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O Homem a quem chamavam Louco




Senhor Deus,
A vossa Palavra gera sonhos de paz e justiça nos corações dos profetas,
mas a maioria dos homens rejeitam-na como diz o evangelho de São João:
“A Palavra era a luz verdadeira que ao vir ao mundo ilumina os homens.
A Palavra estava no mundo, mas o mundo não a reconheceu.
Veio para o que era seu e os seus não a receberam.
Mas aos que a receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 9-12).

Tal como aconteceu antigamente, a tua Palavra continua hoje a ser rejeitada
e os profetas continuam a ser rejeitados como o Louco desta parábola:


Era conhecido como o louco de Vila Grande. Em geral, as pessoas referiam-se a ele em tom de quem faz troça. Se uma pessoa começasse a falar mais a sério sobre problemas sociais ou sobre os valores, aqueles que não gostavam de aprofundar o sentido da vida diziam: “Pareces o Louco da Vila Grande!”

Certo dia, ao passar na praça principal, deparei com este homem e depressa me dei conta de que este homem era um apaixonado pelas grandes causas que dizem respeito à vida e à dignidade humana. Em geral, estas causas costumam apaixonar os profetas e os seres humanos que tomam Deus e o Homem a sério. Em geral, os que enriquecem explorando e oprimindo os mais pobres e fracos detestam reflectir sobre questões deste teor.

Por seu lado, a gente mais simples e menos preparada não tinha uma consciência formada sobre estas questões e por isso não valorizava as tomadas de posição deste homem. Eis a razão pela qual eram tão poucas as pessoas que paravam para ouvir o Louco da Vila Grande.

Parei um pouco para escutar as palavras. O seu aspecto não era vulgar, mas não me pareceu de modo algum um louco. Eis algumas das palavras que fixei do diálogo deste homem com um pequeno grupo de pessoas que se tinham juntado à volta do Louco da Vila Grande:

«Os seres humanos, por serem livres, têm a possibilidade de criar um mundo melhor. A liberdade é a capacidade de se relacionar fraternalmente com os outros e de interagir de modo criativo com os acontecimentos e as coisas. Ao criar-nos à sua imagem e semelhança, Deus deu-nos a capacidade de amar e criar sociedades justas e fraternas.

É preciso sonhar e programar um novo tipo de sociedades onde o critério não seja apenas o lucro ou o domínio de uns homens sobre os outros. As sociedades opressivas impedem a emergência de homens livres, capazes de criar um novo jeito de pessoas, capazes de conviver em paz e comunhão fraterna. As sociedades onde domina a opressão e a injustiça, ao gerar homens oprimidos estão a impedir que o processo de humanização avance.

A lei da humanização é: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal. A emergência pessoal acontece como crescimento de pessoas capazes de se exprimirem de modo livre, consciente, responsável e de se relacionar com os outros em dinâmica de amor.

As pessoas que oprimem os outros nunca serão pessoas livres, pois a liberdade é a capacidade de se relacionar amorosamente. Como fomos criados à imagem e semelhança de Deus, estamos talhados para construir sociedades onde o convívio e as relações assentam sobre a dinâmica do amor.

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão fraterna. Amar é eleger o outro como alvo de bem-querer, aceitando-o tal como é, apesar de ser diferente de nós, e agir de modo a facilitar a sua realização e felicidade. Deus deu-nos a capacidade de fazermos opções, escolhas e programas em que o princípio básico seja tornar possível a realização de todas pessoas.

A cidade regida pelos princípios do amor, dizia o Louco da Vila Grande, merece receber o nome de Cidade Nova. A edificação desta cidade, dizia ele, é obra de todos, pois só é fraterna a cidade onde todos tomam parte naquilo que a todos diz respeito. Todas pessoas, portanto, são válidas para colaborar na tarefa da realização da Cidade Nova. Cada qual, porém, colabora com as capacidades que tem. Eis a razão pela qual, na Cidade Nova, as pessoas sentem-se felizes, pois ninguém é obrigado a fazer aquilo para o qual não tem vocação ou aptidões.

Na Cidade Nova ninguém pensa em criar necessidades artificiais, a fim de levar as pessoas a comprar o que não necessitam. Por outras palavras, na Cidade Nova ninguém explora os outros, nem engana as pessoas só para amontoar dinheiro. As pessoas da Cidade Nova são educadas segundo o princípio da partilha e da ajuda mútua.

Os habitantes da Cidade Nova sabem que a partilha é o único princípio capaz de gerar abundância. Nunca ninguém ficou mais pobre por partilhar com os outros. Os evangelhos ensinam este princípio com os relatos das multiplicações dos pães e dos peixes, as quais resultaram do facto de as pessoas se porem a partilhar. Na Cidade Nova todos fazem render o melhor dos seus talentos e capacidades.

As pessoas vivem felizes e tranquilas, pois sentem que as suas necessidades estão satisfeitas e têm tempo para se alegrarem em convívios fraternos. A pessoa humana e os seus direitos fundamentais são o valor que os habitantes da Cidade Nova aprender a respeitar desde os primeiros anos da sua existência. Eis a razão pela qual ninguém vive com medo ou ansiedade, pois ninguém procura o mal ou o prejuízo do seu irmão.

Na Cidade Nova, as pessoas não sabem o que é não encontrar sentidos para viver, pois todas se sentem amadas chamadas a amar. O amor é considerado uma razão que vale tanto para viver como para morrer. Na verdade, quando uma pessoa morre para salvar outra, ninguém vê nisso uma falta de sentido. Jesus disse que o amor atinge a sua realização máxima quando uma pessoa dá a vida pelos outros. Eis as suas palavras: “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que a pessoa que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 12-13).

Nas cidades velhas, as pessoas definham por falta de sentidos para viver. Na verdade, a vida sem sentidos é uma das principais causas de perturbações psíquicas e doenças mentais graves. É por esta razão que nas cidades velhas há tantas pessoas doentes e sem gosto de viver.

Na Cidade Nova todas as pessoas se sentem aceites pelos talentos que têm, sejam muitos ou sejam poucos. Eis a razão pela qual todos crescem, pois o homem faz-se, fazendo. Por outras palavras, na Cidade Nova as pessoas não se sentem marginalizadas ou bloqueadas nas possibilidades de se realizarem tal como são. Nesta cidade as pessoas sabem que cada ser humano é único, original e irrepetível.

É admirável ver como os habitantes da Cidade Nova são pessoas humildes. A humildade é a capacidade de se relacionar com os outros numa linha de verdade e de se situar no convívio do dia a dia de modo correcto e adequado. Desde pequeninos que os habitantes da Cidade Nova aprendem a escutar e compreender os outros. As crianças são estimuladas a dizerem o que sentem, sem medos nem angústias.

Não há pessoa com carências na Cidade Nova. Também não acontece a desumanização devido ao excesso de riquezas. As aspirações mais profundas das pessoas concretizam-se em projectos de vida e instituições de encontro, convívio e diálogo fraterno. As famílias são a calda fundamental para acontecer a humanização das pessoas. Nesta cidade, todas as pessoas encontram possibilidades de realização pessoal, condição essencial para serem felizes.

Os habitantes Cidade Nova são capazes de partilhar de modo espontâneo. Todos gostam de dar o melhor de si e receber o melhor dos outros. Por isso não há pessoas machucadas. Aprender, não é tarefa aborrecida, pois é sobretudo um empenhamento criativo. Por isso se observa nas pessoas uma série enorme de atitudes e comportamentos que exprimem criatividade, partilha, diálogo e apreço pelos demais.

Devido aos princípios de fraternidade que modelam a consciência social da Cidade Nova, a saúde para todos é um direito plenamente adquirido. Nesta cidade não existem cobardes nem heróis. Não há tarefas nobres e tarefas humildes e desconsideradas. A corrupção é uma prática desconhecida, pois não é preciso mentir ou defraudar para ter o necessário. As relações entre as pessoas assentam sobre a lealdade e o bem-querer. Dar as mãos, na Cidade Nova, é um gesto espontâneo e cheio de verdade, pois é o sinal da amizade que alimenta os corações dos habitantes daquela cidade.»

Depois de ouvir as palavras deste homem, comecei a observar as reacções das pessoas que passavam. Em geral via-se um total desinteresse, pois ninguém estava para perder tempo a escutar as palavras de um louco. Havia pessoas que ao passar, olhavam sorrindo-se como quem faz troça.

Eram poucas as pessoas que admiravam a paixão que dominava o coração do Louco da Vila Grande. Os ricos e os que detinham o poder detestavam as palavras daquele louco. Ao acabar de falar, o Louco disse ainda: «Esta noite sonhei que este é o plano de Deus para toda a Humanidade!»

Depois, desapareceu, caminhando por entre as árvores e arbustos dos jardins da Vila Grande. Retirei-me pensativo e compreendi que os homens chamam loucura à Sabedoria que os podia libertar e ajudar a ser felizes. Passados uns momento dei comigo a pensar que a loucura, afinal, está no coração e na cabeça dos que edificam as cidades velhas.

Nestas cidades há os que oprimem e machucam, bem como os que são oprimidos e machucados. As cidades velhas mutilam e distorcem os homens que Deus criou à sua imagem e semelhança. Pouco tempo depois ouviu-se dizer que o Louco da Vila grande aparecera morto junto aos esgotos da povoação.


Espírito Santo,
Enche os corações dos profetas de força e luz,
a fim de a Palavra de Deus continuar a denunciar as forças do mal
e a anunciar os vossos planos de paz e amor.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

Bíblia e Contemplação da Face de Deus



I-A FACE DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO

O rosto de Deus, na bíblia, significa o seu ser e a sua identidade. Quando a bíblia diz que um patriarca ou um profeta procura o rosto de Deus quer dizer que desejava entrar na intimidade de Deus. Por outro lado, há muitas passagens do Antigo Testamento que falam da impossibilidade de ver a face de Deus.

O livro do Génesis fala de uma experiência do patriarca Jacob, dizendo que durante uma noite inteira ele teve de lutar com um personagem desconhecido. De manhã, diz o texto, Jacob apercebeu-se que se tratava de Deus, pelo que ficou muito assustado e também admirado, pois apesar de ter visto a face de Deus não morreu (Gn 32, 30).

Este relato pretende afirmar que o Jacob teve acesso ao mistério da intimidade de Deus, privilégio que não era concedido aos mortais. Na visão antiga, pensava-se que a transcendência e a santidade de Deus são realidades tão sublimes e distantes que a sua proximidade pode representar uma ameaça para o ser humano que é pobre e pecador.

É expressivo o relato do Livro do Êxodo no qual aparece Moisés pedindo a Deus que lhe mostre o seu rosto. Deus respondeu-lhe dizendo que o ser humano não pode ver o rosto de Deus e continuar a viver. “Não podes ver o meu rosto, disse Deus, pois o homem não me pode ver e continuar a viver” (Ex 33, 20).

Na verdade, o autor quer dizer apenas que Deus e Moisés não são iguais. Deus é santidade e perfeição infinitas, ao passo que o ser humano é imperfeito e pecador. Quando a Bíblia diz que o ser humano não pode ver o rosto de Deus, quer dizer que a pessoa humana não tem capacidade para captar Deus de modo perfeito.

A prova de que estes textos não devem ser tomados à letra, é que o autor, no capítulo vinte e quatro do mesmo Livro do Êxodo, afirma que Moisés viu a face de Deus e não morreu (Ex 24, 10-11). Nesta mesma linha, o Livro do Deuteronómio diz que Moisés foi especial entre os profetas, pois Deus comunicou face a face com ele (Dt 34, 10).

Estes textos pretendem apenas afirmar a grande intimidade que existia na relação de Deus com Moisés. A aparente contradição destes textos não é mais que uma tentativa de afirmar por um lado a total transcendência de Deus e, por outro, a sua presença junto do Homem.

Por vezes a bíblia diz que Deus esconde o seu rosto quando está magoado com os pecados do povo. Estas afirmações querem dizer que a relação de Deus com o Homem está ofuscada. De facto, a palavra hebraica “Paniym” significa rosto e presença. Esconder o rosto é ocultar a presença e a intimidade.

No Livro do Êxodo, Moisés é apresentado como o grande revelador do rosto de Deus, pois ele é o medianeiro privilegiado que actua entre Deus e o Povo Hebreu. A maneira de Moisés revelar o rosto de Deus ao povo consistia em ir encontro de Deus e depois voltar para junto do povo comunicando-lhe a vontade e o sentir de Deus. Isto significa que o portador da mensagem de Deus é uma pessoa que fala de Deus como de alguém com quem acabou de se encontrar.

Eis alguns textos significativos sobre o papel do medianeiro de Deus:  “E Moisés subiu até Deus (Ex 19, 3). Então Moisés desceu de junto de Deus e falou aos anciãos do Povo (Ex 19, 7). Moisés levou as palavras do Povo até junto de Deus (Ex 19, 8). Então Moisés desceu da montanha até à planície onde se encontrava o Povo (Ex 19, 14).

O Senhor chamou Moisés do alto da montanha e Moisés subiu até ao topo da montanha onde conversou com Deus (Ex 19, 20). Depois, Moisés desceu até junto do Povo e disse (Ex 19, 25). Depois, Moisés subiu para receber as tábuas da Lei.  O Povo, aterrorizado, mantinha-se à distância e não quis aproximar-se da nuvem densa a partir da qual Deus comunicava com Moisés (Ex 20, 18-21).

O Povo mantinha-se à distância, enquanto Moisés se aproximou da densidade da nuvem na qual Deus estava presente (Ex 20, 21). Moisés desceu até junto do Povo e relatou as palavras do Senhor e os seus preceitos (Ex 24, 3).

De novo Moisés subiu à montanha cujo pico ficou coberto pela nuvem (Ex 24, 15). Então, Moisés recebeu as tábuas da Lei, as quais foram escritas pelo próprio dedo de Deus (Ex 31, 18). Moisés desceu da montanha, trazendo as Tábuas da Lei, as quais estavam escritas dos dois lados (Ex 32, 15).

Em seguida, Moisés voltou até junto de Deus (Ex 32, 31). Deus disse a Moisés: “Agora vai e conduz o Povo até onde eu te disse” (Ex32, 34). Moisés desceu da montanha, mas não sabia que o seu rosto brilhava em virtude de ter falado com Deus (Ex 34, 29). Este texto significa que o portador da Palavra de Deus leva em si as marcas da mesma Palavra. 


II-A FACE DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO

Para Jesus Cristo o face a face com Deus acontece no interior da pessoa. Era isto que São Paulo queria dizer quando afirmou que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Na primeira Carta aos Coríntios ele reforça mais esta ideia dizendo que o Espírito Santo habita nos nossos corações como num templo (1 Cor 3, 16). É no íntimo do nosso coração que o Espírito Santo nos põe face a face com Deus Pai que nos acolhe como filhos e com o Filho de Deus que nos acolhe como irmãos (Rm 8, 14-17).

No evangelho de São Mateus, Jesus diz aos discípulos que eles têm o privilégio de aceder aos mistérios do Reino: “A vós foi-vos dado conhecer o mistério do Reino dos Céus, mas aos de fora não” (Mt 13, 11). E São Lucas acrescenta: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Na verdade, muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!” (Lc 10, 23-24).

Na verdade, Jesus Cristo é uma expressão privilegiada do rosto de Deus na História. Antes de revelar a face de Deus aos homens, Jesus Cristo comunicou face a face com o próprio Deus: Eis um relato muito bonito de São Lucas: “No momento de ser baptizado, Jesus entrou em oração. Então, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre ele, tendo a forma corporal de uma pomba. Nesse momento, ouviu-se uma voz vinda do Céu que disse: “Tu és o meu filho bem-amado. Hoje mesmo te gerei” (Lc 3, 21-22).

Antes de iniciar a sua missão, Jesus foi consagrado pelo Espírito santo e o Pai declara que ele é o Messias, o filho de Deus. Tal como aconteceu com Moisés, Jesus procurava as colinas e os lugares silenciosos para entrar em comunhão com a intimidade de Deus. O ruído e a dispersão não são boas mediações para nos encontrarmos face a face com Deus: “Tomando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu à montanha para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto alterou-se e as suas vestes tornam-se brilhantes” (Lc 9, 28-29).

