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Eucaristia e o Sangue da Nova Aliança



a) A Carne e o Sangue de Cristo
b) O Espírito Santo é o Sangue da Nova Aliança
c) Eucaristia e Dinâmica da Salvação


a) A Carne e o Sangue de Cristo

O Senhor Jesus presente e actuante na Eucaristia é o Senhor ressuscitado. Isto quer dizer que a carne e o sangue de Jesus Cristo são uma realidade grandeza espiritual e não biológica. O evangelho de São João é o mais explícito neste particular, afirmando que a Carne e o Sangue e o Sangue de Cristo se refere ao Senhor ressuscitado.

Trata-se do princípio vital de Cristo ressuscitado, isto é, do Espírito Santo. Eis as suas palavras: “Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é que dá vida, a carne não serve para nada. As palavras que vos disse são Espírito e Vida (Jo 6, 62-63).

Comer a Carne de Jesus Cristo e beber o seu sangue, na Eucaristia, significa abrir o coração ao Espírito Santo, o qual nos configura com o próprio Jesus ressuscitado. Como sabemos, os sacramentos são eficazes na medida em são espaços para o Espírito Santo agir e acontecer a Palavra de Deus.

Falar da Carne e sangue de Jesus Cristo ressuscitado é afirmar a sua condição de homem glorificado e incorporado, pelo Espírito Santo, na comunhão da Santíssima Trindade. Comer a Carne e beber o Sangue do Senhor ressuscitado é acolher e deixar-se moldar pelo Espírito Santo, a força vital que incorpora e alimenta o homem Jesus na comunhão familiar da Santíssima Trindade.

O Espírito Santo realiza este mesmo mistério em nós na medida em que formamos um todo orgânico com Jesus Cristo: “Permanecei em mim que eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).

O Espírito Santo foi a força ressuscitante de Jesus Cristo. Na verdade, a ressurreição e a morte de Jesus aconteceram de modo simultâneo. À medida em que, na cruz, ia morrendo em Jesus o que no homem é mortal, aquilo que no homem é imortal, ia sendo glorificado e incorporado na Comunhão da Santíssima Trindade. No momento em que, em Jesus, morreu o último elemento daquilo que no homem é mortal, aquilo que no homem é imortal fica plenamente ressuscitado.

Por outras palavras, Jesus Cristo venceu a morte no próprio acto de morrer. O que ressuscita é o espiritual, não o biológico. Por isso é que, segundo o evangelho de São Lucas, Jesus disse ao Bom Ladrão que nesse mesmo diz se encontrariam no Paraíso, isto é, na festa do Reino que é comunhão dos ressuscitados em Cristo (Lc 23, 43).

No evangelho de São Mateus as imagens utilizadas exprimem ainda melhor a simultaneidade da morte e ressurreição de Jesus. Eis o que aconteceu no momento da morte e ressurreição de Jesus segundo São Mateus: “Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram” (Mt 27, 52).

A Eucaristia, como sacramento, é uma celebração comunitária da Fé que proclama a morte e ressurreição de Jesus Cristo e a nossa participação nesta mesma ressurreição. São Paulo diz que os membros da comunidade comem todos do mesmo pão, a fim de formarmos o Corpo de Cristo, condição fundamental para ressuscitarmos com ele (1 Cor 10, 17; 12, 17). Mas isto acontece pela acção do Espírito Santo, continua São Paulo. Na verdade, fomos baptizados no mesmo Espírito, a fim de formarmos um só Corpo seja qual for a raça, a nacionalidade, a condição social ou sexual (1 Cor 12, 12-13).

O evangelho de São João diz expressamente que aqueles que comem a carne de Jesus e bebem o seu sangue participam da mesma ressurreição do Senhor: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu vou ressuscitá-lo no último dia” (Jo 6, 54). É verdade que, após a sua ressurreição, Jesus Cristo mantém a sua identidade histórica como acontece com os demais ressuscitados em Cristo. Mas não devemos confundir a identidade histórica de Jesus ressuscitado com a sua condição biológica anterior à morte. Jesus ressuscitado é um ser totalmente espiritual. São Paulo diz que o Senhor ressuscitado já não morre mais (Rm 6, 9).

O Espírito Santo é a Água Viva que gera Vida Eterna no seu interior (Jo 7, 37.39; cf. 4, 14). Ele é a força vital que ressuscitou Jesus e nos ressuscita com ele. Com o seu jeito maternal, o Espírito Santo incorpora-nos na Família de Deus como filhos de Deus Pai e irmãos de Deus Filho (Rm 8, 14-16).

Comer a carne de Jesus ressuscitado e beber o seu sangue é, portanto, acolher o Espírito que alimenta a nossa união orgânica com Cristo e nos incorpora na Família de Deus. Os que comem a carne do Senhor ressuscitado e bebem o seu sangue fazem uma união idêntica à que existe entre Deus Pai e seu Filho.

É isto que Jesus nos diz no evangelho de São João: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57). Esta união orgânica com Cristo é dinamizada pelo Espírito Santo, condição para que sejamos ramos vivos e fecundos como o evangelho de São diz na alegoria da videira (Jo 15, 4-5).

Segundo a linguagem sacramental da Eucaristia, a união que nos liga de modo orgânico a Cristo acontece no nosso interior. É este o significado profundo associado ao acto de comer o pão e beber o vinho eucarístico. Ao ressuscitar, Cristo passou da face exterior da realidade para a sua face interior, isto é, para a dimensão na qual acontece a Comunhão Universal.

Por outras palavras, a face interior é constituída pelas coordenadas de Deus isto é, a universalidade e a equidistância. As pessoas humanas, mediante o acontecimento da morte, passam da face exterior para a face interior, ficando assim nas mesmas coordenadas de Deus. Por outras palavras, os nossos seres queridos que, através da morte, passaram para as coordenadas da interioridade máxima da realidade, não estão longe.

Com efeito, nas coordenadas da Universalidade e da equidistância já não há lonjura, mas sim omnipresença a tudo e a todos. É esta a morada de Deus. É verdade que a nossa interioridade pessoal-espiritual e a interioridade na qual Deus habita não coincidem, pois Deus é transcendente. Mas não há distância a separar-nos. Com efeito, aí onde termina a nossa interioridade espiritual limitada começa a interioridade ilimitada da Comunhão Universal cujo coração é a Santíssima Trindade.

É por isto que podemos dizer com São Paulo que o Espírito Santo habita no nosso coração, pois ele é o Amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Do mesmo modo, quando dizemos que, pela Encarnação, o Filho de Deus veio até nós, não estamos a afirmar que se deslocou de um sítio para outro.

A dinâmica da Encarnação não pressupõe a transposição de uma distância, pois tal não existe. Pela encarnação aconteceu uma interacção directa entre a interioridade espiritual humana de Jesus de Nazaré e a interioridade espiritual divina da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Esta interacção é dinamizada pela pessoa do Espírito Santo cujo jeito de ser é animar relações de reciprocidade amorosa e fortalecer os vínculos de união orgânica entre as pessoas. É este o sentido profundo da afirmação do credo segundo a qual o Filho de Deus encarnou pelo Espírito Santo. A Encarnação é o enxerto do divino no humano, a fim deste poder ser divinizado. O Reino de Deus universalizou-se com o acontecimento da ressurreição de Jesus (Jo 7, 37-39).

Antes da morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Reino de Deus estava no meio dos homens, pois a dinâmica da união humano-divina existia apenas no interior de Jesus. No momento da sua ressurreição, a Humanidade fica capacitada para interagir organicamente com o Espírito Santo Espírito Santo através de Jesus, pois ele já está nas coordenadas da Universalidade e da equidistância. Nesse momento, o Reino de Deus deixou de estar no meio dos homens para passar a estar no seu íntimo.

É tudo isto que a Eucaristia celebra e proclama, de modo particular o gesto sacramental da comunhão da carne e sangue de Jesus. Segundo o evangelho de São João, o próprio Jesus afirma que a sua carne e o seu sangue é o Espírito Santo que nos é comunicado, graças à sua ressurreição (Jo 6, 62-63). Por outras palavras, o Reino de Deus, enquanto união orgânica de grandeza humano-divina, começou a emergir no coração de Jesus Cristo. Universalizou-se e tornou-se interior em relação a todos os seres humanos no momento da morte e ressurreição de Jesus. Por isso, enquanto Jesus viveu no meio dos seres humanos, o Reino de Deus estava no meio das pessoas, constituindo-se como interioridade máxima de toda a realidade no momento da sua ressurreição.

Como vemos, a essência e a dinâmica da Eucaristia é de tipo espiritual e não é de tipo biológico. O corpo dos ressuscitados, diz São Paulo, é espiritual, não biológico (1 Cor 15, 42-45). Se nós somos baptizados no Espírito Santo é para formarmos o corpo de Cristo, isto é, uma união espiritual com o Senhor (1 Cor 12, 12-13). A carne e o sangue entendidos como grandeza biológica não fazem parte do Reino de Deus (1 Cor 15, 50).


b) O Espírito Santo é o Sangue da Nova Aliança

A Nova Aliança leva consigo uma recriação do Homem operada pelo Espírito Santo. Por outras Palavras, a Nova Aliança implica nascer de novo, graças à acção geradora do Espírito Santo (Jo 3,6). Eis as palavras da Carta aos Efésios sobre o pleno de Deus a propósito do Homem Novo: “Deus escolheu-nos em Cristo antes da fundação do mundo, a fim de sermos santos e irrepreensíveis na sua presença e vivermos no amor. Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos por meio de Jesus Cristo, de acordo com a sua vontade” (Ef 1, 4-5).

Este plano esteve oculto durante milénios, mas foi dado a conhecer quando chegou a plenitude dos tempos: “Agora podeis fazer uma ideia da compreensão que tenho do mistério de Cristo, o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, em gerações passadas, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas pelo Espírito Santo” (Ef 3, 4-5).

A Nova Aliança, portanto, representa a plenitude de um projecto sonhado por Deus desde toda a eternidade. A Antiga Aliança aparece, pois, como um passo fundamental para a chegada da Nova.
É o sinal da acção pedagógica do Espírito Santo que foi preparando a Humanidade para a plenitude dos tempos, a qual implica a incorporação da Humanidade (judeus e pagãos) no único Reino de Deus: “Com efeito, Cristo é a nossa paz. De dois povos (judeus e pagãos) fez um só, anulando o muro da separação que os dividia: a Lei Mosaica com suas leis, normas e preceitos, a fim de criar um só Homem Novo com judeus e pagãos. Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, apesar de pagãos, mas concidadãos dos santos e membros da Família de Deus” (Ef 2, 14.19).

O Novo Testamento apresenta uma série de conceitos e imagens que reforçam a ideia de que a Antiga Aliança estava em Função da Nova: “Antes de chegar a plenitude da Fé estávamos prisioneiros da Lei Mosaica. Era necessário que a Fé se revelasse. Deste modo, a Lei tornou-se nosso pedagogo até Cristo, a fim de sermos justificados pela Fé. Agra já sois filhos de Deus, por isso não estais sob o domínio do pedagogo (…). Já não há judeu ou grego. Não há escravo ou homem livre. Não há homem ou mulher, pois todos sois um só em Cristo Jesus” (Ga 3, 23-29).

A antiga Aliança tinha como alicerce a Lei Mosaica, a qual se multiplicava em normas, preceitos, mandamentos e rito que não levavam à salvação. A Nova Aliança tem como alicerce o dom do Espírito, o qual realiza em nós a obra da salvação, incorporando-nos na Família de Deus: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14). Viver a dinâmica da Nova aliança significa deixar-se conduzir pelo Espírito Santo: “Eis os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio. Contra tais coisas não há lei” (Ga 5, 22).

A Nova Aliança supõe, não propriamente uma rotura com a Antiga, pois a Antiga era um degrau para chegar à Nova. A Antiga Aliança foi superada da mesma maneira que as metas para atingir um objectivo determinado são superadas quando o objectivo é atingido. A Nova Aliança não é uma simples continuidade em relação à Antiga, tal como Cristo não está apenas numa linha de continuidade em relação a Moisés. Pelo contrário, a Nova Aliança representa um salto de qualidade em relação à Antiga. Com efeito, a libertação e a divinização do Homem realizada pela Encarnação, não está numa simples continuidade em relação à libertação dos hebreus da escravidão do Egipto.

Não é difícil compreender como entre estes dois acontecimentos existe uma diferença qualitativa. A libertação realizada pela Nova aliança tem o alcance de uma salvação definitiva que implica a assunção e incorporação da humanidade na Família Divina (Jo 1, 12-14). Este projecto eterno, diz a Carta aos Efésios, foi realizado em Jesus Cristo, nosso Senhor (Ef 3, 11).

Deus planeou a salvação da Humanidade, continua a mesma carta, ainda antes da criação do Mundo (Ef 1, 4). O Reino que havemos de herdar com Cristo foi preparado para nós, diz o Evangelho de Mateus, desde a Criação do Mundo (Mt 25, 34). O plano salvador que Deus sonhou para nós, diz a Segunda Carta a Timóteo, foi concebido desde os tempos primordiais (2 Tim 1, 8-9).

Este plano de salvação, foi oculto a muitos profetas e reis da antiguidade, mas foi revelado pelo Espírito Santo quando chegou a plenitude dos tempos: “Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o filho e aquele a quem o filho houver por bem revelar-lho”. Voltando-se depois para os discípulos disse-lhes: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. De facto, digo-vos eu, muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!” (Lc 10, 21-24).

Como vemos, o projecto da Nova Aliança é anterior ao plano da Antiga, pois esta foi concebida como meio para a plenitude da Nova Aliança. A Carta aos Hebreus diz que Deus ao falar de uma Nova Aliança declarou obsoleta a Antiga. Como o que se torna obsoleto está prestes a desaparecer, assim acontece com a Antiga Aliança (Heb 8, 13).

No livro do profeta Ezequiel aparece Deus a prometer ao povo uma Nova aliança. Ao lembrar-se da Antiga Aliança, Deus vai fazer uma Nova que será definitiva: “Lembrar-me-ei da Aliança que fiz contigo, no tempo da tua juventude e estabelecerei contigo uma aliança Eterna (…). Estabelecerei contigo a minha Aliança e então saberás que eu sou o Senhor, a fim de que te lembres de mim e sintas vergonha e não abras mais a boca no Meio da tua confusão, quando eu te perdoar tudo o que fizestes, oráculo do Senhor” (Ez 16. 60-63).

Segundo o profeta Jeremias, a Nova aliança assenta em novos alicerces: num coração renovado e no dom do Espírito Santo: “Dias virão em que estabelecerei uma Nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá, oráculo do Senhor. Não será como a Aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terá do Egipto, aliança que eles não cumpriram, embora eu fosse o seu Deus, oráculo do Senhor. Esta será a aliança que estabelecerei depois desses dias com a casa de Israel, oráculo do Senhor: “Imprimirei a minha Lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (Jer 31, 31-33).

A Nova Aliança, portanto, não é escrita em tábuas de pedra, como a Antiga. Pelo contrário, será escrita no coração das pessoas. São Paulo diz aos membros a comunidade de Corinto que eles são uma carta de Cristo, escrita pelo Espírito Santo, pois pertencem à Nova Aliança: “A nossa carta sois vós, uma carta escrita nos nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Sois uma carta de Cristo confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo. Escrita, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações (…). É Deus que nos torna aptos para sermos ministros de uma Nova aliança, não da letra, mas do Espírito, pois a letra mata, enquanto o Espírito dá vida” (2 Cor 3, 2-6).

Em Cristo, o medianeiro da Nova Aliança, nós somos uma Nova Criação reconciliada com Deus: “Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo. E tudo isto vem de Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2 Cor 5, 17-19). Segundo o plano da Nova Aliança nós recebemos o dom do Espírito Santo através de Cristo ressuscitado. Uma vez capacitados para interagir intrinsecamente com o Espírito Santo começamos a ser configurados com o mesmo Cristo, pelo que ele se torna o primogénito de muitos irmãos (Rm 8, 29).


c) Eucaristia e Dinâmica da Salvação

A Eucaristia é o presente magnífico que Jesus nos deixou como sacramento que explicita o dinamismo da salvação a actuar no nosso íntimo. Em primeiro lugar proclama a união orgânica de Cristo com a Humanidade, graças à qual somos assumidos e incorporados na Família Divina. Depois explicita que a dinâmica da Salvação está a acontecer no nosso coração.

Louvado sejais, Senhor Deus, pelo acontecimento da Salvação e pela sua dinâmica a acontecer em nós, graças à acção do Espírito Santo. Ao ressuscitar, Jesus passou da face exterior da realidade para a sua face interior, isto é, para a dimensão na qual acontece a Comunhão Universal do vosso Reino!

Deus habita na face interior da realidade essa dimensão transcendente cujas coordenadas são a universalidade, a equidistância e a comunhão amorosa. Através da sua ressurreição, Jesus Cristo venceu a morte para si e para nós Na véspera da sua passagem para a morada de Deus, Jesus garantiu-nos que nós habitaríamos para sempre com ele na Festa da Vida Eterna. Deste modo temos a garantia de possuirmos uma habitação eterna na comunhão Universal do Reino de Deus.

Eis as palavras da promessa de Jesus, no final da Ceia de despedida que ele realizou com os discípulos e na qual instituiu o grande dom da Eucaristia: "Não vos deixarei órfãos, pois eu voltarei a vós (...). Nesse dia compreendereis que eu estou no meu Pai, vós em mim e eu em vós" (Jo 14, 18-20).

Esta maneira de falar de Jesus exprime de modo muito claro a dinâmica da Salvação como comunhão orgânica. O próprio Jesus, no evangelho de São João, explicita esta união orgânica connosco dizendo que ele é a cepa da videira da qual nós somos os ramos. Só podemos viver e ser fecundos se permanecermos unidos à cepa (Jo 15, 4-5).

A promessa de Jesus também nos dá a certeza de que os nossos seres queridos que, pela passagem da morte, participam definitivamente na ressurreição com Cristo estão perto de nós. Com efeito, nas coordenadas da universalidade e da equidistância, já não há lonjura, mas sim omnipresença a tudo e a todos. Esta omnipresença acontece a partir da interioridade máxima de toda a realidade. Tudo isto quer dizer, portanto, que não distância nem lonjura entre nós e a Comunhão Universal da Comunhão Universal que constitui a Família de Deus!

Com efeito, no ponto onde termina a nossa interioridade espiritual limitada começa a interioridade espiritual ilimitada da Comunhão Universal do Reino de Deus. O animador desta Comunhão Orgânica Universal é o Espírito Santo. Ele é o Amor de Deus derramado nos nossos corações, como diz a Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 5, 5).

Ele é mais íntimo a nós que nós próprios, pois torna-se presente a nós a partir das coordenadas da Comunhão Universal do Reino. Eis a razão pela qual ele está sempre à porta do nosso coração. Sempre que, pela Fé e pelo Amor, abrimos a porta, o Espírito Santo introduz-nos na onda da Comunhão Universal do vosso Reino.

Com a ressurreição de Cristo acontece realmente a Nova Criação reconciliada com Deus em Cristo, como diz São Paulo (2 Cor 5, 17-19). Este dom teve início com o mistério da Encarnação e atingiu a sua plenitude com a ressurreição de Cristo. Através da Encarnação, o Divino enxertou-se no Humano, a fim de este ser divinizado. No momento em que Jesus ressuscita, a dinâmica do Natal que até então habitava apenas o coração de Jesus, passou a habitar o coração de todos os seres humanos que vivem a comunhão orgânica universal.

A Salvação consiste, pois na divinização da Humanidade, a qual acontece pela incorporação das pessoas humanas na Comunhão da Santíssima Trindade, na qual somos assumidos como filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus Filho. Como podemos ver, os dois pilares da dinâmica da Salvação são, pois, o Natal e a Páscoa. A seiva que vivifica e robustece esta união humano-divina é o Espírito Santo, o Sangue da Nova e Eterna Aliança. É este mistério que os cristãos celebram na Eucaristia, de modo particular no rito da comunhão do Pão e do Vinho consagrados.

Nesse momento, os crentes exprimem e procuram reforçar esta união orgânica com o Senhor, a fim de robustecer o Corpo de Cristo do qual são membros. Eis as palavras de São Paulo a este respeito: "Comemos do mesmo pão porque fazemos um só Corpo" (1 Cor 10, 17). A Carne e o Sangue de Jesus ressuscitado é o Espírito Santo, o qual alimenta a vida eterna a emergir e a fortalecer-se no nosso coração. Por outras palavras, alimentando-nos da carne e sangue do Senhor ressuscitado nós tornamo-nos participantes da ressurreição de Cristo.

Segundo o evangelho de São João foi exactamente isto que Jesus disse quando afirmou: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue viverá por mim" (Jo 6, 56-57). Ao comerem o pão e beberem o vinho da Eucaristia, os cristãos estão a proclamar que é no interior da pessoa humana que acontece a união e a interacção que nos diviniza, incorporando-nos na Comunhão da Santíssima Trindade.

A Eucaristia ao longo da História




a) Eucaristia e Teologia Tradicional
1- O Fisicismo da Presença Real
2- A Transubstanciação
3- A Eucaristia Como Sacrifício
4- Eucaristia e Perdão do Pecado

b) A Boa Nova da Eucaristia
1- Memória e Proclamação da Salvação de Deus
2- A Presença Real de Cristo na Eucaristia
2.1- A Presença é Relacional
2.2- Dinamismo da Presença Real
3- A Reserva Eucarística
3.1-O culto da reserva
3.2-A Reserva Como Mediação de Encontro



a) Eucaristia e Teologia Tradicional

1- O Fisicismo da Presença Real

Até ao século XI, a linguagem sobre a presença real não tinha conotação fisicista. Utilizava-se normalmente a designação de corpo real de Cristo para a Igreja e Corpo místico para a Eucaristia. Não deixa de ser curioso notar que, no século XI, se opera uma viragem total, ao ponto de se inverterem os termos.

Esta viragem foi desencadeada por um teólogo chamado Berengário. Ao tratar dos sacramentos, Berengário diz que estes são símbolos. O pão e o vinho, portanto, são símbolos do corpo e sangue de Cristo. Berengário é acusado de herege e teve de se retratar, a fim de não ser queimado como acontecia a todos os que eram considerados hereges.

Berengário acaba por assinar um documento que continha a síntese doutrinal, a qual é o começo da linguagem fisicista posterior. Eis uma síntese da doutrina que Berengário foi obrigado a assinar: “Eu, Berengário, creio de coração e confesso de boca que o pão e o vinho que se colocam sobre o altar, pelo mistério da santa oração e pelas palavras do nosso Redentor, se convertem, substancialmente, na verdadeira, própria e vivificante carne e sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor. Depois da consagração, são o verdadeiro corpo de Cristo, que nasceu da Virgem e que, oferecido pela salvação do mundo, esteve pendente da cruz e está sentado à direita do Pai” [Denz. 355].

O termo carne, na cultura bíblica (basar), não é um conceito biológico. Pelo contrário, significa a interioridade humana enquanto ser estruturado para relação e fazendo um todo orgânico com toda a Humanidade. Comer a carne e beber o sangue de Cristo significava, na cultura judaica do tempo de Jesus, entrar na comunhão humana universal cuja cabeça é Cristo.

Para a Bíblia, a Humanidade forma um todo orgânico cuja cabeça era Adão. Quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga. É este o sentido do pecado de Adão que atinge a Humanidade inteira. O pecado original, na visão bíblica, é uma mutilação ou uma distorção operada na Humanidade por Adão, sua cabeça. O Novo Testamento vê em Cristo o Novo Adão. Assim como pelo primeiro Adão veio a morte, diz São Paulo, pelo segundo veio a vitória sobre a morte (Rm 5, 17-19).

Esta visão bíblica desaparece da linguagem teológica e é substituída pela linguagem das filosofias platónica e aristotélica. O documento assinado por Berengário um texto elaborado em linguagem tipicamente aristotélica. Nos primórdios do século XIII, Inocêncio III diz que o pão e o vinho da Eucaristia são o verdadeiro corpo e sangue de Jesus Cristo. O acto da consagração é visto como um rito com efeitos automáticos que opera, pelas palavras de Cristo, a mudança da substância do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Cristo. Como o corpo e a alma são inseparáveis da divindade de Cristo, a divindade de Cristo está também presente na Eucaristia.

O Concílio de Latrão utiliza a terminologia “substância” e “espécies”. Espécie é aquilo que não subsiste por si e é variável. O corpo de Cristo permanece oculto sob as espécies do pão e do vinho [Denz. 430]. Segundo o aristotelismo, as espécies não podem subsistir sem a sua substância própria. Aqui, a substância muda e as espécies permanecem. Naturalmente que é fácil resolver este problema, dizendo que se trata de um milagre.

Urbano IV diz que a Eucaristia é a comemoração de Cristo. Nesta comemoração, o Senhor torna-Se presente com a Sua substância [Denz. 459]. Neste tipo de linguagem já não existe a noção de que a Eucaristia não é uma questão biologia mas sim espiritual. Por outras palavras, a Eucaristia que corporiza o Cristo histórico, mas o Cristo ressuscitado, como diz o evangelho de São João: “Isto escandaliza-vos? E se virdes o filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é quem dá vida, a carne não serve para nada. Ora, as palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).

No século XV, o Concílio de Constança diz que sob o véu do pão e do vinho, está o próprio Jesus que sofreu na cruz e está sentado à direita do Pai [Denz. 666]. Por seu lado, o Concílio de Florença afirma que, em cada pedacinho da hóstia consagrada, bem como em cada gota do vinho, está Cristo inteiro [Denz. 698].


2-A transubstanciação

À mudança de substância a teologia dá o nome de transubstanciação. No século XI a fórmula da retracção imposta a Berengário diz que Cristo está presente no pão e no vinho, não apenas pelo sinal e força do sacramento, mas na propriedade da sua natureza e substância [Denz. 355]. Pouco a pouco, a transubstanciação vai ganhando um sentido de um resultado automático, associado ao rito e às palavras da consagração.

A substância é a essência interior das coisas. É a realidade interior que serve de suporte aos aspectos mutáveis, os acidentes. Segundo o aristotelismo, os acidentes são suportados pela substância. Os acidentes correspondem, portanto, à realidade substancial. Na Eucaristia os acidentes são de pão e vinho e, portanto, não correspondem à substância que é o corpo de Cristo. Isto só pode acontecer graças a um milagre permanente.

A substância, pelo contrário, não é suportada por qualquer outra realidade. Suporta os acidentes e não é suportada por estes. Por outras palavras, a substância existe em si e por si. Mais tarde, começa-se a afirmar que a substância de Cristo permanece enquanto permanecem os acidentes do pão e do vinho consagrados.

Esta linguagem já não serve para os nossos dias. Com efeito, as ciências descobriram que as coisas não têm qualquer substância. As ciências descobriram que a estrutura básica das coisas não é uma substância estática, mas uma estrutura profundamente dinâmica: o átomo. A linguagem metafísica do pensamento teológico tradicional é essencialista e fisicista. Este fisicismo da teologia tradicional não resiste a um confronto com o pensamento contemporâneo.

E não vale o argumento de que se trata de um mistério, querendo significar que é algo que não se pode entender. Na visão do Novo Testamento o mistério significa uma realidade totalmente diferente: O projecto que Deus sonhou desde toda a eternidade acerca dos homens. Este mistério foi revelado aos homens na plenitude dos tempos (Ef 1, 9-10; 3, 1-9; Col 4, 3).

Ao revelar o Seu projecto, Deus convida os homens a abrirem-se à sua compreensão. Os que se abrem à acção do Espírito Santo chegam à experiência e compreensão do mistério (Mc 4, 11; Col 2, 2; 1Cor 2, 7ss). O mistério de Deus e do homem é revelado no concreto da vida dos crentes e das comunidades (Rm 16, 25-27; 1Cor 2, 7-10). Em perspectivas cristãs o mistério é revelado aos homens pelo Espírito Santo. Trata-se, portanto, de algo que o crente deve conhecer cada vez mais profundamente. De facto, a fé não anula a razão. Pelo contrário, potencia-a e ajuda-a a ver os horizontes de plenitude que, por si, jamais poderia conhecer.

Segundo o conceito aristotélico, a substância de uma coisa não se divide. Eis a razão pela qual Cristo está presente em cada fragmento de pão consagrado, pois a substância do seu corpo e sangue, alma e divindade está toda no pão e toda no vinho [Denz. 626, 627 e 698, 932]. Os leigos, comungando apenas as espécies do pão, estão a comungar toda a substância de Cristo [Denz. 626]. Defender que, para comungar Cristo inteiro, é preciso comungar as espécies do pão e do vinho é heresia, diz o Concílio de Constança [Denz. 668].

Como se vê, já se perdeu o sentido da refeição que explicita e antecipa o banquete do Reino de Deus. Por outras palavras, o sentido original da Eucaristia como refeição que realiza o mandato de repetir o que ele fez está totalmente desfigurado. Agora, a questão é afirmar que a substância de Cristo está inteira tanto no pão como no vinho. No século XVI, o Concílio de Trento declara que, se alguém disser que a Igreja errou ao adoptar a prática da comunhão só do pão para os leigos seja excomungado (Denz. 935).

Além disso, como já vimos, junto à substância do corpo e sangue de Jesus, está a da alma e divindade, pois o corpo e sangue de Jesus são inseparáveis da alma e divindade. É esta a razão pela é legítimo adorar a hóstia consagrada, prestando-lhe culto de latria, o qual só pode ser prestado a Deus. Se na hóstia consagrada está também a divindade de Cristo, então esta pode receber culto igual ao de Deus (Denz. 878, 888). Surge assim o culto da reserva da Eucaristia, interpretando a presença real de Cristo em termos de biologização e localização espácio-temporal de Cristo ressuscitado.


3-A Eucaristia como sacrifício

A leitura sacrificial da Eucaristia representa um retorno ao culto sacrificial do Antigo Testamento. A interpretação sacrificial da Eucaristia é fruto da sacerdotização do ministério. Como sacerdotes, os ministros da Eucaristia estão dotados de um poder que os capacita para fazerem este sacrifício cultual.

Como consequência desta leitura, a presença dos fiéis não é fundamental. Em rigor, o padre pode realizar este culto sacrificial sozinho. No sacrifício da missa Jesus Cristo oferece-se todos os dias como vítima de propiciação a Deus, a fim de o aplacar e obter o perdão dos pecados, tanto para os vivos como para os mortos. Trata-se, portanto, de um sacrifício propiciatório, a fim de tornar Deus benévolo aos homens.

Esta linguagem do Concílio de Trento contraria a linguagem do Novo Testamento. A Carta aos Hebreus diz expressamente que os crentes da Nova Aliança já não têm necessidade de oferecer sacrifícios pelos pecados (Heb 10, 18). Além disso, afirma que Cristo não entrou no santuário definitivo, isto é, no Céu, para se oferecer muitas vezes: “Cristo não entrou num santuário feito por mão do homem, o qual é apenas figura do verdadeiro. Ele entrou no próprio céu, para Se apresentar agora diante de Deus por nós. E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo, como o sumo-sacerdote entra, cada ano, no santuário com sangue alheio. Nesse caso, ser-lhe-ia necessário padecer muitas vezes desde o início do mundo” (Heb 9, 24-26).

São Paulo defende esta mesma perspectiva. Cristo ressuscitado já não morre mais, diz ele. Quanto ao morrer pelo pecado, ele morreu apenas uma vez. Agora, a Sua vida é uma vida com e para Deus (Rm 6, 9). Temos de dizer que a perspectiva teológica da Eucaristia como sacrifício se desvia da visão do Novo Testamento.

A teologia tradicional fez da Eucaristia um sacrifício para justificar o ministério como sacerdócio. No século XII Inocêncio III diz que o sacrifício da missa só pode ser oferecido pelo presbítero ordenado pelo bispo [Denz. 424]. Só o presbítero é sacerdote. Portanto, só ele pode oferecer o sacrifício do altar. Além disso, o Concílio de Trento diz que, na última ceia, Cristo instituiu o sacrifício da missa.

Citando a Carta aos Hebreus, Trento diz que o sacerdócio levítico foi insuficiente. Por isso, Deus anunciou um outro sacerdócio segundo a ordem de Melquisedec (cf. Gen 14, 18; Sl 110, 4; Heb 7, 11). Este sacerdote foi Cristo, diz o Concílio. No entanto, para que não se extinguisse com a sua morte, constituiu, na última ceia, os apóstolos como sacerdotes (Denz. 938).

É curioso que a argumentação do Concílio de Trento vai no sentido contrário ao da Carta aos Hebreus. Esta diz que, enquanto esteve na terra, Cristo nem sequer tinha funções sacerdotais. Já existiam os sacerdotes levitas que exerciam essas funções segundo a Lei (Heb 8, 4). Cristo foi constituído sumo-sacerdote pela ressurreição (Heb 7, 16). Ele não precisa de substitutos, pois está eternamente junto de Deus como único medianeiro entre Deus e os homens (1Tim 2, 5).

Jesus Cristo, continua a Carta aos Hebreus, não pertencia à tribo sacerdotal, isto é, à tribo de Levi. Pelo contrário, ele pertencia à tribo de Judá. Ora, como sabemos, os membros desta tribo não tinham funções cultuais (Heb 7, 13-14). Mas, pela sua ressurreição, Cristo foi constituído sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec e não segundo a ordem de Aarão (Heb 7, 11).

Mudado o sacerdócio, devia mudar-se também a lei e as normas (Heb 7, 12). Esta mudança consistiu em abolir os sacrifícios, os quais foram superados pela morte e ressurreição de Cristo (Heb 10, 5-10). Deste modo, Cristo estabeleceu o novo culto que é fazer a vontade de Deus (Heb 10, 8-9). Este novo culto não consiste em oferecer vítimas a Deus para o aplacar e obter o perdão do pecado, mas é um culto em Espírito e Verdade, diz o evangelho de São João (Jo 4, 22-23).

A primeira carta de São Pedro diz que a comunidade é o templo da Nova Aliança. Os crentes constituem um sacerdócio santo cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais, os únicos agradáveis a Deus (1Ped 2, 5). A sua missão é anunciar a misericórdia de Deus que sonhou um projecto de salvação para a Humanidade (1Ped 2, 9-10).

Segundo São Paulo, este plano de salvação consiste em que Deus nos oferece a salvação mediante o Espírito Santo que nos incorpora na família divina (Rm 8, 14-17; Gal 4, 5-7). Sentado à direita de Deus para sempre, Cristo já não tem necessidade de oferecer sacrifícios todos os dias, diz a Carta aos Hebreus (Heb 7, 27-28). Depois acrescenta que os antigos cultos não agradaram a Deus (Heb 10, 6). O novo culto não assenta em sacrifícios e oblações, mas na fidelidade à vontade de Deus (Heb 10, 9).

Quando o Concílio de Trento afirma que em cada missa Jesus Cristo é uma vítima que se imola de modo real, embora diferente do modo como se imolou na Cruz, está a distanciar-se da visão do Novo Testamento (cf. Denz. 938, 940). Convertido em sacerdote, o ministro oferece, em nome de Cristo, o sacrifício da cruz. A validez deste sacrifício não requer a presença dos leigos nem a comunhão destes (Denz. 944, 955).

A Eucaristia, entendida como celebração comunitária da Fé fica distorcida. São Paulo insistia em que, sem ágape comunitário, não há Eucaristia (1Cor 11, 17-34). Agora, tudo pode ser feito de modo automático por sacerdotes que, segundo a linguagem da espiritualidade sacerdotal, têm tal dignidade que podem fazer descer Cristo do Céu à terra.

4-Eucaristia e perdão do pecado

Como sacrifício propiciatório, a Eucaristia torna Deus propício ao homem, perdoando-lhe o pecado. O Novo Testamento vê o perdão no dom do Espírito Santo. A maneira concreta de aceitar este dom é a reconciliação e o perdão vivido entre os crentes. Na Eucaristia, existia o beijo ou o abraço da paz como gesto de reconciliação. Deus não nos perdoa se não perdoarmos aos irmãos (Mt 6, 14).

Já os profetas acentuavam com força de que a reconciliação com Deus não se obtém pelos cultos mas pela vivência da misericórdia, da solidariedade e pelo perdão aos irmãos (Jer 18, 33; 33, 8; Is 44, 22; Miq 7, 18; Jer 31, 34). Para o Novo Testamento, a reconciliação é um acto de amor gratuito de Deus oferecido em Cristo (2Cor 5, 19; 1Jo 4, 7; Act 10, 43; Rom 5, 11). É o Espírito que opera em nós o mistério da reconciliação (Ef 2, 13-3, 21). A prova de que estamos reconciliados é que Deus nos dá parte no Seu Espírito, diz a primeira carta de São João (1Jo 4, 7-16; 5, 1-9).

O sacramentário de Verona (século IV-VI) fala da Eucaristia como remédio, expiação e purificação. Esta linguagem ainda não tem qualquer conotação sacrificial. Significa o robustecimento do homem espiritual e o fortalecimento da comunhão de Deus. Neste sentido, é mediação de perdão e reconciliação (cf. François Bourdeau, La route du pardon, Ed. Cerf, Paris, 1982, p. 34).

Neste mesmo sentido, Santo Ambrósio fala do efeito redentor da Eucaristia o qual produz no interior do homem o perdão e a reconciliação com Deus (Ibid. p. 35). Estas afirmações, no entanto, não têm qualquer sentido sacrificial. Jamais passaria pela cabeça destes autores falarem de um sacrifício expiatório ou propiciatório.

O que eles pretendiam dizer é que a Eucaristia, como celebração da Fé, é um espaço privilegiado para a acção do Espírito Santo que restaura a reciprocidade e comunhão com Deus. Na verdade, os conceitos sacrificiais da teologia medieval são consequência da crescente sacerdotização do ministério.

Sublinhando o pensamento de São Paulo, Santo Ambrósio dizia que os hebreus comeram o maná e morreram. Os cristãos, pelo contrário, comem o pão da Eucaristia e obtêm o perdão e a vida eterna (Santo Ambrósio, De sacram. IV, 5, 24). A Eucaristia, como todos os outros sacramentos são espaços privilegiados para o crente viver a dinâmica do baptismo no Espírito.

Os Padres gregos acentuavam com vigor que todos os pecados cometidos antes do baptismo são perdoados no baptismo. Por outro lado, os pecados posteriores são perdoados na Eucaristia (cf. François Bourdeau, La route du pardon, Ed. Cerf, Paris, 1982, p. 37). Santo Ambrósio explicita a relação perdão Eucaristia ao afirmar que só os pecados públicos eram excluídos desta dinâmica do perdão, sendo necessário, neste caso, a penitência pública (Ibid. p. 40).

Os Santos Padres estavam longe do esquema que chegou até nós e que assenta na relação automática que vê a reconciliação como sacramento para lavar a alma e a Eucaristia como celebração através da qual Cristo entra na alma lavada. Esta relação é um produto da teologia medieval. O Concílio de Trento diz que a Eucaristia perdoa a pena devida ao pecado, mas não o pecado. Além disso, dispõe o crente para o sacramento da penitência. A Eucaristia perdoa a pena dos pecados por mais graves que sejam [Denz. 940].

Segundo o Concílio de Trento, os méritos do sacrifício de Jesus na cruz são aplicados aos crentes no sacrifício da missa. Esta aplicação faz-se mediante a acção dos sacerdotes (Denz. 940). Além de acção de graças e louvor, o crente deve acreditar que a missa é um sacrifício propiciatório (Denz. 950).

No século XVIII, Bento XIV reafirma a doutrina de Trento, dizendo que a missa é um sacrifício propiciatório e pode ser oferecida por vivos e defuntos (Denz. 1469). Já no século XV, o Concílio de Florença tinha afirmado que a missa é útil para os que estão no Purgatório (Denz. 693). Pio XI diz que o Cristo que se ofereceu na cruz está continua e permanentemente a oferecer-se como vítima na Eucaristia (Denz. 2195). O sacrifício da missa é útil para os defuntos porque perdoa a pena temporal do pecado (Denz. 940, 950).

Aplicado aos vivos, perdoa os pecados veniais, a pena temporal devida ao facto de se ter pecado. Além disso previne ainda contra possíveis pecados mortais (Denz. 875, 887). Esta visão levou à contabilização das missas, a fim de se saber quantos sacrifícios se iam aplicar ou se tinham aplicado por um determinado defunto. O Novo Testamento não oferece fundamento a esta leitura sacrificial da Eucaristia.

Na verdade trata-se de uma visão mágica que faz da Eucaristia um culto que realiza de maneira automática a libertação dos que estão em estado de purgatório, levando-os para o Céu. São Paulo é muito claro neste ponto. Os judeus tiveram a sua eucaristia, pois comeram um pão do Céu e este já corporizava o Cristo Salvador que viria salvar a Humanidade. No entanto, a maior parte destes judeus não agradou a Deus e não chegou à meta que era a terra prometida. A nossa meta é o Reino. Não pensemos que, por termos o baptismo e a Eucaristia, diz São Paulo, já temos o Reino dos Céus automaticamente assegurado (1Cor 10, 1-6).

Desde os primórdios que a Igreja ora e celebra em comunhão com os falecidos. Esta prática, no entanto, pressupunha que a oração e a celebração da Fé leva os crentes a fazer o bem em comunhão com os falecidos. Sempre que fazemos o bem, estamos a realizar possíveis recebidos dos outros. Como sabemos, sempre que fazemos o bem estamos a humanizarmo-nos e a inscrever possibilidades de humanização naqueles que se cruzam connosco na vida. Estamos também a superar ritmos negativos que os falecidos possam ter deixado na história em consequência das suas recusas de amor.

Além disso, ao fazer o bem estamos a dizer sim aos apelos que o Espírito Santo provoca no interior da nossa consciência. Com efeito, sempre que fazemos o bem já estamos a dizer sim aos apelos que o Espírito Santo faz do interior da nossa consciência. Como vemos, o bem que fazemos tem alcance universal.

É factor de comunhão amorosa tanto com os vivos como com os defuntos. Os cristãos proclamam o Reino Deus que é a comunhão universal dos Santos cujo coração é a Santíssima Trindade. Só o crente pode compreender o alcance universal da comunhão dos santos. Esta sabedoria adquire-se em contexto comunitário de oração, partilha da Palavra de Deus e celebrações da fé.

b) A Boa Nova da Eucaristia

1-Memória e Proclamação da Salvação de Deus


As celebrações sacramentais são linguagem do projecto salvador de Deus a acontecer na história. Isto quer dizer que explicitam o dom da salvação de Deus realizado em Cristo e a acontecer nas diversas situações da vida. Cada sacramento aponta para o acontecimento salvador realizado em Jesus Cristo e a concretizar-se pela acção do Espírito Santo no concreto das várias situações da vida.

A Eucaristia fala essencialmente da comunhão do Reino. Cristo é o anfitrião que convida para o Banquete da Comunhão Universal. Na Festa da Vida Eterna todos têm o essencial e ninguém está preocupado com os excedentes. Tudo circula. Na Comunhão do Reino de Deus cada pessoa é um ponto de encontro, partilha, diálogo e reciprocidade amorosa. O Espírito Santo é o princípio que anima as relações amorosas e optimiza os vínculos familiares da comunhão universal humano-divina.

A Eucaristia está directamente ligada com o acontecimento de Cristo. É o memorial da Ceia do Senhor. Na Eucaristia, a comunidade proclama o amor incondicional de Jesus Cristo que foi fiel até à morte. Foi esta a razão pela qual Deus o ressuscitou, pois não pode permanecer na morte quem gasta a sua vida pelo amor.

A eucaristia, à luz do Novo Testamento, é uma refeição e um memorial que antecipa o banquete da Festa do Reino de Deus. Não se trata, portanto de um culto sacrificial fundamentado na morte de Jesus Cristo, a vítima que torna Deus favorável para com o homem pecador. Na verdade o que agradou a Deus não foi a morte violenta de Jesus, mas sim a sua fidelidade incondicional.

Como sabemos, os pais humanos têm a capacidade de perdoar sem exigir a morte violenta dos filhos. Os evangelhos dizem que o coração de Deus Pai é muito melhor do que o coração dos pais humanos: “Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem” (Mt 7, 11).

Na verdade, Deus não precisa do sofrimento humano para ser generoso para a Humanidade. O que agradou a Deus foi a generosidade e fidelidade incondicional de Jesus à missão que o Pai lhe confiou. Um dos aspectos desta missão era a reconciliação da Humanidade com Deus (2 Cor 5, 17-19).Outro aspecto fundamental da missão que Deus confiou ao seu Filho foi a edificação da Família de Deus, a qual não assenta nos laços do sangue mas sim nos laços do Espírito Santo. Ainda que me matem, dizia Jesus ao Pai, não deixarei de ser fiel à vontade do meu Pai. “Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (Jo 6, 38). Ou então: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar o seu plano” (Jo 4, 34). As opções, as atitudes e escolhas de Jesus são uma afirmação incondicional de fidelidade: Ainda que me maltratem, não te negarei. Mesmo que me persigam não deixarei de anunciar o teu plano salvador.

A eucaristia é a memória deste Jesus que anunciou, corajosamente o plano salvador de Deus. Perseguiram-no e não deixou de a Palavra do pai. Mataram-no e não abandonou a missão que o Pai lhe confiara. Foi esta fidelidade incondicional que agradou a Deus e não a morte violenta que sofreu, pois esta foi um pecado. Como sabemos, a injustiça e o pecado nunca agradam a Deus.

A Eucaristia é memória do melhor que um homem pode realizar: dar a vida pela causa de Deus e dos irmãos. Como memória do Jesus que se fez dom total, a Eucaristia alerta para o facto de que ninguém pode ser feliz sem estar disposto a fazer algo pela felicidade dos outros. Por outras palavras, não é possível atingir a plenitude da vida imortal sem gastar a vida mortal pelo amor.

Na Eucaristia Jesus identificou-se com o pão partido e distribuído. Isto quer dizer o alimento da nossa Vida Nova é o Espírito do Senhor ressuscitado que nos alimenta e fortalece. A partilha, a fidelidade, o dom de si e o acolhimento dos irmãos são condições fundamentais para a comunhão agápico-eucarística do Reino de Deus.

A Eucaristia é, portanto, a memória de Cristo e proclamação da força da salvação a acontecerem nós pelo Espírito que o Senhor ressuscitado nos comunica. A comunhão com Cristo, no Espírito Santo, não acontece magicamente pelo simples facto de comermos o pão consagrado. A comunhão com Cristo ressuscitado passa pela linguagem do pão e do vinho a circular. O encontro com Cristo passa pela capacidade de eleger o outro como próximo.

O contexto adequado para a celebração da Eucaristia é a comunidade cristã. Como vemos, a memória, na Eucaristia, é uma interpelação profética. Recorda um acontecimento passado que é fermento de um mundo novo e nos interpela no sentido de nos empenharmos na tarefa da Nova Aliança inaugurada por Jesus. Comungar com o Jesus que se recorda na Eucaristia, portanto, é decidir-se a fazer escolhas semelhantes às Suas.

Por outras palavras, a Eucaristia é um memorial que nos insere num projecto em marcha na história. Ninguém se recorda, pessoalmente, de Cristo, pois ninguém o conheceu enquanto viveu na história. Só o Espírito Santo conheceu plenamente os compromissos históricos, pois foi ele que os inspirou. Agora, na Eucaristia, é este mesmo Espírito Santo que nos convida a continuar a sua missão.

São Paulo diz que ninguém é capaz de saber quem é o Senhor a não ser pelo Espírito Santo (1Cor 12, 3). A Eucaristia celebrada em contexto comunitário é, pois, uma memória viva de Jesus Cristo: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22, 19). A memória de Cristo vivida pela comunidade animada pelo Espírito Santo é compreensão e proclamação do ser e do agir de Jesus Cristo.

Por outras palavras, o Espírito Santo é a testemunha que proclama no coração dos crentes o ser de Jesus ressuscitado e a sua força salvadora a actuar no mundo. A Eucaristia é um contexto privilegiado no qual os crentes são capacitados pelo Espírito Santo para anunciarem aos homens o projecto da Comunhão Universal do reino de Deus. Trata-se de uma memória com horizontes de futuro, isto é, do que falta à Humanidade para ser uma Comunhão Universal de irmãos e filhos do mesmo Deus Pai.

Celebrada com estes horizontes e na abertura à dinâmica do Espírito Santo, a Eucaristia é um fermento que faz levedar, através dos crentes, o mundo novo que Deus sonhou para a Humanidade. Celebrada e vivida na dinâmica do Espírito de Cristo ressuscitado, a Eucaristia é um alimento que gera crentes adultos na fé. Ao mesmo tempo é alfobre de profetas que anunciam o Reino de Deus e denunciam as forças tenebrosas que se opõem à emergência da Nova Humanidade.

Segundo o evangelho de João é exactamente isto que Jesus diz aos discípulos após a Eucaristia: “Quando vier o Espírito da Verdade, guiar-vos-á para a verdade total. Não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido (no diálogo entre o Pai e o Filho). Ele anunciar-vos-á o que há-de vir e glorificar-me-á, pois há-de receber do que é Meu para vo-lo anunciar” (Jo 16, 13-14). A redução da Eucaristia a um culto sacrificial matou esta dinâmica da Eucaristia e fez dos cristãos consumidores e cultos e sacrifícios para salvar as almas dos defuntos.

2- A Presença Real de Cristo na Eucaristia

2.1- A Presença é Relacional

Enquanto celebrou a ceia pascal com os discípulos, Jesus estava presente de modo relacional, comunicando-lhes a Palavra. Ao mandá-los repetir a Ceia Pascal, Jesus estava convencido de que a morte que se avizinhava o ia reduzir ao silêncio.

O mandato da repetição da Eucaristia, é a prova de que Jesus estava seguro de que Deus o ia ressuscitar na sua missão messiânica. Quando Jesus se identificou com o pão e o vinho não pretendeu realizar uma operação metafísica de mudança de essências ou substâncias. Pelo contrário, Jesus quis exprimir a maneira como continuaria a estar com os discípulos, mesmo após a sua morte. Por outras palavras, ao pronunciar as palavras da consagração, Jesus não saltou do lugar onde estava para dentro do pão e do cálice.

O pão e o vinho a circular por todos corporizavam algo profundamente significativo para os discípulos, isto é, a comunhão vital com Cristo mediante o Espírito Santo. Isto era expresso em hebraico por comunhão na “basar-nefesh”, isto é, comunhão orgânica que é fonte de vida e fecundidade, como diz o evangelho de São João: “Permanecei em mim que eu permanecerei em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dará muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).

O evangelho de São João, como vemos, exprime de maneira profundamente feliz o sentido da Eucaristia como sacramento da união orgânica a Cristo Salvador. O termo bíblico “basar”, isto é, carne, não corresponde ao conceito grego de “sarx” que é o nosso conceito de carne. “Basar”, no mundo bíblico, significa o homem como interioridade estruturalmente relacional e genealogicamente ligada a todos os homens.

A humanidade forma um todo orgânico e genealogicamente. É este o sentido das genealogias bíblicas. Lucas insere Jesus no todo da humanidade. Elabora uma genealogia que vai até Adão, a fim de situar Jesus na comunhão orgânica da Humanidade inteira (Lc 3, 23-38). A genealogia de Mateus vai até Abraão para situar Jesus na comunhão orgânica do povo bíblico (Mt 1, 1-17). O varão, sozinho, não está completo. Ele faz uma unidade orgânica com a mulher. Os dois fazem uma unidade orgânica, isto é, uma só carne (Gn 2, 24). No mundo bíblico, “basar-nefesh” significa comunhão no Espírito de Deus. Nefesh significa o homem como interioridade animada, dinamizada e modelada pelo sopro vital de Deus (Gen 2, 7).

São Paulo passa do pão e do vinho da Eucaristia para a comunidade Corpo de Cristo é a comunidade que, por isso, come do mesmo pão partilhado (1Cor 10, 16-17). Cada crente é um membro deste Corpo (1Cor 12, 27). O princípio de incorporação e interacção é o Espírito Santo, por isso, diz São Paulo, fomos baptizados num mesmo Espírito a fim de formarmos um só Corpo (1Cor 12, 13).

A grande dificuldade aconteceu na tradução do termo “basar” para grego. Para o mundo grego, a “sarx” são tecidos e células. Comer a carne de Cristo, segundo este conceito não podia deixar de ter uma conotação antropofágica. É evidente que não era nada disto que Cristo tinha na Sua mente.

O evangelho de São João acentua que a presença real de Cristo é relacional e não tem nada de biológico. O Cristo da Eucaristia é o Senhor ressuscitado, diz o quarto evangelho e nada tem de biológico (Jo 6, 62-63). A biologização da ressurreição da carne da carne de Cristo na Eucaristia é produto da cultura grega.

São Paulo ao falar do corpo de Cristo ressuscitado insiste em que se trata de um corpo espiritual, não biológico (1Cor 15, 42-47). Termina o seu discurso sobre o corpo espiritual de Cristo ressuscitado dizendo que a carne e o sangue, como realidades biológicas, não podem tomar parte no Reino de Deus (1Cor 15, 50). Só o que nasce do Espírito Santo é pneumático, diz o evangelho de São João. Por isso para tomar parte na comunhão orgânica com Cristo é preciso nascer de novo pelo Espírito Santo (Jo 3, 6).

Quando a teologia medieval afirma que o pão e o vinho consagrados contêm o corpo que nasceu de Maria e morreu na cruz está a Biologisar a fé. A presença real de Jesus, na Eucaristia, é relacional e acontece no interior dos crentes mediante o Espírito Santo. O pão da Eucaristia corporiza, isto é, torna-se mediação de encontro com o Senhor ressuscitado.

O Espírito Santo é uma pessoa que tem o jeito de ser princípio animador de relações e vínculo de comunhão orgânica. Por outras palavras, o Espírito Santo é o coração que anima o encontro e a comunhão com o Senhor ressuscitado. São Paulo insiste em que não pode haver comunhão com Cristo ressuscitado a não ser pelo Espírito Santo (1 Cor 12, 3). O Espírito Santo, diz o Apóstolo, é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Como vemos, a presença real de Jesus, na Eucaristia, é relacional. Além disso, a densidade desta comunhão não é separada da comunhão com os irmãos. A presença de Cristo na Eucaristia não significa um retorno ao estado de pré-ressuscitado. A presença de Cristo na Eucaristia não está encerrada nas coordenadas da biologia, nem está encerrada nas coordenadas da espácio-temporalidade. O Senhor ressuscitado, como todos os ressuscitados, está nas coordenadas da plenitude com Deus: equidistância e omnipresença. Eis a razão pela qual o Senhor ressuscitado pode estar presente a todas as comunidades cristãs dispersas nos diversos quadrantes da terra.

Quando Jesus, nas vésperas da sua morte, celebrou a Eucaristia com os discípulos, só podia haver aquela Eucaristia, pois Jesus ainda não estava nas coordenadas da Universalidade. Após a ressurreição de Jesus já podia haver milhares de Eucaristias ao mesmo tempo, pois o Senhor já está nas coordenadas da Universalidade e da equidistância. Basta que dói ou três se reúnam em nome do Senhor, a fim de o Espírito Santo ter condições para interagir em contexto comunitário. Por outras palavras, o corpo eucarístico de Cristo, precisa do corpo comunitário de Jesus, espaço adequado para acção do Espírito Santo. A comunhão de dois ou mais reunidos em nome do Senhor é o espaço adequado para a acção do Espírito Santo.

A presença real de Jesus, na celebração da Eucaristia acontece, pois, em dinâmica relacional. É mediatizada pela comunidade e corporizada pelo pão e o vinho. O Senhor ressuscitado já transcendeu as coordenadas exteriores de ordem biológica, psíquica, rácica, cultural e espácio-temporal. O ser exterior, individual, é a matriz em cujo seio emerge o ser interior, isto é, pessoal-espiritual.

Pela morte o ser interior liberta-se da matriz em cujo seio emergiu, isto é, do ser exterior. O nosso ser interior, mediante o acontecimento da morte, liberta-se das limitações do nosso ser interior como o pintainho se liberta das coordenadas limitativas do ovo. Após a morte, o homem fica nas coordenadas da plenitude: equidistância e omnipresença em tudo e em todos. São estas as coordenadas da comunhão do Reino de Deus.

É exactamente por esta razão que, após a morte, Cristo se torna o medianeiro universal da salvação, isto é, o portador do Espírito Santo para os homens (Jo 7, 37-39). Enquanto Jesus não fosse, diz o evangelho de São João, o Espírito não viria: “Digo-vos a verdade: é conveniente para vós que Eu vá. Se eu não for, o Consolador não virá a vós. Quando eu for, enviar-vo-lo-ei” (Jo 16, 7).

Como disse acima, na noite da ceia pascal, não podia haver mais que aquela Eucaristia, devido ao facto de Jesus ainda não estar nas coordenadas da universalidade e equidistância. Após a ressurreição, pelo contrário, começa a ser reconhecido em diversas experiências e em diversos sítios diferentes (Lc 24, 13-35).

O corpo é mediação de encontro. Mas os encontros profundos e humanizantes transcendem sempre a corporeidade. Até o encontro amoroso de tipo sexual transcende a corporeidade. De facto, sem esta dimensão da interioridade amorosa a sexualidade torna-se frustrante. Por outras palavras, é no interior de si que o marido encontra a esposa e esta o marido. As pulsões, as manifestações de ternura e todas as expressões corporais são mediação para se operar este encontro. Cristo ressuscitado não pode ser objectivado e limitado a um frio espaço físico.

2.2- Dinamismo da Presença Real

Cristo ressuscitado é o coração da dinâmica universal da Humanidade com Deus. Fazendo parte da interioridade máxima do Universo com Deus e os ressuscitados, Jesus Cristo não precisa de se deslocar para estar presente a tudo e a todos. Além disso, a sua presença aos seres humanos acontece de maneira interactiva.

O princípio animador desta interacção amorosa da presença do Cristo Eucarístico connosco, é o Espírito Santo, tal como ele prometeu: “Mas o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome ensinar-vos-à tudo e há-de recordar-vos tudo o que vos disse” (Jo 14, 26). A espiritualidade eucarística tradicional deformou esta dinâmica da presença real de Jesus na Eucaristia. Basta recordar as referências ao prisioneiro solitário do sacrário! Estas afirmações pretendiam difundir a devoção eucarística dos fiéis mas acabaram por deformar a verdade da Eucaristia.

É mais importante proclamar que Cristo ressuscitado é o coração da comunhão humano-divina do Reino de Deus. Está no Céu à direita do Pai, pois ele é o único medianeiro entre Deus e os homens (1Tim 2, 5). Pela Encarnação, o Espírito Santo cria uma interacção directa e recíproca entre a interioridade humana de Jesus e a interioridade da segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

O Logos não teve de Se deslocar para a Encarnação acontecer. Ele está omnipresente, pois está em coordenadas de equidistância: a interioridade máxima de todas as coisas. A interioridade do Logos e a interioridade humana de Jesus formam um só Cristo, não por andarem colados, mas porque estão em permanente interacção e reciprocidade. É assim também que o Pai e o Filho fazem um (Jo 10, 30).

Como homem, Jesus esteve sempre interiormente em sintonia com o Logos mediante o Espírito Santo. No momento da Sua morte-ressurreição, torna-se omnipresente à comunhão humana universal. A humanidade de Jesus é, de facto, a mediação de comunicação ou difusão do Espírito. Com efeito, a nossa comunhão com a Santíssima Trindade é mediatizada pela humanidade de Jesus.

É exactamente isto o que significa fazer um com Cristo mediante a comunhão no Espírito: “Não sabeis que aquele que se junta a uma prostituta forma com ela uma só carne? Porque os dois serão uma só carne, como diz a Escritura. Aquele porém que se une ao Senhor ressuscitado constitui um só Espírito com Ele” (1Cor 6, 16-17).

Como vemos, Paulo explicita de maneira feliz o significado da comunhão com Cristo. É exactamente esta a comunhão com Cristo corporizada na Eucaristia. É esta também a perspectiva de São João no relato da oração de Jesus após a Eucaristia: “Para que todos sejam só um, como tu, Pai, estás em mim e eu em Ti. Faz que também eles estejam em Nós, a fim de o mundo acreditar que Me enviaste” (Jo 17, 21).

A comunhão humana com Jesus Cristo, expressa de modo singular na Eucaristia, ultrapassa a linguagem sacramental. Os sacramentos são isso mesmo: sinal, linguagem, proclamação de uma realidade que os transcende. No Reino de Deus, não existem sacramentos, pois as pessoas humanas já estão em posse da realidade que os sacramentos explicitam. Mediante a linguagem sacramental, o crente saboreia, portanto, a presença do Senhor ressuscitado no coração da comunhão humana universal.

A Eucaristia não é um modo mágico de os cristãos terem a exclusividade do encontro com Cristo ressuscitado. Na Eucaristia, vivem e celebram este encontro em densidade teologal ou revelacional, a fim de ficarem aptos a anunciar a comunhão de toda a Humanidade com Deus através de Jesus Cristo e pela acção maternal do Espírito Santo. Os cristãos não têm o monopólio da comunhão com Deus. Mas são a mediação da revelação do plano de Deus para o mundo.

Por outras palavras, o pão e o vinho consagrados são o corpo de Cristo para a comunidade dos crentes, tal como a comunidade é corpo de Cristo para o mundo. Ser corpo do Senhor, como vimos, significa ser mediação de encontro com e comunhão com Cristo ressuscitado.


3-A reserva eucarística

3.1-A Reserva Como Mediação de Encontro

A reserva da Eucaristia prolonga a linguagem da celebração sacramental. É o sinal de que a comunhão e o encontro com o Senhor ressuscitado também são para os que não puderam estar na celebração sacramental. A primeira função da reserva é ser mediação de comunhão com Cristo para os ausentes, particularmente os doentes.

O portador da reserva não deve entender-se como o que leva Cristo aos doentes. O Senhor já lá está! Pelo contrário, o portador da reserva é uma mediação do Espírito Santo para que a dinâmica celebrativa da Eucaristia aconteça também para os ausentes. A sua missão não é apenas levar a hóstia para que o doente comungue Jesus de modo mágico. O ministro que leva a comunhão aos doentes deve ser o portador da Palavra que foi proclamada na celebração. Na medida do possível, o ministro deve ajudar o doente a reviver o que a comunidade experimentou na celebração da Eucaristia.

Deste modo, os doentes podem sentir que estavam presentes e tinham lugar na celebração realizada. A comunidade envia um mensageiro para que este leve uma síntese do que foi vivido na celebração comunitária.

3.2-O culto da reserva

Não existem duas Eucaristias, isto é, a celebração sacramental e a reserva. Existe uma só Eucaristia, a qual é uma celebração comunitária da Fé. A reserva, no entanto, tem a missão de prolongar o discurso da celebração Eucarística. Eis a razão pela qual a reserva merece exactamente o mesmo respeito que merece a celebração litúrgica.

Entre uma celebração e outra, a reserva pode exercer, para os crentes, uma mediação de reencontro com o Senhor reencontrado na celebração eucarística. Face à reserva, o crente pode reviver a dinâmica vivida e experimentada na celebração. Este encontro, no entanto, acontece no íntimo do crente, não no exterior.

Por outras palavras, a reserva é corpo de Cristo, isto é, mediação para que o crente se encontre com Cristo no seu coração. O Espírito Santo é capaz de compor sinfonias maravilhosas no interior do crente que se situa, em atitude de oração face à reserva da Eucaristia. As principais notas musicais de que o Espírito dispõe para compor essa sinfonia são as adquiridas na própria celebração eucarística.

Com efeito, mediante o Espírito Santo, o crente pode experimentar um encontro maravilhoso com Cristo ressuscitado diante da reserva. Quando a devoção é iluminada por uma fé esclarecida torna-se conhecimento, apaixonamento, confronto e imitação da realidade que se conhece. Quando a devoção caminha por si, sem a fé teologal, pode cair nas atitudes e distorções mais ridículas.

É importante ter presente que o encontro com Cristo mediante a reserva da Eucaristia não acontece dentro do sacrário. É no mais íntimo do coração do crente que acontece este encontro, graças à acção do Espírito Santo que é a ternura maternal de Deus derramada nos nossos corações (cf. Rm 5, 5).

Cristo ressuscitado já transcendeu as coordenadas espácio-temporais, pelo que já não pode estar delimitado a qualquer espaço ou lugar sagrado. A única porta aberta para a transcendência é a nossa interioridade que, pelo facto de ser pessoal, já transcende as estruturas do Cosmos.

Como sabemos, Deus é pessoas. Do mesmo modo, o homem está a realizar-se como pessoa. A pessoa é, pois, um ser com interioridade livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa. Esta interioridade a que a Bíblia chama o coração é realmente o ponto de encontro amoroso com as pessoas humanas e as divinas.

As pessoas só com seres pessoais podem entrar em reciprocidade de comunhão amorosa. A reserva da Eucaristia não é uma maneira mágica de reter Cristo na espácio-temporalidade. Ele está para sempre nas coordenadas de Deus que são interioridade máxima equidistante e omnipresente a tudo e a todos.

As palavras da consagração não realizam uma reacção físico-química no sentido de alterar os átomos do pão e do vinho. É importante ter presente que a reserva não constitui o núcleo do Evangelho da Eucaristia. O Centro da mensagem eucarística é a comunhão de Deus com a Humanidade a acontecer na marcha da história por Jesus Cristo que é o único medianeiro entre Deus e o Homem (1 Tm 2, 5).

O princípio animador desta comunhão é o Espírito Santo que Cristo, ao ressuscitar, comunicou de modo intrínseco à Humanidade (Jo 7, 37-39). É o Espírito Santo que, no coração das pessoas, edifica de modo gradual e progressivo o Reino de Deus a constituir-se na história e a transcendê-la constantemente.

Mais que objecto estático de culto, a reserva é uma interpelação a continuar a dinâmica da Eucaristia no dia a dia da vida mediante atitudes semelhantes às atitudes de Jesus. Por outras palavras, a reserva da Eucaristia explicita a presença de Cristo a acontecer na marcha da humanização das pessoas que optam pelo amor. Esta leitura, no entanto, é percebida apenas pelos crentes. Por isso eles são o corpo de Cristo, isto é, mediação para que o mundo se possa encontrar com Cristo ressuscitado.

A Linguagem Bíblica da Eucaristia


a) A Eucaristia, Sacramento da Nova Humanidade
b) A Eucaristia Como Sacramento da Graça
c) A Eucaristia Como Sacramento da Água Viva
d) Eucaristia e a Árvore da Vida
1) A árvore que dá a Vida Eterna
2) A Vida Nova em Cristo
e) Eucaristia e Nova Aliança
f) A Eucaristia Como Memória



a) A Eucaristia, Sacramento da Nova Humanidade

O sacramento da Eucaristia explicita e corporiza a Nova condição da Humanidade unida a Cristo e incorporada na comunhão da Santíssima Trindade. A comunidade que celebra forma o corpo de Cristo. Cada membro da comunidade é, portanto, um membro do Corpo de Cristo. Eis a razão pala qual todos comem do mesmo pão, acrescenta São Paulo (1 Cor 12, 27).

A Eucaristia explicita a comunicação da Vida Nova que nos vem de Cristo Ressuscitado. O corpo Cristo que nos alimenta e comunica a vida Nova é o corpo de Cristo ressuscitado, não o corpo biológico do Cristo histórico. A Carne e o Sangue de Cristo ressuscitado, diz o evangelho de São João, é o Espírito Santo (Jo 6, 62-63).

É esta a carne e o sangue que nos liberta da morte e nos confere a vida Eterna (Jo 6, 54-56). Jesus venceu a morte no próprio acto de morrer. No momento em que morreu o último elemento do que em Cristo era mortal, aquilo que nele era imortal está totalmente glorificado e assumido na comunhão das Santíssima Trindade.

Ao ressuscitar Cristo difundiu também para nós a vitória sobre a morte: O Espírito Santo. A Carta aos Hebreus diz que Cristo, ao ressuscitar, se tornou o nosso Sumo-Sacerdote, isto é, o medianeiro da acção salvadora de Deus a acontecer no nosso coração (Heb 7, 11-16). No nosso interior, o Espírito Santo é o penhor e a garantia da vitória da vida sobre a morte em cada pessoa humana. O Espírito Santo que ressuscitou Cristo, diz São Paulo, é quem nos ressuscita também a nós.

É esta a Vida Nova em Cristo! Eis o que a Segunda Carta aos Coríntios diz a este respeito: “Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho. Tudo isto nos vem de Deus que nos reconciliou consigo em Cristo, não levando mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19).

Pela consagração, o pão eucarístico torna-se o corpo de Cristo, isto é, mediação de encontro com o Senhor. Como sabemos, o nosso corpo é mediação de encontro com os outros. Podemos dizer que o pão e o vinho consagrados estão para a comunidade como a comunidade está para o mundo.

O pão e o vinho consagrados são mediação de encontro com Cristo para os crentes. Para os de fora, o pão e o vinho consagrados não significam nada. Os não crentes só podem encontrar-se sacramentalmente com Cristo através dos membros da comunidade, os quais são corpo de Cristo e, portanto, mediação de encontro com o Senhor.

Este encontro, no entanto, acontece sempre no interior das pessoas que comunicam com os crentes. Evangelizar não significa levar Cristo aos outros. Quando o evangelizador chega junto do não crente para o evangelizar, Cristo ressuscitado já está no seu coração. O papel do evangelizador é anunciar a Palavra e testemunhar a sua Fé. Fazendo isto, está a possibilitar aos não crentes um encontro com Cristo ressuscitado que, no seu íntimo, está a actuar pela acção do Espírito Santo

São Pedro, na casa de Cornélio ficou estupefacto ao verificar que, mediante o anúncio da Palavra, o Espírito Santo começou a actuar no coração dos não crentes: “Pedro estava ainda a falar, quando o Espírito desceu sobre todos os que ouviam a Palavra (…). Pedro, então, declarou: “Poderá alguém recusar a água do baptismo aos que receberam o Espírito Santo como nós? E ordenou que fosse baptizados” (Act 10, 44-48). A reserva da Eucaristia continua a dinâmica de encontro e comunhão com Cristo. Esta comunhão e encontro, no entanto, dão-se sempre no coração dos crentes, nunca fora.


b) A Eucaristia como Sacramento da Graça

A graça é a vida nova que emerge no coração da pessoa humana a partir de uma relação amorosa com Deus. Esta vida nova significa a vida humana optimizada graças à interacção que acontece entre o pólo divino e o pólo humano. Nesta relação humano-divina, Deus surge para o Homem como dom incondicional, isto é, graça total. Por seu lado o Homem surge para Deus como ser engraçado, isto é, capaz de acolher o dom gratuito de Deus e de responder em atitude de reciprocidade.

Por outras palavras, a pessoa humana é capaz de receber a gratuidade de Deus e responder agradecidamente. A gratidão perante o dom de Deus faz parte da relação da graça, pois oferece condições a Deus para se dar de novo e com matizes mais ricos devido à transformação que o dom de Deus provoca no ser humano quando este o acolhe.

A doação de Deus é infinitamente perfeita e totalmente incondicional. Mas a aceitação da pessoa humana é limitada e condicionada pela fragilidade, pelo pecado e pelas limitações humanas. Deus dá-se sempre em clima de aliança, isto é, de reciprocidade. Isto quer dizer que Deus se dá de modo adequado a cada pessoa. A aceitação por parte da pessoa condiciona ou optimiza o dom de Deus. Como sabemos, o amor propõe-se, nunca se impõe.

A graça, portanto, é uma vida nova. Por si, o ser humano só pode viver as relações de comunhão a nível humano e humanizante. Mas pelo mistério da Encarnação a pessoa humana pode relacionar-se de modo orgânico com a própria divindade potenciando, deste modo, a sua própria plenitude e felicidade.

Como sabemos, a plenitude da pessoa não está na pessoa isolada, mas na pessoa em relações de comunhão. Reduzida a si, a pessoa está em estado de perdição ou malogro total. Por outras palavras, a pessoa só se encontra e possui plenamente na comunhão com outras pessoas. Quando estas pessoas são divinas, então a plenitude da pessoa é optimizada. Vai além da mera medida humana e torna-se humano-divina.

A Divindade é constituída por três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. A Humanidade é constituída por muitos biliões de pessoas. A plenitude das pessoas divinas encontra-se nessa comunhão infinitamente perfeita do pai, com o Filho no Espírito Santo. Apesar de se tratar de uma comunhão de três pessoas, Deus é apenas um. A plenitude é a comunhão Trinitária.

Deus sonhou para a Humanidade uma plenitude semelhante à da própria divindade. Apesar de as pessoas humanas não serem iguais às divinas são-lhe, no entanto, proporcionais. Por outras palavras, as pessoas humanas são capazes de em reciprocidade amorosa com as pessoas divinas embora, embora a capacidade de acolher e agradecer das pessoas humanas não chegarem à densidade e perfeição infinita das pessoas divinas.

A expressão máxima da doação incondicional e gratuita de Deus aconteceu no mistério da Encarnação. A Eucaristia corporiza a dinâmica da Graça cuja fonte é Jesus Cristo. Ele é a cepa da videira cujos ramos somos nós. Os ramos só têm vida e são fecundos se estiverem unidos à cepa. Sem Cristo somos ramos estéreis que não têm garantia de vida eterna (Jo 15, 4-5). A seiva que vem da videira para os ramos é o Espírito Santo.

Eis a razão pela qual São Paulo diz que todos os que são movidos pelo Espírito Santo são filhos e herdeiros de Deus Pai e são co-herdeiros com Cristo (Rm 8, 14-15). Noutra passagem da mesma carta, São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

c) A Eucaristia Como Sacramento da Água Viva

A Eucaristia é um sacramento. Os sacramentos são celebrações da Fé que corporizam, visibilizam e explicitam uma realidade que os transcende. Os sacramentos não são a realidade que explicitam, mas a sua corporização. Isto quer dizer que os sacramentos são uma mediação privilegiada de encontro com a realidade que proclamam.

No Reino de Deus já não há sacramentos, mas apenas a realidade que eles explicitam. No Céu temos todos acesso à realidade de Deus que é a plenitude da nossa salvação em Jesus Cristo. A salvação consiste numa vida nova que deriva do facto de a pessoa humana ser assumida e incorporada na Família da Santíssima Trindade. O princípio animador desta relação familiar é o Espírito Santo, princípio animador de relações e vínculo de comunhão orgânica. São Paulo diz que é pelo Espírito que somos incorporados na Família de Deus (Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7).

Jesus disse à Samaritana que o dom da Salvação acontece no interior da pessoa, graças à acção da Água Viva que ele tem para dar. Isto significa que Jesus é o portador da plenitude da salvação que acontece pelo dom do Espírito Santo: “Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é aquele que te está a pedir água, tu é que lhe pedirias e ele dar-te-ia Água Viva” (Jo 4, 10). O profeta Jeremias acusa o povo infiel por este voltar as costas à fonte da Água Viva que é o Senhor Deus. Para o Evangelho de João, a Água viva é o Espírito Santo, o grande dom de Cristo ressuscitado (Jo 7, 39).

A Carta aos Romanos diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos e herdeiros de Deus: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes com medo, mas sim um Espírito de adopção graças ao qual clamamos “Abba”, papá. É o próprio Espírito que dá testemunho no nosso íntimo de que somos filhos de Deus. Se somos filhos, somos igualmente herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14-17).

São Paulo associa o Espírito Santo à Água da vida nova que nos vem de Cristo ressuscitado. Esta Água Vivificante é explicitada na água do baptismo: “Todos nós fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, tanto judeus como gregos, escravos ou livres. Todos bebemos de um mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13).

É pelo Espírito Santo que formamos essa união orgânica misteriosa que faz de nós membros de Jesus Ressuscitado. Referindo-se à Eucaristia, o evangelho de João diz que a carne e o sangue de Jesus Cristo ressuscitado é, no nosso íntimo, o alimento da vida eterna. Depois explicita melhor esta verdade afirmando que a carne e o sangue de Cristo é o dom do Espírito que nos é dado pela ressurreição de Jesus Cristo” (Jo 6, 62-63).

Em relação às dúvidas da Samaritana a propósito da Água Viva, Jesus diz-lhe que á Água Viva não é como a água do poço de Jacob, isto é, a antiga Aliança. A Água do poço de Jacob precisa de um balde (a multiplicidade de normas associadas à circuncisão). Além disso, a água do poço de Jacob, não mata a sede de modo definitivo: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da Água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pois esta Água converter-se-à nele em Fonte de água que dá a Vida eterna” (Jo 4, 13-14).

Esta Água como diz o evangelho de João no capítulo sétimo é o Espírito Santo que seria difundido no momento da ressurreição de Cristo: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim. Quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água Viva. Jesus disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que acreditassem nele. Com efeito, Jesus ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

No relato das Bodas de Caná, a água dos ritos de purificação é transformada por Jesus em vinho de qualidade superior (Jo 2, 6-10). A superioridade deste vinho significa a Nova Aliança, a qual é superior à Antiga, pois assenta no Espírito Santo e, portanto, é geradora de vida ao contrário da letra da antiga que é geradora de morte: “Cristo é quem nos capacita para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito. Com efeito, a letra mata, mas o Espírito dá vida” (2 Cor 3, 6).

Os que bebem a Água Viva tornam-se templos do Espírito Santo, a fonte geradora de vida eterna no nosso coração: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 2, 16). Esta Nova Aliança assente no Espírito Santo e não na letra da Lei foi profetizada como significando a plenitude dos tempos: “Dias virão em que firmarei uma Nova Aliança com a casa de Israel e a casa de Judá (…). Esta será a Aliança que estabelecerei depois destes dias com a casa de Israel, oráculo do Senhor: Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo (…). Perdoarei a todos as suas faltas e não mais me lembrarei dos seus pecados” (Jer 31, 31-34).

A Nova aliança tem como sede o coração humano que, para a Bíblia significa o centro mais nobre da interioridade espiritual humana. O coração é o núcleo a partir do qual emergem as decisões na linha do amor e da comunhão. É no coração que acontece a Salvação da Nova Aliança, pois o coração é o ponto de encontro da pessoa Deus mediante o Espírito Santo.

Eis como o profeta Ezequiel descreve a dinâmica da Nova Aliança no coração do Homem: “Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um Espírito Novo: Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei o meu Espírito no vosso íntimo, fazendo que sejais fiéis às minhas leis e preceitos” (Ez 36, 26-27). A Carta aos Efésios apela os crentes a não se embriagarem com vinho, mas a encher-se, pelo contrário, do Espírito Santo (Ef 5, 18). Com efeito, acrescenta a primeira Carta aos Coríntios, o Espírito Santo é a bebida da Nova Aliança (1 Cor 12,13).

Agora podemos compreender melhor as seguintes afirmações de Jesus no evangelho de João: “Se alguém tem sede venha a mim e beba” (Jo 7, 37). E ainda: “Aquele que beber da Água que eu lhe der nunca mais terá sede” (Jo 4, 14). O profeta Isaías, fala do Espírito Santo como sendo uma água que mata a sede e faz desabrochar a vida em abundância: “Vou derramar água sobre o que tem sede e fazer correr rios sobre a terra árida. Vou derramar o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes. Estes crescerão como plantas junto das fontes e como salgueiros junto das águas correntes” (Is 44, 3-4).

São Paulo, vendo esta acção do Espírito a actuar diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Os Actos dos Apóstolos vêem no acontecimento do Pentecostes o cumprimento da profecia do profeta Joel. Face ao entusiasmo dos apóstolos, os judeus acusam-nos dizendo que estão bêbedos. Os Apóstolos respondem dizendo que a sua exultação é a realização do oráculo do profeta Joel: “Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia. Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel” (Act 2, 15-16).

O profeta Joel via os tempos messiânicos como a plenitude do grande dom do Espírito Santo sobre a Humanidade inteira: “Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre toda a Humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão e os vossos anciãos terão visões. Também derramarei o meu Espírito sobre os vossos servos e servas naqueles dias” (Jl 3, 1-2).

O Espírito Santo é o Espírito de Cristo ressuscitado. Nós estamos organicamente unidos a Cristo na medida em que possuímos o Espírito Santo em nós: “Vós não estais sob o domínio da carne (lei judaica), mas sob o domínio do Espírito, pressupondo que o Espírito de Deus está em vós. Mas os que não possuem o Espírito de Cristo não lhe pertencem (…). E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos está em vós, ele que ressuscitou Jesus também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 9-11).

Como Água Viva, o Espírito Santo fecunda o nosso coração, capacitando-nos para dar frutos de vida eterna: “Eis os frutos do Espírito Santo: Amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio” (Ga 5, 22-23). São Paulo faz apelo aos Gálatas a acolherem o Espírito Santo no seu coração e a viverem de acordo com este princípio de vida fecunda: “Se vivemos no Espírito, sigamos também o Espírito” (Ga 5, 25). A vida eterna brota da dinâmica do Espírito Santo em nós, diz São Paulo na Carta aos Gálatas: “Quem semear na carne, da carne colherá a corrupção. Mas quem semear no Espírito do Espírito Santo colherá a vida eterna” (Ga 6, 9).

Como nascente da Água Viva, Deus é a Fonte da Salvação. O profeta Isaías via os tempos messiânicos como a idade de oiro em que todos têm acesso às fontes da salvação: “Este é o Deus da minha Salvação; estou confiante e nada temo, pois a minha força e o meu canto. Ele é a minha Salvação. Cheios de alegria tirareis água das fontes da Salvação (Is 12, 2-3). Eis a dinâmica da vida eterna a actuar na história e a conduzir-nos para a plenitude do Reino de Deus.


d) Eucaristia e a Árvore da Vida

1) A Árvore que dá a Vida Eterna

“O Senhor Deus disse: ‘eis que o Homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da Árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre. Então, o Senhor Deus expulsou Adão do Jardim do Éden (…). Depois de ter expulsado o Homem colocou a oriente do jardim uns Querubins com uma espada flamejante, a fim de guardarem o caminho da Árvore da Vida” (Gn 3, 22-24).

De acordo com a linguagem simbólica do livro do Génesis, havia no centro do Paraíso duas árvores importantes: a árvore do conhecimento do bem e do mal e a Árvore da Vida. A seiva da árvore do conhecimento do bem e do mal é o egoísmo que gera os frutos mortais da arbitrariedade e do caprichoso.

Os que comem o fruto desta árvore descobrem que estão nus, pois entraram no caminho do malogro e do fracasso. Com efeito, as pessoas que se alimentam do caprichoso e da arbitrariedade, não chegam a atingir a maturidade que dá frutos de consciência amadurecida, liberdade comprometida e amor gerador de fraternidade e comunhão.

Por seu lado, a Árvore da Vida faz germinar a Vida Eterna no coração dos que comem os seus frutos. O fruto da Árvore da Vida é a fidelidade à Aliança de Deus. No coração dos que comem este fruto começa a circular a seiva fecunda da Árvore da Vida, isto é, o Espírito Santo. No capítulo sexto, o evangelho de João faz uma leitura da Eucaristia à luz da Arvore da Vida: “Quem como e a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia” (Jo 6, 54). A carne e sangue de Jesus são o dinamismo vivo e vivificante de Cristo ressuscitado, isto é, o Espírito Santo: “Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).

Ao comer o fruto da árvore proibida, Adão descobriu que estava nu, isto é, totalmente impotente para se realizar e ser feliz. As pessoas que comem o fruto da Árvore da Vida, pelo contrário, descobrem que estão revestidas com a veste da Salvação: “E vi descer do Céu, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, preparada, qual noiva vestida e adornada para o seu esposo” (Apc 21, 2).

Por ter sido criado à imagem de Deus, o ser humano tem um coração faminto de plenitude, pois está talhado para comer o fruto da Árvore da Vida. Mas como só pedia ser livre optando, tinha de haver uma alternativa no Paraíso. Por isso ao lado da Árvore da Vida, Deus colocou a Árvore do conhecimento do bem e do mal.

Qualquer das árvores estava ao perfeito alcance do homem. Esta simbologia do livro do Génesis exprime de modo magnífico o que significa o livre arbítrio, ou seja a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal. O Senhor confiava no coração do Homem criado à imagem e semelhança da Divindade.

Mas o Homem cedeu à tentação e comeu o fruto errado. A tentação é sempre uma insinuação mental convidando o Homem a agir em sentido oposto à proposta de Deus. E eis que o Homem optou no sentido errado. Como consequência deste pecado, o Paraíso foi fechado, ficando fora do alcance de Adão. A Humanidade é introduzida por Adão no caminho do Malogro e do fracasso.

Como Deus é Amor infinito, não podia deixar de nos amar infinitamente. Por isso, através do mistério da Encarnação, o beijo divinizante de Deus à Humanidade, orientou de novo o Homem no sentido do projecto de Deus. E a salvação ficou ao nosso alcance. Na Sexta-feira Santa Jesus Cristo abriu o Paraíso e introduziu nele a Humanidade que o tinha precedido na história. Eis as palavras de Jesus para o Bom Ladrão: “Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).

Cristo é o rebento do tronco de Jessé e o renovo que brota das raízes deste tronco, a comunidade amorosa da Santíssima Trindade. De facto, Jesus Cristo não é apenas da raça dos homens. A sua realidade é humano-divina. Isto quer dizer que a raiz mais profunda do seu mistério é a própria comunhão da Trindade Divina (Jo 1, 12-14). Por isso, mediante o mistério da Ascensão, é incorporado na Família Divina, inserindo a Humanidade inteira nesta comunhão humano-divina.Em Jesus ressuscitado, portanto, passámos a fazer parte da Árvore da Vida, tornando-nos ramos ligados à cepa da Videira, Cristo, e às suas raízes que é a comunhão orgânica da Trindade Divina. Jesus abriu as portas do Paraíso à Humanidade e esta foi divinizada.

Deste modo podemos concluir que o relato paradisíaco do livro do Génesis não foi nunca realidade existente num princípio mítico, mas um projecto sonhado por Deus para a plenitude dos tempos: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho nascido de uma mulher (…), a fim de recebermos a adopção de filhos” (Ga 4, 4-6).

Jesus Cristo é o Novo Adão, a cabeça da Humanidade reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-19). É a Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna: “Quem come a minha carne a bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57). Mas São João tem o cuidado de acentuar que este mistério da comunhão orgânica com Cristo ressuscitado nada tem de antropofagia (Jo 6, 62-63).

A carne e o sangue de Cristo são a seiva da Árvore da Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo. Com Jesus, a Humanidade entra no Paraíso e é amorosamente assumida na família de Deus sendo, por consequência, divinizada. O Paraíso, sonhado pelo livro do Génesis, torna-se finalmente realidade. Os que são animados pela seiva da Árvore da Vida, o Espírito Santo, passam a participar da Vida Eterna, sendo organicamente incorporados na Família de Deus, como diz São Paulo:

“Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes no temor. Pelo contrário, recebestes um Espírito de adopção graças ao qual clamamos “Abba”, isto é Papá. E se sois filhos sois também herdeiros. Herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Jesus Cristo, se formos fieis como ele foi, sofrendo pelo Evangelho como Ele sofreu” (Rm 8, 14-17).

No Reino de Deus, os eleitos são todos alimentados pelo do fruto da Árvore da Vida: “Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à Árvore da Vida e poderem entrar nas portas da cidade” (Apc 22, 14).

2) A Vida Nova em Cristo

A vida nova em Cristo não é uma questão de sujeição a um código ético rigoroso e com normas bem estruturadas. Viver em comunhão com Cristo é uma relação vital com Jesus ressuscitado. O princípio animador desta relação e comunhão com o Senhor ressuscitado é o Espírito Santo.
A comunhão orgânica com Cristo é um dom gratuito de Deus. Ponhamos um exemplo: comparemos a Humanidade ferida pelo pecado a um limoeiro doente e envelhecido pela ferrugem. Apesar de ser um limoeiro de uma espécie muito boa, dá frutos de péssima qualidade, pois está doente. O proprietário do limoeiro gostava muito esta espécie de limoeiro. Por isso tinha muita pena de o arrancar e lançar ao fogo. Foi então que lhe veio a ideia de enxertar um raminho do limoeiro numa laranjeira jovem e robusta. Agora, sem deixar de ser limoeiro, recebe a seiva da laranjeira sadia e começa a robustecer-se progressivamente. Em breve começa a dar limões de excelente qualidade. O enxerto não destruiu a natureza do limoeiro, pois ele dá limões e não laranjas. Mas a seiva da laranjeira optimizou a fecundidade do limoeiro e a qualidade dos limões.

Pelo mistério da Encarnação, a Humanidade ficou enxertada na Divindade. Este enxerto não destruiu a natureza humana. Pelo contrário, optimizou-a e capacitou-a para dar frutos de vida eterna. A Humanidade ficou enxertada na Árvore da Vida cujo tronco é Jesus Cristo e cujas raízes é a Segunda pessoa da Trindade que, pelo Espírito Santo, faz uma unidade orgânica com Jesus de Nazaré.

A seiva da Árvore da Vida é o Espírito Santo. Animados por esta seiva, as pessoas que vivem em sintonia com o Espírito Santo, formam uma realidade orgânica nova a que a Bíblia chama uma nova criação: “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era velho passou. Eis que tudo se fez novo! Tudo isto vem de Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, e nos confiou o ministério da reconciliação. De facto, foi Deus quem reconciliou o mundo consigo, em Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação” (2 Cor 5, 17-19).

O Espírito Santo é o sangue de Cristo a circular nas artérias do nosso coração, alimentando e enriquecendo a nossa acção com um novo dinamismo e ajudando a nossa mente a compreender os mistérios de Deus. Eis o que diz São Paulo a este respeito: “Com efeito, quem, entre os homens, conhece o que vai no coração da pessoa, a não ser o próprio espírito do homem. Assim, também, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não o Espírito de Deus que nos faz compreender o que Deus amorosamente nos concedeu” (1 Cor 2, 11-12).

O Espírito Santo é o vínculo orgânico e o princípio relacional que sustenta e dinamiza a nossa união a Cristo como diz a Carta aos Romanos: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo não pertence a Jesus Cristo” (Rm 8, 9). Não devemos concluir deste texto que só os cristãos pertencem a Cristo. Trata-se de uma qualidade de coração e não de um rótulo ou um título.

É importante distinguir a acção divinizante do Espírito, comum a todos os seres humanos, da acção revelacional. Esta, de facto, só actua no Povo de Deus. Tem a ver com o baptismo no Espírito ou, se quisermos, a dimensão pentecostal da vida cristã. A acção divinizante do Espírito Santo tem a ver com a salvação. Esta é uma incorporação da pessoa humana no Comunhão da Santíssima Trindade através de Cristo e é para todos os que têm coração capaz de comungar. O Espírito Santo, diz a Carta aos Romanos, é o Amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Será eternamente mais divino, isto é, comungará mais com as pessoas divinas, quem mais tiver exercido na história a capacidade de comungar com as pessoas humanas. É a dinâmica salvífica ou a acção divinizante do Espírito Santo, a qual só aconteceu com a morte e ressurreição de Cristo (Jo 7, 37-39).

A nível revelacional, o Espírito Santo actua nos cristãos no sentido de os conduzir para a plenitude da compreensão do mistério de Deus e do Homem: “Mas quando vier o Espírito de Verdade, Ele vos guiará para a verdade total. Ele não fala de si mesmo, pois apenas diz o que ouve e dir-vos-à o que está para vir” (Jo 16, 13). É o Espírito que, no nosso interior, nos revela a nossa condição de filhos e herdeiro de Deus, co-herdeiros com Jesus Cristo (Rm 8, 14-17).

É pelo Espírito Santo que se vai robustecendo em nós o homem interior, cuja densidade é espiritual. É certo que o homem exterior vai envelhecendo e perdendo qualidades, mas o interior, graças à acção do Espírito Santo, renova-se e fortalece-se constantemente na pessoa fiel ao Espírito Santo.

O evangelho de São João diz que o homem interior, isto é, a dimensão pessoal-espiritual do ser humano vai renascendo pela acção do Espírito Santo (Jo 3, 6). Trata-se, portanto, de uma realidade a emergir no interior do homem. Por outras palavras, o ser interior, de ordem pessoal-espiritual, forma-se dentro do eu exterior, individual, como o pintainho se forma dentro do ovo. À medida em que renasce, o homem interior vai-se robustecendo, graças a esta acção do Espírito Santo como diz a segunda carta aos Coríntios: “Por isso não desfalecemos. Mesmo que em nós o homem exterior vá caminhando para a ruína, o homem interior renova-se dia após dia” (2 Cor 4, 16).

Eis a dinâmica da vida nova em Cristo a nascer e a fortalecer-se de modo gradual: O Espírito Santo vai-nos interpelando no sentido de agirmos de modo a que nos configuremos progressivamente com Cristo, ao ponto de darmos frutos iguais aos de Cristo. É a fecundidade da vida nova em Cristo. A Carta aos Gálatas menciona alguns dos frutos que a nossa vida vai produzindo quando está organicamente unida a Cristo e animada pelo Espírito Santo: “Mas os frutos do Espírito Santo são amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, gentileza e auto controle. Contra estas coisas não há lei” (Ga 5, 22-23).

Mas a nossa vida só será fecunda se permanecermos unidos a Cristo, como os ramos da videira só podem dar fruto se permanecerem unidos à cepa: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Os ramos não podem dar fruto por si mesmo, mas só se estiverem unidos à videira. Do mesmo modo vós não podeis dar fruto se não estiverdes unidos a mim” (Jo 15, 4-5).

O Espírito é a seiva que nos alimenta e robustece, capacitando-nos para sermos testemunhas do Evangelho no meio do mundo: “Mas vós recebereis o poder do Espírito Santo e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos confins da Terra” (Act 1, 8). A Carta aos Efésios recomenda aos cristãos de Éfeso para não se embriagarem mas, pelo contrário, deixarem-se encher do Espírito Santo: “Não vos embriagueis com vinho o que conduz à luxúria. Pelo contrário, deixai-vos encher do Espírito Santo” (Ef 5, 18).

No capítulo doze da primeira Carta aos Coríntios, aparece uma grande variedade de carismas, isto é, qualidades dinamizadas e consagradas pelo Espírito para o Bem comum da comunidade. É um sinal claro de que a nossa vida apenas é fecunda na medida em que é animada pelo Espírito Santo. Eis os dons de que fala o texto:

-Palavra de Sabedoria;
-Palavra de Conhecimento;
-Fé;
-Dom das curas;
-O poder de operar milagres;
-Dom da profecia;
-Discernimento dos Espíritos;
-O dom das línguas;
- O dom de as interpretar.

São Paulo sublinha que a diversidade dos dons e carismas tem uma origem comum: O Espírito Santo. Eis as palavras do Apóstolo: “Por isso quero que saibais que ninguém, falando sob a acção do Espírito Santo, pode dizer: ‘Jesus é maldito’. Do mesmo modo, ninguém pode dizer Jesus é o Senhor (Cristo ressuscitado e entronizado à direita do pai) a não ser pelo Espírito. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (1 Cor 12, 3-7).

Mas é sobretudo no ensinamento do amor que Paulo nos convida a viver a própria vida de Deus, entrando na dinâmica do amor infinito. Não é por acaso que São João associa o mandamento do amor à Última Ceia, isto é, à Eucaristia. As qualidades do amor são as qualidades do próprio Deus, pois Deus é amor:

“O amor é paciente.
O amor é prestável.
Não é invejoso.
O amor não é arrogante nem orgulhoso.
Nada faz de inconveniente.
Não procura o seu próprio interesse.
O amor não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a Verdade.
O amor tudo desculpa.
Tudo crê.
Tudo espera.
Tudo suporta.
O amor jamais passará.
As profecias terão seu fim.
O dom das línguas cessará.
A ciência será inútil (…).
Agora permanecem estas três: a Fé, a Esperança e o Amor.
Mas a maior delas é o amor” (1 Cor 13, 4-13).

É este o topo da vida nova em Cristo. É esta a meta para a qual o Espírito Santo nos quer conduzir.

e) Eucaristia e Nova Aliança

Os textos que falam da Última Ceia associam a Eucaristia com a Nova Aliança cuja plenitude é o Reino de Deus: “Tomando um taça, deu graças e disse: “Tomai e reparti entre vós, pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira, até chegar o Reino de Deus”. Tomou então o pão e, depois de dar graças, partiu-o e distribuiu-o por eles dizendo: “Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei isto em minha memória”. Depois da ceia fez o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós” (Lc 22, 17-20; cf. Mt 26, 26-29).

À luz da revelação a Humanidade forma um todo. É uma união orgânica constituída por pessoas, tal como a Divindade. Graças ao acontecimento de Cristo, a Humanidade e a Divindade ficaram definitivamente unidas. Esta verdade está no centro do simbolismo da Eucaristia. A plenitude da humanidade é o Reino de Deus, a Comunhão Universal humano-divina cujo medianeiro é Cristo ressuscitado. O Espírito Santo, como vimos, é o seu princípio animador e o vínculo desta organicidade. Uma vez que a Humanidade forma uma união orgânica, as pessoas humanas não são ilhas e apenas encontram a sua plenitude na comunhão de umas com as outras e todas com Deus através de Cristo.

Eis a afirmação central da celebração da Eucaristia. É esta a razão pela qual o bem e o mal que as pessoas fazem não as afectam apenas a elas, mas a toda a Humanidade. Este modo de entender as coisas aparece muito claramente descrito no profeta Isaías onde ele faz uma leitura desse acontecimento chocante que é o sofrimento dos justos no exílio de Babilónia (Is 52, 13-53, 12).

Até este período o povo bíblico pensava que os justos não podiam sofrer, pois Deus é justo e não vai fazer sofrer o inocente. Neste período pensava-se que Deus era o autor do sofrimento. Provocava-o para castigar os pecados das pessoas. Segundo esta perspectiva, como o justo não é pecador, não deve sofrer. No caso das crianças que sofrem, pensava-se que os pais eram pecadores.

Ainda no Novo Testamento encontramos vestígios desta mentalidade: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: Rabi, quem pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais? Jesus respondeu: nem pecou ele nem os seus pais. Isto aconteceu para se manifestarem nele as obras de Deus (Jo 9, 1-3).

O acontecimento do exílio levou o povo de Deus a buscar novas explicações para a questão do sofrimento. No exílio da Babilónia era evidente que havia justos a sofrer. A saída encontrada no livro de Isaías é que o justo, por formar um todo orgânico com os membros pecadores do povo, sofre com ele as perseguições e violências.

A interpretação do sofrimento do justo, no livro de Isaías é que o sofrimento do justo vai reverter em favor do povo pecador. Como Deus não suporta o sofrimento dos justos, vai tomar partido em seu favor, libertando-os do exílio. Como o povo forma um todo orgânico, os pecadores vão ser libertos com os justos. Deste modo, o sofrimento dos justos adquire um significado redentor.

Por pensar o povo como um todo orgânico, Isaías passa do justo sofredor para o povo e do povo para o justo sofredor com toda a naturalidade. Os pecadores fazem parte do povo e os justos também. Como o povo vai ser liberto em virtude de Deus não suportar o seu sofrimento, os pecadores vão ser redimidos pelo sofrimento do justo: “O meu servo terá êxito, pois será engrandecido e exaltado. Muitos povos ficaram espantados diante dele ao verem o seu rosto desfigurado e o seu aspecto disforme. Do mesmo modo, Muitos povos e reis vão ficar espantados ao verem as coisas maravilhosas e inauditas que vão acontecer (a libertação da Babilónia) (…).

O servo cresceu diante do Senhor sem figura e sem beleza, como um rebento ou uma raiz em terra árida (o exílio). Vimo-lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens, como homem das dores, habituado ao sofrimento, desprezado e desconsiderado, diante do qual se tapa o rosto. Na verdade ele tomou sobre si as nossas doenças e carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa dos nossos pecados, esmagado por causa das nossas iniquidades.

O castigo caiu sobre ele, pois fomos curados nas suas chagas (Deus tomou partido em favor dele). Andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada qual seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele os nossos crimes (perdoando-nos por causa dele). Foi maltratado. Humilhou-se e não abriu a boca, tal como o cordeiro que é levado ao matadouro ou a ovelha emudecida nas mãos do tosquiador.

Sem defesa nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi ferido por causa dos pecados do meu povo e suprimido da terra dos vivos. Deram-lhe sepultura entre os ímpios (pagãos caldeus) e uma tumba entre malfeitores, apesar de não ter cometido qualquer crime nem praticado qualquer fraude.

Aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento (levando-o para o exílio), mas a sua vida tornou-se um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias. O desígnio do Senhor (a libertação do exílio) realizar-se-à por meio dele (…). O Justo justificará a muitos, pois carregou com os seus crimes. Por esta razão terá uma multidão como herança (o povo resgatado do exílio). Receberá muita gente como despojos, pois entregou a sua vida à morte, foi contado entre os pecadores, pois tomou sobre si os pecados de muitos, sofrendo pelos culpados” (Is 52, 13-53,12).

Perante a dificuldade de justificar os sofrimentos e a morte de Jesus, os discípulos recorreram a estes textos magníficos, dizendo que Jesus é o Servo sofredor. No entanto, nós sabemos que a obra salvadora realizada pelo mistério da Encarnação vai muito além de um simples benefício devido ao sofrimento do justo. A Encarnação significa o enxerto do divino no Humano, a fim deste ser divinizado. A divinização implica ser assumido, incorporado e glorificado na Família Divina.

Mas perante a dificuldade de justificar a morte de Jesus, os discípulos vão explicá-la recorrendo aos textos do justo sofredor. A Humanidade foi salva pelo sofrimento de um homem justo, Jesus Cristo, o Messias: “Carregou sobre si os nossos pecados sobre o madeiro da Cruz, a fim de que nós, estando mortos para o pecado, possamos viver na justiça. Fomos curados nas suas feridas” (1 Pd 2, 24).

Um morreu por todos e, nele todos morreram para o pecado (2 Cor 5, 14). Deus tomou partido por Jesus, ressuscitando-o e glorificando-o. Como a Humanidade forma um todo orgânico e Jesus é homem, todos fomos assumidos e glorificados nele e com ele. Este mesmo argumento é usado na Segunda Carta a Timóteo: “Eis uma palavra digna de confiança: Se morremos com Cristo também vivemos com ele” (2 Tim 2, 11).

Em Cristo Jesus todos formamos uma só união orgânica. São Paulo descreve de maneira muito bonita esta união dizendo que não importa a raça, a língua, o estatuto social, o povo ou o sexo das pessoas. Todos têm a mesma dignidade em Jesus Cristo, sublinha o Apóstolo: “Já não há diferença entre judeu ou grego, escravo ou livre. Já não há diferença entre homem ou mulher, pois todos formamos um em Jesus Cristo” (Ga 3, 28). Noutro texto acrescenta: “Apesar de sermos muitos formamos um só corpo e todos somos membros uns dos outros. O Espírito Santo actua em todos os membros do Corpo para proveito de todos” (1 Cor 12,4-7).

Jesus Cristo é a base da nossa união orgânica à divindade: “Nesse dia compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20). Na sua oração após a ceia pascal, Jesus recorda esta verdade enquanto ora a Deus Pai: “Eu neles, tu em mim, Pai, a fim de eles serem perfeitos na unidade. Deste modo o mundo conhecerá que me enviaste e os amaste a eles, tal como me amaste a mim” (Jo 17, 23).

Graças a esta união orgânica entre nós e Cristo, fomos incorporados na Família de Deus, tornando-nos filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus filho. O Espírito é o amor maternal de Deus. Com seu jeito maternal de amar conduz-nos ao Pai que nos acolhe como filhos e ao Filho que nos acolhe como irmãos: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes no temor. Pelo contrário, recebestes um Espírito de adopção graças ao qual chamais “Abba”, ó Pai (…). Ora, se somos filhos somos também herdeiros. Somos herdeiros de Deus pai e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com ele sofremos, para também com ele sermos glorificados (Rm 8, 14-17).

E mais à frente São Paulo explicita ainda melhor a nossa pertença a Deus por Cristo: “Àqueles que Deus conheceu antecipadamente, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho, de tal modo que este é o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8, 29).

A comunidade cristã é o sacramento desta unidade orgânica universal já enxertada e assumida em Deus. São Paulo insiste em que os membros da comunidade formam o corpo de Cristo: “Comemos de um só pão para formarmos um só corpo” (1 Cor 10, 17). E ainda: “Vós sois membros do Corpo de Cristo. E cada um de vós é uma parte deste corpo” (1 Cor 12, 27).

Sabemos como o corpo é mediação de encontro e comunicação. A comunidade, como Corpo de Cristo, é mediação de encontro e comunicação do mundo com Cristo ressuscitado. Nesta mesma linha se situa o seguinte texto da Carta aos Efésios: “Portanto, cada um deite fora a hipocrisia e fale a verdade ao seu irmão, pois somos membros de um só corpo” (Ef 4, 25).

Como vimos acima, a raiz desta união orgânica universal é Jesus ressuscitado. O Espírito Santo, por seu lado, é o princípio vital que anima e dinamiza todo o organismo. É a seiva que circula do tronco da videira para os ramos, tornando-os fecundos (Jo 15, 1-8).

Graças a esta união Cristo e à fecundidade do Espírito Santo vamos deixando os frutos da carne, isto é, as acções do homem velho e passamos gradualmente a produzir os frutos da Nova Humanidade enxertada em Cristo: “A carne deseja o que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é contrário à carne. Se sois conduzidos pelo Espírito não estais sob o domínio da carne, pois as obras da carne são patentes: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas parecidas. Sobre estas coisas vos previno como já o fiz antes: Os que praticam estas coisas não herdarão o Reino de Deus. Por seu lado, os frutos do Espírito São: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio. Contra estas coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a carne. Se vivemos pelo Espírito, sigamos o Espírito. Não nos tornemos soberbos, provocando-nos e tendo inveja uns dos outros” (Ga 5, 17-26).

Como acabamos de ver, o primeiro fruto do Espírito Santo é o amor e os restantes são modos de concretizar o amor. O amor não é um conjunto de sentimentos. É a manifestação da glória de Deus em nós. A glória de Deus, segundo a Bíblia, significa a grandeza de Deus. É a manifestação do seu amor à Humanidade. Quando uma pessoa decide amar está a dizer sim à voz do Espírito Santo que se faz ouvir na sua consciência.

O amor é a expressão máxima da fecundidade da vida, pois é o primeiro e o principal fruto do Espírito Santo. O amor dos outros por nós capacita-nos para amar. Por outro lado o Espírito Santo, através da nossa consciência, convida-nos a ser fiéis às possibilidades de amar que os outros inscreveram em nós. É este o modo de o Espírito Santo ser o animador da comunhão orgânica humano-divina da qual Jesus Cristo é a raiz. Eis o rosto da Nova Humanidade. Eis a realização desse Sonho eterno de Deus que é a Nova aliança em Jesus Cristo.


f) A Eucaristia Como Memória

As celebrações sacramentais são linguagem do projecto salvador de Deus a acontecer na história. Isto quer dizer que explicitam o dom da salvação de Deus realizado em Cristo e a acontecer nas diversas situações da vida. Cada sacramento aponta para o acontecimento salvador realizado em Jesus Cristo e a concretizar-se pela acção do Espírito Santo no concreto das várias situações da vida.

A Eucaristia fala essencialmente da comunhão do Reino. Cristo é o anfitrião que convida para o Banquete da Comunhão Universal. Na Festa da Vida Eterna todos têm o essencial e ninguém está preocupado com os excedentes. Tudo circula. Na Comunhão do Reino de Deus cada pessoa é um ponto de encontro, partilha, diálogo e reciprocidade amorosa. O Espírito Santo é o princípio que anima as relações amorosas e optimiza os vínculos familiares da comunhão universal humano-divina.

A Eucaristia está directamente ligada com o acontecimento de Cristo. É o memorial da Ceia do Senhor. Na Eucaristia, a comunidade proclama o amor incondicional de Jesus Cristo que foi fiel até à morte. Foi esta a razão pela qual Deus o ressuscitou, pois não pode permanecer na morte quem gasta a sua vida pelo amor.

A eucaristia, à luz do Novo Testamento, é uma refeição e um memorial que antecipa o banquete da Festa do Reino de Deus. Não se trata, portanto de um culto sacrificial fundamentado na morte de Jesus Cristo, a vítima que torna Deus favorável para com o homem pecador. Na verdade o que agradou a Deus não foi a morte violenta de Jesus, mas sim a sua fidelidade incondicional.

Como sabemos, os pais humanos têm a capacidade de perdoar sem exigir a morte violenta dos filhos. Os evangelhos dizem que o coração de Deus Pai é muito melhor do que o coração dos pais humanos: “Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem” (Mt 7, 11).

Na verdade, Deus não precisa do sofrimento humano para ser generoso para a Humanidade. O que agradou a Deus foi a generosidade e fidelidade incondicional de Jesus à missão que o Pai lhe confiou. Um dos aspectos desta missão era a reconciliação da Humanidade com Deus (2 Cor 5, 17-19). Outro aspecto fundamental da missão que Deus confiou ao seu Filho foi a edificação da Família de Deus, a qual não assenta nos laços do sangue mas sim nos laços do Espírito Santo.

Ainda que me matem, dizia Jesus ao Pai, não deixarei de ser fiel à vontade do meu Pai. “Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (Jo 6, 38). Ou então: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar o seu plano” (Jo 4, 34).

As opções, as atitudes e escolhas de Jesus são uma afirmação incondicional de fidelidade: Ainda que me maltratem, não te negarei. Mesmo que me persigam não deixarei de anunciar o teu plano salvador. A eucaristia é a memória deste Jesus que anunciou, corajosamente o plano salvador de Deus. Perseguiram-no e não deixou de a Palavra do Pai. Mataram-no e não abandonou a missão que o Pai lhe confiara.

Foi esta fidelidade incondicional que agradou a Deus e não a morte violenta que sofreu, pois esta foi um pecado. Como sabemos, a injustiça e o pecado nunca agradam a Deus. A Eucaristia é memória do melhor que um homem pode realizar: dar a vida pela causa de Deus e dos irmãos. Como memória do Jesus que se fez dom total, a Eucaristia alerta para o facto de que ninguém pode ser feliz sem estar disposto a fazer algo pela felicidade dos outros. Por outras palavras, não é possível atingir a plenitude da vida imortal sem gastar a vida mortal pelo amor.

Na Eucaristia Jesus identificou-se com o pão partido e distribuído. Isto quer dizer o alimento da nossa Vida Nova é o Espírito do Senhor ressuscitado que nos alimenta e fortalece. A partilha, a fidelidade, o dom de si e o acolhimento dos irmãos são condições fundamentais para a comunhão agápico-eucarística do Reino de Deus.

A Eucaristia é, portanto, a memória de Cristo e proclamação da força da salvação a acontecerem nós pelo Espírito que o Senhor ressuscitado nos comunica. A comunhão com Cristo, no Espírito Santo, não acontece magicamente pelo simples facto de comermos o pão consagrado. A comunhão com Cristo ressuscitado passa pela linguagem do pão e do vinho a circular. O encontro com Cristo passa pela capacidade de eleger o outro como próximo. O contexto adequado para a celebração da Eucaristia é a comunidade cristã.

Como vemos, a memória, na Eucaristia, é uma interpelação profética. Recorda um acontecimento passado que é fermento de um mundo novo e nos interpela no sentido de nos empenharmos na tarefa da Nova Aliança inaugurada por Jesus. Comungar com o Jesus que se recorda na Eucaristia, portanto, é decidir-se a fazer escolhas semelhantes às Suas.

Por outras palavras, a Eucaristia é um memorial que nos insere num projecto em marcha na história. Ninguém se recorda, pessoalmente, de Cristo, pois ninguém o conheceu enquanto viveu na história. Só o Espírito Santo conheceu plenamente os compromissos históricos, pois foi ele que os inspirou.

Agora, na Eucaristia, é este mesmo Espírito Santo que nos convida a continuar a sua missão. São Paulo diz que ninguém é capaz de saber quem é o Senhor a não ser pelo Espírito Santo (1Cor 12, 3). A Eucaristia celebrada em contexto comunitário é, pois, uma memória viva de Jesus Cristo: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22, 19).

A memória de Cristo vivida pela comunidade animada pelo Espírito Santo, é compreensão e proclamação do ser e do agir de Jesus Cristo. Por outras palavras, o Espírito Santo é a testemunha que proclama no coração dos crentes o ser de Jesus ressuscitado e a sua força salvadora a actuar no mundo.

A Eucaristia é um contexto privilegiado no qual os crentes são capacitados pelo Espírito Santo para anunciarem aos homens o projecto da Comunhão Universal do reino de Deus. Trata-se de uma memória com horizontes de futuro, isto é, do que falta à Humanidade para ser uma Comunhão Universal de irmãos e filhos do mesmo Deus Pai.

Celebrada com estes horizontes e na abertura à dinâmica do Espírito Santo, a Eucaristia é um fermento que faz levedar, através dos crentes, o mundo novo que Deus sonhou para a Humanidade. Celebrada e vivida na dinâmica do Espírito de Cristo ressuscitado, a Eucaristia é um alimento que gera crentes adultos na fé.

Ao mesmo tempo é alfobre de profetas que anunciam o Reino de Deus e denunciam as forças tenebrosas que se opõem à emergência da Nova Humanidade. Segundo o evangelho de João é exactamente isto que Jesus diz aos discípulos após a Eucaristia: “Quando vier o Espírito da Verdade, guiar-vos-á para a verdade total. Não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido (no diálogo entre o Pai e o Filho). Ele anunciar-vos-á o que há-de vir e glorificar-me-á, pois há-de receber do que é Meu para vo-lo anunciar” (Jo 16, 13-14). A redução da Eucaristia a um culto sacrificial matou esta dinâmica da Eucaristia e fez dos cristãos consumidores e cultos e sacrifícios para salvar as almas dos defuntos.