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Maria na História da Salvação

MARIA NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO


... Maria foi uma mediação privilegiada para o acontecimento de Jesus. Como mãe, foi especialmente preparada pelo Espírito Santo para ser fiel à missão de mãe do Messias. À luz de uma fé esclarecida e livre dos devocionismos, Maria torna-se proclamação de uma Boa-Noticia de Salvação para toda a Humanidade...

A Assunção de Maria



a) E Jesus Venceu a Morte
1- A Visão Bíblica da Morte
2- A Morte na Visão Cristã
2.1 - É Importante Aprender a Viver e a Morrer
2.2 - A Vida Que Vence a Morte
3- Eis como Cristo Venceu a Morte
4- A Acção Ressuscitante do Espírito Santo

b) As Coordenadas da Vida Eterna

c) A Morte e a Assunção de Maria
1- Enquadramento Histórico
2- A Assunção Como Plenitude da Salvação


a) E Jesus Venceu a Morte

1- A Visão Bíblica da Morte

A esperança da ressurreição, no povo bíblico, precedeu o acontecimento de Cristo. Surgiu logo após a experiência dolorosa do exílio (séc. VI a.C.). Com a experiência do sofrimento justos, escravizados no exílio da Babilónia, as coisas não são, afinal, como nós imaginávamos. Nós penávamos que apenas os pecadores seriam sujeitos ao sofrimento. Deus premeia o justo e castiga com sofrimentos o pecador aqui na terra (Juiz 2, 11-15; 3, 7-8: Dt 28; Job 11, 14; 15, 15; 18, 21; Prov 3, 2ss; 10, 23; 10, 26; 4, 10-22; 9, 11). Após a morte, justos e pecadores terão sorte igual: habitar o Sheol, isto é, a mora dos mortos.

A morte física não destrói o ser humano. Com efeito, após a morte, os seres humanos subsistem, mas estão em estado de morte. Para o pensamento bíblico, o homem só vive na medida em que convive. Quando Deus criou o Homem do barro, baixou-se para lhe dar um beijo. Nesse momento, o hálito vital de Deus, o Espírito Santo, passou para o interior do Homem e este tornou-se um ser vivente. O Espírito Santo é o princípio animador de relações e o vínculo de comunhão com Deus e os irmãos.

O momento da morte, segundo o pensamento hebraico antigo, é decidido por Deus. Por outras palavras, a morte acontece no momento em que Deus decide retirar o seu hálito vital, o Espírito Santo, do interior do ser humano. O homem subsiste, mas está em estado de morte, pois está incapacitado de se relacionar, conviver e comungar com Deus e os outros. O reino dos mortos situa-se debaixo das águas inferiores (Gn 37, 25; Dt 32, 22; 1Rs 2, 6; Prov 9, 18; Job 10, 21ss; Sal 19, 18). Os mortos ficam reduzidos a sombras de vida no reino das sombras (Is 14, 9).

Com Cristo ressuscitado, o dom messiânico do Espírito Santo é total. Não só encheu a terra inteira, mas foi mesmo ao Sheol para revitalizar as sombras de vida inertes e vazias que lá estavam. Este conceito de Sheol está muito próximo do nosso conceito de inferno, a situação da pessoa reduzida a si, isto é, sem possibilidade de encontro e comunhão. A diferença entre a noção de Sheol e de inferno é que as pessoas, no Sheol não sofriam. A nossa noção de inferno implica o sofrimento da pessoa que, por decisão própria, se estruturou em estado radical de solidão. Para se possuir, se conhecer e valorizar, a pessoa precisa da mediação das relações amorosas.

O sofrimento do estado de inferno, portanto, radica no facto de o ser humano ser uma pessoa estruturada para a comunhão. A pessoa que decidiu pelo estado de inferno está reduzida a si. Ora a plenitude da pessoa não está em si, mas na reciprocidade da comunhão. Por outras palavras, a pessoa que fica em estado de inferno está profundamente mutilada.

A experiência do exílio leva os hebreus a verificar que muitos justos morreram exilados e ficaram privados do prémio merecido pela sua justiça. Começa deste modo a nascer a ideia da ressurreição, a fim de os justos poderem ser recompensados pela sua justiça. O profeta Isaías tenta responder a esta questão, dizendo que Deus ressuscitará os justos e dar-lhes-à a recompensa do seu trabalho pelo bem (Is 53, 10-1; Dan 12, 2ss; 2Mac 7, 9-23; 12, 44ss; 14, 46). Os Livros Sapienciais, por influência da filosofia pagã dos gregos, falarão da imortalidade feliz da alma dos justos junto de Deus (Sab 3, 7ss; 3, 14; 4, 2; 5, 16; 6, 19; Sal 48).

No tempo de Jesus a esperança da ressurreição ainda não era partilhada por todos os judeus. Isto quer dizer que a doutrina da ressurreição não era um dogma da fé judaica e, portanto, não era universalmente aceite: “Os saduceus negam a ressurreição bem como a existência dos anjos e espíritos. Os fariseus ensinam precisamente o contrário (Act 23, 8; cf. Mt 22, 23; Mc 12, 18; Lc 20, 27).

Apesar da crença na ressurreição, nenhum judeu a esperava antes do fim do mundo: “Eu sei que há-de ressuscitar no último dia” (Jo 11, 24). No fim do mundo, os justos, ao ressuscitar, serão retribuídos pelo bem que fizeram: “Serás feliz por eles (os pobres) não terem com que te retribuir. Ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos» (Lc 14, 14; cf. Jo 5, 29).

Eis a razão pela qual os discípulos de Jesus nunca poderiam esperar uma ressurreição imediata de Jesus. A morte de Cristo foi vivida por eles como sinal de um fracasso total. Após a experiência pascal, apercebem-se de que os últimos tempos, isto é, a fase dos acabamentos humanos, estão inaugurados. Ressurreição de Jesus, portanto, é a certeza e a garantia da nossa: “Se pregamos que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou» (1Cor 15, 12-13).


2- A Morte na Visão Cristã

2.1 - É Importante Aprender a Viver e a Morrer

O Acto de morrer é, na realidade, a derradeira possibilidade de renascer. A consciência da nossa morte ilumina o sentido que a vida tem. Os animais não sabem que irão morrer mas também não têm capacidade de criar sentidos para viver. Com efeito, os sentidos da vida e da morte caminham a passo igual. O horizonte mais amplo do sentido que a vida tem acontece na fase terminal. Nessa altura descobrimos que há causas que valem para morrer que valem igualmente para viver: o amor. Jesus disse que o sentido máximo do amor é dar a vida pelas pessoas que amamos. Quem ama até à morte nasce para a plenitude da vida. Felizes dos que gastam a vida pelas causas do amor. Para estas pessoas, a morte final já não tem o sentido de uma tragédia sem saída. De facto, souberam ir morrendo todos os dias ao homem egoísta que há em todos nós.

Este homem egoísta é o homem velho que torna a morte uma tragédia. Morrer para dar vida é a maneira mais perfeita de rebentar os muros da própria finitude. O Homem Novo não pode nascer sem que o velho vá morrendo. Não nasce a vida nova sem que a velha se vá gastando pelas causas do amor. Felizes dos que sabem ir morrendo, dando vida aos outros. Na verdade, há seres humanos que estão a renascer todos os dias para a plenitude da vida. São as pessoas que sabem morrer em cada dia ao egoísmo que há nelas.

Em geral, as pessoas, ao tomarem consciência da proximidade da morte, sentem-se mais profundamente chamadas a gastar a vida pelo amor. Na verdade, é o amor torna fecunda a vida das pessoas. Por isso a consciência da proximidade da morte é um apelo a amar mais plenamente.

Morrer... Parto fundamental para o nascimento definitivo. Convite a criar sentidos para viver. À luz da fé, a morte surge como o rebentar da casca do ovo em cujo interior está a germinar o pintainho, a interioridade pessoal e espiritual. Por ser espiritual, a nossa interioridade pessoal não cai sob a alçada da morte. O nosso ser exterior ou individual acaba no cemitério. Entra nos circuitos físicos e químicos da natureza. A nossa interioridade pessoal-espiritual, pelo contrário, entra na plenitude da comunhão universal. A morte é a porta para esta entrada definitiva. Sabemos que não há ressurreição sem morte.

Felizes são as pessoas que sabem aproveitar a vida presente para construir a vida pessoal espiritual. A razão da nossa vida na história não é apenas prolongar a vida mortal, mas construir a vida eterna. De facto, apenas o nosso ser interior, por ser pessoal e espiritual, tem densidade de vida eterna. Vista a esta luz, a morte é condição para atingirmos a nossa glorificação com Cristo Ressuscitado.

Graças ao mistério da Encarnação, a salvação já está ao nosso alcance! O Filho de Deus fez-se nosso irmão, a fim de sermos membros da família divina. Mediante esse parto derradeiro que é a morte, nascemos para a vida em plenitude. Nascemos definitiva e plenamente para Deus. A morte é a última possibilidade que nos é dada para conquistarmos a vida eterna. Ao anular o nosso ser exterior ou individual, a morte possibilita a libertação definitiva do eu interior, pessoal e espiritual. Esta é a condição para entrarmos na intimidade de Deus, Família primordial. A morte não mata a pessoa. Apenas destrói o nosso ser exterior, o qual é individual, biológico, psíquico, linguístico, rácico e espácio-temporal.

Cristo Ressuscitado tornou-se para nós a Árvore da Vida. É ele que nos oferece o fruto que nos proporciona a vida eterna. O nome deste fruto é Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade Divina. Com seu jeito maternal de amar, O Espírito Santo configura-nos interiormente com Cristo e introduz-nos na Família Divina (Rm 8, 14-17; Ga 4, 4-7). Somos gerados de novo pelo Espírito Santo. Jesus insistiu que temos de nascer de novo pelo Espírito Santo.

Graças a Cristo ressuscitado, voltamos a ter acesso ao fruto da vida eterna do qual Adão nos tinha privado (cf. Gn 3, 22-24). O Paraíso, fechado por Adão, foi reaberto para todos nós em Jesus Cristo. De Adão, homem tirado da terra, veio o nosso ser individual, exterior e mortal. Do Novo Adão, Cristo ressuscitado, veio o Homem Novo, espiritual e membro da Família de Deus.

São Paulo diz que Cristo Ressuscitado é o Novo Adão (Rm 5, 17-19). Ele é a cabeça da restaurada. É o medianeiro da reconciliação universal com Deus (2 Cor 5, 17-19). Por Ele veio a plenitude humana, isto é, o Homem assumido e integrado na Comunhão Universal do Reino de Deus. E deste modo somos organicamente inseridos na comunhão da Santíssima Trindade.

Eis o novo nascimento que culmina na nossa divinização. Mas só pela morte entramos nesta plenitude da vida eterna. O Espírito Santo, fruto precioso da Árvore da Vida, é o Espírito de Cristo, pois vem em nome de Cristo inserir-nos na Comunhão Familiar de Deus. Ao morrer, Cristo destruiu a nossa morte. Ao Ressuscitar, restaurou a nossa vida, incorporando-a na comunhão familiar da Santíssima Trindade.


2.2 - A Vida Que Vence a Morte

A curva da vida a caminhar para a morte é implacável e impõe-se a todos os seres constituídos pela vida natural. Os passos fundamentais desta curva a orientar-se para a morte são: nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Apenas a vida pessoal, por ser espiritual, escapa à ditadura implacável desta curva da vida a caminhar para a morte.

O ser humano está a realizar-se como pessoa. Realizar-se como pessoa implica uma série de relações, compromissos e realizações marcadas com a densidade da fraternidade e amor. A humanização dos seres humanos tem uma vertente exterior, isto é, social e histórica e outra espiritual ou interior. Crescer como interioridade pessoal-espiritual significa emergir progressivamente como interioridade livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de interagir amorosamente com as outras pessoas, sejam humanas ou divinas.

A este nível, a pessoa humana transcende a curva da vida natural a caminhar para a morte. Por outras palavras, a nível pessoal-espiritual não estamos talhados para terminarmos no vazio da morte. Nascemos para renascer mediante o Espírito Santo, diz o evangelho de São João (Jo 3, 3-6). Renascemos na medida em que emergimos como interioridade pessoal. Este renascimento acontece mediante relações de amor e comunhão.

A comunhão com os irmãos culmina na comunhão familiar da Santíssima Trindade. Nascemos para entrar na dinâmica da humanização cuja lei é: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal do Reino de Deus. Emergir como pessoa significa crescer em densidade espiritual e capacidade de interagir com os outros em dinâmica de comunhão. A plenitude da pessoa, portanto, não está em si, mas na comunhão com os outros.

O ser humano está a realizar-se em duas dimensões: a exterior ou eu individual e a interior que é o eu pessoal-espiritual. A nossa interioridade espiritual emerge no interior do eu individual como o pintainho dentro do ovo. Virá um dia em que o ovo vai rebentar e o pintainho nasce para a comunhão universal. A morte é este rebentamento da casca do ovo, condição para que o pintainho possa atingir a sua plenitude na Comunhão Universal do Reino de Deus.

Cada pessoa é um ponto de encontro através do qual podemos entrar em comunhão com a Humanidade e a Divindade. É como um “link” através do qual podemos conectar com Deus e o Homem. A maneira correcta de abrir este “link” é abeirar-nos dele com respeito pela dignidade da pessoa humana e veneração pela sua condição de filho amado de Deus. O drama está quando o “link” se enrosca sobre si mesmo. Neste caso, deixa de ser uma mediação para, através dele, encontrarmos Deus e o Homem.

Nascemos para renascer, emergimos como pessoas a convergir para a comunhão. A interioridade pessoal cresce em dinâmica de relações e tem densidade de vida eterna. A Divindade é pessoas e a Humanidade também. A plenitude não é constituída por pessoas isoladas, mas pela comunhão das pessoas. Por isso existe uma só Divindade, apesar de serem três pessoas. Do mesmo modo só existe uma Humanidade, apesar de serem biliões as pessoas que a constituem.

Fechada em si e separada da dinâmica da comunhão, a pessoa está estado de perdição. Apenas em relação com os outros a pessoa se possui e encontra a sua plena identidade. Isolada da comunhão, a pessoa fica em estado de inferno. Somos pessoas realizadas na medida em que temos um coração capaz de eleger o outro como alvo de bem-querer. Com efeito, a pessoa tem a capacidade de eleger os outros como irmãos, para lá dos laços do sangue.

Foi assim que as pessoas divinas nos elegeram como membros da sua Família: filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho. O Espírito Santo é a pessoa que anima as relações familiares entre Deus e o Homem. Por isso o Filho de Deus encarnou pelo Espírito Santo. As pessoas humanas não são iguais às divinas em densidade e plenitude, mas são-lhe proporcionais. Por isso pode acontecer comunhão entre o Homem e Deus.

As pessoas humanas são resultado de um processo de realização histórica. A nossa identidade pessoal é histórica. Para nos dizermos temos de contar uma história. Seremos eternamente segundo nos realizemos agora. As pessoas divinas, pelo contrário, são uma emergência permanente de perfeição pessoal infinita em total convergência de comunhão amorosa.

Não nascemos feitos, pois nascemos para renascer. O nosso ser exterior ou individual mede-se por quilos, densidade de emoções e propriedades adquiridas. É avaliado pelo que tem. O interior pessoal-espiritual, pelo contrário, mede-se pela capacidade de amar e comungar. Não vale pelo que tem mas pelo que é. É a nossa identidade definitiva. De facto, dançaremos eternamente o ritmo do amor com o jeito com que treinarmos agora.

Nascemos para emergir como interioridade livre, consciente e responsável. Estamos talhados para a comunhão com Deus. Por outras palavras, a plenitude da Humanidade acontece mediante a assunção ou incorporação na comunhão com a Divindade. Eis o sentido desta fome de renascer que levamos connosco: Transcender os limites do nosso ser individual e emergir como eu pessoal espiritual.

O nosso ser individual está votado à morte. O seu fim é o cemitério. É como a casca do ovo que, depois de o pintainho ter nascido, entra nos circuitos físicos e químicos da Natureza. Apenas a nossa interioridade pessoal, por ser espiritual e proporcional a Deus, pertence à esfera da transcendência. O sentido profundo da existência não é apenas prolongar a vida mortal, mas construir a vida imortal. Eis a razão pela qual nascemos para renascer. Dos pais recebemos a vida individual, isto é, o nível biológico e psíquico do nosso ser. Por isso temos de renascer pelo Espírito (Jo 3, 3-6).

Na medida em que emerge a nossa interioridade espiritual, passamos a pertencer à galáxia da vida personificada. É este o nível da vida eterna constituída pela comunhão das pessoas divinas, humanas e todas as outras que possam existir. O nosso ser exterior ou individual acaba no silêncio da solidão cósmica. O nosso ser interior, por ser pessoal, está chamado à plenitude amorosa da Comunhão Universal do Reino de Deus.

No mais íntimo do nosso ser, portanto, está a emergir esse núcleo espiritual que se constitui de modo gradual e progressivo em densidade pessoal livre, consciente, responsável, único, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa. Eis o que significa termos sido criados à imagem e semelhança de Deus e estarmos a caminhar, não para o cemitério, mas para a comunhão dos ressuscitados com Cristo.

É neste núcleo pessoal e espiritual que habita o Espírito Santo como num Templo. É este o coração do nosso ser onde foi derramado o amor de Deus pelo Espírito Santo que nos é dado (Rm 5, 5). É neste santuário construído não pelo homem mas por Deus que o Espírito Santo torna presente e eficaz a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Amor de Deus nosso Pai.

Renascer é abrir-se à dinâmica da Salvação que Deus nos oferece em Cristo ressuscitado. A vitória da vida sobre a morte, portanto, implica a nossa união orgânica com Cristo ressuscitado e através dele e com ele a comunhão eterna com Deus: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come, viverá por mim” (Jo 6, 56-57). À pessoa compete a tarefa da sua humanização, isto é, do seu crescimento espiritual. O Espírito Santo, com seu jeito maternal de amar, diviniza e introduz na comunhão da Santíssima Trindade, aquilo que a pessoa foi capaz de emergir espiritualmente.


3- Eis Como Cristo Venceu a Morte

A Carta aos Hebreus, fazendo alusão à oração de Jesus no jardim das Oliveiras, diz que Cristo fez orações àquele que o podia libertar da morte e foi atendido, devido à sua piedade (Heb 5, 7). Segundo este texto, Deus libertou Jesus da morte ressuscitando-o. Esta libertação deve ser entendida como algo simultâneo ao próprio acto de morrer.

Por outras palavras, Jesus não esteve um só momento sob o domínio da morte. A vitória de Cristo sobre a morte aconteceu pela acção do Espírito Santo de modo simultâneo com o próprio suceder da morte. A primeira Carta de Pedro diz que Jesus não podia permanecer sob o domínio da morte, pois nele estava o Espírito Santo, a dinâmica da ressurreição. Jesus é a própria ressurreição como diz o Evangelho de João: “ Jesus disse a marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido viverá” (Jo 11, 25).

Como o grupo apostólico só fez a experiência do ressuscitado ao terceiro dia, o autor desta carta diz que Jesus nesse tempo não esteve sob o domínio da morte. Nesse tempo intermédio entre a ressurreição e as aparições, Jesus esteve profundamente dinâmico, como diz a Escritura. Foi à morada dos mortos levar o Evangelho e ressuscitar os que estavam sob o domínio da morte (1 Pd 3, 18-19).

Esta dinâmica ressuscitante é obra Espírito e acontece, graças à união orgânica que existe entre nós e Jesus. O mistério da Eucaristia exprime de modo admirável esta interacção ressuscitante e salvadora. Jesus, no evangelho de João, lê esta dinâmica ressuscitante de Cristo na Humanidade na óptima da união orgânica e vital que existe entre Cristo e Deus Pai: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

Como já dissemos, a ressurreição de Jesus foi um acontecimento progressivo a acontecer em simultâneo com o acto de morrer. O mesmo acontece com a Humanidade depois da ressurreição de Cristo. À medida em que, no alto da cruz, Jesus ia morrendo, a ressurreição ia acontecendo, pela acção recriadora e glorificante do Espírito Santo.

Quando Jesus acabou de morrer estava totalmente ressuscitado. Enquanto a morte ia destruindo que no homem é destruído pela morte, o Espírito Santo, com seu jeito maternal de amar, ia recriando e incorporando na comunhão divina o que tinha densidade para ser assumido e glorificado na Família da Santíssima Trindade. Não existe, portanto, distância temporal entre morte e ressurreição em Jesus Cristo. À medida em que ia morrendo, o Espírito Santo ia realizando a vitória sobre a morte.

Por seu lado, a ressurreição de Cristo inicia a plenitude dos tempos, isto é, a fase dos acabamentos do projecto humano. Por outras palavras, no momento da morte e ressurreição de Cristo, inicia-se a ressurreição da Humanidade. Os que tinham vivido antes de Cristo entram com ele na plenitude da vida eterna, como Jesus garantiu ao Bom Ladrão: “Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Mateus exprime esta mesma verdade dizendo que, no momento em que Jesus morre, os túmulos começam a abrir-se e os justos a ressuscitar (Mt 27, 52-53).

O evangelho de São João, referindo-se a este momento, chama-lhe a “A HORA DE JESUS” ou “A MINHA HORA”. Esta hora, na perspectiva do quarto evangelho, é o momento da glorificação de Jesus Cristo (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14, 2-4). A Hora é o momento de Cristo subir para onde estava antes, referindo-se à presença eterna do filho de Deus junto do Pai (Jo 6, 62). É o momento da difusão do Espírito Santo (Jo 16, 7-8; 7, 37-39).

Em relação à morte cruel sofrida por Jesus, temos de dizer com toda a clareza que, aquilo que agradou a Deus não foi essa morte bárbara e cruel, mas a fidelidade total de Jesus que, apesar de ver que os inimigos o iam matar, não se desdisse. Jesus foi incondicionalmente fiel à vontade do Pai como ele mesmo declarou muitas vezes: “O meu alimento é realizar a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). E ainda: “O mundo há-de saber que amo o pai e faço como o pai me ordenou” (Jo 14, 31).

A vontade de Deus Pai, diz São Paulo, consiste em que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tim 2, 4). Jesus, no evangelho de João diz que não procurava a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou (Jo 5, 30). A partir do acontecimento da morte-ressurreição de Jesus, a dinâmica ressuscitante do Espírito Santo está plenamente activa na génese humana. A ressurreição implica assunção e incorporação da pessoa humana na Família de Deus. Esta acção está em processo, graças à presença dinâmica do Espírito Santo no coração das pessoas.

A ressurreição é algo que só acontece após a morte e ressurreição de Jesus e pressupõe, naturalmente, o mistério da Encarnação ou seja, o enxerto do divino no humano, a fim deste ser divinizado. Ressuscitar é entrar na vida eterna após o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ressuscitamos porque temos uma dimensão espiritual.

A ressurreição não significa restauração biológica ou recuperação do que no homem é mortal. Mas implica a recuperação da identidade histórica da pessoa na Comunhão com as outras pessoas, humanas, divinas ou outras que possam existir. A nossa identidade histórica é o jeito de amar que fomos adquirindo ao longo da história mediante as nossas decisões, opções, escolhas e atitudes de amor para com os outros.

No acto de morrer, o Espírito Santo restaura, assume e glorifica a identidade da pessoa humana na plenitude da comunhão universal da Família de Deus. A salvação, portanto, é integração das pessoas na comunhão da Santíssima Trindade. Eis o que diz São Paulo na Carta aos Gálatas: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama “ABBA”, Papá. Deste modo já não és escravo mas filho e, se és filho, és herdeiro pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7).

Na carta aos Romanos, São Paulo insiste de modo ainda mais explícito que a salvação acontece pela acção do Espírito Santo em nós: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14). omo dissemos acima, a divinização da humanidade só podia acontecer pelo mistério da Encarnação, isto é, pelo enxerto do divino no Humano. Mas este enxerto só atingiu as coordenadas da universalidade pelo acontecimento da morte e ressurreição de Jesus Cristo.


4 – A Acção Ressuscitante do Espírito Santo

Segundo o pensamento Bíblico, a ressurreição é obra do Espírito Santo. A morte acontece no momento em que Deus retira do interior do ser humano o hálito da vida, isto é, o Espírito Santo. A ressurreição, portanto, acontecerá quando o Espírito Santo descer á morada dos mortos e habitar de novo o coração dos que estão na morada das sombras. is a razão pela qual os cristãos afirmam no credo que Jesus, ao morrer e ressuscitar, foi à morada dos mortos, a fim de lhes comunicar o Espírito Santo. Nesse momento os túmulos abrem-se e os santos, isto é, os justos ressuscitam (Mt 27, 52-54). Por outras palavras, Jesus não foi ao Sheol como morto, mas como vitorioso sobre a morte.

Depois volta para aparecer aos seus discípulos e comunicar-lhes também o Espírito Santo, tal como faz aos habitantes da morada dos mortos. Deste modo, o sopro vital de Deus difunde-se sobre a humanidade, iniciando a dinâmica da ressurreição universal: “Subitamente ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento” (Act 2, 2).

Os discípulos vêm nisto a realização das antigas profecias: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o Meu Espírito sobre toda a criação (...). Os meus servos e servas, sobre os quais, nesses dias, derramarei o meu Espírito, hão-de profetizar” (Act 2, 17-18). É na alegria e na força do Espírito Santo que os discípulos testemunham a ressurreição (Act 5, 32).

O Espírito é a nascente da Vida Nova que germina como Vida Eterna: “A água que eu lhe der tornar-se-á, no seu interior, uma nascente de água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4, 14b). “Jesus falava do Espírito Santo que havia de receber os que nele acreditassem. Com efeito, o Espírito ainda não tinha vindo por Jesus não ter sido ainda ressuscitado e glorificado (Jo 7, 39). O Espírito Santo realiza em nós a vitória plena sobre o pecado e a morte: “A lei do Espírito de vida libertou-me da lei do pecado e da morte” (Rm 8, 2). Os que aceitam Cristo unem-se a Ele e passam a participar da Sua ressurreição fazendo um com Ele (1Cor 12,13).

O Espírito Santo vai forjando em nós o homem interior, pessoal-espiritual, que será assumido e incorporado na família de Deus: “Ainda que em nós se destrua o homem exterior, o interior renova-se diariamente” (2Cor 4, 16). É nisto que consiste o nascer de novo pelo Espírito, diz o evangelho de João (Jo 3, 6). Este nascimento lava consigo a dinâmica da ressurreição e da glorificação: “Todos nós, com a cara descoberta e reflectindo a glória do Senhor como num espelho, somos transformados de glória em glória. Somos configurados com a imagem de Cristo que reflectimos de modo cada vez mais resplandecente, pela acção do Espírito do Senhor» (2Cor 3, 18).

É este homem interior que toma parte na plenitude da comunhão universal dos ressuscitados: “Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual. Se há corpo natural, também existe corpo espiritual. O primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente. O último Adão tornou-se Espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro. Primeiro vem o natural. O espiritual vem depois» (1Cor 15, 44-46a). É este homem pneumático, pessoal-espiritual, que se torna filho de Deus e herdeiro do Reino de Deus com Cristo (Rm 8, 15-17; Gal 4, 5-7). Ao formarmos uma unidade pneumática com Cristo, tornamo-nos corpo de Cristo: “Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um na parte que lhe toca” (1Cor 12, 27).

Tudo isto se deve à diversidade da acção do Espírito Santo nos crentes: “Há, pois, diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito de todos” (1Cor 12, 4-7).

Como dinamismo ressuscitante, o Espírito Santo foi comunicado à Humanidade apenas depois de Cristo ter sido ressuscitado. Como sabemos, o Espírito Santo é uma pessoa. Ninguém pega numa pessoa para a dar a outra como se de uma coisa se tratasse. Quando dizemos que Cristo ressuscitado nos comunica o Espírito ressuscitante, queremos dizer que Jesus ressuscitado, homem igual a nós, mas em coordenadas de plenitude e universalidade nos dá a possibilidade de, através dele, interagirmos com o Espírito Santo de modo intrínseco (Jo 7, 37-39).

Por outras palavras, é por Jesus Cristo ressuscitado que somos incorporados na plenitude dos ressuscitados, graças à ternura maternal do Espírito Santo: “Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus (...) Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne. O que nasce do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: tendes de nascer de novo» (Jo 3, 3-7).

Com Cristo ressuscitado foram inaugurados os últimos tempos. Teve início a fase dos acabamentos, isto é, começou a dinâmica da ressurreição. Com Cristo ressuscitado a história humana ganhou uma nova dimensão: a dinâmica pascal que é o processo da divinização do Homem. A Humanidade está já em processo de ressurreição no Espírito e as pessoas, no momento da sua morte, ficam em plenitude de ressuscitadas.

A incorporação na comunhão da Família divina acontece como assunção, plenificação, divinização e incorporação na comunhão das pessoas divinas. Pela qualidade da acção da vida se conhece e manifesta a sua densidade e qualidade. Quando o Messias vier, anunciavam os profetas, a difusão do Espírito proporcionará a capacidade de interagir em densidade nova com o Senhor Deus. Era esta Vida Nova no e com o Espírito Santo que os profetas anunciaram.Graças a esta interacção nova com o Espírito Santo, a Humanidade é reconciliada com Deus, pois o Senhor concede a todos os homens o perdão e a reconciliação (Jer 31, 31-34).

São Paulo diz que os que estão em Cristo ressuscitado são uma nova criação. Tudo isto é realizado por Deus que nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19). Este não levar mais em conta os pecados dos homens quer dizer que, na Nova Aliança, Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria decisão.


b) As Coordenadas da Vida Eterna

No plano de Deus, a Salvação tem como meta a incorporação da Família Divina. As três pessoas divinas, os biliões de pessoas humanas e todas as outras que possam existir neste Universo quase infinito, formam a Comunhão Universal do Reino de Deus. Nesta comunhão cada pessoa é um ponto de encontro e uma possibilidade de comunhão amorosa para as outras pessoas.

Por estar em coordenadas de universalidade e em estado de plenitude, as aspirações das pessoas têm realização imediata. Por outras palavras, no Reino de Deus, as aspirações de encontro, diálogo e comunhão de uma pessoa tornam-se imediatamente realidade. Não devemos esquecer que, no Reino de Deus, a pessoa está assumida e incorporada na comunhão universal dos santos cujo coração é a comunhão da Santíssima Trindade.

Na plenitude da vida a pessoa está realmente presente a tudo e a todos. Não por se deslocar a velocidades superiores à da luz, mas porque os desejos do seu coração têm emergência e realização simultâneas. Tudo isto acontece dentro da organicidade e dinamismo da comunhão universal. ma pessoa que se tenha excluído da comunhão universal não se encontra nem encontra ninguém, pois está fora das coordenadas da comunhão universal. Demos um exemplo: imaginemos a comunhão universal do Reino de Deus constituída por biliões e biliões de pessoas.Uma pessoa, que aspire encontrar-se em interacção dialogante e amorosa com outra pessoa não precisa de andar a buscar essa pessoa no meio de uma multidão incontável.

Como vimos acima, as aspirações da pessoa tornam-se realidade na medida em que emergem no seu coração. Enquanto está em realização na História, o ser humano habita as coordenadas do espaço e do tempo. Deus, pelo contrário, não habita a espacio-temporalidade, pois está em coordenadas de omnipresença amorosa.

Deus está presente ao universo mediante uma relação de criação amorosa. Com efeito, no início do Universo estava o amor, pois Deus é amor. O amor é um impulso de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão. Como sabemos, Deus é uma comunhão amorosa de três pessoas. E o Universo surge a partir do diálogo e comunhão amorosa da Trindade Divina. Não como um prolongamento necessário, mas como a realização de um projecto que brotou do diálogo amoroso das pessoas divinas. E Deus imprimiu as suas impressões digitais no tecido da criação. Eis a razão pela qual a Humanidade, por ser constituída por pessoas, atinge a sua plenitude na comunhão com a Divindade.

Mediante a morte, o ser humano liberta-se das coordenadas biológicas, psíquicas, rácicas, linguísticas e espacio-temporais. À luz da Fé, a morte surge realmente como o parto final através do qual a pessoa humana atinge a sua plenitude, isto é, a comunhão universal nas coordenadas de Deus. Pela incorporação na comunhão familiar da Santíssima Trindade, o ser humano é divinizado. A divinização, portanto, não acontece como coisa individual, mas como resultado da assunção pessoal na comunhão humana universal.

Esta incorporação na comunhão divina assenta sobre dois pilares fundamentais: a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a ressurreição de Jesus Cristo. Pela encarnação, o divino enxerta-se no humano em Jesus Cristo. Como resultado deste enxerto, todos os seres humanos ficam com a possibilidade de se tornarem membros da família divina: “Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo encarnou e habitou entre nós” (Jo 1, 12-14).

Pela ressurreição de Cristo, a Humanidade é divinizada pelo Espírito Santo: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água viva”. Jesus disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que cressem nele. Com efeito, o Espírito Santo ainda não tinha vindo em virtude de Jesus não ter sido ainda glorificado” (Jo 7, 37-39).

O Espírito actuava no mundo desde a criação do homem. Foi a comunicação primordial do Espírito Santo que fez do Homem um ser vivente, diz o livro do Génesis (Gn 2, 7). Mas o Senhor ressuscitado comunica o Espírito de maneira divinizante, isto é, de forma intrínseca, de tal modo que o Espírito Santo faz de nós um todo orgânico com Cristo. Jesus é a cepa da videira, diz o evangelho de João, e nós somos os ramos que recebem a seiva vital dessa cepa (Jo 15, 1-8).

São Paulo diz esta mesma verdade mas com outro exemplo: nós somos os membros de um corpo cuja cabeça é Jesus Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27). E isto acontece pelo Espírito Santo: “De facto, fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo tanto os escravos como os homens livres, todos bebem de um só Espírito” (1 Cor 12, 13).

O Espírito Santo, diz Paulo, é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Como ternura maternal de Deus e princípio animador de relações, o Espírito Santo confere dinamismo amoroso à nossa relação familiar com Deus. Graças a esta acção dinâmica do Espírito Santo, somos acolhidos por Deus Pai como filhos e por Deus Filho como irmãos.

Eis o que diz São Paulo a este propósito: “De facto, todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filho de Deus. Vós não recebestes um espírito que vos escravize. Pelo contrário, recebestes o Espírito Santo que faz de vós filhos adoptivos. É por este Espírito que clamamos “Abba”, ó pai. O próprio Espírito Santo dá testemunho no mais íntimo do nosso espírito de que somos realmente filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14.17). ó um amor infinito e incondicional era capaz de sonhar um projecto com esta ternura e beleza em favor da Humanidade!


c) A Morte e a Assunção de Maria

1- Enquadramento Histórico

Nunca passou pela cabeça dos Santos Padres que os cristãos pudessem, um dia, duvidar da morte de Maria. Isto compreende-se, pois nunca lhes passou pela cabeça que Maria não participasse da condição de Adão. Como Adão, diz S. Agostinho, Maria teve de saldar a divida do pecado original através da morte. O seu filho, pelo contrário, morreu para destruir o pecado [Comm. in Ps. 34, 3].

Este era o pensar comum dos Santos Padres. A Teologia posterior, baseando-se nos evangelhos apócrifos ou pseudo evangelhos e movida por uma devoção desvinculada das fontes bíblicas, vai afirmar que Maria não morreu. Os Apócrifos ou pseudo evangelhos inspiradores desta distorção são sobretudo o conjunto de escritos conhecidos como “Trânsito da Bem-aventurada Virgem Maria”. Trata-se de uma colectânea de textos que relatam uma variedade enorme de prodígios relacionados com os últimos momentos de Maria.

Naturalmente que se trata de pura imaginação devocional. Estes escritos afirmam que Maria não morreu. Ao aproximar-se o tempo de sair da terra, aparece-lhe o Seu filho que a previne da proximidade da passagem para a plenitude da glória. Poucos momentos antes da sua passagem para a glória, os apóstolos são transportados das diversas partes do mundo onde estavam a pregar e encontram-se miraculosamente todos reunidos junto do leito de Maria.

A seguir acontecem vários milagres para indicar a passagem de Maria para junto do Seu filho. A passagem de Maria acontece sob a forma de morte aparente. Como os discípulos pensam que Maria está morta, sepultam-na no Jardim das Oliveiras. Em seguida é levada milagrosamente pelos anjos para o para o céu (cf. Melchor de Santa Maria, Maria en los escritos de los doce primeiros siglos, in Theotocos, op. cit., p. 76).

Os Padres gregos, sempre mais predispostos ao maravilhoso, sobretudo quando se trata de Maria, no século sétimo introduzem no seu calendário litúrgico uma festa para celebrar a passagem de Maria para o céu. Antes desta data falava-se da dormição ou migração de Maria. Nos finais do século sétimo, esta festa passa também para o Ocidente.

O sentido dado a esta festa está todo ele fundamentado nos textos dos pseudo evangelhos do Trânsito da Bem-aventurada Virgem Maria. As homilias relacionadas com esta festa não são mais que repetições dos textos apócrifos (Melchor de Santa Maria, Maria en los escritos de los doce primeiros siglos, in Theotocos, op. cit., p. 76).

No princípio ainda se admitia que a dormição ou migração significava morte real seguida de ressurreição imediata. O corpo de Maria é transformado e torna-se corpo pneumático durante o tempo que mediou entre a morte e ressurreição, inspirando-se na descrição de São Paulo sobre ao que não haviam de morrer, aquando da vinda de Cristo (cf. 1Cor 15, 42-50).

Embora entendendo a ressurreição de modo biológico, os teólogos dos séculos VII e VIII eram mais realistas que os posteriores. Com efeito, a partir do século IX, os teólogos começam a afirmar que o corpo de Maria foi trasladado, tal como estava no momento da morte, para o paraíso terrestre onde permanece incorrupto. O paraíso terrestre, nesta perspectiva, não era o céu, mas o lugar privilegiado do qual Adão tinha sido expulso.

Estes modos distorcidos de descrever as coisas vão dar origem à doutrina de Maria isenta do pecado original. Como a morte é fruto do pecado original, não tinha sentido falar da morte de Maria. Estes escritos bizarros vieram a inspirar em grande parte a doutrina dos “Mórmones”. passagem de Maria para a glória dá-se, portanto, em duas etapas: Em primeiro lugar, o corpo de Maria vai para o paraíso, o lugar onde viveu Adão e Eva antes do pecado original. Por seu lado, alma de Maria vai para o céu, onde intercede em favor da ressurreição do seu corpo e da ressurreição dos nossos corpos (Melchor de Santa Maria, Maria en los escritos de los doce primeiros siglos, in Theotocos, op. cit., p. 76).

Esta teologia estranha a toda a tradição nasce no Oriente. Ainda no século IX, surgem no Ocidente alguns teólogos que se opõem à ideia da ressurreição antecipada de Maria. A mãe de Jesus ressuscita apenas quando os na mesma altura em que acontecer a ressurreição universal dos mortos. O pensamento teológico do Ocidente começa a opor-se cada vez mais à doutrina da dormição, vinda assim a instaurar-se a festa da Assunção de Maria, a qual vai cair em distorções muito parecidas às do Oriente. O teólogo que combate mais estas distorções teológicas de tipo devocional é Pascásio Radberto (Melchor de Santa Maria, Maria en los escritos de los doce primeiros siglos, in Theotocos, op. cit, p. 77).

No século XII, são já muitos os escritos em favor da Assunção de Maria ao céu em corpo e alma. O corpo de Maria foi elevado ao céu, mesmo antes de ter sido sepultado. Para justificar esta doutrina recorre-se ao paralelismo antitético dos Padres que opunham Maria a Eva (cf. Dial. Tryph. 100; Adv. Haer. III, 22, 4; V, 19, 1; De Car. Christi, 17). Eva foi a mãe da morte para os homens. Maria foi a mãe da vida. Eis a razão pela qual a mãe da vida não podia ficar sujeita à morte. A salvação da humanidade deve-se ao «Fiat» de Maria.

A gratuidade do amor salvador de Deus e a salvação radicada no dom do Espírito Santo ficam esquecidos. Não se entendia que o plano salvador de Deus não estava condicionado a Maria. Com efeito, nenhuma mediação, por si só, é capaz de alterar o plano criador e salvador de Deus. Neste período, interpretava-se a figura de Eva como realidade histórica. Opondo Maria a Eva, atribuía-se a Maria um papel determinante, exactamente tão determinante como o papel oposto de Eva.

É fundamental termos presente que a Assunção de Maria não pode ser a proclamação de uma excepção em relação ao plano de Deus para todos os homens. As prerrogativas proclamadas pela dogmática da Igreja acerca de Maria são uma Boa Nova para todos os homens. Doutro modo, não passariam de meras curiosidades. Na mariologia tradicional, Deus aparecia como um ser arbitrário que substitui as pessoas. Isto é a negação da própria realidade divina. Deus não concede um dom a ninguém sem que a pessoa o possa aceitar. Aliás, não seria dom, mas imposição.

Falar da assunção de Maria significa falar da assunção da Humanidade. Proclamar a assunção de Maria após a morte é falar da nossa assunção, a qual implica a nossa incorporação, plenificação e incorporação na comunhão universal do Reino de Deus. É esta a sorte de todos os homens que orientaram a sua vida pelos critérios do amor. Através de Cristo, tal como nós, Maria foi ressuscitada, assumida e glorificada na plenitude da comunhão do Reino de Deus.

É verdade que isto aconteceu logo após a sua morte, tal como sucede connosco. Esta realidade, no entanto, nada tem de biológico. Em 1950, Pio XII ainda duvidava se Maria teria morrido. Por isso a forma da definição ainda tem uma carga biológica. O papa ainda fala do corpo e da alma e não menciona a morte de Maria (cf. Denz. 3903).

Como já vimos, graças à ressurreição de Cristo foi-nos comunicado o princípio ressuscitante que é o Espírito Santo. É também no mesmo Espírito Santo que acontece a nossa assunção, pois somos assumidos comunhão da Santíssima Trindade como membros da Família Divina. Em Jesus Cristo ressuscitado, a força do Espírito Santo passa a circular no íntimo do nosso coração. sangue de Deus, a vida espiritual do Espírito Santo, passa a circular no nosso tecido espiritual: “Se alguém está em Cristo é uma nova criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo. Tudo isto vem de Deus que, por meio de Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2Cor 5, 17-19).

Pela ressurreição, o homem carnal torna-se espiritual (1Cor 15, 44-16). Mas atenção, pois a carne e o sangue não podem participar no Reino de Deus (1Cor 15, 50). Para entrar na vida nova do Espírito Santo é preciso nascer de novo, diz o evangelho de João (Jo 3, 6).


2- A Assunção Como Plenitude da Salvação

Não há ressurreição sem morte. O homem interior, isto é, a nossa interioridade pessoal-espiritual não pode nascer sem que vá morrendo o homem exterior no que ele tem de leis contrárias ao amor e à comunhão. Se Maria não tivesse morrido, não podia ter sido assumida na plenitude dos ressuscitados. Esta plenitude, como já vimos, nada tem a ver com um corpo biológico: “Quando ressuscitarem de entre os mortos, nem casarão nem se darão em casamento. Serão como os anjos, no céu” (Mc 12, 25).

Também não se trata de mera imortalidade. Os que estão em estado de inferno são imortais, mas estão, como vimos acima, em estado de morte. A Sagrada Escritura vê a plenitude da vida em termos de ressurreição com Cristo. É esta a condição de Maria, a primeira ressuscitada. rimeira, entenda-se não porque ressuscitou em primeiro lugar, mas pela sua dignidade de mediação privilegiada para o acontecimento messiânico: “A plenitude de Maria, portanto, não radica numa a-mortalidade, isto é, numa ausência de morte biológica. A morte biológica é um acontecimento universal. É o termo da curva biológica. É certo que o homem começa por ser um dado biológico. A realidade humana, no entanto, não se esgota neste dado. A dimensão biológica do homem é a matriz para a emergência da interioridade pessoal-espiritual (cf. Calmeiro Matias, Deus quis o Homem em Construção, ed. do Autor, 1981, Lisboa, pp. 99-106).

À medida em que se realiza, a pessoa emerge como interioridade consciente, livre, responsável, única, original, irrepetível e capaz de reciprocidade amorosa. É nesta realidade interior que radica a possibilidade de Deus incarnar mediante o Espírito Santo. É também nesta condição de interioridade pessoal-espiritual que radica a possibilidade de o homem ser assumido divinamente.

A dinâmica da ressurreição não se reduz à simples densidade espiritual da imortalidade. A imortalidade supõe apenas a irreversibilidade espiritual. A ressurreição, pelo contrário, implica a dinâmica da assunção e plenificação da pessoa humana na comunhão divina. Por outras palavras, o projecto salvador de Deus implica a ressurreição e assunção da pessoa na Comunhão do Reino e não apenas a sua imortalidade.

Por outro lado, é importante libertar a noção de ressurreição de qualquer ideia biológica. A ressurreição da carne, em termos bíblicos, não se confina ao conceito helenista de restauração biológica. O homem-carne, para a Bíblia, é a pessoa como ser estruturalmente relacional e genealogicamente interligado em comunhão com todas as outras pessoas. O conceito bíblico de carne não é de modo nenhum um conceito de tipo genético ou biológico.

A ressurreição surgiu no mundo bíblico ligada à ideia de retribuição do justo após a morte e está associada à noção de assunção na comunhão com Deus. A dinâmica da ressurreição e assunção da pessoa na Festa da Salvação está associada à interioridade pessoal-espiritual que, pelo Espírito Santo, entra na plenitude de Deus: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, há-de dar igualmente vida aos vossos corpos por meio do Espírito que habita em vós» (Rm 8, 11).

O corpo pneumático dos ressuscitados não é o corpo biológico ou natural. Este corpo natural é apenas a matriz em cujo interior emerge a nossa identidade histórica de tipo espiritual. Falando aos helenistas, São Paulo evita o termo bíblico de ressurreição da carne. Ele compreendia que o termo seria distorcido. Fala do corpo para indicar a mediação de comunicação com a nossa identidade espiritual mais profunda. Mas diz expressamente que este corpo é espiritual e não biológico.

Além disso, Paulo quer acentuar que os ressuscitados, apesar de serem totalmente espirituais, não pessoas e não almas, isto é, entidades que não tenham emergido historicamente dentro do corpo biológico: “Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual” (1Cor 15, 44a). Esta dinâmica ressuscitante do Espírito está já a actuar no homem pessoal-espiritual, pois só este é o sujeito da ressurreição: “Ainda que em nós se destrua o homem exterior, o interior renova-se diariamente pela acção do Espírito” (2Cor 4, 16).

Esta dinâmica ressuscitante vai-nos configurando, de modo gradual e progressivo, com Cristo ressuscitado. Restaura-se assim o homem sonhado por Deus em perfeita harmonia com Cristo (2Cor 4, 4b). Ou ainda: “Todos nós, com a cara descoberta, vamos reflectindo a glória do Senhor como num espelho. Vamos sendo progressivamente transformados de glória em glória nessa imagem, sempre mais resplandecente, pela acção do Espírito do Senhor” (1Cor 3, 18).

Esta transformação, portanto, nada tem de biológico. É esta a obra maravilhosa que é a nossa união orgânica com Cristo que se exprime de modo magnífico na Eucaristia: “O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 63).

A mariologia tradicional distorceu profundamente esta verdade. Ainda em meados do século XX, escritores como Cordiglia entendiam a assunção de Maria em termos biológicos: “Graças à imunidade do pecado original, Maria esteve imune da morte e da velhice, da morte entendida como separação do corpo e da alma, por isso mesmo da corrupção do corpo» (Judica Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, op. cit., p. 168).

E noutra passagem afirma: «A vida de Maria não terminou com a morte, como separação do corpo e da alma. A vida de Maria terminou com uma transformação precedida, evidentemente, de uma fase, um momento não ordinário, mas cheio de milagre. Para os que estavam junto dela, este momento pareceu-lhes quase uma morte. Dizemos quase, na medida em que tinha as características exteriores da morte. Mas era mais semelhante ao sono. Por esta razão foi chamada dormição (koimesis) ou bom sono» (Judica Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, op. cit., p. 169). s dons da salvação em Maria são os mesmos que Deus nos concede em Cristo ressuscitado. Poclamar as maravilhas de Deus em Maria é, na verdade, reconhecer o seu amor por todos os homens.


A Imaculada Conceição de Maria




a) Enquadramento Histórico

b) A Releitura do Dogma
1- Questões Preliminares
2- Maria e as Consequências do Pecado Original
3- Reformulação da Doutrina da Imaculada
4- Sentido bíblico-teológico da Imaculada
5- A Imaculada Conceição, Como Boa Nova


a) Enquadramento Histórico

No século segundo desaparecem praticamente da Igreja os cristãos de origem judaica. Daqui em diante, a Fé começa a difundir-se entre os pagãos de cultura helenista, dando origem a uma linguagem nova da Fé, a qual se distancia profundamente da linguagem bíblica. Assim, por exemplo, Jesus Cristo deixa de ser o filho de David constituído filho de Deus (cf. Rm 1, 3-5). Agora vai ser sobretudo o Logos, não no sentido que lhe confere o evangelho de João, mas sim no sentido do Logos do pensamento platónico. Deste modo Cristo torna-se o Logos a agir na humanidade de Cristo. Segundo este modo de entender a realidade de Cristo, Jesus perde a autonomia humana.

Maria torna-se a colaboradora de Deus Pai para o acontecimento de Cristo. Pouco a pouco, Maria deixa de ser uma mãe como as demais mães. Vai sendo progressivamente privada da sua realidade humana normal para Se converter em excepção. Tudo isto foi mais uma maneira de diminuir a realidade da mulher, já tão profundamente inferiorizada pelas culturas antigas.

Nos séculos segundo e terceiro ainda não tinha qualquer sentido falar de Maria como mulher isenta das consequências do pecado de Adão. Isto significaria fazer dela uma excepção estranha no conjunto dos seres humanos. Não é por acaso que a Igreja Ortodoxa, apesar da sua grande devoção a Maria, não reconhece o dogma da Imaculada Conceição de Maria.

Para os teólogos dos primeiros séculos apenas Cristo não herdou as consequências do pecado de Adão em virtude deste não ter tido pai humano. O óvulo mamífero foi descoberto apenas em 1824. Até esta altura pensava-se que os seres humanos só eram geneticamente filhos dos pais. Eis a razão pela qual que pensava que o pecado de Adão se transmitia através do pai. Como Maria teve pai humano, tinha que ter herdado as consequências do pecado de Adão.

Referindo-se à morte de Maria, Santo Agostinho diz que ela teve que pagar com a morte o facto de ter sido filha de Adão. No século terceiro, diz-se que apenas Jesus não participou da condição de Adão por não ter tido pai humano. Ainda nos séculos Doze e Treze grandes teólogos como S. Tomás ou S. Domingos rejeitam a ideia de Maria não ter sofrido as consequências do pecado original.

Os Santos padres falavam de Maria, a santificada, e não de Maria, a Imaculada. É esta ainda hoje a linguagem e a interpretação da Igreja Ortodoxa. Maria, portanto, foi santificada pela acção do Espírito Santo, no seio de sua mãe, tal como aconteceu com João Baptista (cf. Lc 1, 41). No pensamento dos teólogos dos primeiros séculos, Maria foi fruto de uma concepção humana normal. Isto que dizer que ela, tal como acontece com os demais seres humanos, sofreu a «infectio carnis», isto é, a distorção e enfermidade do pecado de Adão.

Isto era aceite sem qualquer dificuldade, pois se o Espírito Santo operou a santificação de João Baptista enquanto este permaneceu no seio materno, com muito mais razão o teria feito em relação à mãe de Jesus. Na Idade Média, S. Boaventura e S. Alberto Magno começa a dizer que a santificação de Maria no seio materno aconteceu logo no momento da infusão da alma no corpo de Maria.

Como sabemos, para a Bíblia, não existe o momento da animação ou da infusão da alma. O ser humano forma um todo dinâmico. A dimensão espiritual emerge no interior do ser humano como o pintainho dentro do ovo. A pessoa humana é um ser em construção tanto na dimensão somática como na psíquica e na espiritual. Santo Tomás ainda fala apenas na santificação de Maria no seio materno [cf. K. Elisabeth Borresen, Maria na teologia católica, in Conc. nº 188, 1983, p. 83]. A doutrina da Imaculada Conceição começa a delinear-se na Europa a partir do século XI. Neste período, começa a celebrar-se em Inglaterra a festa da Imaculada Conceição de Maria.

Para os pensadores deste período, a Conceição significava o momento em que a alma era infundida no feto. No essencial, o conceito de imaculada Conceição, neste período, não se distinguia do conceito de santificação no seio materno. Alguns teólogos diziam expressamente que Maria fora santificada por Deus no momento da animação ou infusão da alma. Muito antes de se fazerem estas afirmações na Igreja Católica já a Igreja Ortodoxa celebrava a festa litúrgica da santificação de Maria.

João Duns Scoto, da escola franciscana, começa a falar da animação ou infusão da alma logo que o sémen masculino penetra nas vias maternais da mulher. Como consequência, a santificação de Maria coincide com o momento da fecundação. Isto leva os teólogos franciscanos da Idade Média a anteciparem a Imaculada Conceição para o momento da fecundação. Maria é isenta do pecado de Adão no momento da Sua concepção [cf., K. Elisabeth Borresen, Maria na teologia católica, in Conc. nº 188, 1983, p. 83].

E foi assim que os franciscanos começam a pregar na Europa a doutrina de Maria Imaculada ou isenta do pecado de Adão desde o primeiro momento da Sua concepção. Esta linguagem corresponde a dizer que Maria não precisou de ser santificada, pois foi isenta do pecado original e, portanto, cheia de Graça desde a sua Conceição.

A partir de S. Agostinho (séc. V), o pecado de Adão tornara-se o pecado original que é transmitido através do pai. A comunicação do pecado original implica a perda de uma série de dons preternaturais, isto é, que não eram devidos à natureza. O pecado original, por ser um pecado universal, é um pecado inscrito na natureza. Este operou uma distorção humana, dando origem, diz Santo Agostinho, à concupiscência, isto é, os apetites desordenados nos seres humanos. A concupiscência significa a distorção operada pelo pecado de Adão no que se refere ao domínio corporal.

No que se refere à alma, a consequência do pecado manifesta-se numa mancha. Ao contactar com o corpo corrompido (infectio carnis), a alma fica manchada. Segundo Santo Agostinho, a mancha do pecado original apenas é limpa pelo baptismo. Todo este labirinto de raciocínios influenciados pelo platonismo afasta a Fé da sua dinâmica bíblica. Esta noção agostiniana de pecado vai marcar o pensamento da Igreja até ao Concílio Vaticano Segundo.

O dogma da Imaculada Conceição foi pensado partindo desta visão do pecado original. Uma vez que a doutrina do pecado original foi profundamente reformulada é necessário reformular igualmente a doutrina da Imaculada Conceição. S. Domingos de Gusmão era um grande devoto de Maria. Apesar disso opõe-se tenazmente às doutrinas da Imaculada Conceição. A escola dominicana é uma grande rival da escola franciscana no que se refere à propagação da doutrina da Imaculada Conceição. São Domingos e os dominicanos afirmavam simplesmente que esta doutrina não estava de acordo com a tradição da fé. O Fundador dos dominicanos defendia apenas a doutrina tradicional da santificação de Maria no seio materno.

Se Maria teve pai não tem sentido falar de isenção de pecado original, pois o pecado de Adão ou «infectio carnis» está já inscrito no sémen masculino. Se Maria surge do sémen masculino, não tem sentido falar de isenção do pecado de Adão. Maria, tal como João Baptista e Jeremias, foram santificados no seio materno, pois os três foram chamados desde o seio materno para realizarem uma missão especial. Sixto V intervém proibindo as duas escolas de continuarem as discussões sobre esta questão. Mas tolera-se à corrente franciscana continuarem a falar das suas teses [K. Elisabeth Borresen, Maria na teologia católica, in Conc. nº 188, 1983, p. 67].

Em 1439, o Concílio de Basileia declara a Imaculada Conceição de Maria como dogma. No entanto, devido aos conflitos do Concílio com o Papa Eugénio IV, esta declaração dogmática foi declarada ilegítima. E esta questão ficou mais ou menos em parêntesis até meados do século XIX, embora se fosse desenvolvendo uma corrente cada vez mais forte a favor da tese da Imaculada Conceição.


b) A Releitura do Dogma

1- Questões Preliminares

O avanço das ciências bio-genéticas demonstrou que os conceitos clássicos do fenómeno reprodutivo não eram correctos. Em 1824, Baer descobre o óvulo mamífero. Isto significa que a mãe e o pai participam com igual património genético na procriação dos filhos. A teologia, no entanto, não corrigiu os pressupostos sobre os quais assentava a ideia da transmissão do pecado original.

Este desconhecimento dos novos dados da ciência por parte da teologia faz que, por vezes, se façam certas afirmações que, aos olhos dos cientistas se tornam um pouco ridículas. Estas afirmações eram feitas para justificar a formulação literal do dogma da Imaculada Conceição de Maria.

Por exemplo um teólogo italiano chamado Judica-Cordiglia dizia por volta de 1960: “Antes de mais, podemos dizer que Maria esteve imune dos males corporais e da velhice que começa com o princípio da vida (Minot). Este processo é consequência das alterações celulares produzidas por venenos intra e extra-celulares ou, como afirmam alguns autores, por substâncias inibidoras contidas no soro do sangue. Estas são expelidas por todas as células do organismo ou também, segundo outros, por deficiências de harmonias vitamínicas. Em segundo lugar, é lícito pensar que a Virgem esteve imune desta mesma morte, entendida como destruição dos componentes dos diversos tecidos» (Judica-Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, Enciclopédia Mariana, p. 167).

A biologisação da fé levou a distorcer muitos aspectos da verdade do Homem na teologia e do projecto salvador de Deus. Na raiz desta distorção está certamente o facto de o conceito bíblico de carne não ter sido entendido pelo cristianismo de origem pagã, o qual perdeu o sentido da cultura bíblica. Deste modo se reduz a uma questão biológica a questão da Imaculada Conceição, tal como antes se reduzira a biologia a Eucaristia, a ressurreição, a virgindade de Maria e o próprio mistério da Encarnação.

Eis a razão pela qual se torna tão importante a reformulação teológica destes aspectos da fé, a fim de a mesma se tornar Boa Nova (Evangelho) para os homens do nosso tempo. Em relação, por exemplo, à ressurreição, apesar da insistência de Paulo sobre o facto de esta radicar, não numa realidade biológica, mas pneumática (1Cor 15, 50), os Padres passaram a falar da ressurreição como de uma realidade biológica. Do mesmo modo, pretender que Maria não envelheceu nem morreu significa dizer que Maria não se realizou como pessoa humana. Mas é curioso que estes exageros não se afirmaram de Jesus Cristo.

Não podemos ignorar que o homem é um ser em realização histórica. A sua missão fundamental é humanizar-se. A lei da humanização da pessoa é: emergência pessoal em mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal. O nível biológico da vida humana é a matriz na qual e a partir da qual emerge esse ser interior de nível pessoal-espiritual.

São Paulo, tal como o evangelho de São João, insiste em que o dado biológico não toma parte no Reino de Deus (1 Cor 15, 50; cf. Jo 6, 63). O que nasce da carne é carne, acrescenta o evangelho de São João. Apenas o que nasce do Espírito pertence à esfera espiritual da vida definitiva do Reino. (Jo 3, 6)

É certo que o pecado pode ter consequências negativas tanto a nível biológico como psíquico. Com efeito, o pecado é gerador de morte não natural, isto é, provocada. Isto, no entanto, não significa que a curva biológica humana do nascimento, crescimento, envelhecimento e morte seja produto do pecado do pecado original. A morte é uma lei universal da biosfera, que é muito mais vasta que a questão da biologia humana.

Não se pode deduzir da Bíblia uma conclusão teológica defensora da a-mortalidade. A Bíblia apenas acentua a relação entre pecado e morte violenta ou provocada. Em vez da dinâmica da fraternidade, o pecado introduz na marcha da história a dinâmica negativa do fratricídio (Gn 4, 1-12).

A Bíblia oferece dados teológicos suficientes para concluirmos que Deus não nos criou para a morte (Sab 5, 15s; 6, 18s). Segundo a visão teológica da Bíblia, a vitória de Deus sobre a morte não é conseguida pela a-mortalidade (biologia), mas pela ressurreição. O conceito de ressurreição, para a Bíblia, assenta numa interacção de reciprocidade comunitária com os demais homens e com Deus. Por outras palavras, a ressurreição nada tem a ver com um processo de reanimação biológica. Mais que a morte em termos corpóreos, o pecado provoca a morte pneumática que é a auto exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os irmãos (Jo 5, 24; Rm 8, 6; 1Cor 15, 21).

É importante reformularmos a nossa Fé, a fim de termos uma Boa Notícia a anunciar aos homens do nosso tempo. Esta reformulação só pode ser feita se soubermos regressar às origens do património da Fé, como manda o Concílio do Vaticano Segundo. Como sabemos, os fundamentos da nossa Fé são as Escrituras.

2- Maria e as Consequências do Pecado Original

A Mariologia tradicional não se estruturou a partir dos fundamentos bíblicos e patrísticos. O motor que fez evoluir a teologia sobre Maria foi o devocionismo. É isto que explica, por exemplo, que a Mariologia dos séculos XIX e primeira metade do século XX tenha feito afirmações sobre Maria que representam um retrocesso enorme em relação à teologia Bíblica e à teologia que os Santos Padres desenvolveram ao longo dos primeiros séculos da Igreja. Muitas das afirmações desta mariologia devocionista chega a tocar as raias do absurdo, acabando por prestar um serviço negativo à Fé.

Assim, por exemplo, Deus aparece nesta Mariologia como alguém que manipula directamente as leis da biologia. Determina Maria, sem ela ter parte no Seu destino. Vejamos, por exemplo, algumas afirmações de Judica-Cordiglia: “Do ponto de vista médico, podemos pensar, se não há objecções teológicas, que o omnipotente restituiu à Virgem a completa imortalidade dos tecidos e, respectivamente, dos órgãos. Tal como a teologia reconhece, esta imortalidade fora concedida ao homem no acto da criação e perdida depois pelo pecado original. Talvez mais que restituir, Deus potenciou nela aquelas reservas de vida que ainda residem nos nossos órgãos, a imutabilidade biológica que as células, afastadas do organismo humano, têm quando são colocadas em condições semelhantes às condições em que vivem, mas que perdem em seguida e não mantêm quando passam a formar parte do conjunto do organismo.

Em suma, foram anuladas em Maria as leis da velhice e da morte e restaurada aquela estabilidade de vida, se assim podemos falar, e mudanças celulares que faltam aos agrupamentos celulares, mas que podem encontrar-se em cada célula separada. Estas continuam vivendo e reproduzindo-se indefinidamente sem se debilitarem, envelhecerem e morrerem» [Judica-Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, op. cit., p. 168].

Em primeiro lugar, o autor faz a apologia de uma a-mortalidade biológica primordial, o que é um absurdo científico e também teológico. Depois aplica este absurdo a Maria. É certo que protozoários não morriam no sentido de se deteriorarem. Só morriam por acidente. No entanto, o seu método de reprodução por bipartição era já uma forma de morte do indivíduo, o qual morria para dar lugar a outros dois.

O aparecimento do organismo vivo representa um salto qualitativo novo. As células, ao interligarem-se e interagirem em tecidos e órgãos coordenados em função do todo, atingem uma perfeição muito maior. Por exemplo, surge a sexualidade como modo de reprodução. Aqui, o indivíduo pode reproduzir-se e continuar a viver na sua própria identidade individual.

Por outras palavras, o salto do unicelular para o orgânico representa um salto na aquisição da continuidade e persistência individual. Representa ainda uma conquista na linha da diferenciação. Com o aparecimento da sexualidade o acto procriador passa a gerar o diferente. A amiba dava dois indivíduos geneticamente iguais. Agora, a procriação supõe uma permuta genética capaz de um número quase infinito de combinações.

Com o aparecimento do homem, a morte foi vencida. Não em relação ao ser exterior, o indivíduo biológico, mas em relação ao ser interior, pessoal-espiritual. Cordiglia não se apercebeu de que, para a Bíblia, o homem, mesmo que não tivesse pecado, não seria biologicamente imortal. O Antigo Testamento acentua que o pecado gera a morte provocada, violenta, não natural. Afirma que Deus não criou o homem para a morte, embora só com Cristo explica o modo de isto acontecer. Em geral pensava-se apenas no facto de Deus ser o Senhor da Vida, pois pode dá-la e tirá-la quando quiser (Dt 32, 39; Sal 104, 29-30).

Influenciado pelo helenismo, o autor do Livro da Sabedoria aponta para a ideia de uma interioridade espiritual e imortal. Fala das almas dos justos que participam da imortalidade junto de Deus (Sab 3, 1-5). O génio teológico do povo bíblico ia noutro sentido: pela morte, o homem fica reduzido a uma sombra de vida. Vai habitar o Sheol nas regiões inferiores, as quais ficam abaixo das águas subterrâneas (Gn 37, 25; Dt 32, 22; 1Rs 2, 6; Prov 9, 18; Job 10, 21ss; Sal 19, 18). O homem não é inteiramente destruído pela morte. Depois de morrer, o ser humano subsiste, mas não vive, pois não convive.

A pessoa humana é um ser com uma estrutura interior, relacional e genealogicamente interligada aos outros. O Homem foi criado para o convívio. Quando deixa de conviver fica em estado de morte, embora subsista. É esta a razão pela qual pode acontecer a ressurreição dos mortos. O homem interior está vivo quando é animado pelo Espírito de Deus (Ruah Yahvé).

A morte consiste em que Deus retira do interior do homem o Seu Espírito ou sopro vital. A interioridade humana fica por isso reduzida a uma sombra de vida no reino das sombras (Is 14, 9). A ideia da ressurreição surge da esperança de que Deus pode enviar de novo o Seu sopro vital ao Sheol. Neste caso, o homem interior volta a encontrar-se na plenitude da vida, isto é, na dinâmica do encontro, do diálogo, da comunhão e das relações com os outros. A ressurreição é atribuída ao dom do Espírito de Deus (cf. Dan 12, 2-3; Sal 15, 9-11; Is 52, 10-13).

O Novo Testamento acentua que a ressurreição é realmente a vitória sobre a morte (1Cor 15). O estado dos ressuscitados é de ordem pneumática, não biológica (Mc 12, 18-24; Mt 22, 23-33; Lc 20, 27-38; 1Cor 15, 44-47). É verdade que Deus não criou o homem para a morte. Mas isto não significa que o plano de Deus era a a-mortalidade biológica.

Maria participa, graças à ressurreição de Cristo, da plenitude dos ressuscitados em Cristo, a qual nada tem a ver com qualquer ideia de a-mortalidade ou restauração biológica após a morte. A condição dos ressuscitados em Cristo é de ordem pneumática, não biológica.

Após Santo Agostinho, a teologia do pecado de Adão tornou-se uma questão de pecado original. Para a Bíblia, o pecado de Adão é uma realidade orgânica que atinge os homens todos na medida em que estes fazem um corpo do qual Adão é a cabeça. Com Santo Agostinho, o pecado original tornou-se um pecado de natureza que se transmite pela procriação e através do pai.

A formulação da Imaculada Conceição de Maria está fundamentada na doutrina do pecado original, tal como ele evoluiu a partir de Santo Agostinho. A teologia contemporânea já não formula a questão do pecado original em esquemas agostinianos. Isto significa que a doutrina da Imaculada concepção tem de ser igualmente reformulada sob pena de cairmos em contradições e desajustes nas afirmações da Fé.


3- Reformulação da Doutrina da Imaculada

As formulações dogmáticas surgiram na marcha da história da Igreja em resultado da necessidade de sintetizar dentro do contexto sócio-cultural de uma época, um determinado aspecto considerado importante. A partir do momento em que um dogma é definido torna-se ponto de referência obrigatório para as futuras sistematizações da fé. Por outras palavras, os dogmas são material teológico obrigatório para as sistematizações da fé que se referem aos aspectos do referido dogma. Podemos dizer que fazem parte do património da fé, tal como a Escritura.

No entanto, assim como a Escritura não é a Palavra de Deus encadernada, também os dogmas não são verdades encerradas na fórmula literária. Todos sabemos como o literalismo bíblico gera fundamentalismos míopes, os quais distorcem a verdade. O mesmo acontece com o literalismo aplicado à letra dos dogmas. A Palavra de Deus é sempre um acontecimento vivo no seio da vida eclesial. Não foi a Escritura que gerou as comunidades. Foram as comunidades que geraram a Escritura. Do mesmo modo, não foram os dogmas que geraram a Igreja, mas a Igreja que gerou os dogmas.

A revelação de Deus é um processo histórico, o qual acontece segundo a dinâmica de aquisições teológicas. Estas, no entanto, emergem sempre no meio de muitos condicionamentos culturais. É por esta razão que hoje nenhum teólogo se confronta com a Bíblia em termos de leitura ingénua ou literalista. A Bíblia não é a Palavra de Deus cristalizada na letra. A Escritura tem uma estrutura narrativa. Ela é essencialmente um conjunto de narrações que relatam as experiências primordiais e fundantes da fé. Do mesmo modo, os dogmas não são a verdade da fé encaixilhada na fórmula. Tal como aconteceu com as Escrituras, os dogmas são aquisições teológicas que se tornam ponto de referência para a formulação da fé e não fórmulas para repetir literalmente.

Temos de distinguir sempre nas Escrituras e nos dogmas os condicionamentos sócio-culturais e as aquisições teológicas. Estas têm de circular de modo coerente, orgânico e dinâmico com a totalidade das aquisições teológicas anteriores, pois formam um todo orgânico e dinâmico. A fé não é uma questão de uma época ou de um grupo, mas um património herdado que foi crescendo ao longo de milénios. A revelação de Deus é um processo histórico. Tudo o que não continua a cadeia nem aumenta e reforça o dado primordial, é pura roupagem sócio-cultural. Valeu apenas para a época em que surgiu, pois a Fé não pode explicitar-se sem roupagem sócio-cultural.


4- Sentido bíblico-teológico da Imaculada

Como vimos, a Bíblia não entendia o pecado de Adão nos mesmos termos em que o entendeu a Teologia medieval. Isto significa que a Escritura não pressupõe a existência de uma concepção imaculada. Para afirmar a importância de um personagem, a Bíblia elabora uma ficção literária onde o personagem surge a partir de uma concepção miraculosa.

Em geral as suas mães destes personagens eram estéreis. O seu nascimento miraculoso significa que Deus tinha um plano especial para este personagem. Estão neste caso Isaac, José do Egipto, Sansão, Samuel, João Baptista e outros. Com este procedimento, a Bíblia pretende dizer que Deus suscita homens e mulheres e consagra-os para realizarem uma missão especial.

No entanto, isto não deve ser entendido como uma manipulação por parte de Deus. A Bíblia vê esta vocação ou chamamento em termos de santificação ou infusão do Espírito de Deus. Os dons de santificação e consagração concedidos por Deus não substituem o homem. Este pode ser-lhe fiel ou infiel.

A Mariologia tradicional fazia de Maria uma manipulada por Deus. Esta não teve parte na Sua condição de mulher excepcional. A perspectiva bíblico-teológica ficava distorcida por esta linguagem. Não podemos esquecer que aprofundar a missão e as prerrogativas de Maria é uma maneira de proclamar a bondade de Deus e seu o plano de salvação.

Por outras palavras, Maria teve um lugar teológico privilegiado por ser uma mediação privilegiada para proclamar o Evangelho. A pregação de Maria só é evangelho na medida em que é mediação de uma Boa Nova que é portadora de salvação para todos os homens. Não é bom procedimento fazer de Maria um ser isolado de Cristo e uma excepção no projecto da Humanidade.

A maneira tradicional de falar de Maria fazia dela mais um objecto de curiosidade que uma mediação de Evangelho. Conhecê-la era um simples acto intelectual de conhecer uma série de excepções que Deus fez nela e não em nós. Deste modo era uma curiosidade e um objecto de devoção, mas não era verdadeiramente modelo para ninguém. Era mais um objecto de admiração do que apelo a sermos fiéis ao nosso leque de possibilidades, como ela foi fiel aos seus talentos.

Situada no contexto do Novo Testamento, Maria surge como a mãe do Novo Adão. No Novo Adão Deus recria a criação distorcida pelo pecado do primeiro (2Cor 5, 17). Em Cristo, o Novo Adão, a Humanidade é reconciliada, isto é, reencontra o sentido original do projecto de Deus (2Cor 5, 19). Isto aconteceu assim porque o Novo Adão foi incondicionalmente fiel a Deus. O fracasso introduzido pela infidelidade do primeiro Adão é vencido pela fidelidade incondicional do segundo (Rm 5, 17-19).

A humanidade forma um todo orgânico. A infidelidade do primeiro desorientou o todo da Humanidade. Paulo diz que todos pecaram no primeiro Adão (Rm 5, 12). Do mesmo modo, a recriação operada pelo Espírito Santo em Jesus Cristo estende-se a todos os homens (Rm 5, 21).
Maria aparece neste contexto como grande mediação do Espírito Santo. Foi sobretudo ela que modelou a personagem fiel do Novo Adão. Paulo diz que o Novo Adão nasceu de uma mulher (Gal 4, 4). Maria foi a mediação maternal para Jesus ser gerado como judeu, membro do povo de Israel (Rm 9, 5). Maria é a síntese do povo bíblico do qual saiu Jesus Cristo: “A salvação vem dos Judeus”, diz o evangelho de São João (Jo 4, 22b).

Foi neste enquadramento que os Padres do século segundo situaram a grandeza da figura de Maria. Por esta razão eles falavam da Nova Eva ou princípio gerador da nova Humanidade. Na Idade Média, pensava-se que as crianças, devido ao pecado original, eram habitação de Satanás. Maria, predestinada para ser mãe do Filho de Deus, não podia ter estado em poder de Satanás.

Sabemos que a Escritura não associa o pecado de Adão a qualquer ideia de posse de Satanás. Na perspectiva bíblica, o homem foi afectado na sua estrutura relacional devido ao pecado de Adão. Talhado para a fraternidade, devido ao pecado de Adão torna-se fratricida (Gn 4, 8). Daqui a necessidade de uma nova criação pela qual o homem seja restaurado e viva em harmonia com Deus.

Esta recriação foi realizada por Deus em Cristo: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo. Tudo isto vem de Deus que, por meio de Cristo, nos reconciliou consigo” (2Cor 5, 17-18). O pecado de Adão não é, portanto, uma mancha na alma. Também não faz das crianças habitação de Satanás. A superação do pecado de Adão é um dom de Deus que supõe a aceitação do homem. Aliás, não seria dom, mas imposição. Deus não manipula o homem e não se impõe a ninguém.

A Imaculada Conceição de Maria supõe fidelidade e docilidade ao Espírito Santo. Apesar do nosso leque de talentos ou possibilidades não ser igual ao de Maria, todos estamos chamados a participar desta condição de Maria, a mulher plenamente fiel aos seus talentos.

A Imaculada Conceição, portanto, deve ser vista na linha de uma tarefa. Não aparece no princípio como realidade feita. É o topo da construção do Homem Novo em Cristo. A Imaculada Conceição implica tornar-se imagem perfeita de Deus, a qual é resultado de uma vida edificada na fidelidade aos talentos e à vocação que nos vem de Deus. Ser imagem perfeita de Deus supõe, por parte do homem, cooperar com o Criador. (Col 3, 10)


5- A Imaculada Conceição, Como Boa Nova

Maria não é resultado mágico de uma operação de Deus. Como sabemos, cada pessoa é única, original, irrepetível, livre, consciente e responsável. Isto realiza-se de modo gradual e progressivo. A pessoa humana surge na vida com uma vocação fundamental: realizar-se segundo os melhores talentos que constituem o seu leque fundamental.

Ninguém é herói por receber cinco talentos. Ninguém é culpado de ter recebido um. A heroicidade está na resposta dada a esses talentos. A resposta está acabada no fim da vida de cada pessoa. A pessoa humana é um ser em realização histórica. A diversidade dos talentos não pressupõe arbitrariedade por parte de Deus. Pelo contrário, pressupõe que Deus nos aceita tal como surgimos no concreto da história. Além disso, é no concreto da nossa história pessoal que Deus nos encontra e confia missões, as quais implicam muitas vezes um carácter de excepção.

Foi o que aconteceu com Maria. Ser mãe do Messias é uma excepção. Só uma mulher podia realizar esta missão. Deus consagrou e chamou Maria para realizar esta missão. Como ternura maternal de Deus, o Espírito Santo optimizou a ternura maternal de Maria, a fim de ela amar o Filho de Deus ao jeito do próprio Deus.

A maneira tradicional de falar de Imaculada Conceição fazia de Maria um ser sem mérito próprio. Foi modificada por Deus no momento da Sua concepção sem ter qualquer mérito neste facto. A ideia de Imaculada Conceição de Maria deve ser associada à sua missão de mãe de Jesus.
Maria surge num contexto sócio-histórico concreto. Pertence ao resto fiel de Yahvé. Foi possibilitada no sentido de poder receber a optimização do Espírito Santo e realizar de modo perfeito a sua missão de mãe do Messias. Não é por isto, no entanto, que Maria é heróica. A sua heroicidade radica no facto de ter respondido fielmente aos Seus talentos.

Por ser judia e mulher, Maria recebeu uma série de possibilidades relacionadas com a missão de mãe do Messias: Fé na fidelidade de Deus; Fé na promessa davídica do Messias; Esperança de que ele iria chegar; Simplicidade e abertura à acção de Deus. Era uma mulher do povo, emergiu de gente simples; Por isso não tinha muitos esquemas dogmáticos os quais tentam impor a Deus os esquemas dos homens. Como sabemos, os caminhos do Senhor não correspondem aos dos homens: “Os meus planos não são os vossos planos. Os vossos caminhos não são os meus caminhos, diz o Senhor. Quanto os céus estão elevados acima da terra, assim os meus caminhos estão elevados acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos” (Is 55, 8-9).

As classes dominantes do judaísmo contemporâneo de Jesus opunham uma resistência total ao plano de Deus tal como este estava a ser realizado por Jesus. Pretendiam saber exactamente os caminhos e os planos de Deus. Como a realidade de Deus não correspondia aos esquemas que Lhe queriam impor, excluíram-se do dom de Deus.

Não foi assim que Maria marcou a personalidade de Jesus. Sensibilizou-o para a bondade de coração e a atenção ao sofrimento dos outros. É este o testemunho que João nos dá de Maria (Jo 2, 3-4). Maria também foi condicionada, pois todos nós somos condicionados. No entanto, isto não é pecado. Foi vítima das recusas de amor dos outros. Também isto não é pecado. O pecado consiste em dizer não ao melhor das possibilidades e das propostas de amor que nos surgem no dia a dia da vida.

Os fariseus, os sacerdotes e os doutores da Lei não aceitaram o dom de Deus realizado em Cristo. Resistiram ao dom revelacional do Espírito Santo feito após a Páscoa. Maria, pelo contrário, estava lá com o resto dos fiéis (Act 1, 13-14). É neste sentido que Maria é mediação de evangelho para nós.

Quando Pio IX, em 1854, define o dogma da Imaculada Conceição fá-lo dentro de uma óptica diferente desta. A linguagem utilizada demonstra o universo cultural em que se movia o papa. Eis as palavras da definição: “No primeiro instante da sua concepção, pela graça e privilégio de Deus Todo-Poderoso e em consideração aos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a Virgem Maria foi preservada e isenta de toda a mancha de pecado original” (Denz. 2803).

Vimos já como é importante distinguir aquisição teológica e condicionamento cultural. A aquisição teológica ficou feita com a definição do dogma. Os condicionamentos culturais não foram criados pelo papa, pois faziam parte do contexto cultural vigente. A aquisição teológica radica essencialmente na proclamação da fidelidade de Maria ao plano salvador de Deus. Após a Páscoa, Maria aparece entre o resto dos fiéis de Yahvé. Pertence à comunidade dos santos. Aceita e responde fielmente aos dons de Deus. É mediação de fé para os demais crentes. Faz a transição da antiga para a Nova aliança, coisa que não aconteceu com João Baptista. Coopera com o Espírito Santo para a superação do pecado de Adão, tanto em relação a si como aos que aceitam Jesus Cristo. Não permanece vítima das distorções relacionais do homem velho.

Maria é um modelo fundamental para todos nós. Paulo diz, a propósito da recusa dos judeus, que Deus realiza o seu plano de Salvação universal com o pequeno resto dos que permanecem fiéis (Rum 9, 28-29). Maria pertence a este resto através do qual Deus realiza o seu projecto de salvação universal.

Face ao pecado, o homem pode situar-se como vítima ou como culpado. Segundo a perspectiva bíblica do pecado de Adão, o homem pode situar-se face ao mistério do mal apenas como vítima. Segundo o dogma do pecado original, todos nós fomos vítimas do pecado ainda antes de sermos pecadores. Isto, no entanto, não deve ser entendido em termos de uma mancha na alma, igual para todos. Trata-se de condicionamentos recebidos. Com efeito, os outros condicionam-nos e também nos condicionam.
Não se trata, portanto, de algo que se transmite de modo genético, mas sim de modo relacional. Depende do contexto social, histórico e cultural em que a pessoa nasce e cresce. A pessoa é culpada quando é a autora de uma recusa de amor. Pecar é recusar-se a ser mais humano segundo o melhor das possibilidades recebidas dos demais. Só há recusa quando é possível e nos recusamos. Por vezes, as pessoas são de tal modo condicionadas, que ficam incapazes de realizar, de modo adequado, a missão de homens e mulheres. Neste caso são vítimas. Ao mesmo tempo, são mediações de ritmos negativos para os outros, embora não tenham culpa disso.

Maria surgiu na história dentro de um contexto que a possibilitou para ser uma boa mãe. O Espírito Santo, com seu jeito maternal, capacitou-a para ser uma boa mãe para o Messias. A certeza disto radica no facto de ter acontecido. Com efeito, Jesus foi o Messias generoso que se deu totalmente até à morte. É verdade que a missão messiânica de Jesus não é obra de Maria, mas a personalidade humana de Jesus foi em grande parte modelada pela maternidade de Maria.

Neste sentido, Maria é um apelo para todos os homens. Com efeito, sempre que uma pessoa procura ser fiel aos talentos recebidos, está a ser fiel aos dons recebidos dos demais, está a humaniza-se a si e cooperar com o Espírito Santo para a edificação de uma Humanidade melhor.