Não é difícil descobrir a associação destes relatos com os relatos do Antigo Testamento que nos falam dos encontros de Moisés com Deus: “De madrugada, estando ainda escuro, Jesus levantou-se e retirou-se para um lugar deserto, a fim de orar (Mc 1, 35). São Mateus diz mais ou menos a mesma coisa: “Tendo despedido as multidões, Jesus subiu ao monte para orar a sós” (Mt 14, 23).

Olhando para os ensinamentos de Jesus, vemos como Moisés e os profetas ficaram muito aquém de Jesus no que se refere à profundidade do conhecimento e da experiência de Deus. Basta olhar para a profundidade deste texto do evangelho de São João para compreendermos o salto de qualidade que a revelação deu com Jesus Cristo:

“Jesus disse a Filipe: “Há tanto tempo que estou convosco e não ficaste a conhecer-me, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que ainda me pedes para te mostrar o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14, 9-10). Numa outra passagem Jesus fez a seguinte afirmação: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Quando a bíblia diz que Deus nos mostra o seu rosto, não está a falar de um acontecimento exterior. Deus revela-se ao Homem a partir de dentro, pois ele é a interioridade máxima da realidade. Por outras palavras, quando Deus vem ao nosso encontro nunca vem a partir de fora.

A Primeira Carta aos Coríntios diz que o nosso coração é um templo onde o Espírito de Deus habita (1 Cor 3, 16). No evangelho de São João, Jesus diz aos discípulos que a revelação acontece no coração da pessoa humana porque Deus faz uma união orgânica connosco: “Nesse dia, disse Jesus, compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).

Por ser homem como nós, Jesus é um medianeiro privilegiado entre Deus o Homem como afirma a primeira Carta a Timóteo (1 Tim 2, 5). O medianeiro tem a missão de revelar o rosto de Deus: “Jesus respondeu: eu sou o Caminho a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai senão por mim. Se me conheceis, conhecereis também o Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo” (Jo 14, 6-7).

As palavras e atitudes de Jesus são uma revelação fiel do rosto de Deus. Por outras palavras a fidelidade incondicional de Jesus à vontade de Deus é o meio mais perfeito de ele nos revelar o rosto do Pai. À imitação de Jesus, também nós, os cristãos, estamos chamados a ser no mundo uma revelação do rosto de Deus. É isto que São Paulo quer afirmar quando diz que as comunidades cristãs são o corpo de Cristo (1 Cor, 10, 17; 12, 27). Quando acolhemos a Palavra de Deus no nosso coração, o Espírito Santo consagra-nos para anunciarmos essa Palavra ao mundo.

Enquanto orava, Jesus fazia a experiência do face a face com Deus no mais íntimo do seu coração. Por isso ele era uma mediação privilegiada para revelar o rosto de Deus ao mundo. Quando Jesus falava do seu Pai, as pessoas tinham um pouco a sensação de que ele tinha acabado de se encontrar com o seu Pai do Céu.

No evangelho de São Mateus, Jesus insiste na importância da missão dos cristãos para que o rosto de Deus seja revelado aos homens: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens” (Mt 5, 13). Depois acrescentou: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre o monte, nem se acende a candeia para a colocar debaixo da mesa, mas sim em cima, a fim de iluminar todas as pessoas” (Mt 5, 14-16).

Como continuadores da missão de Jesus Cristo, os cristãos estão chamados a ser reveladores do rosto de Deus no mundo.


Em comunhão Convosco
Calmeiro Matias

Cristo e a Emergência do Homem Novo




I - ASSUMIDOS COM CRISTO EM DEUS


Ao iniciar a marcha da Criação, Deus já tinha em mente o nível espiritual da vida humana, cuja plenitude se encontra em Deus. Pelo mistério da Encarnação foi-nos dado o poder de nos tornarmos filhos de Deus através de um novo nascimento. É por esta razão que Jesus disse que devemos nascer de novo pelo Espírito Santo (Jo 3, 6).

Eis o que diz o evangelho de São João: “A todos os que o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo encarnou e veio habitar entre nós” (Jo 1, 12-14).

Os seres humanos nascem inacabados, a fim de terem a possibilidade de completar a obra criadora de Deus. Esta era uma condição essencial para a pessoa humana se estruturar como pessoa livre, consciente, responsável e capaz de comunhão amorosa. Emergir como pessoa significa crescer em densidade espiritual e capacidade de amar.

O ser humano nasce hominizado, isto é, com uma estrutura própria de homem, mas não nasce humanizado, pois a humanização é uma tarefa que a pessoa tem de realizar em contexto de relações e comunhão fraterna.

Depois de o barro estar amassado, diz o Livro do Génesis, Deus beijou-o e introduziu nele o hálito da vida, a fim de este iniciar a aventura da humanização (cf. Gn 2, 7). Através da Encarnação Deus deu ao Homem um outro beijo, do qual derivou a divinização do Homem.

No início da grande epopeia da humanização, Deus Pai deu-nos o primeiro beijo, capacitando-nos para podermos emergir como pessoas mediante relações de amor. O segundo beijo é-nos dado pelo Filho de Deus no momento da Encarnação, criando as condições para sermos divinizados e assumidos na Comunhão da Santíssima Trindade.

Por outras palavras, através da Encarnação, os seres humanos foram incorporados de modo orgânico na comunidade familiar de Deus. Eis o que diz o evangelho de São João: “Jesus respondeu a Tomé: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6).

Graças à união orgânica que existe entre nós e Jesus, nós somos incorporados por ele na Família da Deus. Jesus disse que a união orgânica que existe entre nós e ele é semelhante à união da cepa da videira com os seus ramos. Nós somos os ramos da videira cuja cepa é Jesus Cristo. E Jesus acrescenta que nós só podemos ser ramos vivos e fecundos se permanecermos unidos à cepa da qual nos vem a seiva (cf. Jo 15, 4-5).

Segundo o evangelho de São João, falar da seiva da videira que vem da cepa para os ramos ou da Água Viva que vem de Cristo como fonte de Vida Eterna é falar do Espírito Santo (cf. Jo 4, 14; 7, 37-39). O Espírito Santo é a bebida da Nova Aliança que Jesus e os discípulos beberão no Reino de Deus (Mt 26, 29 cf. Mc 14, 25; Lc 22, 17-18). Ele é o hálito da vida que Deus comunicou ao barro primordial do qual saiu Adão (Gn 2, 7).

Ele é igualmente o beijo da Encarnação através do qual fomos introduzidos na plenitude dos tempos. Com a ressurreição de Cristo, o tempo da gestação chegou à plenitude, dando início ao parto do qual vão nascer os novos filhos de Deus, como diz a diz a Carta aos Gálatas: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (…), a fim de recebermos a adopção de filhos. E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito Santo de seu filho que, no nosso íntimo clama: Abba, ó Pai” (Ga 4, 4-6).

O plano salvador de Deus assenta, pois, sobre estes dois beijos de Deus: o beijo dos primórdios e o beijo da plenitude. A Comunhão Universal para a qual convergem os seres humanos é a festa do Reino de Deus.

Eis as palavras de São Paulo: “Na verdade, todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão que vos encha de medo. Pelo contrário, recebestes um Espírito de adopção que faz de vós filhos adoptivos. É por este Espírito que clamamos “Abba” ó Pai. O próprio Espírito Santo dá testemunho no nosso íntimo de que realmente somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos também somos herdeiros: herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14-16).

Graças à presença dinâmica do Espírito Santo em nós, Deus torna-se realmente o Emanuel, isto é, o Deus connosco, como diz o evangelho de São Mateus: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho a quem chamarão Emanuel, isto é, Deus connosco” (Mt 1, 23).

Pelo primeiro beijo, o Espírito Santo Deus vai-nos moldando à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27). Pelo segundo, vai-nos incorporando na Família Divina (Jo 1, 12-14). Pelo primeiro beijo, o Espírito Santo facilita a nossa caminhada no processo da humanização. O Espírito Santo é o Espírito de Cristo ressuscitado. Assim como ressuscitou Jesus também nos vai ressuscitando com ele.

O sacramento da Eucaristia exprime esta união orgânica com Cristo que faz de nós uma unidade com o Filho Eterno de Deus e, através dele, um com o Pai: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

São Paulo diz que o Filho de Deus, ao encarnar, se tornou o primogénito de muitos irmãos (Rm 8, 29). Depois acrescenta que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5,5). Na Primeira Carta aos Coríntios, ele diz que o nosso coração é um templo no qual habita o Espírito Santo: “Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 16).

E ainda: “Nós é que somos o templo do Deus vivo. Eis o que diz o Espírito de Deus: Habitarei e caminharei no meio deles, serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6, 16). Diz ainda: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que recebestes de Deus e que está em vós? “ (1 Cor 6, 19).

A presença do Espírito Santo em nós é uma força santificadora, diz São Paulo: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá, pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1 Cor 3, 16-17).

Eis como o Livro do Apocalipse descreve a comunhão definitiva do Homem com Deus na plenitude do Reino: “E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: “Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com os homens e eles serão o seu povo. Deus estará com eles e será o seu Deus, enxugando todas as lágrimas dos seus olhos, pois já não haverá mais morte nem pranto nem dor”. (Apc 21, 3-4).


II – O CORAÇÃO HUMILDE DO HOMEM NOVO

É bom saborear a arte e as atitudes que modelam o coração do Homem Novo
cujo alicerce é Jesus Cristo. Eis algumas dessas atitudes fundamentais:

O coração do Homem Novo torna-se acolhedor e fraterno.
É tolerante e por isso não está sempre a culpar os outros das suas insatisfações e fracassos.
Sabe aceitar as próprias limitações e procura realizar-se com os talentos que tem.

Por ser humilde, o Homem Novo, é verdadeiro em relação a si e aos outros.
Parte do princípio que uma pessoa, para se realizar, precisa dos outros.
Compreende o mistério da pessoa cuja plenitude não está em si,
mas na reciprocidade da comunhão.

A pessoa que não aprende a escutar o irmão e a aceitá-lo como ele é
nunca será capaz de moldar um coração de Homem Novo.

As pessoas demasiado enredadas no seu egoísmo
apenas conseguem escutar-se a si próprias
e, portanto, nunca conseguirão sintonizar e comungar com os outros.

A pessoa humilde reconhece os seus erros e sabe
que só o amor é capaz de curar as feridas do pecado.

O Homem Novo não está sempre a julgar os outros.
Na verdade, as pessoas que estão sempre a olhar os defeitos dos outros,
normalmente estão a projectar os seus defeitos nos irmãos.

Jesus disse que do coração humano tanto podem emergir projectos de amor
como decisões e projectos de morte:

“O que sai da boca provém do coração e isso pode tornar o homem impuro.
Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições,
os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias.
Tudo isto torna o homem impuro” (Mt 15, 19-20).

Visto sob este prisma, o coração corresponde ao nosso conceito de livre arbítrio,
isto é, a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal.

