizado no Céu, Jesus vai voltar com todo o poder, a fim de estabelecer com o resto o Reino de Deus e executar a purificação do dia da ira (Act 3, 19-21).

Os discípulos vão, pois, anunciar a segunda vinda de Cristo dentro do cenário que os profetas tinham elaborado para o dia da ira. São Paulo anuncia aos cristãos que eles formam o resto fiel que escapará ao dia ira nos dias da vinda de Jesus Cristo: “Jesus ressuscitou dos mortos e livrou-nos da ira futura” (1 Tes 1, 10). Quando o Senhor vier, os que permaneceram fieis vão ao encontro do Senhor nos ares, ficando para sempre com Ele (1 Tes 4, 14-17). Procuremos estar preparados, pois o dia do Senhor virá como um ladrão, surpreendendo os desprevenidos (1 Tes 5, 2).

Os fiéis devem alegrar-se com a proximidade do dia do Senhor, pois isto quer dizer que está perto a sua libertação. Devemos estar conscientes, diz São Paulo, que Deus não os reservou para a ira, mas para a salvação em Jesus Cristo (1 Tes 5, 9). O Senhor vai vir entre chamas de fogo, a fim de fazer justiça e punir todos os que se opõem ao Evangelho (2 Tes 2, 6-8). Os eleitos que constituem o resto fiel aparecerão junto do Senhor revestidos de glória (Flp3, 1-4). Os judeus, ao rejeitarem o Evangelho, estão a aumentar os motivos do seu castigo no dia da ira (Rm 2, 5-6).


4- Reinado Messiânico e Resto Fiel

É enorme a influência dos textos apocalípticos dos profetas nos textos do Novo Testamento. Os textos apocalípticos do Antigo Testamento são o material com que os autores do Novo Testamento elaboram o cenário da Segunda vinda Cristo. Para São Paulo, a Vinda de Cristo como rei messiânico significa o fim do mundo velho. “Se alguém está em Cristo, diz ele, é um Nova Criação. Passou o que era velho” (2 Cor 5, 17).

Na sua maneira de entender, a parusia, a vinda de Cristo, vai dar-se muito em breve. Se Cristo já ressuscitou, não há razão para permanecermos no mundo velho. O Espírito Santo é a força transformadora de Cristo ressuscitado. Este Espírito já nos foi derramado sobre a Humanidade. Como força criadora do Mundo Novo, o Espírito Santo já presente e activo nas comunidades cristãs espelhadas pelo mundo. São Paulo diz que o dia do Senhor virá como um ladrão pela calada da noite (1 Tes 5, 2). O dia do Senhor será um dia de tragédia e destruição para os que se opõe ao Evangelho e ao plano salvador de Deus. Mas para os eleitos esse será um dia de glória e alegria, pois é o dia da salvação e da libertação para o resto fiel.

A primeira carta aos Tessalonicenses é o documento do Novo Testamento que melhor testemunha a tensão escatológica da primeira geração cristã (cf. 1, 3; 4, 13-18; 5, 1-11 4, 13-18; 5, 1-11; 5, 23-24). Para os que vivem para o Senhor esse dia será em que farão a experiência da misericórdia do Senhor e da sua glorificação. Mas para os inimigos de Cristo esse será o dia da ira e da destruição. Nesse dia acontecerão as tragédias e os castigos anunciados pelos apocalipses dos profetas (cf. Am 5, 18-20; Jl 2, 1;3, 14;Ez 30, 20-21; Mal 3, 19-23).

Para São Paulo, os cristãos formam o resto fiel de que falaram os profetas, os quais escaparão ao dia da ira: “Deus não nos reservou para a ira mas para a salvação que nos vem de Nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tes 5, 9). O resto fiel é preservado da maldade do mundo, a fim de participar no Reino da glória de Deus (1 Tes 2, 12). Os cristãos falecidos vão ressuscitar no dia da vinda do Senhor, a fim de participarem na festa da salvação (1 Tes 4, 15-17). Deus é fiel e por isso fortalece, a fim de aparecermos irrepreensíveis no dia da vinda de Cristo (1 Cor 1, 8; 1 Tes 3, 13; 5, 23-24).


5- A Vinda do Senhor

Os que se obstinam na prática do mal estão a acumular razões de condenação para o dia da ira de Deus (Rm 5, 9). Para os eleitos, o dia do Senhor é motivo de alegria e exultação, pois eles formam o grupo dos eleitos que foram marcados com o Espírito Santo que é o selo da salvação de Deus (Ef 4, 30). Nós não andamos nas trevas de modo a ser surpreendidos no dia do Senhor (1 Tes 5, 4). Devemos vigiar e estar atentos, pois este dia está próximo (Flp 4, 5;Rm 13, 11).

Na verdade, nós já chegámos a estes tempos que são os últimos (1 Cor 10, 11). Esse será o dia da vingança em que o Senhor vai chegar com todo o seu poder, acompanhado dos seus anjos (2 Tes 1, 5-10). Os eleitos devem permanecer tranquilos, pois para eles não há condenação. Na verdade, ninguém nos poderá separar do amor de Cristo (Rm 8, 35-39). O resto dos eleitos será reunido dos quatro cantos da terra, a fim de formar o Reino Messiânico, diz o evangelho de São Marcos. A estes a ira não os atingirá (Mc 13, 26).

Os judeus que troçam do anúncio da Segunda vinda diz a Segunda Carta de São Pedro, fazem parte do grupo dos ímpios reservados para o dia da ira (2 Pd 1, 16-17). Estes serão punidos com o fogo, o flagelo que atingiu os habitantes de Sodoma (2 Pd 2, 7-8). Se Deus tem atrasado um pouco esse dia, é para possibilitar a salvação do maior número possível (2 Pd 3,3).

São Paulo pensava que o Reino de Cristo, na Terra, duraria apenas o tempo suficiente para Cristo dominar os poderes maléficos que vagueiam pelos ares. Depois, o Senhor ressuscitado entregará o Reino ao Pai, afim de Deus ser tudo em todos (1 Cor 15, 24-28). São Paulo não é milenarista como o autor do Apocalipse, para quem o reino messiânico, sobre a terra, durará mil anos. O evangelho de São João tem uma visão profundamente diferente da visão do Apocalipse e mesmo da de São Paulo. Eis o que Jesus diz neste evangelho: “Eu não vim para julgar o mundo, mas para o salvar” (Jo 12, 47).


b) Os Apóstolos e a Segunda Vinda de Cristo

1- Visão Apocalíptica dos Profetas

Os apocalipses dos profetas pretendiam afirmar que o pecado não tem um lugar definitivo no plano de Deus. E foi assim que, pouco a pouco começou a surgir o pensamento apocalíptico, para dizer que Deus vai realizar uma intervenção purificadora universal. Através desta intervenção final Deus vai pôr fim ao pecado e aos seus efeitos negativos na História e na vida das pessoas. Para pôr fim ao pecado Deus vai destruir sua fonte, isto é, os pecadores.

A intervenção purificadora de Deus, portanto, acontecerá através de uma tragédia universal. Esta destruição purificadora acontecerá num dia terrível e trágico para os pecadores, ao qual os profetas começam a chamar o dia da ira de Deus. Os pecadores serão todos mortos. Da Humanidade escapará apenas o pequeno resto de Deus.

Nesse dia não haverá escapatória, diz o profeta Amós: “Ai dos que desejam ver o dia do Senhor. Será um dia de trevas e não de luz. É como um homem que foge de um leão e encontra um urso. É como se o homem, ao regressar a casa, apoiasse a mão na parede e fosse mordido por uma serpente. O dia do Senhor será de trevas e não de luz, de escuridão e não de claridade” (Am 5, 18-20).

Isaías vê o dia da ira como o dia do terror: Estremecei porque o dia do Senhor está perto. Virá como um açoite do Deus omnipotente (Is 13, 6). O profeta Joel reforça o discurso dos profetas anteriores dizendo que o dia do Senhor está muito próximo: “Ai aquele dia! O dia do Senhor está muito próximo. Virá como destruição operada pelo devastador. O Sol e a Lua ficarão escuros e as estrelas já não brilharão” (Jl 1, 15-16; cf. 2,1)

O dia do Senhor é o dia do julgamento universal: Multidões e mais multidões vão juntar-se no vale do julgamento, pois o dia do Senhor está perto” (Jl 4,14). Será um dia de ira e vingança, diz o profeta Isaías: “A terra embriagar-se-á de sangue e ficará coberta de gorduras de animais, pois é o dia da vingança do Senhor” (Is 34, 8).

Pouco a pouco começou-se a pensar que as tragédias apocalípticas dos profetas se iriam realizar com a vinda do Messias, associando assim um raio de esperança ao dia da ira. Ao mesmo tempo que purifica a Humanidade através da destruição dos pecadores, o Messias vai abrir o Paraíso fechado à Humanidade pelo pecado de Adão (Gn 3, 22-24). Por outras palavras, a vinda Messias trará a restauração do Paraíso primordial e Deus fará que a terra seja habitada pela harmonia e a paz universal, isto é, o “Shalom”. Nesse dia, o Espírito Santo vai recriar o coração do Homem.


2- Deus Planeia a Renovação do Homem

Os profetas começam, pois a associar ao dia do Messias o estabelecimento de uma Nova aliança radicada na força criadora do Espírito Santo. O resto fiel é a mediação para Deus renovar a sua aliança, dando origem a uma Nova Humanidade.

No coração desta Humanidade recriada, Deus vai infundir uma nova força espiritual, diz o profeta Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura e vós sereis purificados de todas as manchas e pecados. Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo. Arrancarei do vosso peito o vosso coração de pedra e colocarei em seu lugar um coração de carne. Dentro de vós porei o meu Espírito, a fim praticardes as minhas leis e preceitos” (Ez 36, 25-27).

João Baptista anunciou a vinda do Messias para breve e com ele, o dia da ira. “Vendo que muitos fariseus e saduceus vinham ter com ele, João disse-lhes: “Raça de víboras quem vos ensinou a fugir da ira que está para chegar? Produzi frutos dignos de conversão e não vos iludais dizendo: “Temos por Pai Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3, 7-10).

O pensamento apocalíptico dos profetas e de João Baptista marcou profundamente o pensamento dos Apóstolos. Não nos podemos esquecer que vários dos discípulos de Jesus tinham sido discípulos de João Baptista (cf. Mt 14, 12). Como sabemos, a expectativa apocalíptica dos profetas e de João Baptista não se realizaram durante a vida terrena de Jesus.

Após a experiência do Senhor ressuscitado, os Apóstolos começam a anunciar a Segunda Vinda de Cristo, a fim de restaurar o reino messiânico na terra. As aparições do Senhor ressuscitado deram-lhes a certeza de que Jesus era o Messias. Como ele não estabeleceu o reino de David na primeira vinda, vai estabelecê-lo na segunda (Act 3, 19-21). A purificação anunciada pelos profetas acontecerá, pois, aquando da segunda vinda. Nesse dia terá lugar tudo o que está anunciado para o dia da ira.

E é assim que Jesus se torna o Filho do Homem que subiu ao trono no céu, tal como anunciara o profeta Daniel (Dan 7, 12s). Uma vez entronizado no Céu, Jesus tornou-se o Filho de Deus constituído em todo o Seu poder messiânico, diz São Paulo (Rm 1, 3-5). Agora está sentado no Céu à direita do Pai, aguardando o momento oportuno para vir de novo (Act 3, 19-21).

O dia da segunda vinda de Jesus Cristo será, pois, o dia do Filho do Homem. Naquele dia todos os seres humanos o hão-de ver chegar como rei poderoso sentado no Seu trono. O seu julgamento será implacável (Mc 13, 15-20). Só o resto fiel escapará à ira destruidora do Senhor. Este dia, dizia São Paulo, está quase a chegar (1 Tes 1, 9-10). Acontecerá ainda durante a primeira geração, acrescenta São Marcos (Mc 13, 30-32). São Paulo pensava que ainda estaria vivo no dia da segunda vinda do Senhor (1 Tes 4, 13-18; 1 Cor 15, 53). Nesse dia, Jesus Cristo destruirá todos os seus inimigos.

São Lucas utiliza palavras muito duras a este propósito: “Quanto a esses meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e degolai-os na minha frente” (Lc 19, 27). Inspirando-se no Salmo dois, São Paulo diz que o reinado de Cristo demorará apenas o tempo necessário para Jesus colocar os seus inimigos por escabelo dos seus pés (1 Cor 15, 24; cf. Sal 2, 6-7).


3- Jesus e o Reino de David

O messianismo bíblico nasceu com a expectativa de um rei glorioso que viria restaurar o reino de David seu pai (2Sam 7, 12-16). Os profetas associam normalmente a vinda do Messias com a casa de David. O Messias pertence à casa de David (Is 9, 9; 11, 1; Miq 5, 1-3; Jer 23, 5; 33, 17). São Paulo está na linha da teologia dos profetas. Eis a razão pela qual ele diz expressamente que Jesus é o descendente de David segundo a carne (Rm 1, 3). Os discípulos acompanhavam Jesus convencidos de estar a seguir o futuro rei de Israel (Mc 10, 35-43).

Após a experiência pascal, continuam a fazer uma leitura davídica da realeza de Jesus. Enquanto acompanhavam com Jesus, os discípulos pensavam que Jesus subiria ao trono durante a Sua vida terrena. Alguns fazem mesmo pedidos a Jesus no sentido de ocuparem os primeiros lugares na corte messiânica (Mc 10, 35s).

Antes da Páscoa, os discípulos falavam de Jesus como o Messias, o descendente de David cuja entronização era preciso preparar. Era esta perspectiva que Jesus rejeitava (Mt 16, 22-23). Por outras palavras, a visão que Jesus tinha da sua missão e a visão dos discípulos não correspondi. Por isso Jesus chama Satanás a Pedro, pois este só entende estas coisas segundo a visão terrena dos judeus (Mt 16, 23).

A visão que os discípulos tinham na cabeça correspondia à visão do profeta Jeremias quando escreveu: “Naqueles dias, a casa de Judá unir-se-á à de Israel. Virão juntamente para a terra que dei em herança a vossos pais» (Jer 3, 18). Esta profecia de Jeremias referia-se à junção das doze tribos, condição fundamental para acontecer a restauração do reino de David. Agora podemos compreender a razão pela qual Jesus escolheu os doze Apóstolos.

Depois da Páscoa, os discípulos começam a anunciar a segunda vinda de Jesus como rei messiânico. O dia da sua vinda como rei e juiz será um dia de tragédia para os que O rejeitaram (Lc 19, 27). Os sumos-sacerdotes hão-de ver o dia do Filho do Homem. Ele surgirá sentado vindo da direita do poder de Deus, isto é, como rei, vindo sobre as nuvens do céu (Mt 26, 64).

Jesus anuncia o Reino de Deus, o qual tem como alicerce o dom do Espírito Santo e a filiação divina dos seres humanos. Jesus declara-se Messias, até pelo facto de chamar a Deus seu Pai, pois o Messias seria filho de Deus (2 Sam 7, 12-16). Apesar do símbolo dos Doze Apóstolos e de chamar Pai a Deus, Jesus nunca se autoproclamou Messias davídico. É este o significado da rejeição duríssimo por parte de Jesus em relação a Pedro (Mt 16, 22-23). No entanto, esta era a maneira de os discípulos entenderem a missão messiânica de Jesus.


4- A vinda triunfal do rei messiânico

Os reis davídicos eram filhos de Deus Isto quer dizer que exerciam o poder real em nome de Deus (Sal 89, 21-27). A unção e coroação do rei era feita no Templo e era considerada uma celebração litúrgica de primeira grandeza. A partir do momento da coroação o filho de David passava a ser filho de Deus, diz o salmo dois (Sal 2, 6-7).

Por outras palavras, a unção real fazia do rei uma pessoa sagrada: “Deus me guarde de jamais cometer este crime, estendendo a mão contra o ungido do meu Senhor. Ele é o consagrado ao Senhor” (1Sam 24, 7). Após a unção real, o Espírito do Senhor apoderava-se do ungido tal como aconteceu com Saul (1Sam 10, 9-10) e David (1Sam 16, 13). Atentar contra o ungido do Senhor é atrair a ira de Deus (1Sam 26, 9).

Segundo a teologia da unção real, o rei recebia directamente o poder através da unção sagrada: “Encontrei David, meu servo, e com óleo sagrado o ungi (...). Ele invocar-me-á: Vós, meu pai, meu Deus e rochedo da minha salvação” (Sal 89, 21; 27). Deus é o único que é verdadeiramente rei e Senhor. Os reis davídicos exercem a sua missão em nome de Deus. Esse poder é-lhe conferido pelo Senhor mediante a unção e a entronização. O rei deve ser fiel à Aliança de Deus, pois só a Deus pertence a realeza (Is 52, 7). Segundo o profeta Zacarias a missão do rei é implantar a paz universal. A grandeza do rei messiânico radica na sua humildade e dedicação à causa da paz: “Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém. Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo, vitorioso e humilde. Monta um jumento, filho de uma jumenta. Destruirá os carros de guerra e os cavalos de Jerusalém. O arco de guerra será quebrado. Ele proclamará a paz para as nações. O seu império irá de um mar a outro e do rio às extremidades da terra (Zac 9, 9-10).


5- A vinda de Jesus como rei messiânico

A cena da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém é nitidamente uma encenação do Novo Testamento para dizer que Ele é o Messias. Jesus é o descendente de David, o Messias prometido, o rei de Israel (Mt 21, 1-10). Ao elaborar o relato da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, o evangelho de São Mateus cita a profecia de Zacarias que fala do rei humilde que monta o jumentinho.Com Este modo de proceder, São Mateus quer sublinhar que Jesus é o Messias anunciado pelos profetas (Mt 21, 4-5).

Após a experiência pascal, os discípulos anunciam que Jesus é o rei messiânico entronizado no Céu à direita de Deus (Act 2, 32-34). A missão messiânica de Jesus tem um alcance universal. Entronizado como Messias, ele vai julgar o universo, dizem os Actos dos Apóstolos: “Deus fixou um dia em que julgará o Universo com justiça por intermédio de um homem que ele determinou” (Act 17, 31a). O tempo intermédio entre a ressurreição e a segunda vinda de Jesus é um tempo de refrigério, de perdão incondicional (Act 3, 20).

Os judeus devem arrepender-se, dizem o Actos dos Apóstolos. O povo preparado pelos profetas para acolher o Messias, acabou por rejeitá-lo. Rejeitam o enviado de Deus, matando-o, embora tenham agido sobretudo por ignorância (Act 3, 17). É importante que aproveitam agora o tempo de refrigério que Deus lhes concede, aceitando o perdão que lhes está a ser oferecido (Act 3, 19).

Devido às aparições do Senhor ressuscitado, os discípulos são testemunhas da messianidade de Jesus: “Saiba toda a casa de Israel com toda a certeza que Deus estabeleceu como Senhor e Messias esse Jesus por vós crucificado” (Act 2, 34-36). Ele é o Salvador prometido, o libertador de Israel: “Suscitou-nos um poderoso salvador na casa de David, seu servo. Realizou o que tinha dito pela boca dos santos profetas de outrora” (Lc 1, 69-70). No Templo, as crianças proclamaram Jesus como Filho de David (Mt 21, 15).

A razão da primeira vinda de Jesus, foi o perdão e a filiação divina. O tempo intermédio é o ano da graça do Senhor (Lc 4, 19). A segunda vinda é o dia da vingança. Só os que aceitarem Jesus escaparão à ira que está para chegar (1Tess 1, 10). Para a Carta aos Hebreus a razão decisiva da segunda vinda de Cristo é conduzir os eleitos para a salvação. A segunda vinda de Cristo, diz a Carta aos Hebreus dar-se-á, não em função da perdição, mas da salvação: “Está determinado que os homens morram uma só vez. A seguir, vem o juízo. Assim também Cristo se ofereceu uma só vez pelo perdão dos pecados de muitos. Aparecerá uma segunda vez àqueles que o esperam. Não por causa do pecado, mas para lhes dar a salvação” (Heb 9, 27-28).

Uma vez que o pecado foi perdoado em Jesus ressuscitado, já não há necessidade de oferecer ritos e sacrifícios pelo perdão do pecado: “Onde há remissão dos pecados já não há necessidade de oferenda pelos pecados” (Heb 10, 18). Depois acrescenta: “Os sacrifícios, as ofertas e os holocaustos pelo pecado não te agradaram” (...). Disse em seguida: “Eis que venho para fazer a Tua vontade”. Aboliu assim o primeiro culto para estabelecer o segundo” (Heb 10, 8-9). O pecado que conduz à destruição final é a recusa em viver segundo a dinâmica comunitária da fraternidade e comunhão para a qual o Espírito santo nos conduz.


6- A Segunda vinda de Cristo no Evangelho de João

É o único documento do Novo Testamento que supera definitivamente o conceito de uma segunda vinda apocalíptica. O juízo de Deus dá-se mediante o encontro com Jesus, o portador da vida nova que brota do Espírito Santo. Cristo é o juiz por ser o Filho do Homem, isto é, o Messias glorificado no céu à maneira do Filho do Homem de Daniel (Dan 7, 12s).

Após a Sua glorificação, Jesus torna-se a fonte da vida e da ressurreição: “O Pai tem a vida em si mesmo. Do mesmo modo concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo. E deu-lhe o poder de julgar por ser o Filho do Homem (...). Vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a Sua voz. Os que tiverem praticado boas obras ressuscitarão para a vida. Os que tiverem praticado o mal ressuscitarão para a condenação. Eu nada faço por mim mesmo. Conforme oiço é que julgo, e o meu juízo é justo porque não busco a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (Jo 5, 26-30).

O juízo realizado é, pois, o reconhecimento da verdade e da fidelidade de Deus. Este reconhecimento é realizado em nós pelo Espírito Santo: “Convém-vos que eu vá. Se eu não for, o Consolador (Paráclito) não virá a vós. Se eu for, enviar-vo-lo-ei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16, 7).

Para o evangelho de São João, o juízo começou com a ressurreição e a glorificação de Jesus. Foi nesta altura que o Espírito entrou na marcha da humanidade exercendo a sua missão de defensor e introduzindo-nos na Família de Deus: “Mas os que o receberam, aos que acreditam nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade carnal, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1, 12-13).

O Espírito convencerá igualmente o mundo do juízo no sentido de que desmascara e condena as forças do mal. Os judeus julgam segundo a carne, isto é, segundo os critérios do judaísmo. Jesus não julga assim: “Quando vier o Consolador que vos hei-de enviar da parte do Pai, o Espírito da verdade que procede do Pai, ele dará testemunho de mim” (Jo 15-26).

A segunda vinda de Jesus no evangelho de São João nada tem a ver com o modelo apocalíptico de um acontecimento cósmico. Jesus vem, pelo Espírito, para conduzir os que acolhem a salvação de Deus para o Reino do Pai: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, ter-vo-lo-ia dito. Vou preparar-vos uma morada. Depois de ter ido e vos ter preparado essa morada, virei outra vez e levar-vos-ei comigo” (Jo 14, 2-3).

O juízo realizado pelo Espírito acontece no coração da pessoa humana, o ponto de encontro com a verdade de Deus e do Homem: “O Espírito da verdade que procede do Pai dará testemunho de mim” (Jo 15, 26b). O Espírito é a garantia da nossa união com Deus e da nossa salvação: “Deus é Amor. Quem permanece no Amor permanece em Deus e Deus permanece nele. O Seu Amor é perfeito para connosco, a fim de que no juízo tenhamos confiança (...). No amor não há temor, pois o Amor, quando é perfeito, lança fora o temor. O temor pressupõe o castigo. O que teme não é perfeito no amor» (1Jo 4, 16b-18).

A condenação não significa que Deus condene alguém, mas que o homem se fecha ao dom de Deus: “Quem acredita no Filho de Deus não é condenado. Quem não acreditar nele já está condenado (...). A causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz. Isto porque as suas obras eram más” (Jo 3, 18-19). Com o dom do Espírito, o homem só é vencido pelo mal se quiser. Por isso é agora o julgamento: “Agora é que se realiza o julgamento do mundo. É agora que o príncipe deste mundo é expulso” (Jo 12, 31).

João supera inteiramente a visão apocalíptica da segunda vinda de Jesus e do juízo. Deus não anda à procura de razões para condenar o homem. Pelo contrário, antes de nós o amarmos ele amou-nos a nós: “Nós amamo-lo porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4, 19). O amor a Deus torna-se visível no nosso amor aos irmãos. A verdade do juízo está precisamente nesta interacção: amor a Deus, amor aos irmãos: “Se alguém disser: “Amo a Deus, mas odiar o seu irmão, é mentiroso”. Quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê” (1Jo 4, 20).

A missão de Cristo, diz o evangelho de São João, não é condenar, mas salvar o Homem: “Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, não sou eu que o condeno, pois eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar” (Jo 12, 47). No último dia, o homem será confrontado com a verdade da mensagem e com o modo como a aceitou ou a rejeitou: “Quem me rejeita e não acolhe as minhas palavras tem quem o condene. A mensagem que anunciei é que há-de condená-lo no último dia” (Jo 12, 48).

Confrontar-se com a mensagem de Jesus é confrontar-se com o Espírito Santo que habita no íntimo do nosso coração: “Quando vier o Espírito da Verdade, guiar-vos-á para a verdade total. Ele não falará de si mesmo. Dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á o que há-de vir. Glorificar-me-á porque há-de receber do que é meu para vo-lo anunciar” (Jo 16, 13-14).

Em Jesus ressuscitado Deus oferece ao homem o maior de todos os dons, isto é, a possibilidade de participar na comunhão universal da Família de Deus. Glorificar-me-á porque há-de receber do que é meu para vo-lo anunciar” (Jo 16, 13-14). Em Jesus ressuscitado Deus oferece ao homem o maior de todos os dons, isto é, a possibilidade de participar na comunhão universal do Reino que é o mesmo que pertencer à Família de Deus. Trata-se de um dom, que o homem pode aceitar ou não. De outro modo não seria um dom, mas uma imposição. O juízo de Deus joga-se nesta opção fundamental que determina a salvação ou a perdição da pessoa. Por outras palavras, Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria decisão.


c) A Nova Jerusalém No Livro do Apocalipse

1- A Criação de um Mundo Novo

Segundo o esquema milenarista do Apocalipse, a ressurreição dos maus dá-se apenas após o reino messiânico dos mil anos. A ressurreição dos maus coincide com a libertação momentânea de Satanás. Em seguida dá-se a batalha final entre os bons e os maus, cujos vencedores é Jesus Cristo e os eleitos. Satanás, a besta e os maus são finalmente condenados e laçados ao lago do enxofre ardente.

O reino messiânico da terra termina com esta luta. Surge então a Nova Jerusalém, isto é, a família de Deus que é um povo de reis e sacerdotes. A nova Jerusalém é elevada ao céu onde permanecerá eternamente. Surge assim um novo céu e uma nova terra. O primeiro céu e a primeira terra desapareceram. O mar já não existe (Apc 21, 1). A nova Jerusalém não foi edificada pelos homens, mas pelo Espírito de Deus. Desceu do céu. É bela. Parece uma esposa adornada e preparada para receber o seu esposo (Apc 21, 2).

A Nova Jerusalém é o Reino dos Céus. Deus habitará com os seres humanos que formam o seu Povo. Estes serão os filhos de Deus com os quais o Senhor Deus habitará para sempre (Apc 21, 3). A partir de agora não haverá mais dor, nem sofrimento, nem pranto, pois Deus enxuga as lágrimas dos olhos dos Seus filhos. Está inaugurado o Mundo Novo. As primeiras coisas passaram (Apc 21, 4). A todos os que reinam consigo dá a beber a água viva, isto é o Espírito Santo (Apc 21, 6). O evangelho de São João diz que esta Agua Viva seria dada por Jesus no momento da sua ressurreição (Jo 7, 37-39).


2- A Realeza Universal de Cristo

Para o Apocalipse a glorificação de Jesus acontece ao assumir a realeza universal. O Cristo do Apocalipse é realmente o “Pantocrator”, isto é, o Rei do Universo. O Alicerce da Nova Jerusalém é o resto fiel dos justos do Antigo e do Novo Testamento. A cidade tem doze portas. Em cada porta está escrito o nome de uma das doze tribos de Israel (Apc 21, 12). As muralhas da cidade estão assentes sobre doze colunas. Cada uma destas colunas está marcada com o nome de um dos doze Apóstolos (Apc 21, 14).

A teologia do Apocalipse é marcadamente judaica. Está na linha da teologia do evangelho de São João segundo a qual a salvação vem dos judeus (Jo 4, 22). A teologia do Apocalipse tem subjacente a profecia de Natã a David (2 Sam 7, 12-16). Segundo o profeta Natã, o descendente de David devia construir um templo para Deus (2Sam 7, 13). No Livro do Apocalipse, Jesus aparece como o prometido a David que constrói o templo que Deus quer, isto é, a comunhão com Deus. Já o evangelho de São João acentuava que o templo, o culto e os adoradores que Deus quer, situam-se no nível pneumático.


3- A Morada de Deus Com os Eleitos

O lugar não o elemento decisivo (Jo 4, 21). É em Espírito e verdade que Deus que ser adorado pelos seus adoradores (Jo 4, 23-24). O novo culto supõe um novo templo. Segundo a teologia joanina, o novo templo é Cristo ressuscitado. Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João: “Jesus respondeu: destruí este santuário e eu reedificá-lo-ei em três dias (...). Jesus falava do santuário do Seu Corpo. Por isso, quando ressuscitou dos mortos, os discípulos recordaram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra que Jesus dissera” (Jo 2, 19-22).

A nova Jerusalém tem as medidas do novo templo anunciado pelo Apocalipse de Ezequiel (Ez 41, 21; 42, 16; 45, 2; 48, 16). A nova Jerusalém é a cidade dos ressuscitados, tal como o profeta Ezequiel tinha visto nos seus sonhos (Apc 21, 16). É este o templo para onde acorrem as riquezas fabulosas segundo a visão do profeta Zacarias a respeito da Jerusalém messiânica (Apc 21, 18-21; cf. Zac 2, 4-8). O templo do Senhor é a comunhão dos seus eleitos. Deus habita no coração dos eleitos.

A nova Jerusalém não tem templo algum, pois Deus habita no meio dos seus eleitos que formam o templo de Deus e do Cordeiro (Apc 21, 22). Todos têm acesso ao Senhor e comungam directamente com Ele. A Primeira Carta de São Pedro diz que os crentes são as pedras vivas do templo do Senhor (1Ped 2, 5).

Do mesmo modo, São Paulo diz que a comunidade cristã é o templo do Senhor: “Nós somos o templo do Deus vivo, diz o próprio Deus: Habitarei e andarei entre eles. Serei o seu Deus e eles serão o Meu povo (...). Serei para vós um Pai e vós sereis para mim filhos e filhas» (2Cor 6, 16-18). Os crentes são o templo de Deus porque Cristo lhes comunicou o Espírito Santo. É por esta razão que os crentes já não se pertencem a si (1Cor 6, 19).

Por outras palavras, a Nova Jerusalém é a comunhão dos salvos com Deus no Espírito Santo. Já não existe o Sol nem a Lua na Nova Jerusalém. Na morada dos eleitos, isto é, na Nova Jerusalém, a iluminação é a glória de Deus. Tudo se fez novo. Na Nova Jerusalém já não há noite. Deus está permanentemente no meio dos seus eleitos. Por isso o dia é permanentemente dia (Apc 21, 25). Apenas os que estão inscritos no Livro da Vida que o Cordeiro possui, têm morada na Nova Jerusalém (Apc 21, 27).

O Pai e o Cordeiro são a nascente do rio da vida, isto é, o Espírito Santo. Este rio é resplandecente como o cristal (Apc 22, 1). Os seus habitantes reinarão pelos séculos dos séculos (Apc 22, 5). Ninguém é mais que os outros. Todos são irmãos, quer se trate dos anjos, dos santos ou dos profetas (Apc 22, 9). O que tiver sede venha e beba gratuitamente a água da vida (Apc 22, 17; cf. Jo 7, 37).

Os crentes devem consolar-se e animar-se uns aos outros, diz o Livro do apocalipse, pois estas coisas estão próximas. Animados pelo Espírito Santo, os eleitos gritam: “Ámen! Vem, Senhor Jesus” (Apc 22, 20b). Trata-se de uma fórmula litúrgica usada pelas comunidades primitivas que revela bem a expectativa da Segunda vinda de Cristo nestas comunidades.


d) A Nossa Identidade no Reino de Deus

1- Os Ressuscitados Como Seres Espirituais

A ressurreição não é uma restauração biológica, pois os ressuscitados não voltam ao estado em que se encontravam antes de morrer. Mas a identidade espiritual da pessoa permanece a mesma na Comunhão Universal do Reino de Deus. Por identidade espiritual devemos entender o jeito de a pessoa amar e se relacionar com os outros. Isto quer dizer que a ressurreição é um acontecimento de ordem espiritual e não uma restauração biológica.

Os evangelhos insistem em que a nossa identidade profunda, por ser espiritual, permanecerá a mesma na comunhão do Reino de Deus. Ao mesmo tempo insistem que a pessoa humana, após a ressurreição, permanece como grandeza de ordem meramente espiritual. Eis o que Jesus disse aos saduceus, isto é, a um grupo de homens ligado a um movimento que religioso que não acreditava na ressurreição: “Acerca da ressurreição estais enganados, pois desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. Na ressurreição nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos. Serão como anjos no Céu” (Mt 22, 29-30). Com esta forma de falar, Jesus queria dizer que, na Comunhão dos ressuscitados em Cristo, a condição das pessoas é puramente espiritual.


2- A Emergência do Homem Espiritual

O ser humano começa por ser uma realidade de ordem meramente biologia, isto é, um ovo. O nosso ser espiritual é uma realidade a emergir no nosso íntimo como o pintainho vai emergindo dentro do ovo. Na verdade, começamos por ser um corpo terreno, diz São Paulo, mas ressuscitamos como corpo espiritual (1 Cor 15, 44).

São Paulo faz esta afirmação referindo-se tanto à realidade de Jesus ressuscitado como à nossa. Na verdade, a nossa condição é a mesma de Jesus, pois a nossa ressurreição acontece pelo facto de fazermos uma união orgânica com Cristo ressuscitado. Ele é a cabeça de um corpo, do qual nós somos os membros, diz São Paulo (1 Cor 10, 17; 12, 27). O evangelho de São João diz que nós somos os ramos da videira da qual Jesus é a cepa (Jo 15, 1-8). Jesus desenvolve este exemplo, dizendo que os ramos apenas viver e dar fruto se estiverem unidos à videira (Jo 15, 4-5).

Ao falar do corpo dos ressuscitados, a fé afirma que o corpo dos ressuscitados não é uma realidade física, mas sim uma realidade espiritual. Isto significa que a nossa identidade no Céu coincide com o nosso jeito de amar e comungar com os irmãos. De facto, no Reino de Deus todos os eleitos dançam o ritmo do amor, mas cada qual com o jeito que foi adquirindo na história. Este jeito de dançar o ritmo do amor foi treinado e adquirido através da nossa marcha na história. No Reino de Deus os seres humanos só encontram a sua plenitude de pessoas realizadas e felizes na comunhão com os outros.


3- Unidos Organicamente a Cristo


Como acabámos de ver, só na comunhão nos podemos sentir realizados e felizes. A solidão asfixia a pessoa, bloqueando todas as suas possibilidades de felicidade. Por outras palavras, fora da comunhão, a pessoa não se possui nem conhece plenamente. O ser humano está talhado para a relação. Somos imagem de Deus que é uma comunhão de três pessoas. Eis a razão pela qual a pessoa só se possui plenamente dando-se.

O sangue que alimenta a vida e a nossa união dos membros do Corpo com a sua cabeça é o Espírito Santo. O Espírito Santo é, na verdade, o sangue da Nova Aliança. Ele é a seiva que vem da cepa, fortalecendo e tornando fecundos os ramos da videira que somos nós. Como diz o evangelho de João, o Espírito Santo é a Água Viva que faz jorrar rios de Vida Eterna no nosso coração (Jo 4, 14; 7, 37-39).

A comunhão do Corpo e Sangue de Cristo, na Eucaristia, tem a ver com o Espírito Santo. Na verdade, diz o evangelho de São João, não se trata de uma realidade biológica (células ou hemoglobina), mas sim do Espírito Santo. Eis as palavras do evangelho de São João: “O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 63). A carne e o sangue, diz São Paulo, não podem participar no Reino de Deus (1 Cor 15, 51).

A nossa realidade interior é espiritual. Mas é histórica, pois emerge de modo gradual e progressivo no nosso interior. Na base da nossa realização pessoal está uma cadeia enorme de decisões, opções, escolhas, atitudes e realizações orientadas no sentido do amor. É esta rede de realizações que forma a nossa identidade pessoal, isto é, o nosso jeito de amar e nos relacionarmos com os outros. É verdade que ninguém se pode realizar sozinho. Mas é igualmente verdade que ninguém nos pode substituir na tarefa da nossa realização pessoal.

Somo realmente seres em construção, tarefa na qual ninguém nos pode substituir. Mas ninguém se pode realizar sozinho, pois o ser humano só pode realizar-se em relações de amor. Eis a razão pela qual, a pessoa, à medida em que se realiza, se constitui como ser unido e interligado aos demais. É esta a raiz da união orgânica e dinâmica que liga as pessoas humana umas com as outras.

Tal como a Humanidade, também a Divindade é uma união orgânica e dinâmica de três pessoas. É verdade que os outros são mediações para nos realizarmos, mas não podem programar nem executar a nossa realização. Nem Deus nos substitui nesta tarefa da nossa realização pessoal, a fim de podermos ser livres, conscientes, responsáveis e termos património pessoal a comungar com os outros.

Deus está sempre connosco, mas não está nunca em nosso lugar. Os outros seres humanos podem favorecer ou condicionar a nossa realização pessoal, mas a última palavra é sempre nossa. É aqui que radica o fundamento da nossa dignidade pessoal e também a responsabilidade da nossa realização.

Podemos dizer que a nossa realização pessoal é o conteúdo da nossa identidade histórica. Agora já podemos compreender como a nossa realização pessoal é o conteúdo da nossa identidade histórica. À medida em que se realiza, a pessoa está a edificar-se como um ser livre, consciente, responsável, único, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa.

Resumindo o que acabámos de afirmar podemos dizer que seremos eternamente a pessoa que realizarmos agora na história. Seremos eternamente aquilo que realizarmos agora na história. Através de Cristo, Deus diviniza o que somos como realização humana. Mas a humanização é tarefa nossa. Isto quer dizer que será eternamente mais divino quem mais se humanizar na história. Deus criou-nos inacabados e deu-nos a missão histórica de nos criarmos completando, deste modo, a sua obra.


4- Espírito Santo e Vida Eterna

Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo vai-nos guiando, a fim de nos conduzir nesta tarefa delicada da nossa realização. Apenas os que bebem a Água Viva que Cristo nos oferece, isto é, o Espírito Santo, participam da plenitude da ressurreição, diz Jesus no evangelho de São João (Jo 4, 21-23; 7, 37-39). Podemos dizer que Cristo ressuscitado é a Árvore da Vida que estava no centro do Paraíso cujo fruto, o Espírito Santo, nos dá a Vida eterna.

Devido ao pecado de Adão, diz o Livro do Génesis, a Humanidade ficou privada da vida Eterna (Gn 3, 22-24). Mas Deus que é rico em misericórdia, enviou-nos Cristo como Novo Adão, diz São Paulo (Rm 5, 17-19). No momento da sua morte e ressurreição, o Novo Adão reabriu-nos as portas do Paraíso e a Humanidade ficou com acesso ao fruto da Vida Eterna. No momento da sua morte sobre a cruz, Jesus disse ao Bom Ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).

Por outras palavras, o Senhor ressuscitado é a Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo que ele nos comunica ao ressuscitar: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede, venha a mim e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr rios de Água Viva do seu coração. Jesus disse isto referindo-se ao Espírito santo que iam receber os que acreditassem nele. Com efeito, o Espírito ainda não tinha vindo, pois Cristo ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

O Espírito Santo, diz São Paulo, incorpora-nos na Família de Deus onde somos inseridos como Filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus Filho. É por este Espírito Santo, acrescenta São Paulo, que nós clamamos “Abba”, Ó Pai (Rm 8, 14-16; Ga 4,4-7).

Como vemos, a identidade da pessoa humana, na Comunhão Universal da Família de Deus, não é anulada mas optimizada. A simples imortalidade não é o centro da Boa Nova trazida por Cristo. No coração do Evangelho está a ressurreição, a qual implica a assunção, ou seja, a incorporação na Comunhão da santíssima Trindade. À luz da ressurreição, a morte natural é o parto final, isto é, a derradeira possibilidade de nascermos para a plenitude da vida eterna. Por outras palavras, a morte é o acontecimento que nos possibilita o nascimento total.

Nesta perspectiva, o amor surge como a única razão válida para construir a vida. O amor vale tanto para viver como para morrer. Uma pessoa que morreu para salvar outra não se suicidou. Pelo contrário atingiu a plenitude do amor. Estamos a tocar um mistério que consiste nisto: a pessoa possui-se, dando-se, pois é dando-se que ela que recebe. Não basta ser imortal para atingir a plenitude da vida. As pessoas que estão em estado de inferno são imortais, mas não estão na plenitude dos ressuscitados com Cristo.

Pecado e Juizo Final na Bíblia




a) O Dia da Ira no Profetas

b) Juízo Final e a Segunda Vinda de Cristo
1- A Visão de São Paulo
2- Reinado Messiânico e o Resto Fiel

c) O Fim da História Nos Escritos de São Paulo

d) O Reino de Deus é a Nova Jerusalém



a) O Dia da Ira nos Profetas

O dia de Yahvé ou o dia da ira é o tema apocalíptico mais repetido nos escritos dos profetas e, mais tarde nos textos apócrifos. O pano de fundo associado ao dia da ira é a ideia de que o pecado não tem lugar no plano de Deus. Eis a razão pela qual os profetas falavam de um dia em que Deus intervirá, a fim realizar uma purificação universal.

Na óptica destes apocalipses, o dia da intervenção purificadora de Deus, será um dia de tragédia e sofrimento. Os maus vão ser aniquilados, pois o pecado não tem lugar no pleno de Deus. Só o pequeno resto dos justos escapará à destruição deste dia. Deus vai purificar a Humanidade, destruindo os pecadores. Mas este dia é também o dia em que se vai manifestar a bondade de Deus ao salvar o resto fiel dos justos. Nesse dia apenas os justos exultarão, pois o “Shalom”, isto é, a felicidade, a paz e a prosperidade, serão o grande dom de Deus para este pequeno resto.

O profeta Isaías diz que o Senhor tem um exército constituído por uma multidão de anjos, os quais estão preparados para executar o castigo divino. Os homens olharão uns para os outros cheios de terror, pois o Sol e a Lua deixarão de brilhar (Is 13, 4c-10). Os habitantes da Terra serão destruídos e reduzidos a um pequeno número (Is 24, 6). Deus vai reunir o resto fiel dos diversos quadrantes da terra e com ele reinará em Jerusalém (Is 24, 23). Nesse dia, os justos falecidos ressuscitarão, a fim de tomarem parte no Reino glorioso de Deus (Is 26, 19). Nesse dia da vingança de Deus, o pequeno resto será salvo (Is 35, 4).

Então Deus habitará para sempre na Jerusalém restaurada, realizando, assim, a promessa feita a David (Is 55, 3-5). A Nova Jerusalém já não precisa de luz, pois no seu centro está a glória de Deus. O Senhor será a sua luz eterna, pois habitará para sempre no meio dos justos (Is 60, 19-21). A salvação do resto fiel não ficará a dever-se a um anjo, mas à presença do próprio Deus no seu meio (Is 63, 9). Deus vai renovar todas as coisas, a fim de edificar a Nova Jerusalém, a Cidade de Deus na qual habitará o “Shalom”, isto é, a paz, a prosperidade e a felicidade para sempre (Is 65, 17-18).

Os pecadores e os fingidos escusam de pôr a esperança no Templo ou no culto, pois estes não salvam. Nenhuma casa pode Ter a pretensão de possuir o monopólio da presença de Deus. A “shekinah”, isto é, o ponto da Terra sobre o qual incide o olhar de Deus, não é um templo construído por pedras, mas sim o coração dos humildes e dos arrependidos do seu pecado. O que agrada a Deus não são os cultos e sacrifícios, o sangue dos vitelos, mas sim a misericórdia para com os fracos e os desprotegidos. É isto que purifica o coração e obtém o perdão dos pecados (Is 1, 12-19).

O senhor vai punir através do fogo e a espada. Muitas vão ser as vítimas da cólera divina naquele dia (Is 66, 15-16). Os cadáveres serão causa de espanto para os justos. O fogo que, nesse dia, vai punir os pecadores nunca se extinguirá (Is 66, 18-24). O profeta Jeremias diz que, no dia da ira, o templo será destruído (Jer 26, 9). Os pecadores cairão ao fio da espada. O flagelo estender-se-á sobre toda a terra, transformando-a num deserto devido ao fogo da cólera de Deus (Jer 25, 29-37). Mas o resto fiel será salvo (Jer 31, 7-8).

Nesse dia, Deus fará com este resto uma Nova Aliança, a qual não terás como alicerce a letra da Lei mas o dom do Espírito Santo. Nesse dia os corações dos justos serão cheios da força do Espírito Santo (Jer 31, 31-34). O profeta Ezequiel que, no exílio da Babilónia fez a dura experiência da escravidão, interpreta os sofrimentos do exílio como o início do dia da ira. Faz apelo aos judeus para que se mantenham fiéis, a fim de se tornarem o resto escolhido para habitar na Jerusalém restaurada com a casa de David. O dia do Senhor está próximo, pois o terror final está iniciado. Por isso já não há alegria sobre as montanhas de Judá, pois o dia do Senhor está próximo. O ouro e a prata não têm qualquer poder para os salvar (Ez 7, 5-19).Tal como fez às casas hebreus no Egipto, Deus vai assinalar os justos, a fim destes escaparem à ira do Senhor. Portanto, vão ser todos exterminados, excepto os assinalados na fronte. Os assinalados constituem o resto fiel que Deus vai poupar no dia da destruição (Ez 14, 22).

Deus vai restaurar o coração dos que ficarem integrados dos justos que fizerem parte do resto fiel. Deus vai infundir neles um coração e um espírito novos, reconduzindo-os para a Jerusalém restaurada, onde encontrarão finalmente o shalom (Ez 11, 17-19). Nesse dia os poderosos vão ser humilhados, enquanto que os pobres e os humildes vão ser exaltados: “Retira a tiara. Depõe a coroa. As coisas vão mudar, pois o humilde será exaltado e o que está no alto será humilhado (Ez 21, 30-31). No dia da ira, os céus ficarão escuros, pois as estrelas e demais corpos celestes deixarão de brilhar. As trevas cobrirão a Terra (Ez 32, 7-8).

À frente deste pequeno rebanho de Deus, o Senhor vai colocar um pastor que sairá da casa de David. Uma vez purificada a terra, Yahvé será o único Deus, o descendente de David será o único pastor e Israel viverá numa paz sem limites (Ez 34, 11-25). Os que forem achados fiéis serão renovados, pois o Senhor vai tirar do seu peito o coração de pedra, alusão às tábuas da Lei e vai infundir neles o Espírito Santo (Ez 36, 24-28). Na Babilónia, Israel está esmagado pelo sofrimento. O aspecto do povo de Deus é semelhante a um montão de esqueletos ressequidos. Mas Deus vai enviar o Espírito Santo sobre esse montão de ossos, fazendo-os ressuscitar (Ez 37, 5-12). Após a batalha entre o bem e o mel (Gog e Magog), os eleitos de Deus, vencedores, viverão para sempre (Ez 38, 3s).

A Jerusalém restaurada terá doze portas, cada qual com o nome de uma tribo de Israel (Ez 48, 31-35). Isto quer dizer que o reino de David vai ser restaurado na sua grandeza original, a qual tinha terminado com a morte de Salomão que o império de David se dividiu nos reinos de Judá e Israel e nunca mais unificou (1 Rs 12, 16-24; 2 Cron 10, 16-19).

O profeta Ezequiel viveu a experiência do exílio de Babilónia. O seu livro é um reflexo do sofrimento vivido pelo povo nessa situação de opressão. Temos agora um outro profeta cujos escritos falam do cativeiro de Babilónia, mas que é apenas um modo de não ser identificado pelos inimigos que estão a oprimir o povo. Trata-se do profeta Daniel cujos escritos são do século segundo antes de Cristo.

De novo temos o povo de Israel a viver uma experiência de opressão e martírio. Desta vez não se trata dos babilónios mas dos selêucidas, os descendentes de Alexandre Magno. Agora, a opressão e o martírio não têm lugar longe da pátria, mas em Jerusalém. O templo foi profanado e os invasores querem impor aos judeus a sua cultura, o helenismo, e a religião grega.

Com a capa da Babilónia, Daniel está a falar dos tormentos vividos pelo povo em Jerusalém. O império dos selêucidas é uma estátua enorme, mas com pés de barro, a qual vai ser despedaçada com uma simples pedrada (Dan 2, 31-43). Temos aqui o símbolo do gigante Golias vencido por David com uma simples pedrada. O livro tenta fortalecer a esperança dos crentes maltratados.

Para não agravar os sofrimentos do povo, o livro chama apenas Filho do Homem ao Messias, isto é, ao Filho de David. O tribunal de Deus está reunido sobre as nuvens, isto é, no Céu. O Filho do Homem vai ser coroado pelo próprio Deus acima das nuvens do Céu, a fim de realizar tudo o que está anunciado para o dia da ira. O Filho de Homem vai receber uma realeza eterna, pois o seu reino não terá fim (Dan 7, 9-14). Ele é o rei anunciado a David cujo reino durará para sempre (Dan 2, 44; cf. 2 Sam 7, 16)

O rei Antíoco IV vai ser punido pelas suas blasfémias e profanações do templo e dos vasos sagrados (Dan 5, 2). Os quatro imperadores selêucidas são simbolizados por quatro bestas disformes. Saem das águas, o abismo onde habitam as forças do mal (Dan 7, 3s). O pior destes animais é o quarto, Antíoco IV, o qual estava, nessa altura, a martirizar o povo de modo bárbaro (Dan 7, 7). O poder deste animal feroz está a chegar ao fim. O tribunal já está reunido para julgar. O dia da punição está determinado (Dan 7, 11-12). O dia da ira está a chegar ( Dan 5, 25-28). Estão a chegar os últimos tempos (Dan 8,19).

Eis os pilares sobre os quais assenta o dia da ira:
*A salvação do Resto Fiel;
*A punição dos maus;
*A realização das promessas e a constituição de uma Nova e Eterna Aliança.

Os santos do Altíssimo, os justos, vão receber a realeza e guardá-la-ão para sempre, tornando-se um povo de reis e sacerdotes (Dan 7, 14-18; cf. Ex 19, 6). No dia da ira acontecerá a ressurreição dos mortos. Os justos vão viver com Deus e os ímpios serão lançados no mundo da ignomínia. Nesta mesma linha, o profeta Joel vê o dia da ira, também chamado dia do Senhor como um dia de trevas e escuridão.

O Senhor vai chegar precedido de um fogo devorador. Após o castigo desse dia, a Terra vai ficar como um deserto (Jl 2, 1-3). O Sol e a Lua obscurecer-se-ão. As estrelas perderão o brilho, pois o dia da ira é grande e terrível (Jl 2, 10-11). O sol converter-se-á em trevas e a lua em sangue. Surgirão muitos prodígios na terra e no céu (Jl 3, 4).

O Resto Fiel permanecerá em Jerusalém. Apenas sobreviverão aqueles que o Senhor chamou (Jl 3, 5). Deus congregará todos os povos no vale de Josafat, onde realizará o julgamento (Jl 4, 2). Também para o profeta Amós o dia do senhor é um dia de trevas e não de luz (Am 5, 18). A justiça de Deus vai ser realizada pelo fogo (Am 7, 4). O profeta Abdias diz que o resto fiel permanecerá no monte de Sião, isto é, em Jerusalém (Abd 1, 17). Nesse dia, os ímpios serão aniquilados (Abd 1, 18).

Segundo o profeta Miqueias, Deus vai salvar o resto Fiel e conduzi-lo-á como um pastor conduz o seu rebanho (Miq 2, 12). Deus vai reunir os coxos, os estropiados, os pobres e os desprezados com os quais vai formar o resto, pois Deus quer fazer dos fatigados e humilhados um povo poderoso (Miq 4, 6-7). Nesse dia, os pais estarão contra os filhos e estes contra os pais (Miq 7, 5-6).

O profeta Sofonias alerta os justos, dizendo-lhes que devem juntar-se e praticar a justiça, a fim de escaparem à destruição do dia da ira (Sof 1, 14-2, 13). Deus já reservou o pequeno grupo dos que vão constituir o resto Fiel. O Senhor virá visitá-los e dar-lhes a recompensa (Sof 2, 7-9). Deus habitará com o resto na Jerusalém restaurada (Sof 3, 13-17).

Também segundo o profeta Zacarias Deus habitará com o do resto Fiel na Nova Jerusalém (Zac 2, 14-17). A Cidade Santa, a Nova Jerusalém, será a morada de Deus e tornar-se-á fonte de bênçãos para todos os povos da Terra (Zac 14, 14, 6-16).

O profeta Malaquias diz que os pecadores, no dia da ira, serão como palha lançada ao fogo. Antes do dia terrível vai voltar o profeta Elias, o qual aproximará os corações dos pais e dos filhos entre aqueles que formam o resto Fiel (Mlq 3, 18-24).


b) Juízo Final e a Segunda Vinda de Cristo

1- A Visão de São Paulo

Os discípulos de Jesus estavam convencidos de que ele era o Filho de David prometido, isto é, o rei messiânico que em breve iria subir ao trono. Isto nada tem de extraordinário, pois era esta a compreensão judaica da sua época. Como podemos verificar no evangelho de São Lucas foi nestes termos que o anjo anunciou a Maria o nascimento do seu Filho (cf. Lc 1, 32-33).

Convencidos de que Jesus em breve se sentaria no trono real, os Apóstolos Tiago e João pedem a Jesus para lhes conceder o privilégio de ocuparem os primeiros lugares na corte real. Os outros Apóstolos, ao ouvirem as pretensões de Tiago e João, protestam, pois também eles tinham pretensões no sentido de ocuparem esses lugares.

Pouco a pouco, Jesus tenta mudar esta mentalidade dos discípulos (Mc 10, 35s). Mas apesar dos seus esforços neste sentido, Jesus conseguiu muito pouco (Mt 16, 23). Esta tarefa ficaria para o Espírito Santo realizar após a Páscoa (Act 3, 19-21; 2, 32-36). Após a experiência pascal, a compreensão dos discípulos acerca da realeza de Jesus começa realmente a transformar-se.

Uma vez que Jesus morreu sem subir ao trono, os apóstolos recorrendo à profecia do Filho do Homem Daniel dizem que Jesus foi entronizado no Céu, após a sua ressurreição. Na verdade, argumentam eles, Deus já tinha anunciado através do profeta Daniel que as coisas aconteceriam assim (Dan 7, 13-14). Uma vez entronizado no Céu, Jesus vai voltar com todo o poder, a fim de estabelecer com o resto o Reino de Deus e executar a purificação do dia da ira (Act 3, 19-21). Os discípulos vão, pois, anunciar a segunda vinda de Cristo dentro do cenário que os profetas tinham elaborado para o dia da ira.

São Paulo anuncia aos cristãos que eles formam o resto fiel que escapará ao dia ira no dias da vinda de Jesus Cristo: “Jesus ressuscitou dos mortos e livrou-nos da ira futura” (1 Tes 1, 10). Quando o Senhor vier, os que permaneceram fieis vão ao encontro do Senhor nos ares, ficando para sempre com Ele (1 Tes 4, 14-17). O dia do Senhor virá como um ladrão, surpreendendo os desprevenidos (1 Tes 5, 2).

Os fiéis devem aspirar pelo dia do Senhor, pois eles sabem que Deus não os reservou para a ira, mas para a salvação em Jesus Cristo (1 Tes 5, 9). O Senhor vai vir entre chamas de fogo fazer justiça e punir os que se opõem ao Evangelho (2 Tes 2, 6-8). Os que constituem o resto fiel aparecerão junto dele revestidos de glória (Flp3, 1-4). Os judeus, ao rejeitarem o Evangelho, estão a aumentar os motivos do seu castigo no dia da ira (Rm 2, 5-6).


2- Reinado Messiânico e o Resto Fiel

É enorme a influência dos textos apocalípticos dos profetas nos textos do Novo Testamento. Podemos dizer que os textos apocalípticos do Antigo Testamento são o material com que os autores do Novo Testamento elaboram o cenário da Segunda vinda Cristo. Para São Paulo, a parusia, isto é, a Vinda de Cristo como rei messiânico significa o fim do mundo velho. “Se alguém está em Cristo, diz ele, é um Nova Criação. Passou o que era velho” (2 Cor 5, 17).

Na sua maneira de entender, a parusia, a vinda de Cristo, vai dar-se muito em breve. Se Cristo já ressuscitou, não há razão para permanecerem ainda os vestígios do mundo velho. Com efeito, o Espírito de Cristo ressuscitado, a força criadora do Mundo Novo já está activa no coração dos crentes e das comunidades espalhadas pelo império romano.

Quanto aos crentes, estes devem estar vigilantes, pois o Senhor vai chegar quando menos pensarmos. O dia do Senhor virá, como um ladrão, pela calada da noite (1 Tes 5, 2). Será um dia de tragédia e destruição para os que se opõe a Cristo e ao plano salvador de Deus. Mas para os eleitos esse será um dia de glória e alegria, pois é o dia da salvação e da libertação para o resto fiel.

A primeira carta aos Tessalonicenses é o documento do Novo Testamento que melhor testemunha a tensão escatológica da primeira geração cristã (cf. 1, 3; 4, 13-18; 5, 1-11 4, 13-18; 5, 1-11; 5, 23-24). Para os que vivem para o Senhor esse dia será o dia da sua glorificação. Mas para os inimigos de Cristo esse será o dia da ira e da destruição. Vão acontecer as tragédias e os castigos anunciados pelos apocalipses dos profetas (cf. Am 5, 18-20; Jl 2, 1;3, 14;Ez 30, 20-21; Mal 3, 19-23).

Profundo conhecedor dos textos dos profetas, São Paulo considera os cristãos como o resto fiel que escapará à destruição do dia da ira de Deus: “Deus não nos reservou para a ira mas para a salvação que nos vem de Nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tes 5, 9). O resto fiel é escolhido e preservado da corrupção do mundo, a fim de participar no Reino da glória de Deus (1 Tes 2, 12). Os cristãos falecidos vão ressuscitar no dia da vinda do Senhor, a fim de participarem na festa da salvação (1 Tes 4, 15-17).

Deus é fiel. Por isso nos vai fortalecendo com a dinâmica do Espírito Santo, a fim de aparecermos irrepreensíveis no dia da vinda de Cristo (1 Cor 1, 8; 1 Tes 3, 13; 5, 23-24). Os que se obstinam na prática do mal estão a acumular razões de condenação para o dia da ira de Deus (Rm 5, 9). Para os eleitos, o dia do Senhor é motivo de alegria e exultação, pois já estão marcados para esse dia com o selo da salvação que é o Espírito Santo (Ef 4, 30)

Nós não andamos nas trevas, diz ele, de modo a ser surpreendidos no dia do Senhor (1 Tes 5, 4). Este dia está próximo (Flp 4, 5;Rm 13, 11). Na verdade, nós chegámos a estes tempos que são os últimos (1 Cor 10, 11). No dia da vingança o Senhor virá com os anjos em todo o seu poder (2 Tes 1, 5-10). Mas para os eleitos não há condenação, pois ninguém nos poderá separar do amor de Cristo (Rm 8, 35-39).

O resto Fiel será reunido dos quatro cantos da Terra, a fim de formar o Reino Messiânico, pois a ira não os atingirá (Mc 13, 26). Os judeus que troçam do anúncio da Segunda vinda de Jesus ressuscitado fazem parte do grupo dos ímpios reservados para o dia da ira (2 Pd 1, 16-17). Estes serão castigados com o fogo, sofrendo o mesmo castigo dos habitantes de Sodoma (2 Pd 2, 7-8). Deus tem atrasado um pouco a Segunda vinda de Cristo, a fim de possibilitar que se salve o maior número possível (2 Pd 3,3).

O Apocalipse é uma síntese genial dos apocalipses do Antigo e do Novo Testamento, bem como dos apocalipses apócrifos do judaísmo. Com uma variedade enorme de textos consegue estruturar um plano cheio de esperança para os crentes que, agora, já estão a ser perseguidos e martirizados. A Segunda vinda está próxima. O Senhor aparecerá sobre as nuvens do Céu. Todos os olhos o hão-de ver (Apc 1, 7). Os cristãos perseguidos e atormentados têm de esperar só mais um pouco (Apc 1, 9). Os que estão encarcerados e atormentados nas prisões podem alegrar-se, pois dentro de poucos dias acabarão os seus tormentos (Apc 2, 10-11).

O Resto fiel será constituído pelos crentes e pelos justos do Antigo Testamento, simbolizados pelos cento e quarenta e quatro mil, um múltiplo de doze, para significar os justos das doze tribos. Além dos justos do povo hebreu, há ainda uma multidão incontável de todas as raças, línguas, culturas e nações, isto é, a multidão dos pagãos que aceitaram Jesus Cristo (Apc 7, 3-10). Cristo receberá o império e o poder, reinando para sempre (Apc 11,15).

Paulo pensava que o Reino de Cristo, na Terra, duraria apenas o tempo suficiente para Cristo dominar os poderes maléficos que vagueiam pelos ares. Depois, entregará o Reino ao Pai, afim de Deus ser tudo em todos (1 Cor 15, 24-28). O autor do Apocalipse, pelo contrário, diz que o reino messiânico, sobre a terra, durará mil anos. Os eleitos reinarão com Cristo durante mil anos vivendo na terra a plenitude do “Shalom”, isto é, a paz, a felicidade e o bem-estar (Apc 20,4). O Demónio será aprisionado e os ímpios destruídos no dia da vinda do Senhor permanecerão no reino dos mortos durante os mil anos do reino messiânico sobre a terra (Apc 20, 1-2). Após os mil anos, os ímpios ressuscitam, a fim de serem punidos com o castigo eterno e o Demónio será solto.

Felizes dos que participaram na primeira ressurreição, isto é, os que ressuscitaram no dia da segunda vinda de Jesus (Apc 20, 5). Os que vão ressuscitar após os mil anos do Reino messiânico vão ser todos punidos com o fogo. Mas antes disto vai dar-se a batalha do Armagedon, isto é, a luta decisiva entre o bem e o mal. Uma vez vencidos, o Demónio e os seus adeptos, serão finalmente lançados no lago do fogo e do enxofre (Apc 20, 8-10). Todos aqueles cujos nomes não estejam inscritos no livro da vida serão lançados no lago do fogo (Apc 20, 12-15).

Deus cria, então um novo Céu e uma nova Terra (Apc 21, 1). É então que a morada de Deus, a Jerusalém celeste, e a morada dos eleitos, a Jerusalém terrestre se juntam e Deus passa a habitar no meio dos eleitos, limpando-lhes as lágrimas do rosto. Não haverá mais pranto, nem morte, nem gritos, nem dor, pois Deus vai renovar todas as coisas (Apc 21, 2-5).

Apesar de o dia da ira estar associado à acção do Messias. Jesus anunciou que a sua missão não se situa na linha punitiva do dia da ira. Pelo contrário, Deus chamou-o para anunciar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos cativos, fazer que os coxos caminhem e os cegos vejam (Lc 4, 18-21). A sua missão não consiste em destruir os pecadores, mas em destruir o pecado. A destruição do pecado acontece no coração do ser humano pela acção do Espírito Santo que transforma o seu coração, fazendo-o passar do egoísmo para o amor fraterno. Já o profeta Jeremias tinha anunciado que a Nova Aliança assenta no dom do Espírito Santo, o qual vai introduzir no interior dos homens um coração novo (cf. Jer 31, 31-33).

Jesus distingue muito bem a diferença que existe entre a destruição do pecado e a destruição do pecador. Apesar de ser contra o adultério toma partido pela adúltera quando os fariseus a queriam matar. O evangelho de São João põe na boca de Jesus uma frase profundamente sugestiva a este respeito: “Eu não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12, 47). E ainda: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Ou então: “O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” (Mt 18, 11). Deus é Amor, diz a primeira Carta de São João (1 Jo 4, 7). Eis a razão pela qual não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria condenação.


c) O Fim da História Nos Escritos de São Paulo

Falar de São Paulo é falar do maior teólogo da primeira geração cristã. Por ser um teólogo judeu convertido à Fé Cristã, São Paulo encontrava-se numa situação privilegiada para compreender o plano salvador de Deus realizado em Cristo. Segundo a sua visão da História da Salvação, Com Jesus Cristo teve início a plenitude dos tempos. Por outras palavras, Com Jesus Cristo a História Humana entrou na fase dos acabamentos, a Humanidade (1 Cor 10-11). Com a ressurreição de Jesus Cristo, a Humanidade recebe a força do Espírito Santo, graças ao qual somos incorporados na Família de Deus (Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7).

O coroamento da História vai acontecer com a segunda vinda de Jesus Cristo como rei e cabeça da Nova Humanidade (Col 1, 15-20; Flp 2, 6-11). No dia em que o Senhor aparecer (parusia), os mortos ressuscitarão e os vivos serão arrebatados nos ares, ficando plenamente espiritualizados num abrir e fechar de olhos.

São Paulo imaginava a Segunda Vinda de Jesus Cristo como um acontecimento que iria acontecer muito em breve. Além disso, tinha uma consciência muito clara de que, graças à ressurreição de Jesus Cristo, a morte foi vencida, não só para Cristo, mas para todos os homens (1 Cor 15, 26). Se Cristo ressuscitou, então também nós somos ressuscitados e glorificados com ele. O nosso futuro está cheio de sentido (Col 1, 27; 1 Cor 15, 12-24).

A ressurreição de Jesus Cristo não é uma transformação meramente individual, pois Cristo é um homem e, portanto, faz uma união orgânica com a Humanidade. Se nós não ressuscitamos, então também Cristo não ressuscitou. Por outro lado, se Cristo não ressuscitou também não ressuscitamos e a salvação humana ainda não aconteceu (1 Cor 15, 12-13).

Com a ressurreição de Jesus Cristo, a salvação começou a actuar na Humanidade pelo poder do Espírito Santo, o qual nos vai configurando com Cristo e inserindo na Família de Deus. O Espírito Santo, diz ele, é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). O acontecimento da ressurreição de Cristo inaugura o futuro definitivo. A dinâmica da salvação já está a activa no coração dos que se abrem a Cristo (Rm 3, 26; 11, 5; Ef 2, 8).

Cristo é o Novo Adão que vence as consequências do pecado e da morte que o primeiro Adão introduziu no tecido da Humanidade (1 Cor 15, 51-52). Assim como a morte veio para todos por intermédio de Adão, a vitória sobre a morte vem por Jesus Cristo (1 Cor 15, 54-56). Graças a Cristo ressuscitado, a dinâmica da ressurreição está activa na história (1 Tes 4, 15-17). Quando Jesus Cristo aparecer como rei glorioso, então também nós seremos glorificados com ele (Col 3, 4). O nosso ser presente será transformado e ficará como Cristo glorioso (Flp 3, 21).


d) O Reino de Deus é a Nova Jerusalém

À luz da Fé Cristã, o Reino de Deus é a comunhão Universal das pessoas humanas com as divinas e outras que, porventura, possam existir. No evangelho de São João, Jesus garante-nos que, na casa do Pai, há moradas que cheguem para todos: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse como poderia eu ter-vos dito que vou preparar um lugar para vós?” Quando eu for e vos tiver preparado um lugar virei novamente e levar-vos-ei par junto de mim, a fim de que, onde eu estou, vós estejais também” (Jo 14, 2-3).

A Carta aos Hebreus diz que os crentes aguardam uma nova cidade construída pela mão de Deus e não pela mão dos homens (Heb 13, 14). Na verdade, dizem os Actos dos Apóstolos, Deus não habita em moradas construídas pela mão dos homens (Act 7, 48-49; 17, 24). Os eleitos habitarão com Deus numa cidade que não é obra dos homens, mas sim de Deus.

O Livro do Apocalipse diz que a nossa morada definitiva é a Nova Jerusalém. No dia da ira, os eleitos estarão assinalados com o nome de Deus, a fim de não perecerem (Apc 3,12). A Nova Jerusalém é a morada de Deus e da Humanidade salva em Cristo e definitivamente unida a Deus. É bem conhecida a visão grandiosa do Apocalipse que descreve a Nova Jerusalém a descer do Céu como uma jovem adornada para o encontro com o seu esposo (Apc 21,2). A cidade de Deus é o templo do Senhor, isto é, o palácio e a cidade de Deus.

Na Nova Jerusalém, os eleitos formam o povo do Senhor, pois Deus, habitará no meio deles (Apc 21,3). Na morada de Deus com os homens terminam definitivamente a dor, o medo, a angústia ou o luto, pois os seus habitantes são os eleitos de Deus. O próprio Deus, vai junto de cada um dos eleitos, beija-o e limpa as lágrimas dos seus olhos (Apc 21, 4). Deus declara o fim do mundo velho, declarando que acaba de fazer novas todas as coisas (Apc 21, 5).

A Nova Jerusalém é realmente uma Nova Criação como diz São Paulo: “Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo. Tudo isto vem de Deus que, em Cristo, reconciliou consigo a Humanidade não levando mais em conta os pecados dos homens.” (2 Cor 5, 17-19).

Na Nova Jerusalém todos encontram a plenitude da felicidade. Ninguém tem carências. Todos os eleitos são declarados como filhos e herdeiros de Deus (Apc 21, 7). A Nova Jerusalém já não depende do Sol e da Lua, pois já não há sucessão dos dias e das noites. A luz perpétua que ilumina a Nova Jerusalém é a glória de Deus, a qual brilha como se fosse uma pedra preciosa (Apc 21, 23). Todos caminham à luz de Deus e do cordeiro (Apc 21, 24).

Na Nova Jerusalém já não há templo, pois Deus torna-se presente a todos e comunga directamente com todos sem necessidade da mediação dos lugares sagrados. Como diz São Paulo, o templo do Altíssimo é o coração das pessoas: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. De facto, o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1 Cor 3, 16-17).

O que separa a pessoa humana de Deus é o pecado. Na Nova Jerusalém o pecado é totalmente abolido. Eis a razão pela qual todos levam em si o esplendor da própria glória de Deus (Apc 21, 26). Do trono de Deus e do Cordeiro dimana um rio de Água Viva que a todos conduz à plenitude da vida (Apc 22, 1).

Nas margens do Rio da Água Viva está plantada a Árvore da Vida cujo fruto confere vida eterna àqueles que o comem. O evangelho de São João associa a Eucaristia a Cristo que é a Árvore da Vida cujo fruto nos dá a Vida Eterna: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, pois eu vou ressuscitá-lo no último dia. De facto, a minha carne é uma verdadeira bebida e o meu sangue é uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come viverá por mim” (Jo 6, 54, 57).

O fruto da Árvore da Vida, isto é, o corpo e sangue do Senhor ressuscitado é o Espírito Santo, acrescenta São João, a fim de evitar qualquer associação com antropofagia (Jo 6, 62-63). A fecundidade da Árvore da vida é plena e permanente, pois produz frutos novos todos os meses (Apc 22,2). Eis o que diz o Apocalipse: “Felizes os que vencem as tribulações e a oposição dos inimigos da Fé, pois Deus dar-lhes-á a comer o fruto da Árvore da Vida” (Apc 2, 7).

Na Nova Jerusalém todos contemplam de modo directo a face do Senhor (Apc 22, 4). Esta passagem faz-nos lembrar a primeira Carta de São João a qual afirma que, no Céu, todos são semelhantes ao próprio Deus, pois contemplam-no tal como ele é (1 Jo 3, 2). A Nova Jerusalém, diz a Carta aos Hebreus, é a cidade do Deus vivo (Heb 12, 22).

A primeira Carta de São Pedro diz que Deus nos fez renascer para uma vida nova, a fim de nos conceder uma herança incorruptível que nunca será destruída (1 Pd 1, 3-6). No momento em que o Senhor Aparecer, o nosso corpo mortal, através de uma recriação instantânea, dará lugar ao corpo glorioso, o qual é espiritual e eterno (1 Cor 15, 42-45). Mediante uma transformação radical, Deus libertar-nos-á deste corpo de morte, o qual é a expressão da nossa natureza frágil e pecadora (Rm 7, 20-25).

O corpo dos ressuscitados é espiritual, em tudo idêntico ao corpo glorioso de Jesus Cristo, diz a Carta aos Filipenses (Flp 3, 20-21; cf. Rm 8, 28-30). O nosso corpo glorioso vem de Deus e é eterno., pois habitará para sempre com Deus (2 Cor 5, 1-5). No monte Tabor, Jesus mostrou aos discípulos o que será o corpo glorioso dos ressuscitados com Cristo (Lc 9, 28-32). A glória do nosso corpo glorioso depende da densidade da nossa comunhão com Cristo (2 Cor 3, 17-18).

Já começou a plenitude dos tempos. Os que viveram antes de Cristo ressuscitaram com ele. Nós, os que surgimos na história depois dele, entramos na plenitude dos ressuscitados no momento da nossa morte. Os horizontes da nossa esperança levam-nos a compreender qual é a razão fundamental da nossa vida na Terra. De modo gradual e progressivo começamos a compreender que tudo deve estar em função da plenitude da Vida Eterna. Na verdade, a finalidade da nossa existência na terra não é apenas prolongar o mais possível a nossa vida mortal, mas trabalharmos na construção da Vida Eterna.

Esta Sabedoria é um dom do Espírito Santo que, pouco a pouco, nos faz compreender o sentido desta afirmação profunda do evangelho de São Marcos: “Que importa ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua vida eterna?” (Mc 8, 36). O evangelho de São João convida-nos a seguir as pegadas de Jesus, pois ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode chegar ao Pai a não ser por ele (Jo 14, 6). Alegremo-nos, portanto, pois o Reino de Deus está a emergir de modo pleno no coração de cada ser humano.