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Deus e o Sofrimento Humano


                                        

a)    A Visão do Antigo Testamento
1 – Antes do Exílio
2 -  Depois do Exílio
3 -  Demónio e Sofrimento
4 – Influências do Judaísmo no Novo Testamento
4.1. – Influência dos Apocalipses Judaicos no Novo Testamento
4.2. - As Curas de Cristo Interpretadas Como Exorcismos
b)   O Sofrimento no Novo Testamento
c)    Sofrimento e Sentido cristão da Vida
1 – O Cristão e a Luta Contra o Sofrimento
2 -  Sofrimento e Sentido da Vida


a)   A Visão do Antigo Testamento
1 – Antes do Exílio

O sofrimento e o mal, no período anterior ao Exílio, século sexto antes de Cristo, era visto como uma realidade provocada por Deus para punir o pecador. A questão do sofrimento e da felicidade eram vistos dentro de um esquema simplista de justiça-retribuição e pecado-castigo. Os amigos de Deus serão felizes e terão uma vida longa (Dt 5, 3; 30, 15; Sal 41, 3; Prov 13, 21).

O prémio e o castigo de Deus acontecem na Terra. Após o falecimento da pessoa, o corpo torna-se pó e a interioridade pessoal fica em estado de morte, apesar de subsistir. Na morada dos mortos, a pessoa não convive nem comunga. O shéol é o lugar das sombras.

Para o pensamento bíblico, a pessoa está viva enquanto convive. Pelo acontecimento da morte deixa de conviver, por isso fica em estado de morte, apesar de a sua interioridade subsistir. Fica como um fantasma a movimentar-se sem qualquer consciência de existir e estar junto dos seus antepassados.

Uma vez que esta é a condição humana, o prémio do justo acontece sobre a Terra, tal como o castigo do pecador: o justo terá uma vida longa, muitos filhos, muitas terras e rebanhos. Tudo lhe correrá bem. Por outro lado, Deus provocará o mal, a fim de castigar o pecador. Este terá uma vida atribulada. Os seus filhos não sobreviverão ou serão atormentados com doenças. As suas terras e rebanhos não produzirão. Após a morte, a sorte do pecador e a do justo é exactamente igual: habitar no lugar das sombras que é a morada dos mortos (cf. Gn 37, 35; Nm 16, 30; Is 5, 14; 38, 18; Ez 26, 20; 31, 14-17; Sal 22, 30; 28, 1; 30, 4; 30, 10; 55, 16; Prv 1, 12; 5, 5).

Nessa morada sem esperança, a interioridade humana assemelha-se a uma bateria descarregada. Não tem energia para a dinâmica das relações. No momento da morte, Deus retira do interior do homem o sopro vital, que lhe fora insuflado no momento da sua criação (Gn 2, 7). No entanto, esta bateria é “recarregável”. Se o Espírito de Deus fosse à morada dos mortos dava-se a ressurreição da carne. O homem voltava a encontrar-se na festa da vida e da comunhão.

Em hebraico, o termo “awon” significa pecado e castigo. O pecado é uma transgressão à Aliança ou à lei mosaica, a qual implica sempre um castigo. O sofrimento é a sorte dos pecadores. Os justos não sofrem. O pecado leva sempre consigo o castigo. Este implica sofrimento (cf. Ez 18, 30; 44, 12; Is 30, 13; Os 5, 5; Job 31, 11; 44, 28). As crianças sofrem, não pelo seu pecado mas pelo pecado dos pais (cf. Is 14, 21; 53, 11; Jer 11, 10; Ez 18, 17; 18, 19-20). O justo, pelo contrário, será poupado ao sofrimento e terá vida longa (cf. Prov 10, 27).

A experiência do exílio em Babilónia demonstrou que as coisas não eram assim. O esquema pecado-castigo, justiça-retribuição, começa a chocar a sensibilidade. Em primeiro lugar torna-se chocante a ideia de Deus provocar o sofrimento das crianças por causa do pecado dos pais. O profeta Ezequiel denuncia esta visão, dizendo que, no futuro, as coisas não vão passar-se deste modo: cada qual sofrerá pelos seus pecados. Os filhos não vão mais sofrer pelos pecados dos pais. Cada pessoa sofrerá pelos seus pecados (cf. Ez 18, 19-20).

O sofrimento era visto como realidade querida expressamente por Deus. Mesmo que se trate do sofrimento das crianças ou do justo: “Nós o reputávamos como um leproso ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4); “Mas aprouve a Deus esmagá-lo com sofrimento, a fim de a sua vida ser um sacrifício de reparação” (Is 53, 10). O sofrimento acontece sempre por vontade de Deus (cf. Sal 44, 18-19). O pecador ofende a Deus. Por isso a ira divina pune o pecador com sofrimentos (cf. Jz 2, 11-23; 3, 7-9). Deus provoca o sofrimento para punir o povo pecador (cf. Num 25, 3; 11, 1; 13, 25; Jos 22, 20; Ex 32).

Segundo este esquema, tudo o que acontece é directamente querido e provocado por Deus. Suscita o bem para premiar e o mal para castigar (cf. Jz 2, 11-15; Dt 28; Job 11, 14; 15, 15; 18, 21-22;Prov 3, 2s; 3, 10; 3, 23; 3, 26; 4, 10-22). Por detrás do sofrimento humano está sempre a ira de Deus.


2- Depois do Exílio

A experiência dolorosa do exílio questiona o esquema pecado-sofrimento, justiça-felicidade. Os justos, ao pretenderem ser fiéis a Deus sofrem mais que os pecadores que se adaptam aos modelos de vida dos pagãos. Os justos são humilhados e torturados, enquanto os pecadores passam bem. Jeremias, apercebendo-se desta aparente contradição, interroga-se e interroga o próprio Deus: como é possível os justos estarem a sofrer tanto, enquanto os pecadores passam bem? Acredita que Deus é justo, mas não entende esta contradição (Jer 12, 1-3). O justo parece um cordeiro destinado ao matadouro (Jer 11, 19).

Após o Exílio vão surgir várias tentativas de reformular a interpretação tradicional do sofrimento: o Deutero Isaías, (cf. Is 52, 13-53, 12; 42, 1-4; 49, 1-6) o relato da queda original (Gn 3, 1-20) e o livro de Job. A solução encontrada pelo relato da queda original bem como pelo livro de Job coincidem. Influenciados pelo pensamento persa concluem que Deus não é o autor do mal e do sofrimento.
Com efeito, o masdeismo ou religião de Zaratustra reconhecia a existência de um Deus bom do qual emanaram dois princípios: um bom, chamado Ormuz. Este é o autor do bem que nos acontece. O outro princípio, Ahriman, é o causador dos males e sofrimentos que acontecem à Humanidade. Job e o relato do Génesis vão afirmar que Deus é bom e, portanto, não é o autor do mal.

Segundo esta reformulação, o sofrimento humano é provocado por um sujeito sobre-humano, invejoso da amizade que reina entre Deus e o Homem (cf. Job 1, 6s; 2, 1s;  Gn 3, 1-5. Segundo o relato de Job, Satanás, conselheiro da corte divina, fica cheio de ciúmes quando se apercebe de que Deus é amigo do justo Job. Elabora uma série de argumentos e artimanhas que trazem grande sofrimento a Job.

O Deutero Isaías situa-se na linha clássica: a causa do sofrimento é o pecado. O justo sofre, não por causa dos seus pecados, pois é justo, mas por causa do pecado dos outros. O sofrimento do justo assume, deste modo, um sentido redentor: resgate pelo pecado dos outros:

“Desprezado e abandonado, homem cheio de dores, treinado no sofrimento. Diante dele tapa-se o rosto. Menosprezado e desconsiderado. Na verdade ele tomou sobre si as nossas doenças. Carregou as nossas dores (...). Foi ferido pelos nossos pecados, esmagado por causa das nossas iniquidades. Pesou sobre ele o castigo que nos salva. Fomos curados nas suas chagas” (Is 53, 3-5).

E ainda: “Foi suprimido da terra dos vivos. Foi ferido por causa dos pecados do meu povo. Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios e uma tumba entre os malfeitores, apesar de não ter cometido qualquer crime, nem ter agido fraudulentamente. Aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimentos, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação” (Is 53, 8 a-10 a).

Deus provoca o sofrimento do justo, a fim de conceder o perdão dos pecadores. Parece estar subjacente a esta leitura a ideia de que Deus, para perdoar, precisa do sofrimento de alguém. De facto não é o caso. A ideia subjacente ao texto é interpretar e justificar o sofrimento do justo sem fazer de Deus um ser injusto. Existe aqui um aspecto muito bonito e verdadeiro: afastar-se de Deus é muito mau para o homem. Não porque Deus se vingue, mas porque o homem está a entrar no caminho do malogro e do fracasso. Esta opção é geradora de sofrimento e auto destruição. São muitas as passagens bíblicas onde Deus perdoa sem exigir sofrimento (cf. Is 49, 14-15; 54, 4-7;Jer 31, 3 s; 33, 8-9; Ez 34, 11-16; Os 6, 1-2; Jl 2, 18-19, etc.)

O tema do Salmo vinte e um é também o sofrimento do justo. Este é maltratado e humilhado: “Eu, porém, sou um verme e não um homem. Sou o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe. Todos os que me vêem escarnecem de mim. Estendem os lábios e meneiam a cabeça. Confiou no Senhor. Ele que o livre e salve se é seu amigo” (Sal 21, 7-9). No final do salmo surge a glorificação do justo.

Aqui, o sofrimento do justo não é provocado por Deus, para obter o resgate dos pecadores. É consequência da maldade dos pecadores que o odeiam e desejam perder. A sua justiça e rectidão incomoda os injustos que, por esta razão, tentam destruí-lo. Mas o Senhor toma partido em favor do justo perseguido. Com efeito, Deus não é indiferente à causa do bem, da verdade e da justiça.

Tal como o salmo vinte e um, também o livro da Sabedoria descobre outra fonte de sofrimento para o justo: a maldade e a inveja dos pecadores e dos que praticam a injustiça. Agora a recompensa de Deus acontece após a morte. Há justos que morrem novos e pecadores que morrem velhos. Mas isso não significa qualquer tipo de castigo da parte de Deus, pois a recompensa ou castigo acontece após a morte: “O justo, ainda que morra novo, gozará de repouso. Uma velhice venerável não consiste numa vida longa. Não se mede pelo número dos anos. Os verdadeiros cabelos brancos são a prudência. Uma velhice sábia consiste numa vida imaculada” (Sb 4, 7-9).

Os ímpios são uma fonte de sofrimento para o que ama a justiça e o bem: “Armemos laços ao justo, pois este incomoda-nos e não aprova a nossa maneira de actuar. Censura as nossas transgressões à lei, acusa-nos de sermos infiéis às tradições. Afirma ter o conhecimento de Deus e chama-se a si mesmo filho do Altíssimo. Tornou-se uma censura para os nossos comportamentos. Só o facto de o vermos nos incomoda, pois a sua vida não é semelhante à das outras pessoas e os seus caminhos são muito diferentes dos nossos. Considera-nos maus e afasta-se dos nossos caminhos. Declara feliz o prémio eterno do justo e gloria-se de ter Deus por Pai (...). Se o justo é filho de Deus, Deus há-de ampará-lo e tirá-lo das mãos dos seus adversários. Provemo-lo com ultrajes e torturas, a fim de vermos a sua paciência e comprovarmos a sua resistência. Condenemo-lo a uma morte infame, pois segundo diz, Deus o protegerá” (Sb 2, 12-20).

Também o profeta Jeremias experimentou esta situação de sofrimento: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir. Tu me dominaste e venceste. Sou objecto de contínua irrisão e todos escarnecem de mim(...). Ouvia invectivas da multidão: ‘Vamos denunciá-lo’. Os que eram meus amigos espiam agora os meus passos” (Jer 20, 7-10).

O livro da Sabedoria proclama a vitória final do justo. Deus vai tomar partido por ele, concedendo-lhe uma vida plena após a morte. Os ímpios enganam-se e terão como castigo final o shéol ou a morada das sombras: “Estes são os pensamentos errados dos ímpios. A sua malícia cega-os. Ignoram os desígnios secretos de Deus e por isso não esperam a recompensa eterna de uma vida de piedade. Não acreditam no prémio reservado às pessoas simples. Com efeito, Deus criou o Homem para uma vida eterna, incorruptível, fazendo-o à sua imagem e semelhança. A morte entrou no mundo devido à inveja do Diabo e os que pertencem ao Diabo hão-de ficar sujeitos à morte” (Sb 2, 21-24).

O primeiro e o segundo livro dos Macabeus também vão nesta mesma linha. O sofrimento dos justos não é provocado por Deus. É consequência da maldade dos pecadores que o atormentam e esmagam, provocando-lhe uma morte dolorosa. Mas Deus virá em seu apoio, ressuscitando-o (1Mac 1, 54; 6, 7; 2 Mac 6, 1-7; 6, 42; 7, 9; 7, 28—41). O sofrimento do justo deriva do próprio facto de existir a injustiça. O justo é uma pessoa cheia de fome e sede de justiça. Por isso será saciado, dizem as bem aventuranças (Mt 5, 6).

Tanto o Deutero Isaías como o Salmo vinte e um são portadores de uma novidade importante: o prémio do justo após a morte: “Por causa dos seus sofrimentos verá a luz. O meu servo será glorificado e ficará feliz. O justo justificará a muitos, pois carregou com o crime deles. Por isso terá uma multidão em herança. Receberá muita gente como despojo, pois, pois entregou a sua vida à morte, sendo contado entre os malfeitores. Sofreu pelos culpados e tomou sobre si o pecado de muitos” (Is 53, 11-12). Agora o prémio e o castigo serão eternos.

A aquisição teologal do livro de Job e do relato da queda original são igualmente importantes: Deus não é o autor do mal. O sofrimento não é obra de Deus. O Senhor não tem prazer em ver-nos sofrer. Por isso Deus o acolherá justo após a morte, com já via, também, o texto de Isaías: “Uma vez liberto dos tormentos, o justo verá a luz e será saciado de contentamento” (Is 53, 11).


3 – Demónio e Sofrimento

O judaísmo esqueceu a teologia do servo sofredor. Através dos escritos apócrifos, isto é, de textos não inspirados, começa a difundir-se a ideia de um inimigo de Deus e do Homem, chamado Satanás, com as características que este personagem tem no livro de Job e no relato da queda original. Os escritos apocalípticos dos apócrifos vão ampliar a figura de Satanás. Este deixa de ser um conselheiro de Deus como acontecia em Job, (Job 1, 6s; 2, 1s) torna-se o chefe de uma multidão de diabos.

Baseando-se num texto mítico do livro do Génesis, os apócrifos vão dizer que os demónios são anjos que se afastaram de Deus para manterem relações sexuais com as filhas dos homens. Destas relações nasceram os gigantes que nasceram antigamente (cf. Gn 6, 2-4).

Naturalmente que o relato pretende enaltecer a figura de David. Os gigantes são os inimigos de David aos inimigos de David. Os soldados de David matam um grupo de gigantes, guerreiros descendentes dos antigos gigantes (2Sam 21, 20-22). Estes textos pretendiam apenas afirmar que David fora escolhido por Deus e, por esta razão, nenhuma força humana o podia vencer. O Senhor destruirá todos os seus inimigos (Sal 110, 1; 2, 1-6). O próprio Davi mata Golias, um destes antigos gigantes (1 Sam 17, 4-51).

Foi destes anjos impuros que nasceram estes gigantes, inimigos de Deus e da casa de David. Os apócrifos vão convertê-los numa multidão de anjos maus, expulsos do céu. Agora vagueiam pelos ares sem morada própria. São eles a causa dos males que acontecem às pessoas humanas (1Hen 18, 13s; 21, 6s; 90, 21). Era esta a visão do judaísmo no tempo de Jesus. As doenças eram obra dos demónios. Eis a razão pela qual as curas que Jesus realizava nos foram relatadas em forma de exorcismos.

Satanás, inimigo de Deus e do Homem, induz as pessoas a pecar (1Hen 54, 6). São os demónios que provocam as guerras entre os homens (Jub 11, 2-4). Despertam inveja e ciúme no coração das pessoas (Test Sim 4, 9). Apenas os que cumprem rigorosamente as normas e preceitos da Lei Mosaica escapam ao domínio dos demónios (Test Dan 5, 1;Test Neft 8, 4). O rei dos demónios queria ser o rei do Criação. Como este lugar de honra foi dado por Deus ao Homem, Satanás tudo faz para que este seja destruído (1Hen 31, 7-8). 

Havia ainda a visão dos Essénios, monges aos quais pertenceu João Baptista antes de ter sido chamado para realizar a sua missão de profeta. Segundo a teologia destes monges, o anjo Gabriel está em luta permanente contra Satanás. Gabriel é o príncipe da Luz. Satanás é o príncipe das trevas. Esta luta acontece no interior das pessoas. É esta a razão pela qual os homens se sentem interiormente divididos entre o bem e o mal. Esta divisão interior é a causa do sofrimento (1Qs 4, 24-26). O sofrimento dos justos é obra de um demónio chamado Beliar (1Qs 3, 21-24). Quando chegar o Messias vai amarrar Satanás, acabando assim com o sofrimento das pessoas (Test Lev 18, 12).


4 – Influências do Judaísmo no Novo Testamento
4.1.- Influência dos Apocalipses Judaicos no Novo Testamento

A visão apocalíptica dos apócrifos judaicos dominava o contexto cultural da Palestina, no tempo de Jesus. Deste modo, também os discípulos de Jesus estavam profundamente marcados por esta visão apocalíptica. Paulo imagina os ares repletos de espíritos impuros. Quando Cristo vier, na segunda vinda, destruirá os espíritos maus que vagueiam pelos ares (1Cor 15, 24-25). Os crentes não têm de lutar contra a carne mas contra os espíritos maus espalhados pelos ares. 

O livro do Apocalipse anseia pela segunda vinda de Cristo, a fim de que Satanás e a besta sejam encerrados no shéol. A besta que serve Satanás é o imperador romano; obedecendo ao seu chefe, o imperador está a perseguir os fiéis (Apc 13, 4-7). A besta é a causa da prostituição, isto é, do culto idolátrico do imperador (Apc 2, 20). Os que não caem nesta prostituição possuirão a vida eterna com Cristo (Apc 3, 36). A besta, trabalhada por Satanás, tem o poder de enganar a muitos (Apc 13, 3).

Miguel virá e travar-se-à uma batalha feroz contra os anjos maus (Apc 12, 7-9). Satanás e a besta enviam falsos profetas para enganar os eleitos (Apc 16, 13-19). Cristo, ao chegar, prenderá Satanás, a besta e os anjos maus no shéol durante mil anos. Os justos reinarão, com Cristo, em paz (Apc 20, 1-6). Ao fim, Satanás, a besta e os anjos maus, são soltos e dá-se a batalha final. Satanás e os seus seguidores serão destruídos e lançados no fogo eterno (Apc 20, 7-10).


4.2.- As curas de Cristo Interpretadas Como Exorcismos

A acção curativa de Jesus é vista, pelo Novo Testamento, como expulsão de demónios ou espíritos impuros (Mt 9, 34; 10, 8; 11, 18; 12, 24; 17, 18; Mc 9, 14-27). Marcos e Lucas acentuam mais a acção curativa como milagre, isto é, manifestação da força libertadora de Deus a actuar por meio de Cristo. Em qualquer dos casos, o Novo Testamento acentua que Jesus é o vencedor do mal e da morte. Deus ungiu Cristo com o Espírito Santo para dar saúde aos enfermos, libertar os oprimidos, dar vista aos cegos, fazer andar os coxos e enviar em liberdade os cativos (Lc 4, 18-21). O espírito do mal é aquele que faz exactamente o contrário do Espírito Santo.

Os discípulos de Jesus eram judeus. Partilhavam plenamente da cultura da sua época. A sua fé estava profundamente marcada pelos condicionamentos culturais do judaísmo reinante. Os escritos do Novo Testamento são um testemunho da vida de Cristo, da sua morte-ressurreição, bem como do nascimento da Igreja. Mas são também um testemunho claríssimo da cultura judaica reinante no tempo de Jesus: Satanás é o chefe dos demónios e o tentador (1Tes 3, 5). É a causa do mal que acontece no mundo (1 Cor 7, 5; 2 Cor 2, 11;Ef 26, 27; 1 Tm 3, 6-7; Jo 3, 19; 7, 7). É mentiroso e assassino desde o princípio (Jo 8, 44; 1Jo 3, 8). É a causa do sofrimento humano (Mc 3, 23-30; Lc 13, 16; Act 10, 38; Heb 2, 14). Jesus aparece no Novo Testamento como o vencedor de Satanás. Destrona os poderes demoníacos que oprimem o Homem (Mc 1, 23-25;1, 39; Lc 13, 16). Satanás tentou desviar Jesus da sua missão, mas as suas ciladas foram desmascaradas (Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13; Mc 3, 22-30). 


b) O Sofrimento no Novo Testamento

Para o Novo Testamento, Jesus é o Messias, o Filho prometido a David. Veio para vencer as forças do mal realizando, deste modo, a vontade de Deus: a salvação da Humanidade. Deus não quer o sofrimento do homem. Consagrou Jesus para anunciar a Boa Nova aos pobres, conceder aos coxos a faculdade de andar, o dom da vista aos cegos e a libertação aos oprimidos (Lc 4, 18-20).

A obra libertadora de Jesus é a execução rigorosa da vontade de Deus. As coisas que Jesus faz não as faz por si, mas porque essa é a vontade do Pai. Jesus faz apenas o que o Pai deseja. Cristo está no Pai e o Pai está nele. As obras de Jesus em favor da libertação humana são a expressão do amor de Deus pela Humanidade (Jo 14, 10, 11). O Pai e o Filho estão unidos no Espírito Santo que é o vínculo orgânico-relacional que une o Pai e o Filho. Por isso o Filho e o Pai fazem um (Jo 10, 30).

Jesus declara aos mensageiros enviados por João que a vontade de Deus se está a realizar: Os coxos andam, os cegos vêem, os leprosos são curados, os surdos ouvem e os mortos ressuscitam (Mt 11, 4-5).

A paixão de Deus é o Homem feliz. Jesus veio inaugurar o Reino de Deus em cuja plenitude não terá lugar o sofrimento, a morte, a dor, a tristeza ou a solidão. No Reino de Deus o sofrimento e a morte serão totalmente banidos (Heb 2, 43-3, 10; Apc 21, 3-4). Os discípulos marcados pelo velho esquema do pecado-castigo, justiça-felicidade, perguntam a Jesus a propósito do cego de nascença: “Quem pecou ele ou o pai dele?” (Jo 9, 2).

Nem ele nem o pai. As situações de sofrimento são um apelo de Deus a solidarizarmo-nos e comprometermo-nos com os que sofrem. É preciso realizar a vontade de Deus, como pedimos no Pai Nosso (Mt 6, 10). As atitudes de Jesus demonstraram de modo bem claro que a vontade de Deus é trabalhar para debelar o sofrimento dos irmãos. Ainda que seja proporcionar vinha para as bodas de Caná (Jo 2, 1-8), ou fazer lodo para curar o cego de nascença (Jo 9, 4-7).

Deus não é o autor do sofrimento. Existe um sofrimento que deriva do próprio facto de a pessoa humana estar em processo de realização. Os seres humanos não nascem perfeitos nem acabados. A humanização é tarefa de cada pessoa. Ninguém pode ser substituído nesta tarefa. O processo de humanização pressupõe morte ao homem velho, exterior ou individual, a fim de que possa nascer o homem novo, pessoal-espiritual.

O homem novo só pode nascer mediante o amor. Mas nós não estamos plenamente capacitados para amar. A amorisação só pode acontecer mediante a morte do egoísmo. Esta morte provoca sofrimento. Mas tal sofrimento é tolerável e vantajoso. É o sofrimento dos partos mediante os quais nasce o homem novo. Há também um sofrimento que resulta das limitações da natureza, a qual é frágil e inacabada. Também este sofrimento é tolerável quando vivido numa dinâmica de solidariedade e partilha.

No entanto, existe um sofrimento que é intolerável e chocante para a razão humana: pessoas oprimidas; crianças maltratadas; seres humanos a morrer de fome perante a indiferença de povos que vivem em excessos de abundância; Seres humanos que asfixiam de solidão; pessoas idosas abandonadas e sós; pobres explorados; sistemas sociais injustos que marginalizam pessoas; doenças provocadas pela egoísmo humano que está a destruir a natureza; guerras ridículas que destroem pessoas e cidades; seres humanos privados da sua dignidade e reduzidos a objectos de compra, venda ou simples objecto de prazer sexual. Há tantas fronteiras que impedem a circulação dos bens que esta Terra generosa e fecunda produz para todos.

Há famílias que não têm condições para se realizar como alfobres de amor, pois as condições sociais e laborais não lho permitem; casais que não podem ter filhos por não terem condições habitacionais. Além destas há tantas outras situações de sofrimento intolerável e revoltante. Este sofrimento é obra do egoísmo e das nossas recusas de amor.

Deus vai suscitando profetas que denunciam estas situações de sofrimento e convidam os homens a caminhar segundo o plano de Deus: fazer da Humanidade uma só família cujo coração é o próprio mistério da Santíssima Trindade. Os cristãos estão chamados a ser no mundo uma consciência teologal. Isto quer dizer que estão chamados a ler os acontecimentos com os olhos da revelação de Deus.

O seu empenhamento, portanto, tem de ser semelhante ao de Cristo: lutar contra todas as formas de sofrimento que impedem o ser humano de desabrochar com a sua dignidade de pessoa humana e membro da família de Deus. O Novo Testamento reconhece que há um sofrimento que faz parte do próprio processo da humanização do Homem. De facto, não há crescimento sem crises e estas fazem sofrer. Mas é totalmente contra formas de sofrimento que não resultem deste parto do homem a nascer. Tal sofrimento tem como origem o egoísmo e a iniquidade humana.

É falsa a ideia segundo a qual Deus precisa do sofrimento humano para perdoar ao homem. Já vimos como os textos do justo sofredor tinham outro tipo de preocupações: Deus não é injusto apesar de existir o sofrimento dos justos. A fidelidade a Deus passa pela luta contra o sofrimento dos doentes, dos nus, dos presos, dos doentes e dos oprimidos. Seremos julgados pelo nosso compromisso neste sentido (Mt 25, 31—46).

Segundo o Novo Testamento, Deus não criou o Homem para o sofrimento nem tem necessidade do sofrimento humano. O sofrimento pertence à fase da gestação histórica: ”Ainda que em nós se vá destruindo o homem exterior, o interior renova-se diariamente. A nossa tribulação passageira prepara-nos uma densidade de glória para além de qualquer medida.” (2 Cor 4, 16-17) O Espírito Santo vai-nos preparando gradual e progressivamente para tomarmos parte na plenitude da glória de Deus (2 Cor 3, 18). É este o modo como o sopro de Deus no barro primordial actua: ajudando-nos processo da humanização. É esta a intervenção especial de Deus na criação do Homem (Gn 2, 7). Eis a presença de Deus no processo do nascimento do Homem Novo identificado com Cristo (2 Cor 5, 17).


c) Sofrimento e Sentido Cristão da Vida
1 – O Cristão e a Luta Contra o Sofrimento

No evangelho de Mateus, Jesus diz aos discípulos que devem ser sal, luz e fermento no mundo (Mt 5, 13-16). Isto significa que os cristãos estão chamados a ser no mundo uma dinâmico de humanização. Tal como Cristo, os discípulos estão no mundo mas não são do mundo, isto é, apesar de estarem no mundo têm os critérios de Deus: o sentido teologal da vida (Jo 17, 14-16).

O que capacita o cristão para ser no mundo um fermento que leveda, um sal que dá à vida e uma luz que confere sentido à realidade é a vida teologal. Esta emerge no íntimo da pessoa e exprime-se no seu agir em atitudes de fé, de esperança e caridade. É a sabedoria que vem do alto e nos confere os critérios de Deus. A vida teologal capacita-nos para testemunhar a Verdade de Deus e do Homem. A Palavra de Deus é a Verdade (Jo 17, 17). Cristo pede ao Pai para nos consagrar na Verdade. Não pede para nos tirar do mundo, mas para nos livrar do mal (Jo 17, 15). O que nos limpa do pecado é a Palavra de Deus (Jo 15, 3).

Os cristãos são a consciência teologal da Humanidade. A sua tarefa é fecundar as consciências humanas com os valores do Evangelho. Não importa que os adeptos do induísmo, do islamismo ou do budismo continuem ligados às suas religiões. O Importante para o Reino de Deus é que as suas consciências sejam fecundadas com os valores do Evangelho. A Igreja não é o Reino, mas existe em função deste.

A tarefa dos cristãos é enorme. À medida que facilitam e dinamizam o processo de humanização, estão a tornar-se uma frente de luta contra o sofrimento no mundo. É para isto que Deus os consagra. É enorme a sua tarefa:

Quantas pessoas impedidas de se realizarem de modo livre, consciente e responsável;
Quantas pessoas utilizadas como escravos, sem voz nem meios para se afirmarem e defenderem;
Quantas pessoas perseguidas pelas suas ideias e impiedosamente torturadas sem encontrarem uma protecção jurídica eficaz;
Quantas pessoas privadas de uma vida familiar digna porque lhes são negados os meios necessários para isso.