O Homem Novo relaciona-se com os irmãos de modo amável e sereno
vivendo já a bem-aventurança prometida por Jesus aos mansos:
“Felizes os mansos porque possuirão a Terra” (Mt 5,5).

Ao declarar os mansos como possuidores da Terra,
Jesus queria dizer que os mansos são possuidores de paz e serenidade em todo o lado.
Na verdade, a amabilidade desmonta a violência e a agressividade
com que os outros pretendem, por vezes, agredir-nos.

O Homem Novo tem a gentileza de dar a primazia a uma atitude
que ajuda a moldar um coração atento e fraterno.
Saber reconhecer os momentos oportunos para falar
e as melhores ocasiões para escutar é sinal de sabedoria.

É um excelente sinal de amor e humildade
saber evitar argumentos inúteis que só servem para exaltar os ânimos.
A capacidade de reconhecer quando o outro tem razão é um excelente sinal de humildade.

O Homem Novo sabe que ao romper com o amor está a romper com Deus,
pois Deus é Amor.
O Homem Novo faz do amor a Deus o rochedo sólido para edificar a sua casa,
sabendo, no entanto, que o amor a Deus passa sempre pelo amor aos irmãos.

O Homem Novo cultiva a arte de facilitar a realização dos outros,
sabendo que o importante é aceitá-los por eles serem o que são
e não por fazerem o que ele gostaria que fizessem.

Nos seus diálogos, o Homem Novo tenta comunicar
sempre numa linha de verdade e autenticidade.

No trato com os irmãos, o Homem Novo não está sempre a olhar
só para os seus interesses pessoais,
mas é capaz de ajudar os outros com o seu ter e o seu saber.

O Homem Novo reconhece que os outros são um dom de Deus,
pois são mediações para se realizar e ser feliz. Na verdade, ninguém é feliz sozinho!

O Homem Novo sabe que sabe que só poderá fazer da Família de Deus com os outros.
Na verdade ninguém se salva sozinho.

O Homem Novo tem uma grande capacidade de sintonizar com os outros,
pois sabe que não é bom em tudo e por isso presta grande atenção ao que eles dizem e fazem.

O Homem Novo mostra-se agradecido quando se apercebe
que os outros estão a ser atentos e respeitadores da sua diferença e originalidade.

As pessoas que tentam controlar e manipular os outros
nunca conseguirão ter um coração de Homem Novo,
pois estão a impedir que o outro possa emergir como pessoa livre, consciente e responsável.

Amar os outros, apesar dos seus defeitos, é amá-los ao jeito de Deus.
O Homem Novo é leal e verdadeiro, por isso se alegra
com os sucessos dos outros como se fossem seus.

Por ser humilde, o Homem Novo não alimenta ressentimentos ou planos de vingança.
O homem Novo não é um dominador nem um possessivo,
pois sabe edificar sobre a gratuidade.

As pessoas que dão coisas para amarrar os outros nem são felizes
nem são capazes de ajudar os outros a emergir como pessoas livres, criativas e felizes.

O Homem Novo entende muito bem as palavras de Jesus
que pede aos discípulos para o imitarem, tornando-se mansos e humildes de coração.


Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias



Saboreando o Sentido da Páscoa


Era uma noite escura, embora serena e calma. No dia anterior, Deus tinha dito a Moisés que queria libertar o seu povo, pois este estava a sofrer o tormento de uma escravidão humilhante. O povo de Moisés também se chamava o povo de Deus. Era constituído pelos filhos de Abraão, um homem honesto e muito amigo de Deus.

Deus tinha escolhido Abraão para fazer com ele uma aliança de amizade, dando-lhe a garantia de que ia fazer com os seus descendentes um povo escolhido através do qual ia fazer bem a toda a Humanidade (Gn 12, 3). Quando Deus apareceu a Moisés, os filhos de Abraão estavam a sofrer os tormentos humilhantes da escravidão no Egipto. As pessoas eram reduzidas à condição de animais mal alimentados e espancados para trabalhar mais.

Perante esta humilhação, Deus lembrou-se da promessa que tinha feito a Abraão: “Com os teus descendentes farei um grande povo. Abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem e tu serás uma fonte de bênçãos. Todas as famílias da terra serão abençoadas graças aos filhos que te vou dar (Gn 12, 2-3). Quando Deus disse isto a Abraão já estava a pensar em Jesus Cristo, o descendente de Abraão através do qual foram abençoadas as famílias da terra.

O Povo de Deus era constituído por pessoas de muita fé e por isso ficou conhecido como o Povo de Deus ou Povo Hebreu. Ao ver os sofrimentos do seu povo, Deus lembrou-se da aliança que tinha feito com Abraão. Foi por esta razão que Deus chamou Moisés, homem cheio de fé e da força do Espírito Santo para libertar o povo da escravidão do Egipto.

Moisés começou a preparar as pessoas, dizendo-lhes que Deus tem um plano de libertação para os filhos de Abraão que ele ama como seus filhos. Moisés queria fortalecer a fé das pessoas, pois ele sabia muito bem que a fé é uma força capaz de fazer grandes heróis. Eis as suas palavras: “Cobrai ânimo, pois esta noite o Deus do nosso pai Abraão vai chegar para nos libertar. Esta será a noite do grande castigo para os egípcios, pois eles têm oprimido de forma cruel os filhos de Abraão que são também filhos de Deus. Lembrai-vos, dizia Moisés, que o Senhor jurou ao nosso pai Abraão que viria sempre em nossa ajuda, a fim de nos libertar das mãos dos nossos inimigos. Na véspera Deus tinha aparecido a Moisés para lhe explicar a noite do dia seguinte ficaria a chamar-se a noite da Páscoa, isto é, a noite da passagem do Deus forte que toma partido pelos fracos e oprimidos. Depois, Moisés acrescentou: “Deus comunicou-me que não podia ouvir mais os gemidos do seu povo. Por isso escolheu esta noite para ser a noite da Páscoa, pois ia passar para libertar o seu povo querido.

Logo ao escurecer, acrescentou Moisés, ides fazer o seguinte: entrai nas vossas casas e preparai as coisas para partir. Os egípcios nem suspeitam o que está para lhes acontecer, pois o Senhor vai chegar como juiz castigador, pois ele não suporta o sofrimento das pessoas humilhadas e maltratadas pelos soberbos e orgulhosos”. Pouco antes de começar a marcha libertadora Deus disse a Moisés: “Nesta noite a peste vai entrar nas casas dos egípcios, matando os seus filhos primogénitos”.

Conhecedor destas coisas, Moisés começou a preparar os hebreus para a grande intervenção de Deus. Esta noite, dizia ele, o Senhor Deus vai passar pelas casas dos egípcios, a fim de os castigar pelo mal que têm feito ao nosso povo que é o filho querido de Deus. Depois Moisés acrescentou: “Esta Vai ser uma noite de dor e sofrimento para o povo do Faraó, e para o próprio rei que vai perder o seu filho primogénito, isto é, o herdeiro do trono. Cada família deve sacrificar um cordeiro, a fim de preparar uma ceia especial que ficará a chamar-se para sempre a ceia da Páscoa, pois fica como testemunho da passagem libertadora de Deus.

Com o sangue do cordeiro deveis pintar a porta das vossas casas, a fim de que o anjo da morte, quando vier castigar os egípcios reconheça as vossas casas e passe em frente. Juntamente com o cordeiro, as famílias israelitas devem comer ervas amargas e pão ázimo, isto é, sem fermento. As ervas amargas são para recordar aos vossos filhos o sofrimento amargo dos setenta anos da escravidão no Egipto. O pão ázimo significava a urgência de partir, pelo que não havia tempo para que a massa pudesse levedar.

Moisés tinha ordenado às famílias que comessem de pé, a fim de estarem preparados para partir em direcção à liberdade. Para encorajar os hebreus a empenhar-se na conquista da liberdade ele dizia às pessoas que os frutos da terra para a qual Deus os ia a conduzir tinham um sabor a requeijão e a mel, coisas que as pessoas apreciavam muito.

Ao entardecer, as pessoas começaram a preparar a refeição. Por volta da meia-noite, quando as famílias já tinham jantado, ouviu-se um grito cheio de angústia e desespero: Era uma mãe egípcia que acabava de perder o seu filho primogénito. Logo em seguida, ouve-se outro grito e outro e outro e outro e muitos outros. Em cada família egípcia, o anjo da peste deixava morto o filho primogénito. o ver o sinal do sangue nas portas dos hebreus, o anjo da morte passava à frente. Algum tempo depois ouve-se uma forte trombeta. Logo ouvem-se muitos bombos e flautas. Eram os músicos hebreus a avisar que chegara a hora de partir.

Chegou o momento de iniciar a grande viagem da libertação, gritou Moisés. Temos de ser fortes, pois a liberdade é uma conquista. Deus está connosco, mas não está em nosso lugar, isto é, não nos substitui. Preparai-vos, pois teremos de enfrentar provas muito difíceis como atravessar o Mar Vermelho e enfrentar o perigo dos escorpiões e serpentes que abundam no deserto. Teremos ainda de sofrer o tormento da sede, pois no deserto há pouca água. Temos de ser muito solidários, dando-nos as mãos nos momentos difíceis, a fim de ficarmos mais fortes. Lembremo-nos de que a tarefa da libertação só é possível se as pessoas forem amigas, leais e fraternas.

E a viagem começou. Foi difícil e longa, pois durou quarenta anos. O Povo nunca mais esqueceu este beijo libertador de Deus. Muitos anos mais tarde, Deus apareceu ao profeta Oseias e disse-lhe: “Vai dizer a todos que tenham confiança em mim, pois quando o povo era ainda eu salvei-o”. Depois Deus acrescentou: “Quando Israel era ainda menino, eu amei-o e chamei o meu filho do Egipto” (Os 11, 1).

Passados muitos séculos, Deus enviou o seu Filho à terra que tinha dado aos filhos de Abraão. O Filho de Deus veio como Messias, isto é, o Salvador Prometido, a fim de realizar uma Páscoa Nova e mais perfeita: em vez da morte dos inimigos, Cristo realizou a Páscoa do perdão, pedindo a Deus seu Pai que perdoasse aos seus inimigos. Jesus sabia que Deus toma partido pelos que passam a vida a fazer o bem. Por outras palavras, Jesus tinha a certeza de que Deus o ia ressuscitar e, com ele, salvar todos os seres humanos como Deus tinha prometido a Abraão (Gn 12, 3). A Nova Páscoa tornou-se a festa da libertação total, pois Cristo, ao ressuscitar, venceu a sua e a nossa morte. E foi assim que todas as famílias da terra foram abençoadas em Cristo o descendente de Abraão.


Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias


A Humanização como Fidelidade aos Talentos

Darhan, Mongolia


Nascemos para renascer.
Levamos, no mais íntimo do ser, um Eu pessoal, espiritual, a emergir e a crescer.
É como o pintainho a germinar no interior do útero que o abriga, o ovo.
Não somos uma alma estática, vinda de fora,
e introduzida como algo acabado. Deus criou-nos, a fim de nos criarmos.

Começamos por ser o que os outros fizeram de nós.
Não escolhemos a raça, a língua, a família, a cultura ou a nacionalidade.
Encontrámo-nos na vida com estes dados preestabelecidos.
Apesar de não os termos escolhido,
formam o leque dos talentos de que dispomos para a nossa realização.

Somos um Eu pessoal, Interior, em construção.
Emerge como interioridade Relacional, Livre, Consciente, Responsável,
Única, Original, Irrepetível e capaz de comunhão amorosa.
Emerge, no interior de um Eu individual, exterior, Bio-psíquico.

A dinâmica que faz emergir o Eu pessoal, Interior e espiritual,
são as relações com a densidade do amor.
O nascimento do Eu interior é tarefa nossa.
Somos autores da nossa humanização. Ninguém nos pode substituir.
O património primordial, o barro que nos foi dado,
é o leque inicial dos talentos que recebemos.
Nasce mais e melhor quem for mais fiel.

Nascemos para renascer e comungar.
Deus criou-nos para que nos criemos em relações de fraternidade.
Ninguém nos pode fazer. Pretender substituir alguém
é uma violência que impede o outro de se realizar como pessoa.

O Eu individual, e exterior, é mortal.
Envelhece, degrada-se progressivamente,
perde qualidades e termina no cemitério.
O Eu interior, Pessoal e Espiritual, renova-se diariamente.
Emerge de modo sempre Novo. Nasce por obra do Espírito Santo (Jo 3, 6).

A sua plenitude é a Comunhão Universal da Família de Deus.
O Eu pessoal, por ser espiritual, constitui o Homem Novo, o qual faz um com Cristo.
Cresce no interior do homem velho, fruto de Adão.
O eu individual constitui o homem velho.
É carnal, limitado às coordenadas da biologia, do psiquismo,
da raça, da cultura e da espacio-temporalidade.

O eu pessoal está a emergir gradual e progressivamente como interioridade relacional.
Tem a vocação de partilhar a vida em plenitude Universal.
Com a morte do eu individual, o eu pessoal nasce
para a plenitude em coordenadas de universalidade e equidistância.
Torna-se presente a todos os seres pessoais que constituem a Comunhão Universal:
Pessoas Divinas, Pessoas Humanas
e todas as outras que tenham emergido na imensidão do Universo,
fruto da Dinâmica Eterna do Deus Criador.

Nascemos para renascer. Seremos eternamente
segundo decidamos nascer agora.
Quanto mais emergir o eu pessoal,
maior o grau de comunhão na Festa eterna da vida pessoal em comunhão.
O Tempo é-nos dado para renascer.
É a dinâmica da humanização a acontecer:
Emergência do eu pessoal, mediante relações de amor
e convergência para a Comunhão Universal do Reino dos Céus.

O Céu não é um lugar. É estar na intimidade de Deus.
A Divindade é emergência permanente de três pessoas
em plenitude de reciprocidade amorosa.
E nós, como Sua imagem, estamos chamados a partilhar
da Vida comunitária da Santíssima Trindade.

O eu pessoal renasce como capacidade de encontro, diálogo, acolhimento e doação.
Agora, na história, estamos em gestação.
Depois vem a Festa da Vida na qual mais comungará, eternamente,
quem mais se tenha realizado no presente.
Seremos, eternamente, segundo decidamos, agora, Renascer.

É esta a nossa condição: Somos pessoas em processo de Realização.
O eu individual, exterior e mortal, forma o património da hominização.
O eu interior, à medida em que emerge e cresce como interioridade pessoal,
capaz de ser dom e acolher o dom dos outros constitui a pessoa realizada.
É o resultado do processo da humanização.

Para o Homem Novo está em construção. Realiza-se renascendo.
Mas, para isso acontecer, o homem velho, exterior, biológico e psíquico, tem de morrer.
De facto, a força dominante do homem velho é o egoísmo,
o qual, à maneira do remoinho, tende a enroscar a pessoa sobre si,
impedindo-a de renascer.

O homem velho tem de morrer.
Só assim pode emergir o Homem Novo, talhado para a plenitude do Amor.
É agora o tempo de morrer e de nascer.
Depois, é a situação da plenitude, na qual todos podem colher os frutos da vida,
segundo o paladar de cada qual.

De facto, a Árvore da Vida, está no centro do Paraíso:
«No meio da Praça da Cidade, nas margens do rio, está a Árvore da Vida,
a qual produz doze colheitas de frutos. Em cada mês o seu fruto.
As folhas da Árvore, servem de medicamento para todas as Nações» (Apc 22, 2).

A variedade destes frutos são os dons incontáveis do Espírito Santo.
Emergem em cada pessoa, como qualidades ou jeitos de partilhar a vida.
Consagradas pelo Espírito Santo, as qualidades de cada pessoa
circulam em benefício do todo orgânico
que é a Família de Deus, onde somos assumidos, optimizados e plenificados.

Com efeito, apesar da nossa condição de pessoas humanas
somos incorporados na Família de Deus.
O Sangue divino, o Espírito Santo, dinâmica que dinamiza a Comunhão Trinitária,
passa a circular nas nossas “veias”,
vivificando em nós os elos de amor e relacionamento fraterno.
Deste modo atingimos a plenitude: somos divinizados.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias