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A Virgindade de Maria




a) Enquadramento Bíblico
1- Virgindade e Fecundidade na Bíblia
2-Virgindade e Maternidade de Maria
3-Virgindade e Reino de Deus

b)Evolução do Conceito de Maria Virgem
1- A Maternidade Virginal nos Santos Padres
2- Evolução Histórica da Noção de Maria Virgem
3- Maria Como Mãe e Símbolo Virginal


a) Enquadramento Bíblico

1- Virgindade e Fecundidade Bíblia

O Antigo Testamento não começa por valorizar a virgindade. A morte de uma jovem virgem é considerada um grande mal e um castigo de Deus. A vida de uma jovem que morre virgem assemelha-se à de uma árvore que secou sem dar fruto. Na verdade, morrer virgem significava que essa pessoa não foi alvo das bênçãos de Deus, as quais são geralmente portadoras de uma promessa associada a uma posteridade duradoira.

Uma mulher com muitos filhos, pelo contrário, era considerada como uma pessoa abençoada e agraciada pelas bênçãos de Deus. Os filhos são a alegria e a plenitude do casamento (Gn 24, 60; Sal 127; Sal 128, 3). Os filhos são vistos sempre como uma recompensa de Deus (Ex 1, 21; 1, 26). A Aliança de Deus com o homem leva consigo a promessa de uma prole numerosa e importante para a Humanidade (Gn 15, 5; 22, 17). É esta a razão pela qual o filho primogénito é pertença de Deus, pois ele é o primeiro dos grandes dons de Deus. O filho primogénito é como o dízimo das colheitas. Pertence a Deus e, por isso, deve ser resgatado pelos pais. (Ex 34, 20).

Para afirmar que a fecundidade é um dom de Deus, a Bíblia diz que os homens mais importantes da história da salvação nasceram de mulheres estéreis. Estes homens foram um dom de Deus e não obra da fecundidade humana. O eunuco, homem castrado por acidente ou por mutilação, não podia tomar parte na assembleia de Deus (Dt 23, 2). A esterilidade era sempre considerada como um problema da mulher. O homem que tem sémen é fecundo. O eunuco, como não tem sémen, é uma árvore seca. Como não é uma árvore fecunda, o eunuco não pode fazer parte do jardim de Deus, isto é, a assembleia do culto.

O conceito de fecundidade, neste período, limitava-se à capacidade reprodutora. Se uma mulher morria sem filhos, era uma mulher para esquecer. Se era o varão que morria sem filhos, o irmão deste devia ter relações com a viúva para dar descendência ao seu irmão (Dt 25, 5-6). O papel procriador era do varão. A mulher era apenas uma coadjuvante do varão. Movidos pelo Espírito Santo, os profetas começam a modificar esta forma de ver as coisas. O profeta Jeremias escolheu o celibato para indicar que é melhor não ter filhos que fazê-los membros de um povo corrupto. O profeta Amós diz que os homens que não produzem frutos de vida são como uma donzela que morra virgem (Am 5, 1).

A esterilidade que é uma desonra e causa de maldição de Deus não é a incapacidade de procriar, mas sim a vida dos que não cultivam o amor e a fraternidade. Mesmo que tenham muitos filhos, o ímpio e o injusto não contribuem para o bem do povo de Deus e da Humanidade. Esta esterilidade desonra o homem, pois é resultado das suas escolhas e opções egoístas e fratricidas. O homem é culpado desta esterilidade, não da outra.

O juízo de Deus, dizem os profetas, é diferente do juízo dos homens. O eunuco, diz o profeta Isaías, se tiver uma vida cheia de obras boas pode considerar-se uma árvore fecunda e, portanto, abençoada por Deus. Não tem razões para se considerar um lenho seco, isto é, um ramo sem frutos (Is 56, 3b). Se for fiel à Aliança de Deus, o eunuco terá um monumento e um nome muito mais duradouro que os filhos que por hipótese tivesse deixado. O profeta Isaías diz ainda que o nome do eunuco foi fiel à aliança de Deus não se apagará jamais (Is 56, 4-5).

O livro da Sabedoria diz que vale mais a vida justa de uma pessoa sem filhos, do que ser injusto e ter uma prole numerosa. A memória desta pessoa será imortal, apesar de não ter deixado filhos (Sab 4, 1). Os ímpios, mesmo que tenham muitos filhos não serão recordados com gratidão por ninguém, pois não contribuíram para o bem da Humanidade (Sab 4, 3). Os filhos são um bem para a Humanidade na medida em que são dons de amor, isto é, seres bem amados, isto é, seres capazes de ajudar a edificar o Homem tal como Deus o sonhou. Os filhos que nascem de um contexto de desamor, no dia do juízo, acusarão aqueles que os geraram, diz o livro da Sabedoria (Sab 4, 6). Por outro lado, os eunucos que fizeram o bem durante a vida terão uma parte honrosa na morada de Deus (Sab 3, 14). Do mesmo modo, a esterilidade da mulher não é castigo de Deus nem razão para qualquer desonra. A mulher estéril que segue os caminhos de Deus será bem-aventurada. No dia do juízo, encontrar-se-á cheia de frutos. A fecundidade das mulheres estéreis está na qualidade das suas obras (Sab 3, 13).

Como vemos, o conceito de fecundidade vai-se espiritualizando e tornando mais que uma mera questão de procriação. O profeta Isaías diz que a mulher estéril que viveu a Aliança de Deus terá uma prole mais numerosa do que a mulher que procriou (Is 54, 1-4). O seu esposo destas mulheres é Jahvé o qual é sempre fiel (Is 54, 5-7). A mulher estéril, diz o Livro da Sabedoria, pode ser profundamente fecunda (Sab 3, 12-13). Por outras palavras, a fecundidade que Deus ama são as atitudes que geram fraternidade, paz, alegria, justiça, misericórdia.

Não é por acaso que os Actos dos Apóstolos diz que o primeiro pagão a ser convertido foi um eunuco, o superintendente da rainha Candace da Etiópia: “O Anjo do Senhor falou a Filipe e disse-lhe: “põe-te a caminho e dirige-te para o Sul, pela estrada que desce de Jerusalém para Gaza, a qual se encontra deserta”. Filipe pôs-se a caminho e foi para lá. Ora, um etíope, eunuco e alto funcionário da rainha Candace, da Etiópia, e superintendente de todos os seus tesouros, que tinha ido em peregrinação a Jerusalém, regressava, na mesma altura, sentado no seu carro, a ler o profeta Isaías (…).

Partindo desta passagem da Escritura, Filipe anunciou-lhe a Boa Nova de Jesus. Pelo caminho encontraram uma nascente de água e o eunuco disse: “Está ali uma nascente de água! Que me impede de ser baptizado? Filipe respondeu: “Se acreditas de todo o coração, isso é possível”. O eunuco respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” e mandou parar o carro. Filipe e o eunuco desceram à água e Filipe baptizou-o” (Act 8, 26-38).

A opção celibatária de Jesus insere-se, naturalmente, nesta perspectiva teológica. Já não nos será difícil entender a razão pela qual Jesus Cristo optou pelo celibato. O evangelho de São João diz que ele é a fonte de uma nova fecundidade que faz de nós filhos de Deus: “Mas a quantos o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas de Deus. E o Verbo fez-se homem e habitou entre nós” (Jo 1, 12-14).

Segundo os ensinamentos de Jesus, a vida fecunda é um apelo que Deus nos faz todos os dias. A fecundidade amorosa não está limitada aos períodos fecundos da procriação. Pelo contrário é um deve de todos os dias. Eis o significado do ensinamento da figueira chamada a dar figos durante todo o ano (Mt 21, 18-20; 7, 15-20). O profeta Jeremias dizia que a esterilidade de vida será punida por Deus (Jer 6, 14-15; 6, 26; 7, 11; 7, 25).

Segundo os critérios do Novo Testamento a fecundidade de uma vida mede-se pelo bem que a pessoa faz e não pelo número de filhos que se tem. Há mesmo homens e mulheres que permanecem celibatários para serem mais fecundos, dizem os evangelhos e Paulo (Mt 19, 12ss; 1Cor 7, 7-8; 2Cor 6, 6; 1Tim 4, 12).

Jesus veio inaugurar a família de Deus. Esta não é constituída pelos laços do sangue, mas sim pelos laços do Espírito Santo. O homem nasce para a Família do Reino de Deus através de um novo nascimento, o qual acontece pelo Espírito Santo (Jo 3, 6). Para o novo Testamento é mais fecundo quem ama mais. É pelo amor que os seres humanos serão julgados (Mt 25, 31-46). Segundo estes critérios, o maior mal que pode acontecer ao homem é tornar-se estéril. A esterilidade, nesta perspectiva, é uma opção da pessoa humana. Acontece pela decisão de enterrar os talentos que Deus nos concedeu através dos outros (Mt 25, 14-30).


2- Virgindade e Maternidade de Maria

Se exceptuarmos os relatos da infância (Mt 1-2; Lc 1-2), o Novo Testamento não pressupõe uma concepção miraculosa de Jesus. Por outro lado, os Evangelhos da Infância são, como sabemos, um “midrash”, isto é, uma elaboração literária com uma intenção teológica bem determinada. A intenção dos evangelhos da infância é proclamar a messianidade e o chamamento de Jesus desde o primeiro momento da sua existência.

O procedimento dos dois primeiros capítulos de Lucas e Mateus está de acordo com os midrash dos grandes personagens bíblicos. As descrições do nascimento miraculoso de Isaac, Jacob, Sansão, Samuel e João Baptista tem em mente sublinhar o papel fundamental destes personagens no pleno de Deus, bem como afirmar o seu chamamento desde o seio materno. O midrash é uma elaboração literária muito conhecida no mundo bíblico. Em geral tem como pano de fundo outros textos bíblicos, a fim de enquadrar o personagem dentro da História da Salvação.

É neste contexto que se situam os relatos da concepção miraculosa de João Baptista e da concepção virginal de Jesus. Mateus diz expressamente que a concepção virginal de Jesus é a realização da profecia do profeta Isaías que fala do Emanuel (cf. Mt 1, 22-23). Por outro lado, Mateus, ao elaborar este texto, estava a fazer uma proclamação sobre a vocação messiânica de Jesus e não fazer qualquer proclamação sobre Maria. O mundo bíblico entendia o midrash como elaboração teológica, não como relato histórico.

É uma constante nos evangelhos a afirmação de que Jesus realizou o predito pelos profetas: “Começando por Moisés e seguindo todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que lhe dizia respeito” (Lc 24, 27). Fazem mesmo extrapolações para dizer que tudo o que aconteceu com Jesus estava já predito pelos profetas: “Todos os profetas que falaram, a partir de Samuel e dos seguintes, anunciaram igualmente estes dias” (Act 3, 24).

No que diz respeito à profecia do Emanuel, Isaías não fala de uma virgem, mas de uma jovem que está grávida. Trata-se da jovem esposa do rei Acaz. Esta vai dar à luz um filho a quem chamarão Emanuel (Is 7, 14). Ao falar da jovem grávida, o profeta pretende sublinhar que se trata de um filho primogénito. Como primogénito, este menino é pertença de Deus. Trata-se de um descendente de David, o qual será fiel e realizará aquilo que Acaz, rei infiel, não está a realizar. Acaz deixou de confiar em Deus ao ver-se ameaçado pelos reis da Síria e Samaria (Is 7, 1). Assustado, faz um pacto com o rei da Assíria, tornando-se seu vassalo: “Eu sou teu servo e teu filho. Vem e salva-me das mãos do rei da Síria e do rei de Israel que se coligaram contra mim (2Rs 16, 7).

Na perspectiva profética, isto era a maior afronta que se podia fazer a Deus. Segundo a profecia de Natã a David, os seus descendentes eram filhos de Deus (2Sam 7, 14). A partir do momento da sua entronização, eram possuidores da protecção divina. Eis a razão pela qual não deviam submeter-se aos reis pagãos. Deus, seu pai, os protegeria: “Fui eu que consagrei o meu rei e o estabeleci sobre o meu monte Sião! Vou anunciar o decreto do Senhor. Ele disse-me: “Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei (dia da entronização). Pede-me e eu te darei povos como herança, e os confins da terra por domínio” (Sal 2, 6-8). No dia da sua entronização, além de declarado filho de Deus, proclama-se que o seu trono está à direita de Deus (Sal 110, 1). Crente na fidelidade de Deus, Isaías anuncia o nascimento e a vinda de um outro sucessor de David.
O relato da Concepção virginal de Jesus não é para Lucas e Mateus uma proclamação da maternidade virginal de Maria. Significa apenas a proclamação da condição messiânica de Jesus. No conjunto das concepções miraculosas de que a Bíblia fala, só o midrash da infância de Jesus fala de concepção virginal. Os outros relatos falam de concepção miraculosa. A intenção desta diferença é afirmar que Jesus é o Messias-rei, isto é, o filho de David constituído filho de Deus, como diz São Paulo (Rm 1, 3-5). Esta particularidade não se aplicava a nenhum outro dos grandes personagens bíblicos.

A filiação divina do Messias não implicava para a mentalidade dos autores a ausência de paternidade humana, pois ele é o filho de David (cf. Lc, 1, 32-33). Paulo pensava que Jesus fora constituído plenamente filho de Deus pelo Espírito no momento da Sua ressurreição (Rm 1, 3-5). Como os Judeus mataram Jesus antes de este subir ao trono, Deus entronizou-o à Sua direita no céu e ungiu-o com o Espírito Santo (Act 2, 32-33).

Os Sinópticos representam uma reflexão mais tardia. Os evangelhos da infância representam uma reflexão posterior. Aqui, Jesus aparece como tendo sido ungido e constituído Messias desde o momento da sua concepção. Este passo, no entanto, não aconteceu sem antes ter acontecido outro: Jesus foi ungido e constituído Messias, o Filho de Deus, no momento do seu baptismo (Mc 1, 9-11; Mt 3, 16; Lc 3, 22). O Evangelho de João vê Jesus em interacção permanente com o Logos mediante o Espírito Santo. Eis a razão pela qual não recorre à ideia de uma concepção especial. O Logos incarna em Jesus, conferindo-lhe a plenitude do Espírito (Jo 3, 34).

É neste enquadramento bíblico que é preciso entender o midrash da Conceição virginal de Jesus. É importante termos presente que a descrição da concepção virginal de Jesus tem a intenção de sublinhar que a paternidade de Jesus como Messias-rei é Deus e não os homens. O mesmo acontece connosco enquanto filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-14). Por outras palavras, os relatos dos evangelhos da Infância não implicam uma maternidade virginal de Maria. Os evangelistas elaboram o relato da concepção virginal de Jesus para dizer que este é o Messias, Filho de Deus. Esta condição não é obra da carne, nem do sangue, nem da vontade humana, mas sim de Deus (Jo 1, 12-13).

3) Virgindade e Reino de Deus

Como valor teológico, isto é, como realidade válida para o Reino de Deus, a virgindade é uma qualidade espiritual que o Espírito Santo vai fazer emergir no coração das pessoas. Eis a razão pela qual o Novo Testamento defende o valor do celibato e da virgindade, não como valores em si mesmo, mas como opção que optimiza as possibilidades de algumas pessoas para serem mais fecundas. Esta fecundidade vai no sentido de edificar a Família de Deus (Act 21, 9; Cor 7, 8; 7, 26; 7, 28). Ser virgem por causa do Reino de Deus é pôr ao serviço da edificação da Família de Deus o melhor das suas energias emocionais, afectivas e impulsivas.

As fontes referem a opção especial de Cristo, o qual decidiu viver como virgem e propõe a virgindade para alguns (Mt 19, 12; 19, 21). Mas não devemos pensar que a virgindade vale pela simples ausência de relações sexuais. Em primeiro lugar, Deus não tem ciúmes da sexualidade humana; além disso a sexualidade não é uma coisa impura. A virgindade vale como atitude de consagração. É válida para as pessoas que, permanecendo assim, são mais fecundas. A associação de sexualidade com impureza é estóico, isto é, tem origem pagã e não bíblica.

Para o Novo Testamento, a fonte da pureza ou da impureza é o coração, o núcleo mais íntimo da nossa espiritualidade a partir do qual emergem as decisões pelo amor e a fraternidade ou contra estas realidades (Mc 7, 14-23; Mt 5, 8; Jo 15, 3; 13, 10). É no interior do coração que o homem decide agir, ou não, em harmonia com a misericórdia, o perdão, a partilha fraterna.

Segundo o Novo testamento, a fecundidade que vale para o reino de Deus assenta nas decisões, opções e projectos de vida orientados pelo amor. Por outras palavras, a fecundidade humana é uma questão de amor. Os ritos de purificação legal, diz o Novo Testamento, não valem para o Reino de Deus e não tornam a pessoa fecunda (Act 10, 15; 11, 9; 15, 9; Rm 14, 14; Heb 9, 10; 1Jo 1, 7-9; Apc 7, 14).

A virgindade como opção válida para o Reino de Deus, portanto, significa uma consagração para viver uma fecundidade mais rica e profunda. Não é por acaso que o evangelho de Mateus fala das virgens loucas (Mt 25, 1-12). Estas eram loucas porque a sua virgindade era estéril. Como vemos, a virgindade como valor teológico vai muito além de uma questão biológica. Como valor para o Reino de Deus, a virgindade é uma meta atingir do que uma coisa a guardar: “O que vos digo irmãos, é que a carne e o sangue não herdarão o Reino de Deus, nem o que é corruptível herdará a incorruptibilidade” (1 Cor 15, 50). A virgindade como valor decisivo para o Reino de Deus é fecundidade na edificação da comunhão humana que culmina na edificação da Família de Deus. Esta fecundidade é obra do Espírito Santo a actuar no coração humano (Rm 8, 14-17; Gal 4, 4-7).

É neste contexto bíblico que é preciso situar a maternidade virginal de Maria. Foi muito bom para a Fé o facto de a virgindade de Maria ter sido proclamada como antes do parto, no parto e depois do parto. Isto quer dizer que não pode tratar-se de uma questão de hímen inteiro, pois o nascimento de Jesus foi igual ao de todas as crianças que nascem de modo normal. É importante que se diga isto, pois querer pôr aqui uma excepção é negar um dogma muito mais importante para a Fé do que a virgindade física de Maria: Jesus Cristo como homem em tudo igual a nós, excepto no pecado.

Podemos dizer que a maternidade virginal de Maria atingiu a sua plenitude na experiência pascal de Maria: “E todos unidos pelos mesmos sentimentos, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (Act 1, 14).

A plenitude da maternidade virginal de Maria é um dom pascal, isto é, um dom feito por Jesus morto e ressuscitado, como o evangelho de João diz. Por outras palavras, a plenitude da maternidade virginal de Maria, a sua plena fecundidade, é um dom do Espírito Santo realizado quando chegou a hora de Jesus. Sabemos que, no evangelho de Jesus, a hora significa o momento em que Jesus concede a plenitude do Espírito Santo (Jo 7, 37-39). Foi precisamente nesta hora que Maria é dotada com a plenitude da maternidade virginal, a qual é uma realidade espiritual realizada pelo Espírito Santo no coração de Maria.

Por outras palavras, é pelo Espírito Santo que Maria atinge a densidade e a fecundidade máxima da sua maternidade virginal: “Junto à Cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a mulher de Cleopas, e Maria Madalena. Então Jesus, ao ver ali a sua mãe e o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!”. Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!”. E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua” (Jo 19, 25-27).

Esta passagem significa que Maria, após a ressurreição de Jesus, passou a viver na comunidade da Igreja nascente, como dizem os Actos dos Apóstolos (Act 1, 14). Quando chegou a hora de Jesus, Maria atingiu o topo da sua maternidade: Mãe do Cristo total, Jesus ressuscitado e de todos os que formam o corpo de Jesus ressuscitado (cf. 1 Cor 10, 17; 12, 27; 12, 13). Vista nesta perspectiva espiritual, a maternidade virginal é Evangelho, isto é, Boa Nova para todos nós! A virgindade espiritual é teológica, não biológica. É fecunda e tem densidade definitiva para o Reino de Deus. Reduzir esta realidade a uma questão fisiológica carece de sentido, pois a dimensão biológica acaba no cemitério.


b) Evolução do Conceito de Maria Virgem

1- A Maternidade Virginal nos Santo Padres

A cultura helenista não soube manter o dinamismo bíblico da fé. Os teólogos dos primeiros séculos da Igreja (os Santos Padres), não entenderam o alcance do midrash da infância, começando a interpretar os textos à letra. O Novo Testamento achava normal que Jesus fosse um homem, em tudo igual a nós, excepto no pecado. Agora, para os Santos Padres, o facto de Jesus não ter pai humano era fundamental, a fim de não ser herdeiro do pecado de Adão. Se Jesus tivesse tido pai humano tinha a carga do pecado de Adão e, portanto, a Humanidade não estaria salva.

Como vimos acima, não é nada disto que os evangelhos da infância pretendiam dizer. Se quisermos falar em termos genéticos teremos de dizer que o filho é tanto herdeiro de Adão pelo pai como pela mãe. No entanto, a ideia de o pecado de Adão ser herdada de modo genético está totalmente fora dos horizontes bíblicos. Ora, se os postulados eram falsos, as conclusões não podiam ser verdadeiras.

Santo Inácio dizia que o facto de Jesus não ter tido pai humano era condição fundamental para a salvação. Nesse caso, o Demónio via-o como um homem igual aos demais homens, isto é, distorcido pelo pecado de Adão. O mistério da sua concepção virginal de Jesus escapou ao Demónio (Inácio de Antioquia, Ef., 18-19). Mas ninguém, neste período, pensava que Maria, devido a esta excepção, pudesse permanecer fisicamente virgem após o parto.

No século terceiro, Tertuliano afirma que não há salvação para os que combatem a maternidade de Maria. O gnosticismo, ao afirmar que Jesus tinha apenas um corpo aparente, negava que Ele fosse verdadeiramente filho de Maria. Para Tertuliano o Verbo é Deus e é eterno como o Pai. Ao tomar carne humana não precisou de a tomar de nenhum homem (De Car. 18).

Por outras palavras, o Verbo tomou carne humana, embora de modo não humano: “Esta é a nova vida que faz o homem nascer de Deus. Neste homem (Jesus) Deus nasceu tomando carne de linhagem humana, embora de modo não humano. Deste modo, renova espiritualmente a Humanidade e limpa-a da mancha hereditária. Este novo nascimento, em virtude do qual o Senhor nasceu de uma virgem, segundo uma racional economia, tem, como todas as outras coisas, uma figura antiga. A terra estava ainda virgem, isto é, ninguém a tinha ainda lavrado nem lançado nela a semente quando Deus plasmou nela o homem vivo. Por conseguinte, como se diz, o primeiro Adão foi tirado da terra. Do mesmo modo, o novo Adão, como lhe chama o Apóstolo, devia ser tirado por Deus de uma terra, isto é, de uma carne, a qual não tinha sido fecundada por nenhum homem, em ordem à geração” (De Car., 19).

No entanto, Tertuliano afirma expressamente que Maria, no momento de dar à luz, perdeu a virgindade (De Car. 23). A ideia de Maria ter perdido a virgindade com o parto ainda não era contestada por ninguém. Eis a razão pela qual ninguém contradisse Tertuliano. No século Segundo, Santo Ireneu afirmava que apenas foi salvo aquilo que foi assumido por Cristo. No século seguinte, Tertuliano deixa-se conduzir pelo rigorismo montanista. Uma vez que Cristo não é Cristo não é fruto de uma relação sexual, Cristo não assumiu a sexualidade. Devido a isto os pecados do sexo não têm perdão, pois Jesus Cristo apenas obteve o perdão e a salvação para aquilo que assumiu, como diz Santo Ireneu. Tudo isto vai contribuir enormemente para a visão negativa da Igreja a propósito da sexualidade.

No Oriente, Orígenes segue a mesma linha que Tertuliano assumiu no Ocidente. Segundo Orígenes, para salvar a humanidade, tinha de ser homem, mas tinha de ser fruto de uma maternidade virginal. Como não podia ser herdeiro do pecado de Adão, o Logos encarnou no seio de uma virgem (Hom. in Lev., 12, 4).

No século terceiro, Tertuliano afirma que no momento do parto, Maria deixou de ser fisicamente virgem. Pensava que os irmãos de Jesus de que fala o Novo testamento eram filhos de Maria e José. O docetismo, heresia helenista, afirmava que Jesus tinha aparência de homem não era verdadeiramente homem. Afirmar a virgindade física de Maria após o parto vinha ao encontro desta heresia.

Os Santos Padres foram unânimes em defender a condição plenamente humana de Jesus. Para o docetismo, Jesus Cristo era o Logos a manifestar-se em aparência de homem. Após o parto, Maria continuou virgem porque Cristo não tinha um corpo humano. Como vemos, esta teoria é bastante mais perigosa para a Fé do que qualquer afirmação da virgindade física de Maria após o parto.

Segundo o docetismo neoplatónico, a matéria é uma realidade impura. Só o mundo espiritual é puro. Jesus, para ser o salvador da Humanidade, não podia ter um corpo material. Eis a razão pela qual Maria continua virgem após o parto. Tertuliano refuta esta heresia dizendo que Jesus é um homem como nós e que o parto de Maria foi idêntico ao nosso.

O primeiro autor a defender a virgindade de Maria após o parto, foi São Cirilo (séc. IV). Seguindo esta linha de pensamento, Leão Magno (séc. V) diz que Maria foi perpetuamente virgem. No século VII, o concílio de Latrão (649), proclamou como dogma a virgindade perpétua de Maria. Eis os termos da definição: “Todo o que não confessar, de acordo com os Santos Padres, que a Mãe de Deus, a Santa e sempre virgem Maria, concebeu sem sémen viril, do Espírito Santo, o Verbo de Deus e, de modo incorruptível, o deu à luz, permanecendo a sua virgindade intacta depois do parto, seja anátema” (Denz. 256).

Ao entrar na dogmática, a questão da virgindade perpétua de Maria torna-se uma questão teológica. Como disse acima, penso que foi providencial que a definição dogmática tivesse proclamado a virgindade perpétua, pois para defender a plena condição humana de Jesus, devemos interpretar a questão como espiritual e não física. Não podemos esquecer que o património da Fé não é um conjunto de verdades isoladas entre si como ilhas. Os diversos aspectos da Fé funcionam de modo orgânico, dinâmico e interactivo.

Como vimos, é como questão teológica que a virgindade perpétua de Maria se torna mediação de Boa Nova para nós. Uma vez definida como dogma, a virgindade perpétua de Maria torna-se mediação para falar do sentido humano do casamento e da sexualidade humana. Maria, mulher casada e mãe de família, é a maior das virgens cristãs. Esta afirmação associa necessariamente a virgindade com fecundidade. A esta luz podemos dizer que Maria foi a mais fecunda das mulheres. Após a Páscoa, Maria compreendeu que pode continuar a ser mãe muitos irmãos de Seu filho (cf. Mc 3, 31-35). A Sua missão de mediação maternal do Espírito Santo não terminou por Jesus ter morrido.


2- Evolução Histórica da Noção de Maria Virgem

É certo que a virgindade de Maria foi tradicionalmente afirmada com realidade biológica. Mas nesta perspectiva Maria ficava um ser totalmente estranho para os seres humanos. Não era modelo para solteiros porque era casada e mãe. Não era modelo para casados porque era esposa e mãe e conservava o hímen inteiro.

Por detrás da afirmação biológica de Maria está uma visão profundamente negativa da sexualidade. É importante estarmos conscientes de que a Salvação não fica comprometida pelo facto de Jesus ter nascido como os demais homens. Uma vez que foi proclamada como dogma, a virgindade perpétua de Maria torna-se ponto de referência obrigatório para a sistematização da fé. Mas isto não quer dizer que a sua linguagem não deve ser reformulada.

Muitos pregadores, referindo-se à virgindade de Maria, gritavam do púlpito que Jesus passou pelas vias maternais de Maria como o sol passa pela vidraça. Estes pregadores não se davam conta de que estavam a reafirmar a heresia docetista que nega a verdadeira humanidade de Jesus. Esta maneira de falar desfigurava não só a realidade de Cristo como também a verdade de Deus e do homem em geral.

A virgindade enquanto valor para o Reino de Deus é um estado de coração que o ser humano vai adquirindo pela acção do Espírito Santo. Por outras palavras, a virgindade como qualidade válida para o Reino é mais um estado a atingir que uma coisa a conservar. A proclamação de Maria, esposa e mãe de família, como a maior das virgens, significa que se trata de uma tarefa para solteiros, casados e viúvos. É o Espírito Santo que vai tornando o nosso coração virgem, isto é, fecundo em vida humana e amorosa.

No entanto, não podemos ignorar o peso enorme de pronunciamentos que, ao falar da sempre Virgem Maria estavam a pensar no aspecto físico. Eis alguns destes pronunciamentos mais significativos: No século XI, o papa Leão IX fala de Cristo como tendo nascido por obra do Espírito Santo e de Maria sempre virgem. Cristo teve dois nascimentos. Tem duas vontades (humana e divina). Isto significa que é homem perfeito, pois ele é perfeito nas duas naturezas. Tem alma humana [Denz., 344]. Felizmente que se salvou a questão do homem perfeito, até no aspecto espiritual.

No século XII, Inocência III diz que o Logos incarnou por obra da Trindade. Depois, acrescenta que foi concebido por Maria por intervenção do Espírito Santo [Denz., 429]. A Idade Media não distingue as missões históricas das pessoas divinas. O que actua em Deus é a natureza divina. O conceito de Deus como dinamismo de comunhão trinitária desaparece inteiramente. No século XV, o papa Eugénio IV, na Bula «Cantate Domino», diz que para a salvação do género humano o Verbo tomou, no seio de Maria virgem, uma natureza humana à qual se ligou tão intimamente que, onde há homem, não está desligado do divino [Denz., 708].

Como vemos, mantém-se constantemente a uniformidade de conceitos e expressões. Isto incapacitava um salto teológico e qualitativo. A fidelidade à fé não significa fidelidade a condicionamentos culturais e linguísticos. Foi isto mesmo que aconteceu em relação à virgindade perpétua de Maria.

No século IV, S. Cirilo condena os que falam dos outros filhos de Maria referindo-se aos irmãos de Jesus. Para ele, não podia sair outro filho do ventre original do qual nasceu Cristo segundo a carne [Denz., 91]. Isto prepara o campo para a virgindade perpétua entendida, naturalmente, em termos biológicos. O primeiro Concílio de Latrão (649) declara que Maria ficou virgem mesmo depois do parto [Denz., 256]. Esta mesma linguagem é continuada sem modificações significativas. Os argumentos devocionais serviam apenas para tornar ainda mais ininteligível o plano salvador de Deus na obra da encarnação.


3) Maria Como Mãe e Símbolo Virginal

Nunca nenhuma foi chamada de mãe por tantos seres humanos. Durante séculos mais de vinte séculos, os cristãos dirigem-se a Maria, invocando-a como mãe. Ao mesmo tempo, é proclamada a “rainha das virgens”. Como vimos acima, o facto de Maria ser esposa e mãe de família, não é obstáculo ao título de virgem. Com efeito, a virgindade como valor teológica não é uma questão de hímen inteiro. Com efeito, a virgindade, como valor teológico, é algo que transcende o conceito sócio-cultural ou biológico de virgindade.

Tertuliano diz que a concepção de Jesus é obra do Espírito Santo. Isto significa que Cristo é a semente vital de Deus. Mas Tertuliano defende que Maria perdeu a virgindade física com o parto. Além disso diz, como vimos, que os irmãos de Jesus foram gerados por Maria e José. Esta opinião de Tertuliano não foi contestada por nenhum autor, o que quer dizer que isto era considerado normal na época. Os irmãos de Jesus, diz Tertuliano, nasceram depois de Jesus [De monog. 8].

Na verdade, os Santos Padres dos séculos segundo e terceiro, apesar de interpretarem literalmente os Evangelhos da Infância, não pensavam que alguém pudesse falar de Maria como virgem após o parto. É importante sublinharmos que a maternidade e a perda de virgindade física associada ao parto não diminui em nada a bondade e a pureza do coração da mulher.

Como vimos acima, a opção celibatária é muitíssimo importante para as pessoas a quem esse dom é concedido. Mas este dom não existe pelo facto de a maternidade ou a paternidade ser um mal, mas porque, para essas pessoas, optimiza a qualidade e amplitude da fecundidade dessas pessoas. Por outras palavras, não é a maternidade nem a vivência amorosa do matrimónio que torna o homem impuro.

Graças ao dogma de Maria sempre virgem, apesar de esposa terna e mãe carinhosa, podemos dizer que a virgindade plena é uma qualidade do coração. Mais ainda, podemos afirmar que a virgindade de coração confere à pessoa a qualidade para as relações de comunhão na terra e terá na comunhão do Reino. Por outras palavras, a virgindade que vale para a comunhão do Reino de Deus não é uma película a conservar, mas um estado de coração a conquistar.

Não ignorarmos que a partir do século quinto se começa a falar na Igreja da virgindade perpétua de Maria. Por outro lado, esta afirmação tinha uma conotação física, pois a sexualidade era vista como uma realidade impura e menos capaz de comungar com Deus. No entanto, o dogma da virgindade perpétua de Maria é mediação de Evangelho, como vimos.

A questão da virgindade perpétua de Maria entrou mais cedo no discurso dos teólogos do que a imaculada concepção. No entanto as duas questões estão muito relacionadas. A doutrina da virgindade perpétua adiantou-se em séculos à doutrina da Imaculada devido à visão negativa da sexualidade. Dizer que Maria perdeu a virgindade física com o parto parecia a estes autores diminuir a divindade de Jesus. Penso que o contrário é mais importante. Com efeito, afirmar que Maria após o parto não era fisicamente virgem em nada diminui a divindade de Cristo e afirma plenamente a sua humanidade.

Aos teólogos da antiguidade parecia-lhes que a perda da virgindade física de Maria significava a profanação do santuário onde o Verbo de Deus ficou encerrado durante nove meses. Isto é uma distorção da verdade da Encarnação. Com efeito, a segunda pessoa da Santíssima trindade não deixou o Céu para habitar na terra enquanto Cristo aqui viveu. Na verdade, o Céu não ficou reduzido a duas pessoas enquanto a terceira se deslocou à terra. Deus é uma reciprocidade amorosa de três pessoas que não pode dissolver-se.
Devido à sua visão negativa da sexualidade, os Santo Padres do século quinto consideravam a virgindade perpétua de Maria mais importante do que a imaculada Conceição. Assim, por exemplo, os grandes teólogos deste período afirmavam que Maria tinha sido vítima do pecado de Adão como os outros seres humanos que tiveram pai. Orígenes diz expressamente que Maria foi vítima do pecado de Adão [Hom. in Luc. 17]. O grande defensor da mãe de Deus, S. Cirilo, pensava do mesmo modo [Comm. in Joah. 16, 25]. São Basílio reconhecia que Maria tinha herdado o pecado de Adão [Litt. 260]. Pensavam, além disso, que Maria tinha tido outros pecados além do pecado original. S. João Crisóstomo fala claramente do pecado de Maria por não ter aceite Jesus como Messias. Para ele isto era um pecado contra a fé [Hom. in Joah. 21, 2]. Mas estes autores, apesar de afirmarem a pecabilidade de Maria, defendem acerrimamente a sua perpétua virgindade. Isto denota a visão negativa destes autores no que se refere à sexualidade.

A visão dos evangelhos, sobretudo dos evangelhos da infância é outra totalmente diferente. Como valor teológico, a virgindade perpétua é indissociável da pureza do coração. Sublinhando as bem-aventuranças podemos dizer que o grau de virgindade de coração de uma pessoa é a medida da sua reciprocidade amorosa com Deus.

Maria é bendita, pois graças à virgindade excepcional do seu coração verá a Deus comunga com Deus de modo privilegiado: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8).Ver a Deus significa comungar plenamente com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esta pureza é tarefa de toda uma vida. É o resultado do acolhimento e cooperação com os apelos do Espírito Santo no nosso coração.

Podemos dizer que a virgindade de coração se mede pela capacidade incondicional de doação e comunhão. Esta capacidade é relacional, e refere-se tanto à comunhão com as pessoas divinas como com as humanas. Agora ser-nos-à fácil compreender o valor teológico da virgindade. Também já nos será fácil compreender a relação fundamental que existe entre virgindade e fecundidade. A virgindade de coração corresponde à capacidade de dançar eternamente o ritmo do amor no Reino de Deus. Esta capacidade, no entanto, adquire-se agora na terra. Por outras palavras, dançaremos eternamente o ritmo da comunhão e do amor com o jeito com que tivermos treinado agora.

Não nos iludamos, a fim de não sermos negativamente surpreendidos, pois a virgindade de coração é uma condição básica para tomarmos parte na festa universal do Reino de Deus. O Espírito Santo, como vimos, é a ternura maternal de Deus. É a virgindade infinitamente perfeita. O Espírito Santo é uma pessoa divina cujo jeito de ser é criar e animar relações de amor e comunhão entra as pessoas. O seu modo de se relacionar é criar laços de reciprocidade entre as pessoas. Ama e dá-se de modo incondicional. Nunca cativa para si, mas cativa para acontecer dom e comunhão entre as pessoas. Eis o modo infinitamente virginal de se relacionar, a maneira de viver a felicidade em grau de perfeição plena e total.

A Maternidade de Maria


a)Enquadramento Histórico
1) Perspectivas Bíblicas
2) Desenvolvimento Patrístico
3) Maria Mãe de Deus
4) Aprofundamento Teológico

b)Apreciação Crítica
1) Ambiguidades de Linguagem
2) Predominância Devocionista
3) Maternidade de Maria e Encarnação
4) Ambiguidades do Título Mãe de Deus


a) Enquadramento Histórico

1- Perspectivas Bíblicas

O Novo Testamento refere-se várias vezes a Maria como mãe de Jesus. São Paulo, sem mencionar o seu nome, faz-lhe referência, ao dizer que Jesus nasceu de uma mãe judia (Gal 4, 4). Liga Jesus à casa de David (Rm 1, 3). No evangelho de São João, Maria aparece nas bodas de Caná ao lado do Seu filho Jesus (cf. Jo 2, 1-11). Mas São João diz que isto aconteceu três dias depois, para dizer que Maria só esteve à Mesa com os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus (cf. Act 1, 12-14).

Maria é o grande dom maternal que o Senhor, ao ressuscitar, oferece à Igreja: “Então Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!”. Depois, disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E desde aquela hora, (a hora Jesus), o discípulo acolheu-a como sua mãe” (Jo 19, 26-27). Nos evangelhos, Jesus reconhece Maria como Sua mãe, mas não a chama nunca de mãe. A intenção dos discípulos é clara: afirmar que aquilo que Jesus é como Messias não é obra da carne nem do sangue, nem da vontade do homem, mas sim de Deus (cf. Jo 1, 12-14; Lc 11,27-28; Mc 3, 31-33).

Com o relato das Bodas de Caná, João sugere que Maria não é a origem da vocação messiânica de Jesus, mas como sua mãe é a grande mediação do Espírito Santo. É este o significado de Jesus, nas bodas de Caná, actuar antes da hora. A água viva e o vinho das bodas significam o dom do Espírito Santo que Jesus ia oferecer quando chegasse a sua hora (Jo 7, 37-39; cf. 1, 4).

Maria, com o seu jeito maternal de modelar a personalidade de Jesus, foi a grande mediação da acção maternal do Espírito Santo. Por outras palavras, a maternidade de Maria foi a maior mediação do Espírito Santo para o acontecimento messiânico. A missão messiânica, no entanto, não é obra de Maria mas sim do Espírito Santo. A hora de Jesus é obra do Espírito Santo, não de Maria (Jo 2, 4b). Quando chegou a sua hora, Jesus entrega Maria aos apóstolos, a fim desta ser para a Igreja nascente o que foi para Jesus: a mediação maternal do Espírito Santo (Jo 19, 26-27).

Maria, ao princípio, teve certa dificuldade em compreender e aceitar a missão messiânica de Jesus (Mc 3, 31-35). Podemos ter a certeza de que não foi Maria que influenciou Jesus no sentido de ele agir como Messias. São Paulo ao falar das diversas aparições de Cristo ressuscitado aos que lhe eram mais íntimos, menciona um aparição a Maria. Por se tratar de uma mulher, o seu nome não podia aparecer entre as testemunhas da ressurreição.

São Paulo encobre o nome de Maria com o de Tiago, o nome do mais velho dos irmãos de Jesus: “Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os apóstolos” (1 Cor 15, 7). E não pensemos que Paulo estaria a pensar noutra pessoa qualquer, pois o próprio Paulo refere o mesmo Tiago como o irmão de Jesus: “Passados três anos subi a Jerusalém, a fim de conhecer Pedro (Cefas) e fiquei com ele durante quinze dias. Mas não vi nenhum apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor” (Ga 1, 19).

Os Actos dos Apóstolos dizem que a mãe e os irmãos de Jesus, após a ressurreição do Senhor, faziam parte da Igreja nascente (Act 1, 14).O evangelho de Marcos diz que, em Nazaré, toda a gente conhecia Jesus como o filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão. Também eram conhecidas as suas irmãs (Mc 6, 3).

O evangelho de São João reconhece, tal como os sinópticos, que Maria era a mãe de Jesus e seu pai era José: “Não é ele o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe?” (Jo 6, 42a) Mateus confirma estes dados quando afirma: “Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão todas entre nós?” (Mt 13, 55-56a).

O facto de os evangelhos não darem muito realce à família de Jesus, é para afirmar que a sua missão messiânica consistia em construir a família de Deus e não uma família humana. Por isso Jesus afirma que a sua mãe, seus irmãos e irmãs são os que acolhem a Palavra de Deus que ele anuncia (Lc 8, 19; Mt 12, 46; Mc 3, 31).

É este o sentido da afirmação de Jesus segundo a qual o verdadeiro Pai de todos é Deus Pai: “Na terra a ninguém chameis pai. Um só é o vosso Pai: aquele que está nos céus» (Mt 23, 9). Na Família Universal que Jesus está a iniciar Deus é o Pai de todos. Jesus reforça este ensinamento dizendo que agora, ao orarmos, devemos dirigir-nos a Deus chamando-a de Pai-Nosso (Mt 6, 9). Chamar Deus Pai de Pai-Nosso, é o mesmo que chamar a Deus Filho e aos demais seres humanos de irmãos, pois já formamos todos a Família de Deus.

O Espírito Santo, com seu jeito maternal de amar, é quem nos introduz nesta Família definitiva (Rm 8, 14-17; Ga 4,4-7). É pela mediação e pela ternura maternal que as pessoas são introduzidas no seio da sua família! É esta a razão pela qual São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus difundido nos nossos corações (Rm 5, 5). Deus Pai acolhe-nos na Família Divina na medida em que formamos uma união orgânica com o Filho (Jo 15, -8; 1 Cor 10, 17; 12, 27; 12,13). Por outro lado, o princípio vital que alimenta esta união orgânica com Cristo é o Espírito Santo (Lc 11, 13; Jo 15, 26; Rm 8, 14; Gal 4, 5-7).


2- Desenvolvimento Patrístico

O dinamismo e a linguagem bíblica desaparecem da teologia no século segundo. O judeo-cristianismo recusa-se a aceitar o mistério da Santíssima Trindade. Como sabemos, o monoteísmo judaico é unipessoal: Deus é um sujeito único cujo nome é Yahvé. O Espírito Santo, conduzindo a Igreja pela mediação do termo Filho e sua relação com o Pai, chega ao mistério da Santíssima Trindade. Por outras palavras, o monoteísmo cristão é tripessoal. O uno, em Deus, é a sua comunhão orgânica, dinâmica indissolúvel. O plural, na Divindade, é constituído por três pessoas: Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Os cristãos de origem judaica não conseguem fazer a passagem para a noção comunitária de Deus. Abandonam a Igreja formando um grupo fechado chamado os “Ebionitas”, isto é, os pobres de Deus. Eis a razão pela qual a teologia, agora, passa a desenvolver-se apenas em categorias helenistas.

Para o pagano-cristianismo, a incarnação vai ser vista em termos de biologisação do Logos. O Logos vem cá abaixo, forma o corpo de Jesus no seio de Maria e encerra-se dentro desse corpo. Como consequência, Maria transporta dentro de si e durante nove meses o Logos, isto é, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, como diz Inácio de Antioquia: “O nosso Deus, Jesus Cristo, foi levado no seio de Maria segundo a economia divina. Nasceu da semente (sémen) de David e do Espírito Santo” (Inácio de Antioquia, Ef. 7, 18). Inácio diz ainda que o facto de Jesus ter nascido da Virgem foi um mistério oculto do Demónio e foi o começo da nossa salvação (Inácio de Antioquia, Ef., 7, 19).

Santo Ireneu sublinha que o pecado de Adão se propaga pelo pai. Como Cristo não teve pai humano, não herdou o pecado de Adão (Adv. Haer. II, 21, 10). A maternidade de Maria, portanto, tinha de ser virginal, a fim de Jesus não herdar o pecado de Adão. Graças à maternidade virginal de Maria o Novo Adão não pertenceu à estirpe pecadora do velho Adão. Movido pelo Seu grande amor à humanidade, diz Santo Ireneu, o Filho de Deus, igual ao Pai, quis nascer de uma virgem, a fim de ligar a humanidade rebelde com Deus (Adv. Haer, I, 10, 1; III, 4, 1-2).

Apesar desta influência dos mitos gregos na sua linguagem da Encarnação, os Santo Padres dos séculos segundo e terceiro defendem equilibradamente a condição humano-divino de Jesus. Jesus era homem porque germinou no seio de uma terra humana. Se não tivesse grandeza humana, o Filho de Deus não podia ter ligado a humanidade à divindade. Assim como o primeiro Adão foi tirado da terra ainda virgem, isto é, o barro primordial, o segundo Adão nasceu de uma virgem [Adv. Haer, 2, 21, 10]. Apesar desta dificuldade em falar da Encarnação em termos bíblicos, os Santos padres combatem o gnosticismo que é de facto a grande distorção acerca da encarnação.

O docetismo gnóstico afirmava que Jesus tinha apenas um corpo aparente, pois era o Logos a exprimir-se para os homens. Tinha uma aparência de corpo para se fazer entender dos homens. Mas na verdade, Cristo não tinha corpo biológico, pois era o Logos, o Filho de Deus. Deus não tem sémen biológico. Portanto, só aparentemente o corpo de Jesus era de carne.

Santo Ireneu ataca este radicalismo dizendo que, sem corpo biológico, Jesus não teria salvo a humanidade. Adão, primeira cabeça da humanidade, desorientou o corpo. Cristo, ao ser constituído nova cabeça da humanidade, reconduz o corpo para o ritmo certo. Isto não podia ter acontecido se Ele não tivesse sido verdadeiro homem (Adv. Haer., 1, 10, 1).

No século terceiro, Tertuliano afirma que não há salvação para os que combatem a maternidade de Maria. O gnosticismo, ao afirmar que Jesus tinha apenas um corpo aparente, negava que Ele fosse verdadeiramente filho de Maria. Para Tertuliano o Verbo é Deus e é eterno como o Pai. Ao tomar carne humana não precisou de a tomar de nenhum homem (De Car. 18).

Por outras palavras, o Verbo tomou carne humana, embora de modo não humano: “Esta é a nova vida que faz o homem nascer de Deus. Neste homem (Jesus) Deus nasceu tomando carne de linhagem humana, embora de modo não-humano. Deste modo, renova espiritualmente a Humanidade e limpa-a da mancha hereditária. Este novo nascimento, em virtude do qual o Senhor nasceu de uma virgem, segundo uma racional economia, tem, como todas as outras coisas, uma figura antiga. A terra estava ainda virgem, isto é, ninguém a tinha ainda lavrado nem lançado nela a semente quando Deus plasmou nela o homem vivo. Por conseguinte, como se diz, o primeiro Adão foi tirado da terra. Do mesmo modo, o novo Adão, como lhe chama o Apóstolo, devia ser tirado por Deus de uma terra, isto é, de uma carne, a qual não tinha sido fecundada por nenhum homem, em ordem à geração” (De Car., 19).

No entanto, Tertuliano afirma que Maria, no momento de dar à luz, perdeu a virgindade (De Car. 23). A ideia de Maria ter perdido a virgindade com o parto ainda não era contestada por ninguém. Eis a razão pela qual ninguém contradisse Tertuliano. No século Segundo, Santo Ireneu afirmava que apenas foi salvo aquilo que foi assumido por Cristo. No século seguinte, Tertuliano deixa-se conduzir pelo rigorismo montanista. Uma vez que Cristo não é Cristo não é fruto de uma relação sexual, Cristo não assumiu a sexualidade. Devido a isto os pecados do sexo não têm perdão, pois Jesus Cristo apenas obteve o perdão e a salvação para aquilo que assumiu, como diz Santo Ireneu. Tudo isto vai contribuir enormemente para a visão negativa da Igreja a propósito da sexualidade.

No Oriente, Orígenes segue a mesma linha que Tertuliano assumiu no Ocidente. Segundo Orígenes, para salvar a humanidade, tinha de ser homem, mas tinha de ser fruto de uma maternidade virginal. Como não podia ser herdeiro do pecado de Adão, o Logos encarnou no seio de uma virgem [Hom. in Lev., 12, 4].


3- Maria, Mãe de Deus

São Gregório de Nazianzo, no século quarto, afirma que Cristo foi formado no seio de Maria de modo humano-divino. Divino porque não provém de sémen humano; humano, porque a sua gestação se processou no seio de Maria segundo os processos humanos (cf. Gregório Nazianzeno, Lit. 101). Tertuliano, no século terceiro, dizia que Deus nasceu do seio da virgem. No século quinto, São Leão Magno afirma que o salvador devia ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O único caminho para isto poder acontecer seria nascer de uma virgem, isto é, sem o concurso de um homem, a fim de estar livre do pecado de Adão (cf. S. Leão Magno, Sermones, 22, 1-4).

Esta visão das coisas vai culminar na questão da maternidade divina de Maria. Por outras palavras, Maria é Mãe de Deus (Theotocos). A questão nasce em contexto polémico, acabando num concílio polémico (Concílio de Éfeso), em que os partidários das duas opiniões opostas se excomungam mutuamente. Na origem estão duas escolas teológicas que utilizam filosofias diferentes: Alexandria e Antioquia. Alexandria participava do neoplatonismo e Antioquia pertencia à corrente aristotélica. Constantinopla pertencia ao patriarcado de Alexandria cujo patriarca era Cirilo.

Tudo começou com a nomeação de Nestório como bispo de Constantinopla. Nestório tinha uma maneira aristotélica de ver as coisas. O aristotelismo é analítico e indutivo. O platonismo é dedutivo e, portanto, muito mais especulativo. Uma vez instalado na sede episcopal de Constantinopla, o bispo Nestório, nos seus sermões, começa a pregar que é mais acertado dizer que Maria é mãe de Cristo, do que dizer que é mãe de Deus. Maria gerou apenas a natureza humana de Jesus, não a sua natureza divina. Além disso, dizer Cristo era dizer não só o homem como também o Logos, pois os dois formam um.

Os monges de Constantinopla eram de formação neoplatónica. Chocados com a linguagem do novo bispo, acusam-no ao patriarca de Alexandria, Cirilo, dizendo que têm um bispo herege. Para o neoplatonismo, o homem é um composto de corpo e alma. Estas duas realidades formam apenas uma natureza humana. Apesar de não gerar a alma, a mãe de um homem é considerada mãe do corpo e da alma. O Filho de Deus é homem e Logos. Forma uma só natureza (fysis) divina. A mãe de Cristo é, portanto, também mãe de Deus. Assim surge a questão de Maria Christotocos ou Theotocos (mãe de Cristo ou mãe de Deus).

Os antioquenos formulavam a questão melhor que os alexandrinos. No entanto, estes tinham mais influência em Roma do que aqueles. Cirilo recorre ao papa e obtém todos os poderes para solucionar a questão. Para os antioquenos a divindade do Logos não anulou a humanidade de Cristo, nem lhe tirou a autonomia. Para os alexandrinos de formação neoplatónica, a humanidade de Jesus era dirigida pela divindade como o corpo é dirigido pela alma. Daqui que falassem apenas de uma fysis ou natureza em Cristo.

Os antioquenos falavam de duas fysis ou naturezas, a saber: a humana e a divina. Por fysis os antioquenos entendiam princípio autónomo de acção. Os alexandrinos, pelo contrário, entendiam o elo de união. Em Cristo há um só elo de união. O princípio superior comandava o inferior. Cirilo escreve a Nestório no sentido de o obrigar a retratar-se. Este recorre aos antioquenos os quais tinham cultura aristotélica como Nestório. O patriarca de Antioquia toma o partido do Bispo de Constantinopla. Mas o bispo de Constantinopla dependia de Alexandria e não de Antioquia e Cirilo convoca o concílio de Éfeso. Aos alexandrinos parecia-lhes que os antioquenos, ao falarem de duas naturezas, estavam a falar de duas coisas não perfeitamente interligadas. Era um pouco como se a humanidade e a divindade de Cristo fossem duas ilhas isoladas, embora fazendo um arquipélago. A grande questão, portanto, era saber de que modo o humano e divino estão unidos em Jesus Cristo.

De modo derivado aparece, naturalmente, a questão da maternidade de Maria. Ela é mãe da humanidade de Cristo ou também da Sua divindade? Tudo depende do tipo de união que existe entre estes dois pólos da realidade de Cristo. Para nós, hoje, a questão parece simples. Para estes homens era realmente um problema difícil.

Os antioquenos tiveram problemas na viagem e chegam atrasados. Enviam um emissário, pedindo a Cirilo para atrasar o começo do Concílio por uns dias, pois estão com dificuldades na viagem. Cirilo não quis esperar e inaugurou o Concílio. Quando chegaram os antioquenos, já os alexandrinos tinham excomungado Nestório e declarado o dogma de Maria mãe de Deus. Os antioquenos ficam profundamente magoados e excomungam Cirilo e os alexandrinos. Por sua vez, estes excomungam os antioquenos. Vêm os soldados do imperador e obrigam os Padres Conciliares a regressar aos seus patriarcados. Foi assim que terminou o Concílio de Éfeso que proclamou o dogma de Maria, mãe de Deus.

Mais tarde, Cirilo compreendeu o pensamento dos antioquenos e diz que a linguagem destes é mais adequada para dizer a realidade de Cristo. Eis a razão pela qual nós, hoje, dizemos que em Cristo há duas naturezas perfeitas, isto é, a natureza humana e a divina. Cirilo compreendeu que Cristo é perfeitamente homem e que, portanto, a sua humanidade não é anulada nem substituída pela divindade do Logos. Agora, é Cirilo que vai ser acusado de traidor pelos monges e teólogos da escola alexandrina.

O Novo Testamento, ao falar de Maria como mãe de Jesus está a falar apenas da mãe de um homem. Os evangelhos insistem que a condição messiânica de Jesus não é obra da maternidade de Maria, mas sim do Espírito Santo. Mas os conceito e a linguagem bíblica há muito que tinham desaparecido da Igreja.

A cidade de Éfeso, antigo centro de culto da deusa Ártemis (Act 19, 35), delira com a proclamação de Maria mãe de Deus. As velhas raízes ligadas ao culto de uma deusa são agora canalizadas para uma virgem que é mãe de Deus. Segundo a tradição de Éfeso, a estátua de Ártemis caíra do céu (Act 19, 35b). Paulo opôs-se a este culto idolátrico, dizendo-lhes que a estátua de Ártemis não é divina, mas é obra dos homens. É um ídolo sem valor feito pelas mãos dos homens (Act 19, 36). Isto revoltou os fabricantes de estátuas que sublevaram o povo contra Paulo, procurando matá-lo (Act 19, 29).


4- Aprofundamento Teológico

Ao desviar-se da linguagem bíblica, a teologia pode gerar confusões e tensões muito difíceis de resolver. Foi realmente o que aconteceu por diversas ocasiões ao longo da história de Igreja e, neste caso em particular no Concílio de Éfeso. O Novo Testamento usa uma linguagem muito simples e transparente ao falar de Maria, a mãe de Jesus. Ao designar Maria como mãe de Jesus, o Novo Testamento não atribui a este título qualquer conotação especial. Ela é a mãe de um homem que Deus ungiu e consagrou com o Espírito como Messias (Rm 1, 3-5; 9, 5; Act 2, 22; Act 2, 32-33; Act 10, 38).

Como sabemos, a Cristologia do evangelho de São João tem como pano de fundo a ideia do Logos preexistente encarnado (Jo 1, 1ss). Mesmo neste evangelho Maria é designada simplesmente como mãe de Jesus, sem que isso signifique qualquer associação com o Logos (Jo 2, 1; 2, 12). Ao chegar o momento da Sua glorificação, Jesus insere-a no número dos discípulos (Jo 19, 26-27). É aí que, segundo os Actos dos Apóstolos, ela aparece a viver as alegrias da experiência pascal com os discípulos e os irmãos de Jesus (Act 1, 14).

Para os evangelhos, a condição messiânica de Jesus é obra do Espírito Santo e não é fruto da carne ou sangue (cf. Lc 4, 18-21). É igualmente pelo Espírito Santo que os crentes são gerados como membros da Família de Deus (Jo 1, 12-14). Por isso é preciso nascer de novo (Jo 3, 6; 1, 12-13; Rm 8, 14-17; Gal 4, 4-7).

Hoje não é difícil verificar que a linguagem de Nestório era mais adequada para o alcance da maternidade de Maria. A realidade humana de Jesus não se confunde nem é anulada pela Sua realidade divina. Maria, para o Novo Testamento, é mãe de Cristo, o homem que Deus ungiu com o Espírito para realizar a sua missão messiânica (Lc 4, 18-21).

Em termos preexistentes, Maria não é a mãe do Logos eterno, pois o Logos não se biologisou. Se assim fosse, Maria era, não a mãe de Deus, mas a mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Seria assim porque teria alimentado a biologia do Logos com o Seu próprio sangue. O mistério da Encarnação processa-se a um nível suprabiológico. Supõe a interacção directa e imediata entre a interioridade espiritual de Jesus de Nazaré e a interioridade espiritual divina do Logos. Estes dois pólos estão em perfeita reciprocidade relacional, graças à acção do Espírito Santo.

É isto que queremos dizer quando afirmamos que O Filho de Deus encarnou pelo Espírito Santo. No mistério da Santíssima Trindade, o Pai e o Filho estão em total reciprocidade amorosa de tipo paternal-filial, alimentada pela ternura maternal dói Espírito Santo. Do mesmo modo, a interioridade humana de Jesus está em perfeita reciprocidade relacional com a interioridade divina do Logos. Nesta união interactiva nem o divino anula o humano, nem este limita ou mutila o divino.

O mistério da Encarnação passa-se ao nível da interioridade espiritual humana de Jesus com a interioridade espiritual da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Isto significa que o coração de Jesus, isto é, o seu núcleo espiritual mais íntimo, estava permanentemente em interacção com a interioridade do Logos pelo Espírito Santo. Quando o Novo o evangelho de João chama a Jesus Cristo filho de Deus, inclui o homem pleno e também o Logos.

Se O Novo Testamento utiliza como confissão central da Fé a expressão “Deus é o Pai de Cristo”, porque razão havia de ser problema dizer que Maria é a “Mãe de Cristo”? Como sabemos, Deus é uma comunidade de três pessoas. Para indicar a unidade humano-divina de Cristo poderíamos aceitar a expressão “Maria mãe de Cristo que é o homem Jesus de Nazaré e a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Mas se quiséssemos falar com rigor, o termo mãe de Deus sugere que é mãe do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deus é a comunidade trinitária. Por isso não falamos de três deuses. O Uno em Deus é a comunhão trinitária. O plural são as pessoas e cada uma delas é única, original, irrepetível e com missões distintas.

Maria é a mãe de Cristo. Isto implica dizer o homem Jesus de Nazaré e a Segunda pessoa da Santíssima Trindade. Pela Encarnação, o Filho Eterno de Deus fez-se nosso irmão. Por isso não é problema dizer que ele é filho de Maria. Por outras palavras, o termo mãe de Deus é teologicamente menos adequado que o termo mãe de Cristo para significar o papel de Maria na história da Salvação.

Este aspecto não é indiferente, pois é uma mediação para dizer adequadamente a realidade de Deus. O monoteísmo cristão não é igual ao das demais religiões monoteístas. Deus, para as religiões monoteístas, é um «Eu». Para o cristianismo, Deus é um «Nós», isto é, uma comunidade familiar de três pessoas.

Dar o nome de mãe de Deus a Maria, obscurece o facto de Deus ser uma comunidade de pessoas e não aclara o mistério da Encarnação. Sem o pretender, o Concílio de Calcedónia acaba por dar razão a Nestório, dizendo que Maria é mãe de Deus segundo a humanidade. Sem a restrição de Calcedónia, Maria ficava quase uma deusa virgem e mãe.

Nos três evangelhos sinópticos, Jesus declara que veio para construir a família de Deus, a qual assenta nos laços o Espírito Santo e não nos laços da carne. É este o sentido da afirmação de Jesus segundo a qual, os que acolhem a Palavra de Deus são a família de Jesus (Mc 3, 35). É evidente que isto não quer dizer que os familiares de Jesus não façam parte desta família criada no Espírito.

A prova de que Maria e os irmãos de Jesus fazem parte desta família espiritual é que, após a Páscoa, eles são membros activos na comunidade de Jerusalém (Act 1, 14). O mais velho dos irmãos do Senhor, Tiago, aparece mesmo como o chefe da comunidade de Jerusalém (Act 15, 13-21;Ga 1, 19). Vimos também como Maria e os irmãos do Senhor tiveram uma experiência pascal semelhante ao grupo dos apóstolos, a qual aparece designada como experiência de Tiago, o primeiro dos irmãos de Jesus (1 Cor 15, 7). Até ao século quarto, Maria era designada como mãe de Jesus ou mãe de Cristo, sem que cause qualquer problema. A linguagem mudou, como vimos, com a polémica entre os monges de Constantinopla e o bispo Nestório, a qual deu origem ao concílio de Éfeso.


b) Apreciação Crítica

1- Ambiguidades de Linguagem

Muitas das afirmações mariológicas acerca da maternidade divina de Maria careciam, em geral, de rigor teológico e tinham pelo meio muitas ambiguidades de linguagem. Esta situação, no entanto, agrava-se com o suceder dos séculos. Assim, por exemplo, em meados do século vinte, diz-se que Maria alimentou o próprio Deus com o Seu leite: “O seu corpo foi o trono da virtude. O verdadeiro santuário de Deus. Maria estreitou Deus contra o Seu próprio peito. Alimentou-o com o Seu leite. Defendeu-o com terna fidelidade” (Giovani Barra, Nuestra Señora y las conversiones, in Theotocos, op. cit. p. 231).

É evidente que afirmações deste tipo não são mediação para a transmissão da verdade de Deus e do homem. É verdade que não foi fácil à teologia equacionar a unidade humano-divina, sobretudo, afirmar os dois pólos da realidade de Cristo (o humano e o divino) sem os anular nem os confundir. Em 380, o Concílio Romano afirmava que em Cristo não existem dois filhos de Deus: o anterior a todos os séculos e o que nasceu no tempo (cf. Denz. 64). Esta dificuldade deve-se ao facto de se ter perdido a noção bíblica de filho de Deus e de incarnação.

É importante termos presente que a humanidade de Jesus não foi anulada pela divindade do Logos. Pela incarnação, a humanidade de Jesus ficou orgânica e dinamicamente ligada ao Logos. Para acontecer o mistério da Encarnação não foi preciso romper-se a comunhão trinitária. Por outras palavras, a união orgânica de Jesus de Nazaré com a Segunda pessoa da Santíssima Trindade acontece pelo Espírito Santo no sentido da interioridade de Jesus.

Não esqueçamos que Deus é a interioridade máxima do Universo. É interior a tudo e a todos. Por outras palavras, para acontecer a Encarnação o Filho Eterno de Deus não teve que se deslocar. Bastou fazer uma interacção directa, animada pelo Espírito Santo, a partir da interioridade transcendente da Santíssima Trindade para a interioridade espiritual de Jesus de Nazaré.

O helenismo dificultou aos Santos Padres uma formulação adequada desta verdade. É importante salvaguardar a autonomia da humanidade e da divindade em Jesus Cristo. Estas duas dimensões não se misturam nem confundem. Esta autonomia foi defendida pelos concílios cristológicos posteriores a Niceia. Quando Jesus comia, não estava a alimentar o Logos. O alimento ou dinamismo vital deste é a reciprocidade amorosa com o Pai no Espírito Santo: “Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 57).

No mistério da encarnação, portanto, o pólo divino não se anula nem se confunde com o humano ou vice-versa. Cada um continua a existir na sua grandeza própria. Entre os dois pólos há proporcionalidade e unidade perfeita, pois a missão messiânica compete tanto ao Filho Eterno de Deus como a Jesus de Nazaré, o filho de Maria. São na realidade duas interioridades pessoais: uma humana, outra divina. Eis a razão pela qualquer havia condições para acontecer a encarnação: a Divindade é pessoas e a Humanidade também.

As pessoas humanas não são iguais às divinas, mas são proporcionais. Se assim não fosse, a encarnação também podia acontecer num animal. Mas isto não seria encarnação mas possessão. O mesmo podemos dizer se Jesus fosse, como tantas vezes parecer fazer-se crer, uma casca de homem dentro da qualquer estava o Logos a substituir a interioridade pessoal-espiritual de Jesus.

Estas duas interioridades espirituais estão em permanente interacção no Espírito Santo, tal como acontece a interacção entre a interioridade do pai e do Filho no Espírito Santo, fazendo apenas um: “ Eu e o Pai somo Um” (Jo 10, 30). Esta interacção supõe dois movimentos complementares: incarnação ou adequação do divino ao humano e ascensão ou plenificação do humano no divino.

É evidente que não é Maria, mas sim o Espírito Santo que alimenta e fortalece esta interacção humano-divina. Com efeito, a realidade de Cristo é humano-divina. Ele é o fruto mais amadurecido da humanidade. Maria gerou, naturalmente a humanidade de Jesus e é a Mãe de Cristo no seu todo, pois a missão do Logos e a de Jesus é uma e a mesma.

A questão da mãe de Deus foi solucionada de modo conflituoso e ambíguo na sua linguagem. Por isso não ficou satisfatoriamente resolvido. Eis a razão pela qual o Concílio de Constantinopla diz que, se alguém afirma que Maria é christotocos (mãe de Cristo) e não theotocos (mãe de Deus), seja excomungado (Denz. 218, 214).

Mas o Concilio corrige os exageros do concílio de Éfeso dizendo que Maria é mãe de Deus segundo a humanidade, não segundo a divindade. Fica assim suavizada a afirmação de Éfeso, embora usando uma linguagem pouco clara. Ainda em 1931, Pio XI afirmava: “Se a pessoa de Cristo é única e esta é divina, sem dúvida que Maria deve ser chamada por todos não só mãe de Cristo homem, mas também mãe de Deus ou theotocos” (cf. Pio XI, Lux Veritatis, 1931).

Entre os autores medievais, Santo Tomás foi o que melhor formulou a questão da maternidade de Maria. Eis como ele formula a questão: “Ela é a mãe do Verbo de Deus, não enquanto Ele é o Filho do Pai, mas enquanto subsiste na natureza humana” (S. Th. 3, q. 3, a. 8). Podemos dizer que Santo Tomás formula a questão de maneira equilibrada. Maria não é a mãe do Verbo. Este precede-a. Diz que Maria não é mãe de Deus no sentido de que Deus tenha resultado de uma geração humana (S. Th. 3, q. 4, a. 3).

Mas também Santo Tomás não consegue ultrapassar as ambiguidades. Por exemplo afirma que foi o Verbo que preparou a Sua própria humanidade no seio de Maria (S. Th. 3, q. 6, a. 5). Não se vê bem o papel de Maria ou o do Espírito Santo. Esta expressão de Santo Tomás quase dá a impressão que o Logos veio ao seio de Maria preparar o recipiente no qual havia de se meter. S. Agostinho foi mais feliz ao dizer que Maria foi bem-aventurada na medida em que concebeu Cristo no Seu coração pela fé (De Virginit., 3).


2- Predominância Devocionista

A partir da Idade Média, o critério subjacente aos mariólogos parecia ser este: é melhor mariólogo o que consegue dizer coisas mais fantásticas de Maria. Com este tipo de procedimento pretendia-se aumentar a devoção mariana. O critério era a devoção, não o aprofundamento da verdade bíblico-teológica. A devoção a Maria valia mais que o rigor da verdade. Quando o critério é a devoção pouco importa a exactidão da fé. Faz-se de Maria a medianeira de todas as graças. Quanto mais devoção, mais graças.

Este género de procedimento levou a afirmações desligadas do fundamento bíblico da fé. Se Maria é a medianeira de todas as graças, dizia Pio IX, ela possui mais graça sozinha que todos os santos e eleitos juntos (Pio IX, Inneffabilis Deus). Com a entrega simbólica de Maria ao discípulo amado, o Quarto Evangelho quer exprimir que, chegada a Sua hora, Jesus passa a ser o Filho de Deus na plenitude da Sua missão, que não é obra da carne nem da vontade humana, mas exclusivamente de Deus (Jo 1, 12-13).

Santo Agostinho dizia que Maria, sendo mãe de Cristo, é nossa mãe, poiso Cristo e os cristãos formam uma só pessoa mística. Maria, sendo a mãe da cabeça, torna-se igualmente mãe do corpo. O princípio vital que alimenta a nossa união a Cristo é o Espírito Santo (Santo Agostinho, In Ps. 26, II, 2). A vida do Espírito vem da cabeça para os membros (In Ep. I Joah., 3, 5).

A noção de Maria mãe de todas as graças não deriva do património bíblico-patristico da fé. É fruto do devocionismo. No século Doze, Hermano de Tournai dizia de maneira bastante equilibrada e aceitável: “O filho de Maria é nosso irmão. Por conseguinte, Maria é nossa mãe” (cf. Melchor de Santa Maria, Maria en los escritos de los doce primeiros siglos, in Theotocos, op. cit. p. 83).

Devido aos exageros do devocionismo, Maria quase ocupava o lugar do Espírito Santo que é amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Há um grande exagero nesta afirmação de Melchor de Santa Maria: “Deus criou todas as coisas sozinho. Por isso deve ser chamado nosso Pai e nosso Senhor. No entanto, não quis voltar a criar-nos, isto é, restaurar as coisas perdidas sem o concurso de Maria” (Melchor de Santa Maria, Maria en los escritos de los doce primeiros siglos, in Theotocos, op. cit. 84). Afirmações como esta carecem de rigor teológico. Cristo foi ungido pelo Espírito Santo para restaurar a Humanidade decaída (Lc 4, 18-21). Afirmações como esta fazem de Maria um ser tão imprescindível como Deus.

3- Maternidade de Maria e Encarnação

É importante afirmar que a devoção mariana não é matéria suficiente para fazer Mariologia. Separada da fé esclarecida, a devoção não passa de adesão cega. Pelo contrário, iluminada pela fé, a devoção é compreensão, reconhecimento e adesão ou imitação. Através de Jesus, o Logos exprimiu-se em grandeza humana pelo Espírito Santo. O Espírito é o princípio relacional e comunicativo de Deus. Pela mediação da humanidade de Jesus, os homens são incorporados na família de Deus. São Paulo diz na primeira Carta a Timóteo que Jesus é o único medianeiro entre Deus e os homens (1Tm 2, 5).

A Mariologia tradicional fazia, por vezes, afirmações totalmente descabidas de sentido como, por exemplo esta afirmação de Judica Cordiglia: “No momento do ‘fiat’, o Verbo iniciou, nas entranhas de Maria, a sua vida humana” (Judica Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, op. cit., p. 171). Por outro lado, este mesmo autor faz do Logos um gémeo de Maria: “Aconteceu que esta célula germinativa (óvulo de Maria), no seu estádio antecedente à maturação, possuía no seu núcleo a totalidade dos elementos essenciais (cromossomas), juntamente com os vectores dos caracteres dos gerador, os genes. Não se desenvolveu segundo o processo natural de redução (meiose), mas desenvolveu-se sem se modificar, de tal modo que o novo ser humano veio assumir as características somáticas só da mãe. Foi uma cópia idêntica dela. Por outras palavras, seu gémeo. Contudo, este gémeo é masculino devido ao influxo que pode exercer determinados genes no desenvolvimento do embrião para a masculinidade” (Judica Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, op. cit., p. 170).

Estamos perante uma falta total de rigor de linguagem. Cordiglia não se apercebeu de que o cromossoma sexual chamado «Y», determinante da masculinidade, não existe na mulher normal. Depois continua a fazer afirmações sem qualquer sentido. Uma vez presente no seio de Maria, o Logos começa a exercer sobre Maria, sua mãe, efeitos miraculosos: “Jesus, portanto, influenciará o corpo de Maria durante a fase de embrião, como acontece com todos os embriões. Não apenas de um modo contingente, mas eterno, como é próprio dele” (Judica Cordiglia, Semblanza físico-somática de Maria, in Theotocos, op. cit., p. 171).

A biologisação da encarnação levou a afirmar uma mudança na própria vida do Verbo. Em pleno século vinte, alguns autores pensavam que, pelo facto de Maria ser geneticamente gémea de Jesus, o seu corpo biológico não sofreu a corrupção. Daqui que se afirmasse a assunção de Maria como um acontecimento biológico: “Quando dois gémeos derivam do mesmo óvulo, isto é, têm o mesmo património hereditário, assemelham-se tanto no corpo como no carácter. Têm a mesma vida e destino. Do mesmo modo, e com maior razão, podemos admitir que o corpo de Maria, tal como o corpo de Jesus, fosse liberto por Deus da corrupção da morte e predestinado para ressuscitar e subir aos céus, tal como aconteceu com o corpo de Jesus” (Nicola Pende, Maria a la luz de la ciência biológica, in Theotocos, op. cit., p. 176).

Eis outra afirmação que vale apenas para confirmar como a devoção não é fundamento sério para fazer teologia: “A eternidade entra no tempo por meio do seio de Maria. Ai está a energia divina que, como um fermento, leveda toda a massa humana. O germe que se desenvolve e cresce. O Reino de Deus que começa na terra” (Raimondo Spiazzi, Maria en la realización histórica del plano de salvación, in Theotocos, op. cit., p. 194).

Paulo vê as coisas de modo diferente. Fala do homem originado no céu pelo Espírito Santo. Os homens novos, a nova criação é obra de Deus (cf. 1Cor 15, 46; 2Cor 5, 17). Os Padres dos séculos segundo e terceiro, mantêm uma postura bastante mais equilibrada do que os mariólogos de meados do século vinte. São Justino fala de Maria como a Nova Eva, a terra virginal que gerou o Novo Adão (Dial. Tryph., 100). Santo Ireneu diz que Maria é a mediação para o acontecimento de Cristo (Adv. Haer., V, 19, 1). Lucas, ao compor o cântico do Magnificat, situa Maria no conjunto dos grandes personagens bíblicos. Ela é a síntese da caminhada do povo bíblico para o acontecimento messiânico.


4- Ambiguidade do Título de Mãe de Deus

4.1- Insuficiente rigor teológico

O problema do devocionismo, na Mariologia, começou no século quinto. Quando Nestório disse que Maria gerou apenas a natureza humana de Cristo estava a dizer uma coisa correcta. Muitos destes problemas eram apenas uma questão de linguagens diferentes. Não deixa de ser curioso que a história dos dogmas conheça duas condenações heréticas que, em si mesmas, são contraditórias: o monofisismo e o duofisismo. Condena-se que Cristo tenha uma só natureza e condena-se que Cristo tenha duas naturezas. No fundo, as pessoas estavam a afirmar a mesma coisa com linguagens diferentes.

Cirilo, atacando Nestório, parecia mais inexacto que Nestório: “A virgem é mãe de Deus (theotocos), pois deu à luz, carnalmente, o Deus-Verbo feito carne” (Conciliorum Oecumenicorum Decreta, nº 59, Bolonha, 1972). Foi esta tese de Cirilo que venceu no concílio de Éfeso. No entanto, a que veio a vingar na história da Igreja foi a de Antioquia: Em Cristo há duas naturezas numa só «hypóstasis», isto é, numa única unidade subsistente. Com tudo isto pretendia-se afirmar um aspecto fundamental da fé: Jesus é tão plenamente humano como divino. No entanto, o termo theotocos continuou a ser o único a ser considerado correcto.

No Concílio de Calcedónia já domina o pensamento aristotélico, que era afinal o dos antioquenos que foram condenados no concílio de Éfeso. Calcedónia, como vimos, diz que Maria é mãe de Deus segundo a Sua humanidade. Referindo-se a Cristo, o Concílio de Calcedónia diz que a natureza humana e a divina, em Cristo, não se fundem nem confundem. Permanecem numa substância harmónica (prosopon-hypóstasis). As duas naturezas subsistem numa só pessoa subsistente, segundo a linguagem da época (Conciliorum Oecumenicorum Decreta, Bolonha, 1972, nº 86). Hoje podemos dizer que Jesus Cristo, enquanto gerado por Maria, é um homem em tudo igual a nós, excepto no pecado. Enquanto interligado com o Logos, no Espírito Santo, é a expressão do próprio Filho de Deus a comunicar-se em grandeza relacional humana.

4.2- Uma exegese Inadequada

Não é difícil encontrarmos contradições enormes entre os autores. Isto deve-se ao facto de seres inspirados pela devoção e não pelo rigor da investigação. Vejamos uma afirmação absolutamente vazia de sentis e que mutila a verdade de Deus e do Homem: “O nascimento temporal (de Cristo) comporta maternidade real de Maria, mas não reciprocamente filiação real da parte de Cristo. Embora consubstanciada a Maria por sua humanidade, a ausência de pessoa humana no Filho de Deus incarnado implica ausência de nova filiação em face dela” (K. Elisabeth Borresen, Maria na Teologia católica, in Conc. Nº188, 1983, p. 79).

Que maneira de magoar Jesus de Nazaré e a sua mãe! A tradução de theotocos (mãe de Deus) para o latim exprimiu-se por «Dei genitrix» (aquela que gerou Deus). Esta tradução contradiz o concílio de Calcedónia. O termo «Dei genitrix» fazia de Maria uma grandeza divina preexistente. É certo que não se entendia isso, mas a expressão obnubilava a realidade de Deus. O Concílio Vaticano II foi muito mais equilibrado nas suas afirmações sobre Maria do que a Mariologia tradicional. É certo que chama Maria de “Mater Dei” (Lumen Gentium, nº 53; cf. nº 66 e nº 69]. Mas o termo já não tem o alcance da “Dei genitrix”. Maria, como mãe de Jesus, tem um papel ímpar na história da salvação.

A Sua maternidade, no entanto, situa-se na linha das mediações humanas. A recuperação do sentido bíblico de Cristo, Filho de Deus e da dinâmica da Encarnação é fundamental para os homens poderem perceber o alcance maravilhoso do projecto de Deus para todos nós.

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Maria e a História da Salvação





a) O Lugar de Maria no Novo Testamento
1- Jesus e a Sua Família
2- Maria Como Mediação do Espírito Santo
3- Maria no Templo
4- Maria e o Mistério de Cristo
5- A Perda do Menino Jesus no Templo

b) A Presença de Maria na Igreja Nascente
1- Maria e o Resto Fiel
2- Maria e as Aparições de Jesus Ressuscitado
3- Maria e a Igreja Nascente
4- Maria e a Nova Aliança

c) Maria e a Voz Profética do Magnificat
1- O Magnificat Como Cântico Bíblico
2- O Rosto de Maria no Magnificat
3- A fidelidade de Maria
4- Maria Foi descobrindo o Plano de Deus
5- Maria e Jesus Cristo
6- A Força Interveniente do Magnificat

d) Maria no Limiar da Nova Aliança

e) Maria Teve Um Menino
1- Um Menino Bem Amado
2- O Mistério do Menino de Maria
3- Ele é o Nosso Salvador
4- Deu-nos o Poder de Sermos Filhos de Deus
5- Ele é a Árvore da Vida Eterna



a) O Lugar de Maria no Novo Testamento

1- Jesus e a Sua Família

As referências a Maria nos evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas deixam claro este princípio: A realidade de Jesus Cristo enquanto Messias é obra do Espírito Santo, não de Maria: “Enquanto ele falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” Ele, porém, retorquiu: “Felizes antes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 27-28).

Jesus tinha uma consciência muito clara sobre a sua missão: Deus enviou-o para construir a Família de Deus, a qual não assenta nos laços do sangue, mas nos vínculos do Espírito Santo. Eis a razão pela qual Jesus rejeita certas afirmações que parecem opor-se a esta verdade: “Estava ele a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos que, do lado de fora, procuravam falar-lhe: Disse-lhe alguém: “A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te”. Jesus respondeu ao que lhe fez a comunicação: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” E indicando com a mão os discípulos, acrescentou: “Aí estão minha mãe e meus irmãos, pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 46-50).

São Lucas e São Marcos substituem a expressão “fazer a vontade do Pai” por “Escutar a Palavra de Deus e pô-la em prática” (Lc 8, 20; cf. Mc 3, 31-35). Em Nazaré, os conterrâneos de Jesus espantavam-se com a sua sabedoria e com os milagres que fazia, pois eles conheciam-no muito bem e à sua família: “Chegado o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: “De onde lhe vem tudo isto e que sabedoria é esta? Como é possível realizar tais milagres? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” E isto chocava-os” (Mc 6, 2-4).


2- Maria Como Mediação do Espírito Santo

No relato da visita de Maria a sua prima Isabel, São Lucas apresenta Maria como mediação da obra messiânica, pois levava no seu ventre Jesus, o Messias, o qual comunicou o Espírito Santo a João Baptista. O relato tem um grande significado simbólico. Em primeiro lugar afirma que não foi João que comunicou o Espírito Santo a Jesus, mas foi Jesus que comunicou o Espírito Santo a João.

Depois aparece a figura de Maria como a grande mediação do Espírito. Na verdade, foi Maria que levou Cristo, o portador do Espírito Santo, até João Baptista. Eis o relato de São Lucas: “Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para as montanhas, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? De facto, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio” (Lc 1, 39-44).

É um texto bonito para fazer a ligação entre João Baptista e Jesus. Naturalmente que se trata do “midrash”, isto é, um texto elaborado em forma de relato histórico, mas que é apenas uma elaboração teológica. No que se refere à figura de Maria, São Lucas aprofunda toda a riqueza teológica associada a Maria, a mãe do Messias: Maria aparece neste relato como uma mulher de Fé: “Feliz de ti que acreditaste”, diz-lhe Isabel (Lc 1, 45). Tal como Abraão, Maria acreditou. Graças à sua fé, Abraão tornou-se o medianeiro das bênçãos da salvação para a Humanidade: “Disse o Senhor a Abraão: “Farei de ti um grande povo. Abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E na tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas” (Gn 12, 2-3).

Por ser uma mulher de Fé, Maria recebeu a missão de ser a mãe do portador das bênçãos prometidas a Abraão para toda a Humanidade. A grande bênção que o Filho de Maria traz para a Humanidade é o Espírito Santo que faz dos seres humanos membros da Família de Deus: São Paulo entendeu muito bem esta verdade fundamental e por isso escreveu: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas um Espírito de adopção, graças ao qual clamais: “Abba, Papá!” (Rm 8, 14-15).

3- Maria no Templo

Os evangelhos da infância, isto é, os dois primeiros capítulos dos evangelhos de São Lucas e São Mateus, não são relatos históricos. Se os compararmos vemos como são totalmente diferentes e até contraditórios. Trata-se de um procedimento corrente no mundo bíblico chamado “midrash”.
O “midrash” é um texto com uma intenção teológica bem definida: Elaborar o retrato do personagem em causa e da missão que Deus lhe vai confiar. As maravilhas ligadas ao nascimento ou infância do personagem em causa indicam os planos que Deus tem para ele. Os evangelhos da infância são um midrash. Isto quer dizer que a sua elaboração tem a função pedagógica de apresentar de Jesus e a missão que Deus lhe vai confiar.

Vejamos o encontro com o velho Simeão: Maria foi ao templo para fazer a apresentação do seu filho ao Senhor. Nesse momento aparece um ancião chamado Simeão, homem justo e piedoso, o qual esperava a consolação de Israel. Simeão estava cheio do Espírito Santo (Lc 1, 25). Inspirado pelo Espírito Santo, toma o menino nos braços e exclama: “Agora, Senhor, tal como me disseste, deixa partir este teu servo em paz. Os meus olhos viram a salvação que ofereces a todos os povos e que é a luz que se vai revelar às nações. Ele é a glória de Israel teu povo”.

Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele. Simeão abençoou-os e disse a Maria sua mãe: “Este menino será um sinal de contradição. Será causa de queda e ressurgimento de muitos em Israel. Uma espada trespassará o teu coração e assim se revelarão os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 29-35). Naturalmente que um texto destes foi escrito depois da vida, morte e ressurreição de Jesus.


4- Maria e o Mistério de Cristo

Este midrash, como todos os outros que aparecem na bíblia eram elaborados após a morte do personagem em causa. A anunciação do anjo a Maria faz igualmente parte do evangelho da infância de Lucas. São Lucas põe na boca do anjo uma síntese da primeira profecia messiânica da história: o oráculo do profeta Natã a David, cerca de mil anos antes de Cristo (2 Sam 7, 12-16). Esta profecia marcou toda a história bíblica, pois é a matriz da esperança messiânica em Israel.

Agora, o Anjo da Anunciação sintetiza a profecia, apresentando-a em forma de anúncio do nascimento maravilhoso do Messias esperado. Eis o que diz o evangelho de São Lucas: “Ao entrar em casa de Maria, o anjo disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. Ao ouvir estas palavras, Maria perturbou-se e perguntava-se sobre o significado de tal saudação. Disse-lhe o anjo: “Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar á luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David. Reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. Maria disse ao anjo: “Como será isso, se eu não conheço homem?” O anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 28-35).

O que Jesus é como Messias é obra do Espírito Santo. Para acentuar este aspecto, São Lucas põe na boca de Maria a seguinte questão: “Como será isso, visto eu não conhecer varão?” (Lc 1, 34). O grande protagonista deste mistério é o Espírito Santo. Como ternura maternal de Deus, o Espírito Santo vai optimizar o amor maternal de Maria, a fim de ela amar o Filho de Deus com um amor maternal optimizado pelo próprio Deus. Nesta passagem, Maria aparece como a grande mediação do Espírito Santo para que se concretize o mistério de Cristo. Foi o Espírito Santo que consagrou Jesus para ele realizar a sua missão, diz São Lucas mais à frente (Lc 4, 18-21).

Na verdade, Maria apenas compreendeu de modo perfeito o mistério de Cristo com o Pentecostes. Como diz o Livro dos Actos dos Apóstolos, Maria só compreendeu de modo perfeito o mistério de Cristo após a ressurreição do Senhor (cf. Act 1, 14). É muito interessante ver como o evangelho de São João, com seu simbolismo tão rico, diz que a festa das Bodas de Caná teve lugar três dias depois. Não é difícil ver aqui uma alusão à experiência pascal de Maria e dos irmãos de Jesus (Jo 2, 1-2).

No evangelho de João Maria é mencionada apenas duas vezes: nas Bodas de Caná (Jo 2, 1-12) e junto à cruz (Jo 19, 25-27). Maria não é nunca mencionada pelo seu nome. São João chama-lhe sempre a mãe de Jesus. Mesmo quando os judeus falam dos pais de Jesus, mencionam Jesus pelo seu nome, mas para Maria utilizam a designação de Mãe de Jesus: “Os judeus puseram-se, então a murmurar contra Jesus pelo facto de ele ter dito: “Eu sou o pão que desceu do Céu” e diziam: “Não é ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a Mãe?” Como se atreve a dizer agora: “Eu desci do Céu?” (Jo 6, 41-42).

Quando Jesus a fala com Maria, este chama-lhe sempre mulher. Deste modo, Deste modo, São João pretende acentuar que Jesus, enquanto Messias, não é obra de Maria, mas sim do Espírito Santo. Eis o testemunho de João Baptista: “Eu não o conhecia, mas foi para ele se manifestar a Israel que eu vim baptizar com água. “Eu vi o Espírito Santo que descia do Céu como uma pomba e permanecia sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a baptizar é que me disse: “Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre ele é o que baptiza com o Espírito Santo. Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o filho de Deus” (Jo 1, 31-34).

Ao pôr na boca de Maria o cântico do Magnificat, Lucas entendia que uma proclamação desta força e profundidade se adequava perfeitamente à mãe de Jesus. No evangelho de Mateus Jesus convida os discípulos a aprenderem dele que é manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Jesus tem um coração manso e humilde. Este coração de Jesus foi em grande parte pela acção maternal de Maria. De facto, os meninos judeus, no tempo de Jesus, ficavam ao cuidado exclusivo das mães até aos cinco anos de idade. É o período básico para a estruturação das linhas mestras da personalidade humana!


5- A Perda do Menino Jesus no Templo

No relato da perda do Menino Jesus no Templo, ao falar do reencontro de Jesus com os seus pais, São Lucas, como fez São João no relato das bodas de Caná, utiliza a simbologia dos três dias. Depois de muita aflição, os pais de Jesus encontram-no três dias de pois na casa do Pai.

Naturalmente que também há uma alusão à experiência pascal de Maria. Eis o relato: “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Jesus atingiu os doze anos, subiram até lá, segundo o seu costume. Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o soubessem. Pensando que ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Três dias depois encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas (…). Ao vê-lo, os seus pais ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!” Ele respondeu-lhes: “Porque me procuráveis?” Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai? Mas eles não compreenderam as palavras que Jesus lhes disse” (Lc 2, 41-49).

Nas entrelinhas deste texto do “midrash” de São Lucas está uma alusão muito significativa sobre a descoberta que Maria faz do seu Filho no momento da sua experiência pascal. A experiência pascal de Maria e dos irmãos de Jesus é afirmada de modo solene por São Paulo quando descreve em síntese as aparições do Senhor ressuscitado (1 Cor 15, 7). São Paulo nomeia Tiago em vez de Maria, mas isso deve-se ao facto de Maria ser uma mulher e as mulheres, no mundo judaico daquela época, não poderem servir como testemunha. Pôr uma mulher a testemunhar a ressurreição de Jesus, seria tirar credibilidade ao facto.

É por esta mesma razão que, no evangelho da infância de São Mateus, o anjo só fala com José. São Mateus escreve o seu evangelho a pensar nos judeus. Como a mulher não era considerada uma testemunha credível o anjo da anunciação nunca fala com Maria, mas apenas com José (Mt 1, 20; 2, 13).

Por outras palavras, no evangelho de São Lucas, o anjo da anunciação só fala com Maria. No evangelho de São Mateus, o anjo só fala com José: “Andando José a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho ao qual darás o nome de Jesus, pois ele salvará o povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor disse pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho, e há chamá-lo Emanuel, que quer dizer Deus connosco” (Mt 1, 22). O anjo falou várias vezes em sonhos com José: Na fuga para o Egipto (Mt 2, 13-15). No regresso do Egipto para a terra de Judá (Mt 2, 19-21). Na mudança para Nazaré (Mt 2, 22-23). Podemos dizer que noutro contexto cultural a figura de Maria seria mais realçada.


b) A Presença de Maria na Igreja Nascente

1- Maria e o Resto Fiel

A teologia do resto fiel de Deus atravessou toda a tradição profética, desde o profeta Elias até aos últimos profetas. Devido às suas infidelidades, Israel será disperso no meio dos outros povos e ficará reduzido a um pequeno resto que se voltará para o Senhor (Dt 4,27). Com este resto Deus, que é rico em misericórdia vai renovar com a sua Aliança, fazendo deste resto o grupo dos seus eleitos (Dt 4,31).

O Profeta Isaías diz que Deus só conta com um pequeno resto que se voltará para o Senhor: “Naquele dia o resto de Israel e os sobreviventes de Jacob não farão alianças com os inimigos do Senhor, mas apoiar-se-ão com confiança no Deus forte. Ainda que o teu povo, ó Israel, fosse tão numeroso como os grãos de areia das praias do mar, apenas um pequeno resto voltará (10, 18-22).

Os judeus que regressaram do exílio de Babilónia estavam convencidos de ser eles o resto anunciado pelos profetas (Zac 3, 8-9). Face ao modo como os judeus rejeitaram Jesus Cristo, São Paulo vê nos poucos judeus que se converteram à fé, o resto anunciado pelo profeta Isaías no texto que vimos acima” (Rm 9, 19; 27-29). Ao longo da História da Salvação, Deus foi renovando a sua Aliança sempre com um pequeno resto: O núcleo familiar de Noé (Gn 6, 9). O resto de um grupo de homens que, no tempo do profeta Elias, se manteve fiel ao Senhor (1 Rs 9, 10, 18).

2- Maria e as Aparições de Jesus Ressuscitado

O Novo Testamento vê em Maria e no grupo dos discípulos o resto fiel anunciado pelos profetas. Este resto, unido a Cristo ressuscitado e animado pelo Espírito Santo é o fermento da Nova Criação realizada em Cristo ressuscitado (2 Cor 5, 17-19). A última passagem do Novo Testamento que nos fala de Maria é o relato da comunidade apostólica primordial, logo após o Pentecostes.

Depois de referir o nome dos onze discípulos, Lucas acrescenta: “E todos unidos pelos mesmos sentimentos, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e seus irmãos” (Act 1, 14). Após a Páscoa, Maria e os discípulos formavam o resto fiel reunido em nome de Jesus de Nazaré, o Messias de Deus. Segundo os Actos, o resto fiel era constituído pelos onze discípulos, pela mãe de Jesus e seus irmãos e por um grupo de cerca de cento e vinte pessoas (Act 1, 15).

Ao fazer a síntese das aparições de Jesus ressuscitado, São Paulo declara estar a repetir exactamente o que os Apóstolos lhe comunicaram, pois ele, nessa altura, ainda não fazia parte do grupo dos cristãos. Depois de mencionar a aparição do Senhor a Pedro, aos doze, e a mais de quinhentos irmãos, São Paulo fala de uma aparição a Tiago. Este Tiago não é o irmão de João, pois este estava incluído no grupo dos doze, mas sim Tiago, o irmão de Jesus que, na altura em que São Paulo escreveu o texto era o chefe da comunidade de Jerusalém.

Na Carta aos Gálatas, São Paulo fala deste Tiago, dizendo tratar-se do irmão do Senhor. Além do encontro com São Pedro, São Paulo não viu mais ninguém a não ser Tiago: “Passados três anos subi a Jerusalém para conhecer Pedro e fiquei com ele durante quinze dias. Mas não vi nenhum outro Apóstolo a não ser Tiago, o irmão do Senhor. O que vos escrevo, digo-o diante do Senhor, não estou a mentir” (Gal 1, 19).

O relato das aparições do Senhor ressuscitado Tiago é mencionado entre os que tiveram uma aparição própria (cf. 1 Cor 15, 3-9). Como se pode comprovar no relato das pessoas beneficiadas com uma aparição do Senhor não há nenhum nome de mulher. Isto revela como este texto é antigo. Ainda estamos em pleno contexto judaico, onde a mulher não podia servir de testemunha. Se na lista das pessoas que viram o Senhor ressuscitado houvesse nomes de mulher, em vez de Tiago teríamos naturalmente o nome de Maria.

Agora já podemos ler o relato das aparições, tal como os Apóstolos o transmitiram a Paulo. Eis as palavras do Apóstolo na Primeira Carta aos Coríntios: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras. Apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida pareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago” (1 Cor 15, 3-7)

Este texto dá-nos a garantia de que Maria e o seu núcleo familiar mais íntimo foram beneficiados com uma aparição do Senhor ressuscitado. O evangelho de João diz de maneira muito sugestiva que Maria, após a hora de Jesus, isto é, a sua morte e ressurreição passa a fazer parte do resto fiel continuando a sua missão de mãe do Messias, mas agora como mãe da comunidade apostólica que é o Corpo de Cristo (1 Cor 12,27).

Maria foi, pois, uma mediação privilegiada do Espírito Santo, ajudando o resto fiel com o qual o Espírito Santo ia fundar a Igreja: “Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a mulher de Cléofas e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa” (Jo 19, 25-27). Seria errado pensar que Jesus entregou Maria a João, a fim de esta não ficar só e abandonada.


3- Maria e a Igreja Nascente

Os Actos dos Apóstolo testemunham que Maria, após a Páscoa, se fazia acompanhar do seu núcleo familiar a que o Novo Testamento chama irmãos de Jesus (Act 1, 14). O texto de João, utilizando um simbolismo muito bonito, diz que Maria, após a Páscoa, continua a sua missão maternal de mediação especial do Espírito Santo no interior do resto fiel. O Novo Testamento, de modo especial o Livro dos Actos dos Apóstolos e os escritos de São Paulo vêem neste resto fiel o embrião do Novo povo de Deus.

Como sabemos, a dinâmica do amor maternal é básica para o desenvolvimento de qualquer embrião. A teologia do resto fiel vem associada à ideia de um castigo que deixará o povo de Deus reduzido a um pequeno resto. Esse dia será trágico, pois os pecadores vão ser aniquilados. Só escapará o resto fiel o qual se apoiará sobre uma Nova aliança assente, não na letra das tábuas de pedra dadas a Moisés no Monte Sinai, mas no dom do Espírito Santo.

O dia do Senhor está próximo, dizia o profeta Ezequiel. Aproxima-se o tempo: o Senhor vai derramar a sua cólera. Nesse dia o ouro e a prata não poderão salvar (Ez 7, 5-19). Os justos vão ser assinalados, a fim de escaparem à ira do Senhor, formando assim o resto fiel. Todos serão exterminados, excepto os assinalados na fronte, os quais constituem o pequeno resto que Deus vai poupar. (Ez 14, 22).

Deus vai conceder um coração e um espírito novos aos que restarem fiéis. Estes serão reconduzidos para Jerusalém onde encontrarão a felicidade, a paz e a prosperidade (Ez 11, 17-19). Os poderosos vão ser humilhados. Os simples e pobres vão ser exaltados. As coisas vão mudar, pois o humilde será exaltado e o que está no alto será humilhado (Ez 21, 30-31).

São Lucas via em Maria um membro eminente deste resto fiel. É por esta razão que ele põe na boca de Maria o hino do Magnificat composto com estas palavras do profeta Ezequiel (Lc 1, 46-56). O Novo Testamento vê a Igreja nascente como o pequeno resto, o pequeno rebanho à frente do qual o Senhor vai colocar um pastor que sairá da casa de David, como disse o profeta Ezequiel (Ez 34, 11-25).

O evangelho de São Lucas põe na boca do anjo da anunciação uma síntese destas palavras de Ezequiel: “Ele será grande e será chamado filho do Altíssimo, pois vai herdar o trono de seu pai David. Ele vai reinar para sempre sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim” (Lc 1, 32-33).

4- Maria e a Nova Aliança

Maria era um membro do povo judeu. Isto quer dizer que ela pertencia à Antiga Aliança. São Paulo reconhece que Maria, apesar de nascer como membro da Antiga Aliança teve a nobre missão de ser a ponte de passagem para a Nova Aliança. São Paulo atribui-lhe o privilégio de ser a aurora da plenitude dos tempos: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da antiga Lei. Deste modo Deus resgatou os que se encontravam sob o domínio, a fim de receberem a adopção de filhos. E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações os Espírito de seu Filho que clama: “Abba, Papá!” Deste modo já não és escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7).

Apesar de ter nascido como membro da Antiga Aliança, Maria tornou-se uma figura central na emergência histórica do Povo da Nova Aliança. Nos pronunciamentos dos profetas, a teologia do resto fiel estava associada ao juízo final, também chamado o dia da ira. Nesse dia, só o resto fiel escaparia à tragédia que Deus ia enviar sobre a Humanidade. Os discípulos consideravam-se o resto que escaparia ao dia da ira como os profetas tinham anunciado. No dia do juízo, diz o evangelho de São Mateus, haverá menos rigor para Sodoma do que para os que rejeitarem a mensagem de Jesus (Mt 11, 24). O juízo universal é associado à segunda vinda de Cristo, a qual iria a acontecer muito em breve, pensavam os discípulos.

Eis o que diz São Paulo na Primeira Carta aos Tessalonicenses: “Vós sabeis perfeitamente que o dia o Senhor virá como um ladrão vem pela calada da noite (…). Vós não andais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão” (1 Ts 5, 2-4). Maria ocupa um lugar de destaque no conjunto deste pequeno resto fiel, pois continua a sua missão de mediação privilegiada do Espírito Santo: O evangelho de São João diz que Jesus, no momento da sua morte, entrega Maria a João, a fim de ela ser a mãe do resto fiel do qual vai emergir o Povo da Nova Aliança (Jo 19, 25-27).


c) Maria e a Voz Profética do Magnificat

1- O Magnificat Como Cântico Bíblico

O Cântico do Magnificat tem a beleza e a força profética dos grandes cânticos bíblicos. Ao elaborar este grito profético em nome de Maria, São Lucas teve a intenção de colocar Maria entre os grandes personagens da História da Salvação. A confirmação desta verdade é posta por São Lucas na boca da sua prima Santa Isabel.

Por outras palavras, ao colocar na boca de Maria o canto do Magnificat, São Lucas está a querer dizer que Maria é uma mulher privilegiada no conjunto de todas as mulheres: “Então, erguendo a voz, Isabel exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 42-45).

São Lucas inspirou-se nos grandes cantos do Antigo Testamento, especialmente no cântico de Ana, a mãe do profeta Samuel (cf. 1 Sam 2, 1-10). São Lucas, ao elaborar o canto do Magnificat tem como pano de fundo a história de Jesus e, sobretudo a experiência da sua ressurreição. Por outras palavras, o Magnificat é uma confirmação da força profética e libertadora da missão messiânica de Jesus. Além disso é a proclamação de que em Jesus Cristo se realizaram todas as profecias.

São Lucas confirma esta sua intenção no seu evangelho quando põe na boca de Jesus ressuscitado a garantia de que, em si, se realizaram toda as profecias messiânicas: “Jesus disse-lhes, então: “Ó homens lentos de espírito e faltos de inteligência, para acreditar em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de passar por estas coisas para entrar na sua glória? E, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito” (Lc 24, 25-27).


2- O Rosto de Maria no Magnificat

No Magnificat, São Lucas mostra-nos Maria como uma mulher em construção como as demais. O tema central do Magnificat é o acontecimento salvador de Jesus Cristo e a fidelidade de Deus. Em Jesus de Nazaré Deus realizou não só as antigas profecias como também as promessas feitas aos patriarcas: “Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (Lc 1, 54-55).

São Lucas apresenta Maria como uma mulher simples, crente e fiel à vontade de Deus. Estas qualidades fizeram de Maria uma mulher com as melhores condições para ser a mãe do Messias. Com seu jeito maternal de amar, O Espírito Santo prepara o coração maternal de Maria, a fim de ela amar o Filho de Deus com um jeito divino. Por outras palavras, o Espírito Santo optimiza o amor maternal de Maria, a fim de esta amar Jesus Cristo com o jeito do próprio Deus.

Maria foi eleita pelo Espírito Santo para ser colaboradora de Deus na concepção, nascimento e acompanhamento maternal do Messias salvador. São Lucas é muito realista no modo como apresenta Maria. A mãe de Jesus não é apresentada como se fosse uma deusa. Maria teve de crescer na compreensão do mistério de Jesus Cristo. A própria Maria se chama a humilde serva do Senhor.

3- A fidelidade de Maria

Ao dar-se conta da grandeza da missão que Deus lhe confiava, Maria sentiu-se amedrontada. Mas depois apercebeu-se de que Deus lhe confiou esta missão, não por que ela seja uma pessoa importante, mas porque o Senhor se dignou olhar para a humilde condição da sua serva: “Deus pôs os olhos na humildade da sua serva” (Lc 1, 48). Ao mesmo tempo, São Lucas apresenta Maria como uma mulher sensata, contemplativa e modesta. Maria medita em tudo o que vai descobrindo, meditando-o no seu coração e não faz alarde dos privilégios que Deus lhe concede. Através da meditação, ela vai compreendendo o mistério que envolve o seu filho meditando e contemplando as maravilhas de Deus.

Maria tem consciência de que a missão que Deus lhe pede tem como centro o seu Filho. Segundo São Lucas, Maria compreende que as prerrogativas que Deus lhe concede, estão em função da missão messiânica do seu Filho. Eis a razão pela qual ela só foi descobrindo de modo gradual o mistério que habitava o coração do seu Filho. Isto quer dizer que o plano de Deus não era evidente para Maria logo à partida.


4- Maria Foi descobrindo o Plano de Deus

Na verdade, a compreensão plena do mistério de Cristo só foi claro para Maria após a experiência pascal. Perante a grandeza dos planos de Deus, Maria limitava-se a guardar e meditar todas essas maravilhas no seu coração diz São Lucas: “Jesus respondeu-lhes: “por que me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?” Mas os seus pais não compreenderam as palavras que ele lhes disse. Depois desceu com eles, voltando para Nazaré, e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2, 49-51; cf. 2,19).

A beleza, a inspiração e a garra profética do Magnificat é indiscutível. É profundamente significativo o facto de São Lucas o elaborar para pôr na boca de Maria. Procedendo assim, ele sublinha não só a importância do papel maternal de Maria, mas também as suas qualidades para ser a grande mediação do Espírito Santo para o acontecimento messiânico.

Zacarias, o pai de João Baptista, não teve fé. Por isso ficou mudo até ao nascimento de seu filho: “Eu sou Gabriel, aquele que está diante de Deus e fui enviado para te falar e te anunciar esta Boa Nova. Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria” (Lc 1, 19-20).

Maria, pelo contrário, acredita, apesar de não compreender o alcance do que lhe está a ser pedido. São Lucas sublinha expressamente que Maria, ao contrário de Zacarias, é possuidora de uma grande fé: “Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 45).

Além de crente, sugere São Lucas, Maria é dócil ao plano que Deus sonhou para si: “Maria disse, então: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Temos de reconhecer que o Magnificat é um canto messiânico. Tem a força profética das palavras, atitudes e denúncias de Jesus. Na verdade, a pregação e as atitudes públicas de Jesus, são a expressão de uma vida marcadamente profética.


5- Maria e Jesus Cristo

Colocando o Magnificat na boca de Maria, São Lucas quis atribuir a Maria uma ligação privilegiada à missão libertadora do Messias. Não é por acaso que o canto de Maria tem uma referência muito clara à obra libertadora de Jesus: “Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias (Lc 1, 51-53).

Podemos dizer que a força profética destas palavras é uma síntese do jeito de viver de Jesus. Esta relação aparece muito clara no evangelho de São Lucas, logo no início da vida pública de Jesus: “Jesus veio a Nazaré onde se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista. Consagrou-me para mandar em liberdade os oprimidos e a proclamar um ano favorável da parte do Senhor”. Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou então a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 16-21).

São Lucas interpreta este texto de Isaías como um anúncio antecipado da acção profética e libertadora da missão de Jesus. Os dois textos são exclusivos de São Lucas, o que demonstra bem a sua intenção de sublinhar a garra profética das palavras e das acções de Jesus. É neste contexto que São Lucas evidente o Magnificat.

Nesta mesma linha do Magnificat está o cântico profético de Zacarias, ao qual damos o nome de “Benedictus” (cf. Lc 1, 67-79). Os dois cânticos surgem como uma exultação no Espírito Santo. Este tema da exultação no Espírito Santo é muito querido para São Lucas. O Espírito Santo faz exultar os justos que formam o resto fiel, isto é, o conjunto de pessoas que vivem na expectativa da vinda do Messias. Para São Lucas a abundância do Espírito é o sinal claro de que chegaram os tempos messiânicos, tal como os profetas tinham previsto. Eis o que São Lucas diz no Livro dos Actos dos Apóstolos: “Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura” (Act 2, 16-17; cf. Jl 3,1).

O Magnificat de Maria, tal como o Benedictus de Zacarias são exultações no Espírito Santo (cf. Lc 1, 46-56; 1, 67-79). Nesta mesma linha está o cântico de Simeão, o ancião que tomou nos braços o Menino Jesus quando este foi apresentado no templo. Este cântico de Simeão é muito sugestivo, pois aparece como obra explícita do Espírito Santo: “Ora vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Era justo e esperava a consolação de Israel (…). O Espírito Santo estava em Simeão e tinha-lhe revelado que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor. Impelido pelo Espírito Santo veio ao templo no momento em que os pais do Menino Jesus o trouxeram para o apresentar ao Senhor. Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus dizendo: “Agora, Senhor, tal como disseste, deixa partir em paz o teus servo, pois os meus olhos acabam de ver a Salvação que ofereceste a todos os povos: Luz para se revelar às nações e glória de Israel teu povo” (Lc 2, 25-32).

Estes cânticos têm em comum o reconhecimento de que Jesus é Messias anunciado pelos profetas e prometido aos patriarcas. Significam também que o conhecimento de Jesus como Messias é um dom do Espírito Santo.

6- A Força Interveniente do Magnificat

O Cântico do Magnificat não é um texto adocicado ou neutro no que se refere à denúncia do mal. Podemos dizer que o Magnificat enfrenta e denuncia as injustiças com a mesma frontalidade com que Jesus as defrontava. Maria aparece no Magnificat como uma excelente discípula de Jesus. Isto torna-se mais claro se tivermos presente que São Lucas escreveu este cântico após a experiência da ressurreição de Jesus.

No cântico do Magnificat, Maria denuncia as injustiças dizendo que uma sociedade onde um grupo de gente privilegiada explora uma multidão de gente privada de poder, de riqueza e direitos humanos não corresponde à vontade de Deus. Depois acrescenta que esta ordem será alterada, pois a misericórdia de Deus vai manifestar-se em favor dos mais pobres: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias” (Lc 1, 50-53).

Para São Lucas, Maria, Zacarias e Simeão são vozes que sintetizam a fé e a expectativa do resto fiel de Israel. Foi se tratar dos justos fiéis à vontade de Deus, o Espírito Santo revelou-lhes que Jesus veio inaugurar o Reino de Deus. O realce especial dedicado a Maria tem a ver com a sua ligação especial ao Messias e ao seu plano salvador. O que Jesus é como Messias é obra do Espírito Santo, não de Maria. Mas Maria é a grande mediação do Espírito Santo, a fim de acontecer o projecto salvador de Deus.

O Magnificat de Maria, o Benedictus de Zacarias, e o cântico de Simeão são textos cristológicos que proclamam Jesus como o Messias anunciado pelos profetas. Ao mesmo tempo proclamam a fidelidade de Deus que cumpriu as suas promessas.


d) Maria No Limiar da Nova Aliança

Em Maria, o povo Bíblico entra no limiar da Nova Aliança. O evangelho de São João associa à Hora de Jesus a transição de Maria para a dinâmica da Nova Aliança: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a mulher de Cleophas, e Maria Madalena. Então Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, acolheu-a como mãe” (Jo 19, 25-27).

A Hora em são João significa a ressurreição e glorificação de Jesus. Os Actos dos Apóstolos testemunham a presença de Maria na comunidade primitiva: “E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus e seus irmãos” (Act 1, 14).

A transição de Maria para a Nova Aliança, portanto, deve ser associada à experiência pascal. A pregação primitiva sobre a experiência pascal dos discípulos, diz que Tiago, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus, fez uma experiência pascal própria, tal como aconteceu com outros grupos: “Transmiti-vos em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Depois apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, apesar de alguns já terem morrido. Depois apareceu a Tiago” (1 Cor 15, 3-7).

Este Tiago é, como vimos, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus que, após a Páscoa faziam parte da comunidade apostólica. Se olharmos com atenção nesta lista das aparições não aparece nenhum nome de Mulher. Isto quer dizer que esta pregação está profundamente marcada por uma forte carga judaica. Se assim não fosse não seria o nome de Tiago mas o de Maria que apareceria.

Isto significa que o grupo familiar de Maria teve uma aparição pascal própria. É isto, aliás que testemunha o texto mais tardio dos Actos dos Apóstolos que testemunha a presença de Maria e dos irmãos do Senhor: “Entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos” (Act 1, 14). Segundo o evangelho de João, Maria transita para a Nova Aliança mantendo a sua missão maternal: “Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe”. E, desde aquela hora, acolheu-a como mãe” (Jo 19, 27).

Para compreendermos o significado enorme desta transição de Maria para a Nova Aliança, basta por em paralelo a figura de Maria com João Baptista. João foi uma figura decisiva para ajudar o povo a compreender a chegada do Messias: “João disse a todos: “Eu baptizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16).

Jesus dá testemunho em favor de João, pondo-o acima de qualquer outro personagem da Antiga aliança. No entanto Jesus diz claramente que ele não transitou para a Nova Aliança: “Depois Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: “Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Os que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, eu vo-lo digo, e mais que profeta. Ele é aquele de quem está escrito: “Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, a fim de te preparar o caminho. Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11, 7-11).

O Reino dos Céus significa a Nova Aliança. João não transitou para a Nova aliança. Eis a razão pela qual o menos no Reino dos Céus é maior do que ele. Numa das suas aparições após a Páscoa, o Senhor ressuscitado disse aos discípulos: “João baptizava com água. Vós, porém, sereis baptizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias” (Act 1, 5) Podemos dizer que João atingiu a cúpula do Povo da Antiga Aliança, mas não fez a passagem para a Nova.


e) Maria Teve Um Menino

1- Um Menino Bem Amado

Maria Teve Um Menino! A Notícia circulou veloz entre as gentes de Nazaré. As amigas de Maria comunicavam o acontecimento com a força de uma exultação que vem do fundo do coração. Faziam-no com um contentamento parecido à alegria dos que anunciam o Evangelho. O Menino de Maria nasceu e cresceu no meio de muito amor. Era um Menino encantador como acontece com todas as crianças.
O seu olhar transparente cativava a ternura dos adultos. Era uma criança traquina e encantadora, como as outras crianças! Chorava, tinha fome de felicidade, e alimentava sonhos e esperanças. Como acontece com os meninos bem-amados, o Menino de Maria crescia feliz. Pelo facto de ter recebido muita ternura, o menino de Maria tinha uma capacidade enorme para ser dom.

2- O Mistério do Menino de Maria

Em Nazaré, as pessoas diziam que o filho de Maria e José era um menino encantador. Mas ninguém podia imaginar o alcance salvador daquele Menino a crescer. Cativava os que o tomavam ao colo. O seu sorriso transparente parecia transmitir algo que prolongava e optimizava o sorriso das demais crianças.

Mas ninguém suspeitava que aquele Menino havia de chamar pai ao próprio Deus! No seu coração aconteceu o encontro definitivo do Homem com Deus: o Divino enxertou-se no Humano, a fim de este ser divinizado. Por outras palavras, no coração deste menino aconteceu o mistério da Encarnação: O melhor de Deus encontrou-se com o melhor da Homem. Apesar de ninguém suspeitar, o Menino de Maria era o Salvador da Humanidade.


3- Ele é o Nosso Salvador

No coração deste menino, a sua interioridade humana interagia de modo directo com a interioridade divina da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo animava esta interacção humano-divina, tornando-a fecunda. As pessoas que acariciavam o Menino de Maria não podiam imaginar que, no encanto desta criança se exprimia em grandeza humana, a ternura do próprio Deus! Como os outros seres humanos, o Menino de Maria era uma concretização única, original e irrepetível de Humanidade.

Mas, além disso, levava em si o mistério do Deus que veio habitar com o Homem. A sua interioridade humano-divina era constituída por uma unidade orgânica e dinâmica de um ser humano com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. No menino de Maria, o Humano e o Divino, estão unidos sem fusão nem confusão, pois esta união orgânica acontece como perfeita interacção entre o melhor de Deus e do Homem. O Filho de Maria é homem com todos os homens que nasceram de Adão. Mas também é Deus, com o Pai e o Espírito Santo. Este enxerto do Divino no Humano é possível graças ao facto de a Divindade ser constituída por pessoas e Humanidade também.


4- Deu-nos o Poder de Sermos Filhos de Deus

Pelo facto deste menino ser homem connosco, todos nós fomos assumidos e incorporados na família de Deus. Ele é como que a cepa da videira da qual nós somos os ramos. A seiva que vem da cepa para os ramos e os torna fecundos é o Espírito Santo. Eis o que ele disse um dia: “Permanecei em mim, que eu permaneço em vós. Tal como os ramos não podem dar frutos por si mesmos, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer (Jo 15, 4-5).

Na verdade, o menino de Maria é o portador da vida eterna para todos nós. Eis o mistério profundo que se habita o coração do Menino de Maria. Ele é, de facto, a Cabeça da Nova Humanidade recriada pelo Espírito Santo e reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-19). Este menino crescia como outra criança qualquer. Chamava pai a um homem e mãe a uma mulher. Quando o Menino de Maria brincava com os outros meninos, ninguém podia imaginar o mistério que se ocultava no coração daquela criança.


5- Ele é a Árvore da Vida Eterna

Este menino é a expressão máxima da fecundidade de Maria e a garantia da nossa salvação. Foi nele que a vida eterna ficou ao alcance de todos nós. Ele é a Árvore da Vida colocada por Deus no centro do Paraíso, da qual Adão não foi digno, como diz o livro do Génesis: “O Senhor Deus disse, então: “Eis que o Homem, Quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso impedi-lo de estender mão e colher o fruto da arvore da vida, pois comendo dele, viveria para sempre”. O Senhor Deus expulsou Adão do Jardim do Éden, a fim de cultivar a terra da qual fora tirado” (Gn 3, 22-24).

No momento da sua morte e ressurreição, o menino de Maria abriu o Paraíso que Adão tinha fechado: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso, disse ele ao Bom Ladrão” (Lc 23, 42-43). O Menino de Maria é o Novo Adão. É também a Arvora da vida que nos dá o fruto da Vida Eterna: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. De facto, a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, Também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57). Ditosa és tu Maria, pelo Filho que acolheste nos teus braços!