Quantas pessoas impedidas de exprimirem livremente o seu pensamento;
Quantas pessoas impedidas de se realizarem socialmente por estarem impedidas de exercer o direito de associação e reunião;
Quantas pessoas perseguidas devido às suas crenças religiosas;
Quantas pessoas privadas de uma segurança social adequada às suas necessidades básicas de saúde;

Quantas pessoas marginalizadas e privadas do trabalho só por pensarem de modo diferente;
Quantas crianças não se poderão realizar satisfatoriamente como homens por não terem acesso à cultura e a uma educação adequada;
Quantos pais impedidos de escolher o estilo de educação que desejam para os seus filhos.


2 – Sofrimento e Sentido da Vida

É importante não confundir dor com sofrimento. A dor, em geral, gera sofrimento, mas nem todo o sofrimento deriva da dor. A dor é um fenómeno fisiológico que funciona como sinal de alarme. Alerta para o facto de algo não estar a funcionar bem. A possibilidade da dor representa uma perfeição enorme dos organismos com esta capacidade. Se a possibilidade da dor é um bem, mas as causas que a provocam são um mal e devem ser combatidas. O sofrimento é algo diferente da dor. Atinge-nos no mais íntimo.

O sofrimento é sobretudo um fenómeno de ordem psíquica, embora as suas raízes profundas possam ir até ao nível do neuro-psiquismo. O sofrimento atinge a pessoa de modo mais profundo que a dor. O crente deve ser solícito no combate das causas que provocam tanto a dor como o sofrimento dos irmãos. Para atenuar ou eliminar a dor existe a medicação. Mas o sofrimento só pode ser eficazmente combatido mediante atitudes de doação fraternal. O amor é o grande “medicamento” para extinguir o sofrimento.

A pessoa deve procurar viver as situações de sofrimento com sentido. Quando isto acontece, o sofrimento torna-se uma causa importante de amadurecimento humano. Vivido como acontecimento intolerável e sem sentido conduz a situações de desespero. Mesmo em situações de grande sofrimento a vida continua a ter sentido: levamos dentro de nós uma pessoa em construção e chamada a uma vida em plenitude.

Só o amor dos outros pode ajudar a pessoa a encontrar os sentidos capazes de a iluminar e ajudar a compreender e suavizar o sofrimento. A pessoa precisa de viver relações de bem-querer para se encontrar e encontrar o sentido da vida. Para nos possuirmos e compreendermos plenamente, precisamos dos outros.

A pessoa que sofre interroga-se sobre o sentido de tal sofrimento. Não conseguimos viver satisfatoriamente sem sentidos. Mas a resposta a esta fome de sentidos não é apenas uma questão teórica. É fundamental a calda das relações com a densidade do amor. O sofrimento inerente à realização da pessoa é tolerável e não é difícil integrá-lo no sentido da própria vida. O mais difícil é integrar o sofrimento causado pelo egoísmo e as recusas de amor estruturadas e activas no tecido social.

Os porquês insistentes que o sofrimento levanta às pessoas é um apelo a criar e aprofundarmos o sentido da vida. Mas apenas em contexto relacional de fraternidade e amor a pessoa pode encontrar a resposta capaz de dar sentido satisfatório à vida. As raízes mais profundas do sofrimento estão em grande parte na indiferença, desinteresse, esquecimento ou egoísmo das pessoas. Somos para os outros e estes são para nós a mediação necessária para podermos encontrar a calda afectiva capaz de atenuar o sofrimento.

A possibilidade da dor, como víamos acima, é um bem. Mas as causas que provocam a dor são um mal que deve ser combatido. Do mesmo modo podemos dizer que a possibilidade do sofrimento é um bem, pois está inerente ao próprio processo da humanização. Mas as causas que o provocam devem ser combatidas através de contextos humanizantes.

Não podemos partilhar a dor. Mas o sofrimento pode ser sempre partilhado. A pessoa que sofre precisa de alguém capaz de facilitar a verbalização dos seus sentimentos mediante uma escuta atenta. Precisa ainda de ser aceite, apesar de diferente. Não julgada, a fim de poder dizer-se sem bloqueios e valorizada, apesar da história dos seus sofrimentos.

Na partilha da companhia fraterna o sofrimento é vencido ou atenuado. Não é raro encontrarmos pessoas para quem os dias e as dores das suas artroses são insuportáveis. Estas mesmas pessoas são capazes de passar um dia, felizes e sem darem por isso, graças a uma simples presença fraterna e amorosa. As dores foram rigorosamente as mesmas, mas o sofrimento não.

As situações de sofrimento tolerável (inerente ao processo da humanização) são importantes para o amadurecimento do homem interior. Lavado com as lágrimas do sofrimento o coração humano fica dilatado para acolher e compreender as situações de sofrimento dos irmãos. Este sofrimento confere sabedoria e maturidade à pessoa. Mas se for um sofrimento injusto e intolerável gera revolta.

O sofrimento da Humanidade é muito mais vasto do que a dor física. Deus não ama o sofrimento por si. Inscreveu a sua possibilidade no projecto humano como condição para poder acontecer a humanização do Homem. A lei da humanização é: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal.

Por emergência pessoal devemos entender o crescimento pessoal-espiritual. No interior do eu individual ou exterior levamos um eu pessoal-espiritual e interior em construção. É como o pintainho a emergir no interior do ovo. Emergir como pessoa significa crescer em densidade espiritual e interacção relacional.

A convergência para a comunhão universal significa que a pessoa, à medida que emerge, entra mais profundamente no tecido orgânico da Humanidade. A Divindade é uma comunhão orgânica e infinitamente perfeita de três pessoas. A Humanidade está a humanizar-se, isto é, a constituir-se como comunhão orgânica de biliões de pessoas. Somos verdadeiramente criados à imagem e semelhança de Deus.

Graças ao mistério da Encarnação, o divino enxertou-se no humano e este foi organicamente incorporado no divino. Já somos membros da Família Divina (Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7). Eis o sentido máximo da vida humana. Só à luz da revelação de Deus podemos olhar a vida e a história com este alcance. O sofrimento não é nunca provocado arbitrariamente por Deus para punir o pecador ou fazer sofrer os inocentes, a fim de tirar proveito desse facto. Pensar assim é desfigurar o rosto do nosso Deus e deformar o seu plano de Salvação.

A glória de Deus revela-se na vitória sobre tudo o que faz sofrer o homem (Jo 9, 3; Lc 4, 18-21). Jesus veio para fazer a vontade do Pai. A sua paixão era libertar as pessoas de tudo o que as fazia sofrer. Isto significa que era esta a vontade do Pai: “Muitas pessoas seguiram Jesus. Ele curava-as a todas, recomendando-lhes que não o dissessem a ninguém. Deste modo cumpria o que fora anunciado pelo profeta Isaías: Eis o meu servo, o amado que escolhi e no qual pus o meu enlevo. Derramarei sobre ele o meu Espírito e ele anunciará a verdadeira Fé às nações” (Mt 12, 15b-18).

Empenhar-se na luta contra o sofrimento humano é uma das maneiras mais nobres de se realizar como pessoa humana. É certamente o caminho certo para entrar no Reino de Deus: “O Rei dirá então aos da sua direita: ‘vinde benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me de vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo’(...). Em verdade vos digo: sempre que o fizestes a um destes pequeninos a mim o fizestes” (Mt 25, 34-40).

Enquanto a Humanidade está em processo histórico de realização o sofrimento não poderá ser totalmente banido, pois é inerente ao processo de humanização. Mas o sofrimento intolerável, aquele que é provocado pelo egoísmo e as recusas de fraternidade e comunhão entre os homens pode ser profundamente debelado.

No Reino de Deus o sofrimento e a morte serão totalmente vencidos: “Vi então um novo céu e uma nova terra. O primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo. E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: ’Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles. Eles serão o seu povo e Deus, junto deles, será o seu Deus, enxugando as lágrimas dos seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas passaram” (Apc 21, 1-4).

A fase da gestação histórica do Homem corresponde às primeiras coisas. O Reino de Deus é a comunhão universal de todas as pessoas humanas com as três pessoas divinas. É o nível da plenitude. Não fomos criados para o sofrimento. Na plenitude da vida este será totalmente vencido. De facto, a possibilidade do sofrimento é inerente à fase da realização histórica da Humanidade.

A felicidade sem sombras e ameaças é o estado do ser humano na fase de pessoa acabada. São estas as coordenadas da plenitude onde os homens transcendem definitivamente os condicionamentos individuais e são assumidos na comunhão da Família Divina.     


Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

Liberdade e Humanização

Judeus em Oração na direcção de Jerusalém (Montreal, Canadá)


I.   A LIBERDADE COMO PROCESSO
a) A Emergência da Liberdade
b) Liberdade e Humanização
c) Relação Entre Amor e Liberdade
d) Liberdade e Dignidade Pessoal
e) Liberdade Fraternidade

II.A LIBERDADE É SEMPRE UM BEM
a)   A Liberdade é Boa por Natureza
b)   A Liberdade e o Amor
c)   A Liberdade e a Consciência Moral



I.     A LIBERDADE COMO PROCESSO


a) A Emergência da Liberdade

Ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros e de interagir criadoramente com as coisas e os acontecimentos. A liberdade é o resultado de uma cadeia de opções, escolhas e realizações na linha do amor.

É importante não confundir liberdade com livre arbítrio. Na verdade, muitos dos discursos que ouvimos sobre a liberdade não são mais que referências ao livre arbítrio. A possibilidade de o ser humano ser livre radica no livre arbítrio, capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal.

O livre arbítrio tem uma vertente biológica e outra cultural. A base biológica do livre arbítrio é o neocortex, o sector inteligente do nosso cérebro, o qual anula no ser humano a estrutura rígida dos instintos. Os instintos são, no animal, a ditadura da espécie sobre o indivíduo. Os comportamentos instintivos são respostas exactas dos animais aos estímulos.

Devido ao sector inteligente do cérebro humano, o neocortex, os nossos instintos são diminuídos na sua força impositiva, tornando-se impulsos. Graças a este facto, a resposta humana aos diversos impulsos já não é uma ditadura da espécie sobre os indivíduos. Pelo contrário, vemos uma variedade enorme de respostas humanas até no que se refere aos estímulos fundamentais: fome, sexo, modo de enfrentar os perigos, etc.

Além da vertente biológica, o livre arbítrio tem ainda a vertente cultural, a qual é constituída pelo conjunto de valores e critérios que os outros inscreveram em nós mediante o processo de aculturação e educação.

O decisivo é fundamental o amor com que os outros nos amaram. A lei da humanização é esta: Ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado, e o mal amado ficará a amar com tropeções, bloqueios e limitações sem disso ter culpa. É assim o leque de possibilidades ou talentos de que dispomos para nos podermos realizar e tornar mais ou menos livres.

A nossa realização pessoal tem a ver com a fidelidade aos nossos talentos. Do mesmo modo, decidiremos o malogro da nossa humanização se formos infiéis às possibilidades de realização que recebemos dos outros. Por outras palavras, o modo como orientamos o nosso livre arbítrio é que determina o sucesso ou o malogro da nossa realização pessoal.

A orientação do nosso livre arbítrio pode seguir o rumo do amor ou o do egoísmo, pois como vimos o livre arbítrio é a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal. Optar pelo bem, como vimos, significa orientar-se na linha da fraternidade e do amor. Pelo contrário, optar pelo mal significa orientar-se na linha do egoísmo.

Os sistemas e os regimes repressivos são desumanos precisamente por impedirem o exercício do livre arbítrio e, portanto, obstruírem a emergência da Humanidade em expressões novas. Esta emergência acontece, como sabemos, no concreto de cada pessoa de modo único original e irrepetível. Na verdade, as pessoas não são peças feitas em série.

Nenhum homem é a medida da Humanidade. Por isso ninguém pode impor ao outro a medida do seu ser. Como vimos, o amor dos outros capacita-nos para amar, mas não nos impõe as opções na linha do amor. A opção de amar implica sempre uma decisão pessoal. Com efeito, o amor propõe-se, nunca se impõe. Ninguém é capaz de nos obrigar a amar uma pessoa. Amar, como sabemos, é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.


b) Liberdade e Humanização

A pessoa não nasce livre. A liberdade acontece como processo de libertação. Uma pessoa começa a ser livre quando começa a ser capaz de orientar os três dinamismos básicos da vida natural segundo os critérios da fraternidade e do amor.

No animal, os dinamismos básicos da vida natural estão sujeitos à lei da selva onde o mais forte oprime, machuca, mata e explora. Só na medida em que a pessoa, mediante o livre arbítrio, faz opções de modo a orientar os dinamismos básicos da vida no sentido do amor caminha no sentido da sua humanização.

São estes os três dinamismos básicos da vida animal: o instinto do ter; o instinto do poder; o instinto do prazer. No caso do ser humano, devido ao aparecimento do neocortex, estes instintos ficam reduzidos à condição de impulsos. Os impulsos são instintos diminuídos cuja resposta pode ser equacionada pelas decisões do livre arbítrio.

Para realizar a sua humanização, o ser humano não pode seguir os critérios da lei da selva na orientação dos dinamismos básicos da vida natural. Os mamíferos superiores orientam o princípio do ter marcando o seu território com a própria urina. Deste modo avisam os outros animais de que não podem invadir este território sob pena de incorrer em severas punições. O princípio do poder afirma-se sobretudo na luta dos diversos machos, a fim de conquistar as fêmeas para si. O princípio do prazer afirma-se sobretudo na actividade sexual.

O livre arbítrio permite ao ser humana orientar os dinamismos básicos na linha da fraternidade e do amor, possibilitando, deste modo, a humanização da pessoa. Neste caso o ter pode tornar-se fonte de partilha e comunhão fraterna. O poder pode tornar-se autoridade e serviço no sentido de edificar uma sociedade mais justa e fraterna. Por seu lado, o prazer pode tornar-se um meio privilegiado para criar eventos de convívio e encontro amoroso. Pode mesmo ser o veículo que facilita a realização de uma aliança de amor fiel e fecundo.

À medida em que a pessoa se vai tornando livre mais apta se torna para orientar o livre arbítrio no sentido de opções capazes da própria humanização. A principal força que capacita o livre arbítrio para optar na linha do amor é o amor com que os outros nos amaram e os valores que inscreveram em nós mediante o processo educativo. O principal bloqueio às opções na linha do amor é o egoísmo, força que tende a conduzir a pessoa no sentido de opções que conduzem ao auto enroscamento sobre si mesma.

Como vemos, o egoísmo a nível pessoal e os sistemas repressivos a nível social ou político são os grandes obstáculos ao crescimento da liberdade. Tudo o que se opõe à liberdade é igualmente obstáculo à humanização da pessoa. A lei da humanização é: Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal. Do mesmo modo mais capaz se torna para facilitar a realização e a felicidade dos outros.


c) Relação entre Amor e Liberdade

A expressão máxima da liberdade é o amor. As escolhas pessoais na linha do amor exprimem a liberdade como capacidade adquirida, ao mesmo tempo que dinamiza o mesmo crescimento da liberdade. Podemos dizer que a capacidade de amar de uma pessoa é o termómetro que indica o nível de liberdade dessa pessoa.

Como sabemos, o grau de liberdade de uma pessoa não é evidente, mas revela-se pelas suas escolhas, opções e orientações na linha do amor. Do mesmo modo, o grau de amorisação de uma pessoa não é evidente, mas revela-se no seu estilo de se relacionar com os outros.

O núcleo da identidade de uma pessoa é o seu jeito de amar. É este jeito de amar que nos revela até que ponto uma pessoa é livre, consciente, responsável, único, original, irrepetível e capaz de comunhão fraterna. Depois de tudo o que foi dito já podemos compreender como o amor possibilita a emergência da liberdade pessoal e capacita a pessoa para agir amorosamente. Podemos ter a certeza de que quanto mais ricas e profundas for a capacidade de comunhão de uma pessoa mais livre ela é.

Como podemos ver, a nossa liberdade não é inimiga da liberdade dos outros, tal como a nossa liberdade não é inimiga da liberdade dos outros. Pelo contrário, a nossa liberdade possibilidade a liberdade dos outros e a dos outros possibilita a nossa.

Quando se diz que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros as pessoas estão a falar da orientação egoísta do livre arbítrio. De facto, a nossas decisões e escolhas na linha das nossas tendências egoístas terminam onde começam as opções, escolhas e decisões de tendência egoísta dos outros.


d) Liberdade e Dignidade Pessoal

A dignidade da pessoa começa no facto de não nascer determinada. Os animais nascem e crescem determinados pela natureza da sua espécie, a qual lhes marca o destino. Os instintos são a ditadura da espécie sobre os animais que constituem essa mesma espécie. A pessoa humana, pelo contrário, nasce com um leque de possibilidades que lhe proporciona uma diversidade enorme de opções, escolhas, decisões e compromissos de vida.

Graças ao livre arbítrio, a pessoa pode optar na linha do amor ou do egoísmo. Como vimos, a pessoa só se torna torna-se livre na medida em que opta e decide na linha do amor. Ao contrário dos animais, a pessoa está chamada a ser autora de si própria.

A realização da pessoa implica o crescimento da liberdade, essa capacidade de se relacionar amorosamente com as outras pessoas e de interagir de modo criador com as coisas e os acontecimentos. É esta a grandeza do ser humano a emergir como pessoa livre, graças às decisões, opções e escolhas na linha do amor.

A pessoa Humana é verdadeiramente um ser semelhante às pessoas divinas. A Bíblia diz que Deus é amor (cf. 1 Jo 4, 7; 4, 16). É verdade que as pessoas humanas não são iguais às divinas, mas são-lhe proporcionais. Pela sua condição pessoal, a pessoa humana pertence ao nível da transcendência, isto é, à esfera da vida pessoal-espiritual. A liberdade, como podemos ver, pertence à esfera da transcendência.

A nível da Criação, a vida pessoal-espiritual aparece no fim. É a cúpula do processo criador. Mas a vida pessoal foi primeiro, pois o Criador é comunhão amorosa de três pessoas infinitamente livres, isto é, autoras de si próprias. No princípio, quando ainda não se tinha iniciado a génese das galáxias, das estrelas, dos planetas, dos asteróides ou dos cometas, já existia uma comunhão familiar de três pessoas. Ainda não tinha acontecido a explosão primordial que iniciou a génese do Universo; Ainda a Terra não girava à volta do Sol e o Céu ainda não era azul e a luz do dia ainda não existia; Mas já existia a comunhão da Santíssima Trindade.

Como vemos, a comunhão amorosa de três pessoas é o começo e o fim, o Alfa e o Ómega. Deus é o começo e a plenitude da Criação! Só a vida pessoal tem densidade de vida eterna. A vida pessoal ou é divina ou é proporcional à Divindade. Com o aparecimento de seres pessoais a nível da Criação, esta atinge o limiar da vida irreversível. A pessoa é a cúpula da Criação.

O crescimento da vida pessoal não é uma questão de quantidade. Não se mede ao quilo, nem é questão de volume. Não se mede ao metro, nem se analisa pelo método das superfícies. Só se pode valorizar pela qualidade das suas relações. A pessoa em realização caminha para a perfeita reciprocidade. Possui-se na medida em que se dá. A plenitude de uma pessoa não está em si, mas na comunhão amorosa. Ao dar-se não se perde. Pelo contrário, encontra-se mais plenamente.

A nossa interioridade pessoal-espiritual, por ser livre, não emerge necessariamente. Não é uma fatalidade ou destino. Não acontece de modo espontâneo. A realização pessoal é uma tarefa de amor. É um processo histórico. Emerge como novidade constante. Deus é novidade constante no interior de Si mesmo.

A Divindade nunca se repete no jeito de ser Pai e Filho no Espírito Santo. O Amor é sempre novo. Eis a razão pela qual Deus nunca é repetição. O Pai e o Filho encontram-se permanentemente como novidade constante no Espírito Santo. Os seres pessoais, por serem espirituais, pertencem à cúpula da Vida.

Na verdade, a vida pessoal-espiritual, não vem de fora para dentro. Emerge no interior. Não nascemos como almas feitas. Pelo contrário, somos pessoas em processo de realização. Crescer como pessoa é crescer espiritualmente. Ao atingir o nível pessoal, a vida atinge a imortalidade. Mas só se torna sucesso eterno mediante a assunção e incorporação na Comunhão Universal cujo coração é Cristo ressuscitado.

O crescimento pessoal só acontece através de opções, escolhas, decisões e compromissos. Por outras palavras, não há crescimento pessoal sem o exercício da liberdade. Crescer como pessoa é crescer como ser livre, consciente, responsável, único, original e irrepetível!

Como vemos, a pessoa faz-se, fazendo. Realiza-se, realizando. A emergência pessoal é o coração do processo de humanização cuja lei é: Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal.

O estado de perdição, isto é, o malogro total é a pessoa enroscada sobre si sem possibilidades de encontro e comunhão com as outras pessoas. No estado de perdição, a pessoa não consegue captar qualquer movimento de amor e bem-querer. Não tem sabedoria para poder saborear um gesto de reciprocidade amorosa. O egoísmo é uma força capaz de enroscar a pessoa sobre si mesma, como se de um parafuso se tratasse. Este auto enroscamento acontece de modo gradual e progressivo, destruindo todos os elos de relação amorosa.

O livre arbítrio é a capacidade psíquica de escolher pelo bem ou pelo mal. Optar pelo mal é escolher a via do egoísmo e, portanto, da não liberdade. Optar pelo bem é escolher a via do amor e, portanto, da liberdade. Como vimos acima, ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros e de interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.

Cada ser humano é autor da sua realização pessoal. Ninguém o pode substituir ou colocar-se em seu lugar. Eis do mistério da dignidade pessoal e da liberdade em construção. É este mistério que nos coloca na esfera da transcendência. A lei da humanização transcende as leis da natureza cósmica. A transcendência humana encontra-se em plenitude na transcendência Divina.
Graças à Encarnação, a pessoa humana é assumida na intimidade familiar de Deus. O Criador imprimiu na génese do Universo a semente da vida pessoal e, portanto, as sementes da liberdade.

A dignidade do Homem em construção consiste em ser autor de si mesmo. A pessoa humana não pode humanizar-se sem Deus e sem os outros. Mas Deus e outros não podem substituir a pessoa sob pena de impedir a sua realização de ser livre, consciente e responsável.

Na medida em que é fiel aos apelos do Amor, a vida pessoal-espiritual dilata-se e capacitando-nos para a Comunhão Universal. O crescimento espiritual da pessoal acontece como aumento gradual e progressivo de densidade espiritual e maior capacidade de se relacionar amorosamente com os outros.

Como vemos, ser livre é uma tarefa que implica fidelidade aos talentos recebidos dos outros e a resposta fiel aos apelos que o amor nos faz nas diversas circunstâncias no dia a dia da nossa vida. A génese da humanização culmina na incorporação da comunhão da Santíssima Trindade, condição da nossa divinização.

Como vimos acima, Deus não tem livre arbítrio, pois não tem capacidade psíquica de optar pelo mal. Mas é infinitamente perfeito, pois é capaz de se relacionar amorosamente e de interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos. Na comunhão universal do Reino de Deus, a liberdade humana é optimizada na comunhão com a liberdade divina.


e) Liberdade e Fraternidade

Um passo fundamental para o ser humano se comprometer de modo acertado na tarefa da sua realização como pessoas livre é a tomada de consciência da sua condição de pessoa única, original e irrepetível. Para emergir como ser livre a tem de optar a partir dos seus talentos, os quais são diferentes dos talentos dos outros. Eis a razão pela qual a pessoa, para ser livre, não deve andar constantemente a comparar-se com os outros.

No entanto, não podemos esquecer que a pessoa apenas se torna livre em relações com os outros. Ninguém se torna livre sozinho, mas também é verdade que os outros não nos podem tornar livres. A dignidade da pessoa radica no facto de não nascer determinada e surgir com um leque de possibilidades que é diferente do leque de possibilidades dos outros.

O leque primordial dos nossos talentos é a matéria-prima para modelarmos o homem em construção que somos cada um de nós. A nossa liberdade é a capacidade de nos relacionarmos amorosamente com os outros. Mas os outros nunca nos podem substituir na tarefa de nos construirmos como seres livres.

Face à tarefa da realização dos outros a atitude mais correcta é respeitar as suas opções, escolhas, decisões e projectos de vida. Na verdade, ninguém é a medida do outro. Eis a razão pela qual a melhor maneira de ajudar o outro a realizar-se é não determinar o que ele deve ou não decidir.

Facilitar a tarefa da realização do outro como pessoa livre é acolhê-lo na sua originalidade, unicidade e irrepetibilidade. Só deste modo podemos facilitar a emergência das suas possibilidades de realização. É verdade que é legítimo aconselhar ou sugerir pistas e caminhos. Mas depois de verificarmos que o outro compreendeu o nosso ponto de vista ou sugestão só nos resta aceitar e respeitar. Não esqueçamos que o melhor do outro não é nunca igual ao nosso melhor.

É verdade que a pessoa não pode realizar-se sem os outros. Devemos escutar as sugestões e opiniões de outros e sentir que estas são uma mediação importante para a nossa realização. Mas nós damo-nos conta até que ponto essas sugestões são válidas ou não para nós. Não esqueçamos que este princípio é igualmente verdadeiro para nós.

Por outras palavras, devemos acolher as pessoas que acolhem e respeitam a nossa diferença com uma atitude de gratidão. Na verdade, estas pessoas são um dom e uma mediação do amor de Deus para nós. Também nós devemos agir em relação aos outros com estes sentimento de respeito, deixando que a Humanidade possa emergir nessa pessoa com a sua originalidade.

Como sabemos a Humanidade não existe em abstracto nas nuvens. Pelo contrário, a Humanidade concreta é a que emergiu, está emergindo e continuará a emergir no concreto de cada pessoa. Isto que dizer que a Humanidade emerge no concreto de cada pessoa que se vai tornando livre, consciente e responsável. À medida em que emerge torna-se património para a comunhão amorosa. Eis o fundamento da fraternidade universal.

Como sabemos, Deus não nos criou acabados, a fim de termos parte na nossa realização. Só deste modo podemos emergir como seres livres. Deus criou-nos para que nos criemos! Uma pessoa que não procura aproveitar o seu tempo no sentido de se realizar segundo o melhor das suas possibilidades nunca atingirá uma nível de profunda liberdade.

Como sabemos, ninguém nasce livre. Ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos. Quanto mais livre uma pessoa se torna mais faminta está de futuro. Com efeito, o futuro é o que falta ao ser humano para ser uma pessoa plenamente realizada.

Como vemos, para a pessoa livre o destino não existe. O destino da pessoa livre é ela que o edifica. Tornar-se livre, para a pessoa humana, é construir-se de acordo com o que vai decidindo, segundo o leque de talentos ou possibilidades que possui. Mas nunca se tornará livre a pessoa que se projecta no futuro sem se preocupar com a realização dos seus possíveis no presente.

A pessoa não é igual ao que diz, mas sim ao que realiza. Quem quiser ser bailarino tem de começar a bailar. Se assim não fizer nunca atingirá esse ideal por mais que se projecte no futuro e sonhe com maravilhosos bailados cheios de sucesso.

Enquanto o ser humano for capaz de optar e decidir permanece em aberto a possibilidade de crescer como pessoa livre, consciente e responsável. Com efeito, a emergência da liberdade não é algo que acontece de modo fatal. A liberdade não é algo que uma pessoa ou uma sociedade possa dar a um ser humano.

As pessoas e as sociedades podem e devem dar condições para que os seres humanos cresçam como pessoas livres. Mas a liberdade é sempre o resultado de uma cadeia de opções e decisões feitas na linha do amor.

A pessoa que tem medo de correr riscos não consegue crescer muito como pessoa livre. Os sonhos e o compromisso com projectos que tentam fazer acontecer o novo e o diferente são um alimento privilegiado para a pessoa crescer como ser livre. Os sonhos configuram a esperança do homem, condição para este ter razões para se empenhar e comprometer.

Torna-se mais livre a pessoa que inclui sempre o bem dos outros nos seus planos e projectos de vida. Quanto mais livre se torna uma pessoa mais capaz é de fraternidade e comunhão com os outros.



II.  A LIBERDADE É SEMPRE UM BEM
a) A Liberdade é Boa por Natureza

Quando Deus pensou em criar a pessoa humana, estava a pensar numa obra-prima. Uma das características fundamentais da pessoa é o facto de ter a possibilidade de se tornar livre. É importante não confundir liberdade com livre arbítrio. O livre arbítrio não é a liberdade, mas é a possibilidade de a pessoa se tornar livre. Na verdade, o livre arbítrio é a capacidade psíquica de a pessoa optar pelo bem ou pelo mal.

O ser humano torna-se livre na medida em que opta pelo bem. De facto, o ser humano não nasce feito. Faz-se, fazendo. Realiza-se, realizando. Constrói-se, construindo. Por outras palavras, Deus não criou o Homem feito, a fim deste poder ter parte na sua própria realização pessoal. Este facto é condição para que o ser humano possa chegar a ser livre.

A pessoa humana não nasce livre, mas sim com a possibilidade de se tornar livre. Essa possibilidade, como vimos acima, é o livre arbítrio. A pessoa humana não pode chegar a ser livre sem exercitar o livre arbítrio. Mas não basta exercitar o livre arbítrio para que a pessoa se torne livre. É preciso optar no sentido do amor. O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

A liberdade, portanto, é uma conquista do Homem em construção. Podemos dizer que a liberdade resulta de uma vida comprometida. Por outras palavras, a liberdade é um estado adquirido que resulta de uma vida vivida como processo de libertação. À medida em que vai emergindo, a liberdade capacita a pessoa para se relacionar amorosamente com os outros e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.

Agora já podemos compreender como a liberdade é sempre um bem. O mesmo não poderíamos dizer do livre arbítrio, pois este é, como vimos, a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal. Deus é infinitamente livre, mas não livre arbítrio, pois não pode optar pelo mal. Além disso, as pessoas divinas são infinitamente livre e não uma liberdade em construção.

Muitas vezes, quando ouvimos as pessoas falar da liberdade, estas estão simplesmente a falar do livre arbítrio. Como vemos, a pessoa humana, como ser em construção emerge e cresce como ser pessoal optando na linha do amor. À medida em que cresce como pessoa, o ser humano emerge como interioridade espiritual livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa.

Agora podemos compreender melhor a lei da humanização que podemos definir do seguinte modo: “Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal”. Em perspectivas cristãs, esta Comunhão Universal é o Reino de Deus.

Na verdade, o ser humano é uma pessoa em construção em todos os aspectos do seu ser. É este o sentido profundo das palavras de Jesus no evangelho de São João quando afirma: “O que comete o pecado é escravo” (Jo 8, 34).

À luz das Escrituras, o Espírito Santo é o grande protagonista deste processo da libertação humana. Logo no princípio da Criação, quando o hálito de Deus, isto é, o Espírito Santo, entrou para o interior do Homem primordial, este tornou-se um ser vivo (Gn 2, 7). O livro do Génesis quer dizer que esta é a intervenção de Deus na criação do Homem, a qual não aconteceu com nenhum animal.

Esta intervenção especial de Deus significa que o Espírito Santo está sempre presente no nosso íntimo, embora nunca nos substitua. Como ternura maternal de Deus, o Espírito Santo interpela, ilumina e convida no sentido de optarmos e agirmos na linha do amor. Embora não nos substitua, o Espírito Santo optimiza as nossas capacidades de agir segundo os apelos do amor. Deste modo, o Espírito Santo se torna em nós e connosco, o grande protagonista da nossa libertação ou crescimento em liberdade.

São estas as palavras de Jesus ao afirmar que ele foi consagrado pelo Espírito Santo para ser o nosso libertador. Eis as palavras de Jesus no evangelho de São Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres e a libertação aos cativos” (Lc 4, 18). São Paulo diz que Cristo nos libertou para sermos realmente livres (Ga 5, 1).

A pessoa humana não nasce livre, mas o Espírito Santo, no nosso íntimo, torna-se o grande protagonista do nosso processo de libertação, isto é, do crescimento da nossa liberdade. As condições sociais, políticas, económicas ou culturais podem facilitar ou dificultar o processo do crescimento da liberdade humana, mas não são capazes de destruir o que o ser humano já é como pessoa livre. Por outras palavras, não é pelo facto de uma pessoa estar na cadeia que deixa de ser livre. Uma pessoa nestas condições está limitada nas possibilidades de exercitar o seu livre arbítrio, mas o seu nível de liberdade realizada não fica destruído por este facto.

A Bíblia diz que Deus é Amor (1 Jo 4, 7-8). Isto quer dizer que Deus é uma dinâmica perfeita de bem-querer que tem como origem cada uma das pessoas divinas e como meta a comunhão trinitária. Se Deus é amor infinito, então Deus é Liberdade Infinita, pois, como vimos mais acima, a liberdade é a capacidade de se relacionar amorosamente com as outras pessoas e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.


b) A Liberdade e o Amor

A expressão máxima da liberdade é o amor. As escolhas pessoais na linha do amor exprimem a liberdade como capacidade adquirida, ao mesmo tempo que dinamizam o crescimento da liberdade.

Podemos dizer que a capacidade de amar de uma pessoa é o termómetro que indica o nível da sua liberdade. O grau de liberdade de uma pessoa não é evidente, mas revela-se pela qualidade das suas escolhas, opções e realizações na linha do amor. Do mesmo modo, a capacidade de amar de uma pessoa não é evidente, mas revela-se no grau de humanização das relações de uma pessoa.

O núcleo da identidade de uma pessoa é o seu jeito de amar. Podemos ter a certeza de que quanto mais rica for a capacidade de amor e comunhão de uma pessoa, mais livre essa pessoa é.

Como podemos ver, ao contrário do que muitas vezes se ouve, a nossa liberdade não é inimiga da liberdade dos outros, tal como a liberdade dos outros não é inimiga da nossa. Pelo contrário, a nossa liberdade possibilita a liberdade dos outros e a dos outros possibilita a nossa. Quando se diz que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros as pessoas estão a falar da orientação egoísta do livre arbítrio. De facto, a nossas decisões e escolhas na linha das nossas tendências egoístas terminam onde começam as opções, escolhas e decisões de tendência egoísta.

Como vimos acima, a pessoa não nasce livre, mas surge na vida com a possibilidade de se realizar como pessoa livre. Víamos também que, para ser livre, a pessoa precisa de exercitar o livre arbítrio optando no sentido do amor.

Agora queremos sublinhar um outro aspecto importante no que diz respeito à construção da pessoa como ser livre: as relações e a interacção com os outros. É verdade que os outros não podem fazer de nós pessoas livre. Mas também é verdade que não podemos realizar-nos como pessoas livres sem vivermos em relação com os outros.

Se para crescermos em liberdade precisamos de nos relacionar amorosamente com os outros, isto quer dizer que ninguém consegue ser livre se não for um facilitador da liberdade dos outros. Vamos apontar algumas atitudes mediante as quais podemos facilitar o crescimento dos irmãos em liberdade.

Uma pessoa é tanto mais facilitadora da liberdade dos outros quanto mais for capaz de viver em grupos fraternos ou comunidades de qualquer tipo. Os grupos ou comunidades humanas são os espaços privilegiados para nos realizarmos como pessoas livre e ajudar o crescimento da liberdade dos demais.

Eis algumas dessas atitudes básicas que, por serem libertadoras, são geradoras de bem-estar e felicidade:
1- Tentar compreender o outro na sua realidade mais profunda.
2- Facilitar a realização do outro, aceitando as suas diferenças; ninguém consegue realizar-se se os outros rejeitam ou anulam as suas diferenças.
3-  Cultivar a consciência de que a realização pessoal significa emergir como ser original, livre, responsável e capaz de comunhão amorosa.
4- Exercitar-se no sentido de aceitar o outro por ser o que é e não tanto por fazer o que eu gosto. À medida que facilitamos a realização dos outros, realizamo-nos a nós mesmos.
5- Exercitar-se no sentido de confiar nos outros e merecer a sua confiança.
6- Procurar estar atento ao que os outros fazem e valorizar as suas realizações.
7- Estar atentos às crises de crescimento das pessoas e do grupo de pertença, tendo consciência de que não há crescimento sem crises.
8- Cultivar atitudes e palavras de esperança.
9- Esforçar-se por comunicar numa linha de verdade e autenticidade.
10- Cultivar o sentido de pertença em relação à comunidade.
11- Tentar conhecer as qualidades dos outros e as próprias.
12- Tomar consciência de que o bem que os outros fazem, não deixa de o ser apenas porque não foi feito por mim ou por ter sido feito de um modo diferente do meu modo de agir.
13- Estar disposto a falar e a dar a palavra aos outros nos momentos de elaboração, decisão e programação dos projectos comunitários ou nos momentos de revisão.
14- Tentar compreender e aceitar a sua história pessoal, a fim de ser capaz de aceitar e compreender os outros.
15- Tentar compreender que os outros são um dom de Deus para mim. São os irmãos que Deus nos dá, a fim de construirmos família, mesmo que não assente nos laços do sangue.
16- Identificar-se com o projecto comum, uma vez que ele resulta da discussão, elaboração e participação de todos.
17- Mostrar-se aberto a novas formas de caminhar em comunidade desde que os objectivos sejam claros e elaborados por todos.
18- Compreender que o empenhamento na edificação da comunidade é um elemento constitutivo do compromisso apostólico.
19- Reconhecer que ninguém é bom em tudo. É fundamental que haja diversidade de carismas, dons e ministérios na comunidade.

Como vemos, a maneira mais adulta de amar é facilitar a emergência pessoal do outro, permitindo que este seja igual a si mesmo. O património fundamental de uma comunidade humana são as pessoas que a constituem. Um grupo será tanto mais rico em valores de humanização quanto mais livres forem as pessoas que o constituem.


c)    Liberdade e Consciência Moral

Apesar de não ser fácil, é maravilhosa a tarefa de nos realizarmos. Não nascemos feitos e somos chamados a realizar-nos como pessoas livres e responsáveis. É este o coração do agir moral: realizarmo-nos e ser mediação de realização para os nossos irmãos. Ninguém nos pode substituir, pois fazermo-nos é a nossa vocação básica enquanto pessoas, agindo de acordo com o amor.

Não podemos realizar-nos sem os demais; a nossa consciência é uma realidade dinâmica e relacional. Quando tomamos consciência de nós já estamos habitados pelos outros. De facto, mediante a acção educativa, os outros vão introduzindo em nós um leque hierarquizado de valores. Depois, é em referência a estes valores que nós vamos optando, decidindo e agindo ao longo da vida.

Finalmente, a Palavra de Deus vai fazendo germinar em nós vida teologal de Fé, Esperança e Caridade, que é a Sabedoria do Alto a germinar no nosso coração. Esta vida teologal capacita-nos para saborearmos os acontecimentos, a vida e a história, com os horizontes e os critérios da Revelação. Deste modo nos tornamos no mundo e para o mundo sal, luz e fermento pois, como crentes, somos capacitados para falar e agir segundo os critérios de Deus. quanto mais crescemos na vida teologal, mais o nosso modo de falar e agir se identificam com os critérios de Deus.

É importante distinguirmos entre liberdade e livre arbítrio: o livre arbítrio é a capacidade de optar, escolher e decidir; é a possibilidade psíquica de sermos livres. Isto significa que a liberdade humana é uma tarefa. É um resultado, não um dado pré-concedido.

A liberdade é uma tarefa de libertação; é uma das vertentes do processo de humanização. Por outras palavras, escolhendo, decidindo e optando na linha do amor crescemos como pessoas conscientes, responsáveis e livres. Deus não nos dá um dom sem que nós o possamos aceitar; de outro modo, não era dom, era imposição. Isto quer dizer que os dons de Deus nos são concedidos em forma de possibilidades ou talentos. E nós podemos realizá-los ou não. É isto que significa dizer que o livre arbítrio é a possibilidade de sermos livres.

Graças ao livre arbítrio podemos escolher a favor do amor ou contra o amor. No primeiro caso humanizamo-nos, isto é, crescemos como pessoas conscientes, responsáveis e livres. Se optamos contra o amor não crescemos como pessoas, que é o mesmo que dizer que não nos humanizamos, e por isso, não nos tornamos livres. Tornar-se livre é um processo de libertação. Por outro lado, sabemos como só o amor é libertador.

Se somos seres em construção quer dizer que somos seres responsáveis. Começamos por ser o que os outros fizeram de nós; não escolhemos nada. Fomos chamados à existência, e este chamamento é constituído por um leque de possíveis, ou talentos. Nascemos como seres vocacionados; um chamamento supõe uma resposta. Eis a raiz da nossa responsabilidade. Não viemos de nós mas dos outros, sobretudo do Outro (Deus). Temos de responder perante este chamamento. Por outras palavras, somos responsáveis perante os outros e perante Deus do que fizermos com os dons que nos foram concedidos.

Nascemos para renascer, crescer e comungar. Cada qual segundo os talentos que recebeu. Somos responsáveis por esta resposta; ninguém mais o pode fazer por nós. Tornar-se livre é uma tarefa que, por vezes, supõe remar contra a corrente. O meio ambiente exerce pressão no sentido de nos conformar e impedir a emergência da nossa originalidade. Outras vezes, o empenhamento por nos tornarmos livres é também muito incómodo. Será tanto mais incómodo quanto mais opressor for o contexto em que a pessoa nasce, cresce e se realiza. São muito numerosos os mártires da liberdade, a começar por Cristo. A pessoa só pode tornar-se livre em processo de libertação. Significa isto que uma pessoa que se começa a tornar livre começa a interagir libertadoramente com outras pessoas.

Não nascemos livres. Também ninguém é capaz de nos tornar livres. A liberdade é um processo no qual o protagonista principal é a própria pessoa; mas também é verdade que não nos podemos tornar livres sozinhos. Precisamos dos outros, pois a libertação pessoal é um processo relacional. A liberdade não se realiza sozinha. Liberdade e responsabilidade crescem de mãos dadas.

Ninguém nasce consciente; a consciência é um processo. Ninguém se torna consciente sozinho. Quando uma criança começa a habitar-se, isto é, a ter consciência, já está habitada pelos outros: pais, educadores de infância e contexto social.

São os outros que vão inscrevendo em nós o sentido dos valores e a sua hierarquização. Há deveres e há direitos. Há valores mais importantes que outros. Há certas coisas que só podem ser feitas se estiverem presentes determinados valores, e por aí adiante.

O conjunto de critérios, modos de ver e ajuizar inscritos em nós através da educação, constitui o que em psicologia se designa por superego. É uma instância psíquica que está presente no nosso agir, decidir e optar no dia-a-dia. É também a fonte da culpabilidade: uma educação demasiado severa e rigorista gera um superego demasiado forte. Por isso há pessoas que se sentem permanentemente culpadas sem haver razões para tal.

O superego acompanha-nos vamos nós para onde formos. Levamos connosco aqueles que estiveram na base da formação da nossa consciência. Isto significa que não somos ilhas; estamos todos interligados como uma rede. O superego condiciona-nos mas também nos possibilita. Não é possível uma realização pessoal sem esse superego. É certo que funciona como censura, mas também cumpre a tarefa de fonte inspiradora do nosso agir. O interior da nossa consciência, e na medida em que está sensibilizada pelos valores, é um “espaço” para o Espírito Santo chamar, interpelar e convidar a agir segundo o amor.

O superego é como que a presença daqueles que nos habitam e perante os quais somos responsáveis. A acção do superego e a do Espírito Santo no que se refere ao nosso agir moral não se confundem. O superego censura e gera sentimentos de culpa; o Espírito Santo interpela, convida, ilumina e gera sentido de pecado: podes ir mais longe no sentido do amor; tinhas possibilidades de fazer mais no sentido da fraternidade e da comunhão. Dizer não ao amor é recusar-se a emergir como pessoa e, portanto, é limitar a própria felicidade eterna. Com efeito, seremos felizes no Reino de Deus na medida em que sejamos capazes de amar e comungar. Por outro lado, esta capacidade adquire-se agora, na história concreta de cada um. O jeito com o qual partilharemos eternamente na festa do amor e da comunhão adquirimo-lo agora aqui.

A base da consciência humana é o sector inteligente do nosso cérebro. O mesmo sector cerebral é a matriz da inteligência e da vontade. Por outro lado, este sector do nosso cérebro não está separado dos outros sectores: base da vida afectiva e impulsiva. Também não está separado do sector cerebral em que está escrita a multidão das vivências positivas e negativas da nossa história pessoal e que tanta influência têm na nossa vida. É este sector inteligente do cérebro que nos capacita para tomarmos conta de nós. Graças a ele existe em nós o livre arbítrio, o qual nos capacita para orientarmos os nossos sentimentos, afectos, impulsos e emoções, impedindo-nos de cair na lei da selva: o mais forte mata e destrói consoante os seus apetites e agressividade.

Os actos humanos são morais na medida em que estão em conformidade com o amor. é este o Mandamento Novo que resume todos os outros mandamentos. Amar, como sabemos, não é uma questão de sentimentos ou emoções; implica sair de si para ir ao encontro do outro. Amar significa muitas vezes morrer ao próprio egoísmo para que o outro possa viver. Deste modo ultrapassamos o agir meramente natural, atingindo o nível moral. Só agindo ao nível moral podemos humanizar-nos e ser mediação de humanização para os outros.

Não há duas consciências rigorosamente iguais. A razão disto é que não há duas pessoas com histórias rigorosamente iguais. Já vimos que a formação da consciência começa por ser obra do processo educativo; ao tomarmos consciência de nós já estamos habitados pelos outros. Naturalmente que este processo educativo dependeu de muitas relações interpessoais. Estruturamo-nos dentro de um feixe enorme de relações.

Os valores são-nos incutidos como ideais, metas e razões para o nosso agir se processar de um modo e não de outro. Tudo isto faz com que haja consciências melhor ou pior formadas. Se o processo educativo foi demasiado punitivo e determinante pode gerar consciências distorcidas e incapazes de se corrigir. Apesar de tudo, a consciência é o último recurso para o agir. Por isso temos de respeitar a consciência das pessoas, mesmo que esta esteja errada ou mal formada.

O Novo Testamento insiste muito neste ponto ao proibir os crentes de julgar os irmãos. De facto, não temos nas mãos a história de uma pessoa para podermos ajuizar dos traumas, condicionamentos ou possibilidades que a história lhe proporcionou. Mesmo quando vemos uma pessoa a fazer o mal não sabemos se ela está a ser má ou vítima do mal.

A nível cristão temos um dom precioso que contribui para a formação da nossa consciência: a Palavra de Deus. O Homem, só por si, nunca poderia saber o que Deus é. Fomos criados para Deus. Este facto gera no mais profundo de nós a nostalgia do divino. As religiões não são mais que tentativas humanas para uma descoberta do transcendente. As doutrinas das religiões são produto da razão. Por isso sofrem necessariamente de ambiguidades. Houve até religiões cujas doutrinas tinham elementos maus: sacrifício de seres humanos, imagens ou conceitos de um deus tirano e outros.

Quando o Homem se põe a imaginar Deus só O pode pensar à sua imagem e semelhança. Ora, Deus não é a imagem do Homem; o contrário é que é verdade. Na Sua infinita bondade, Deus, dando-Se conta da incapacidade de ser conhecido pela razão, resolveu revelar - -Se Através da Revelação diz-nos quem é, qual o Seu plano a nosso respeito, como podemos viver de modo adequado a atingirmos a nossa plenitude e salvação.

A Palavra de Deus é sempre pronunciada no nosso coração pelo Espírito Santo, responsável pela actualização da Revelação em cada um de nós. Mas o Espírito precisa de mediações: Escritura, comunidade cristã, magistério da Igreja, catequistas, sinais dos tempos em que vivemos, e outras. À medida em que o Espírito vai dizendo em nós a Palavra através destas mediações, vai desabrochando em nós a vida teologal de Fé, Esperança e Caridade.

A vida teologal é a Sabedoria do alto a comunicar-se-nos. Graças a esta sabedoria a nossa consciência vai-se configurando com os conteúdos da Revelação. Como consequência desta transformação, o crente tende gradual e progressivamente a agir segundo os critérios do próprio Deus.

A Igreja é o Povo de Deus, isto é, a parcela da Humanidade que no mundo é sal, luz e fermento. Os cristãos não são um conjunto de super-homens no mundo; mas são portadores de uma Boa Nova que o mundo não tem. Por outro lado, são chamados viver e ensinar aos homens a proposta salvadora de Deus. A caridade não é mais que o amor humano optimizado graças aos horizontes que lhe confere a Revelação. É isto que podemos chamar de consciência cristã ou teologal. É isto que nos capacita para sermos no mundo o tal sal que confere sabor, isto é, capacidade de saborear as coisas, a vida e a história com os critérios de Deus.


Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias