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Os Ministérios no Novo Testamento




a) Os Doze
b) Os Diáconos
c) Os Chefes de Comunidade
d) A Relação Ministério Comunidade

a) Os Doze

A teologia tradicional sacerdotisou o ministério. Por isso, não existia uma verdadeira reflexão sobre os ministérios. Para a teologia tradicional falar dos ministérios era falar do sacerdócio. No Novo Testamento o ministério não é entendido de modo sacerdotal. Na verdade, os ministros das comunidades, no Novo Testamento, não são nunca chamados sacerdotes.

O grupo dos Doze está associado ao Jesus histórico. Funcionava como sinal messiânico. Os Doze não tiveram qualquer função ministerial durante a vida de Jesus. Ao distinguir um grupo de doze discípulos, Jesus queria significar, para o judaísmo, que era o Messias. Com a morte de Salomão, o reino davídico, constituído pelas doze tribos patriarcais, divide-se. Os profetas começam a anunciar que o Messias virá e a sua primeira missão será reunificar a casa de David (Is 11, 12-13; Jer 3, 18; Am 9, 11-13; Miq 2, 12-13; Act 15, 16). O grupo dos doze era o símbolo da restauração do Povo de Israel, sinal de o Reino de Deus está em marcha. Após a Páscoa, a comunidade cristã da Palestina ainda se preocupou por preencher o lugar de Judas, a fim de manter o número dos doze (Act 1, 15-26).

Devido às perseguições na Palestina, os crentes começam a difundir-se para o mundo pagão. O número doze começa a deixar de ter sentido. O povo de Deus, restaurado por Jesus, além de judeus inclui também os pagãos. Afinal o Reino de Deus não é a simples restauração do reino davídico. Após a morte de Tiago, já não houve qualquer preocupação por eleger outro para conservar o número doze (cf. Act 12, 2).

Entre os autores do Novo Testamento, Lucas é o que confere maior realce aos doze. Não por pretender reduzir o Reino de Deus ao reino davídico, mas para acentuar que a Igreja é o novo povo de Deus, o qual está edificado sobre o alicerce do Povo de Israel. O povo bíblico tinha como pilares os doze patriarcas. A Igreja tem como pilares os doze Apóstolos. Lucas atribui aos doze a missão de julgar as infidelidades das tribos de Israel (Lc 22, 30b). O novo povo é testemunho de infidelidade do antigo. Lucas tenta reduzir o título de Apóstolo apenas aos doze.

Paulo, pelo contrário, chama apóstolos a todos os missionários que vão de um lado para o outro, fundando comunidades. Paulo chama-se frequentemente apóstolo a si mesmo, (1Cor 1, 1; 2Cor 1, 1; Gal 1, 1). Depois, fala dos apóstolos enviados pelas comunidades (Flp 2, 25; 4, 3; 2Cor 8, 23; Rm 16, 7). Ao referir a tradição das aparições pascais, Paulo diz que Cristo apareceu a Pedro, depois aos doze e, em seguida, a todos os Apóstolos (1Cor 15, 5-7).


b) Os Diáconos

Os capítulos sexto e sétimo dos Actos dos Apóstolos revelam um conflito teológico profundo entre os cristãos. Lucas tenta suavizar a questão, dizendo que os crentes da Palestina cuidavam das suas viúvas, mas descuidavam as viúvas procedentes do helenismo (Act 6, 1). Na realidade tratava-se de uma questão básica para o futuro da Igreja: fechar-se no judaísmo ou abrir-se ao paganismo.

Os cristãos da Palestina defendiam que o reino de Deus era apenas para judeus. Quanto aos pagãos apenas deviam ser aceites os que se circuncidassem e cumprissem as normas e preceitos da Lei de Moisés antes de serem baptizados. Segundo São Lucas, os doze, face ao conflito das viúvas decidem-se pela criação dos sete diáconos, cujos nomes são todos gregos (Act 6, 2).

Isto faz-nos compreender a raiz do problema que Lucas tenta amenizar com a desculpa das viúvas. Na verdade tratava-se de uma decisão fulcral para o futuro da Igreja: eleger apóstolos para pregar aos pagãos. Estes terão de ser missionários itinerantes e libertos das práticas judaicas, a fim de poderem dirigir-se com liberdade de espírito aos pagãos.

Embora disfarçando a razão da sua eleição, São Lucas dá grande importância à eleição destes novos apóstolos. Para entendermos o que acabo de afirmar basta fazermos a seguinte comparação: São Lucas dedica apenas um versículo ao martírio de São Tiago, Apóstolo pertencente aos doze e chefe da comunidade de Jerusalém (Act 12, 2). Pelo contrário, dedica dois capítulos enormes ao martírio do diácono Estêvão (Act 6, 8-7, 60). Com este procedimento, Lucas quer significar a importância fundamental da Igreja helenista, isto é, das comunidades que foram nascendo fora da Palestina.

São Lucas nega o título de apóstolo aos sete diáconos, como também o nega a São Paulo e a São Barnabé. Pelas razões já apontadas mais acima, reserva este título apenas para os doze, o símbolo do Novo Povo de Deus alicerçado no Israel das doze tribos. Com os sete diáconos, São Lucas quer significar a plenitude dos apóstolos itinerantes que vão evangelizar os pagãos.

Os diáconos eram todos helenistas, isto é, judeus emigrantes entre os pagãos. O seu ministério de fundadores de comunidades entre os pagãos é, na verdade, um ministério fundamental para a edificação e difusão da Igreja na grande vastidão do império romano. A questão fica mais ou menos assim: Os apóstolos helenistas dirigem-se aos pagãos, enquanto os apóstolos da palestina se dirigem, essencialmente, aos judeus. São Lucas sublinha que o primeiro pagão a ser baptizado foi convertido e baptizado por Filipe, um dos sete diáconos (Act 8, 9-13).

Como é natural, a comunidade judaica de Jerusalém e os doze, em particular, estavam atentos à acção evangelizadora dos apóstolos helenistas. Isto era claro em relação à missão de Paulo que era um Apóstolo nascido da evangelização dos sete diáconos (Act 8, 14). Foram os apóstolos helenistas fizeram as primeiras conversões e fundaram as primeiras comunidades fora da Palestina. Devido à sua missão itinerante, Timóteo é chamado diácono do Evangelho (1Tim 3, 8-13; 2Tim 4, 5).

O Pe. Schillebeeckx diz que é a estes apóstolos que se deve a expansão rápida da Igreja em todo o próximo Oriente antigo (cf. Schillebeeckx, Le ministère dans l’Église, ed. Cerf, Paris, 1981, p. 20). Segundo os Actos dos Apóstolos, foi na comunidade helenista de Antioquia que São Paulo foi escolhido para missionário dos pagãos. São Lucas faz notar que São Paulo não foi enviado pela comunidade de Jerusalém (Act 13, 2-3).


c) Os Chefes de Comunidade

As comunidades do Novo Testamento entendiam-se como uma união orgânica animada pelo Espírito Santo. São Paulo escreve à comunidade de Corinto, formada por pagãos, dizendo-lhe que os membros da comunidade formam o Corpo de Cristo e seu membros cada qual com suas funções (1 Cor 12, 27). Os corintos foram baptizados no mesmo Espírito Santo, a fim de formarem o corpo de Cristo (1 Cor 12, 12-13).

Ao celebrarem a Eucaristia, os membros da comunidade comem de um só pão porque fazem o único Corpo de Cristo. Mas, para funcionar organicamente, a comunidade precisa de órgãos. Daqui a importância da diversidade de ministérios e funções, diz São Paulo: “A uns constitui Apóstolos, a outros Profetas, a outros Evangelistas, a outros Pastores, a outros Doutores. Tudo isto para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo” (Ef 4, 11-12).

É dentro desta união orgânica, animada pelo Espírito Santo, que se dá o crescimento da fé e o amadurecimento do homem perfeito, à medida de Cristo (Ef 4, 13). É o Senhor ressuscitado que, pelo Espírito Santo, dinamiza os órgãos do corpo, levando-os a edificar na caridade, como diz a Carta aos Efésios: “Praticando a verdade, cresceremos em todos os aspectos pela caridade naquele que é a cabeça, isto é, Cristo. É por Cristo que o corpo inteiro, coordenado e unido por meio de todas as junturas, opera o crescimento orgânico, segundo a actividade de cada uma das partes, a fim de se edificar na caridade” (Ef 4, 16).

Entre os diversos ministérios ou serviços de coordenação, salientam-se os chefes das comunidades. A primeira Carta aos Tessalonicenses, o escrito mais antigo do Novo Testamento, recomenda que se tenha estima pelos que exercem a missão de dirigir e admoestar (1Tess 5, 12-13). Paulo considera os chefes das comunidades seus colaboradores na obra do Senhor (1Cor 15, 58; Rm 16, 3; 1Tess 3, 2; 2Cor 8, 23).

Partilham com o Apóstolo os cuidados e o cargo da comunidade (1Tess 5, 12; 1Cor 16, 16). O Apóstolo põe os fundamentos (1Cor 3, 10). Os chefes da comunidade põem os cuidados e os serviços dos santos (membros da comunidade). A sua missão continua a missão do Apóstolo (1Cor 16, 16). Por isso, partilham a autoridade apostólica (1Cor 9, 6; 9, 11ss; 1Tess 5, 13-14; 1Cor 16, 10-12). Por vezes, os chefes das comunidades são chamados profetas e doutores, isto é, servidores da Palavra (1Cor 14, 6; 12, 28; Rm 12, 6-8).

Nos primeiros tempos os termos correntes para designar os chefes das comunidades era, de facto, o de profetas e doutores. É assim que Lucas os designa também nos Actos (Act 13, 1-2). Aparecem ainda nas cartas de Pedro (2Ped 3, 2; 1, 21-22). Deles fala a Didaké (Didaké, 15, 1-2). A Carta aos Efésios menciona-os entre os principais ministérios (Ef 4, 11).

O Apóstolo, como fundador da comunidade, tem uma autoridade especial em relação à mesma. Foi ele o portador do património da fé. Quando o Apóstolo está presente, é ele que preside. Por seu lado, o chefe da comunidade deve seguir as orientações do Apóstolo fundador (cf. 1Tess 3, 2; 1Cor 4, 14; 16, 10; 2Cor 7, 6; 13, 14; Flp 2, 19ss).

No caso de conflito entre a comunidade e o chefe, deve recorrer-se ao Apóstolo. Em casos de distorções ou comportamentos errados, a comunidade devia demitir o seu chefe. Isto, no entanto, não devia nunca ser feito de ânimo leve. A primeira Carta a Timóteo recomenda que não se aceitem facilmente queixas da comunidade contra o seu chefe (1Tim 5, 19). Era esta a prática das comunidades criadas pelos apóstolos helenistas.

Com a evolução, as comunidades da Palestina, seguindo a tradição judaica, chamam presbíteros (anciãos) aos chefes das comunidades. E assim, as comunidades fundadas por Apóstolos originários da Palestina davam o nome de presbítero aos seus chefes. Por seu lado, as comunidades fundadas pelos Apóstolos helenistas ficavam a ser orientadas por um episcopos (bispo), que significava o coordenador ou vigilante.

Temos assim dois termos de origem diferente para designar o chefe da comunidade: Por um lado o termo presbítero, (ancião), tinha origem na tradição organizativa do povo judeu. O termo grego “episcopos”, isto é, vigilante ou coordenador, era um termo próprio do mundo helénico. Mas o significado e a missão associados aos dois termos eram rigorosamente idênticos.

Os chefes, agora chamados presbíteros ou episcopos, são os defensores do património da doutrina comunicada pelo Apóstolo fundador. O património da Fé é apostólico, isto é, assenta na doutrina comunicada pelo Apóstolo fundador da comunidade. O Novo Testamento refere-se aos chefes das comunidades designando-os indiferentemente de episcopos ou presbíteros. Trata-se da mesma função, como podemos ver na Carta de Tito (Tit 1, 6-7).

As comunidades do Novo Testamento têm consciência muito clara de que não podem funcionar sem chefes. Por isso o elegem em clima de oração, pedindo ao Senhor a luz e a sabedoria do Espírito Santo para o eleito. O critério de escolha é a idoneidade para defender o património da doutrina apostólica (Act 6, 3-5). O Apóstolo, depois, confirma o eleito da comunidade. Paulo e Barnabé confirmam os chefes eleitos pelas comunidades de Derbe e Licaónia, dizem os Actos dos Apóstolos (Act 14, 23).

Como sabemos, as cartas pastorais (Tito e Timóteo) são dirigidas a comunidades fundadas por São Paulo. Estas cartas falam do património da fé apostólica, referindo-se à doutrina que lhes foi comunicada por Paulo. Actuar com fé é aderir à doutrina de Paulo, o património recebido do Apóstolo (1Tim 4, 1; 6, 21). Esta doutrina deve ser habitualmente o ponto de referência e confronto, pois é fundamental conservar o património apostólico da Fé (1Tim 6, 20).

Nestas cartas os chefes das comunidades são umas vezes designados por presbíteros, outras, por bispos. Mas vê-se claramente que estão a falar da mesma coisa (1Tim 3, 1). A sua missão é comunicar o património (parathéke) da fé apostólica, juntando-lhe o bom exemplo (1Tim 3, 1-7; Tit 1, 5-9). O presbítero ou bispo, indiferentemente, impõem as mãos aos novos ministros (1Tim 4, 14). A sua missão é presidir à comunidade que os elegeu (1Tim 5, 17).

Tito e Timóteo são filhos de Paulo, o Apóstolo fundador. Por isso partilham o património comum da fé apostólica (Tit 1, 4; Tim 1, 2). O que constitui a norma e o património da Fé não são leis ou preceitos, mas o património (parathéke) da Fé que lhes foi confiada (2Tim 1, 11; 2, 8). O Evangelho comunicado pelo Apóstolo é “didaskalia”, isto é, ensinamento (1Tim 1, 10; 2Tim 4, 3; Tit 1, 9; 2, 1). O Evangelho transmitido por Paulo é a norma da caminhada (2Tim 1, 11; 2, 8).
A sucessão ministerial não se constitui por uma cadeia ininterrupta de ordenações que transmitem um poder metafísico ao qual a idade média deu o nome de poder da ordem. A sucessão apostólica realiza-se na medida em que acontece fidelidade ao património da doutrina apostólica. A imposição das mãos não tem a finalidade de transmitir de modo automático um poder metafísico, pois o ministro não é uma pessoa metafisicamente distinta dos demais membros da comunidade. O sentido da imposição das mãos é confirmar a idoneidade do ministro no que se refere à guarda e transmissão do património da doutrina apostólica.

Timóteo deve transmitir fielmente o património da fé recebida a homens que possam, por sua vez, ensinar a doutrina a outros (2Tim 2, 2). É assim que as cartas pastorais vêem a cadeia da sucessão apostólica. Por outras palavras, a sucessão apostólica acontece através da guarda e da transmissão fiel do património da fé apostólica. Paulo recebeu o património da Fé do Deus que ressuscitou Jesus Cristo (1Tim 1, 11). Em seguida, como fiel depositário deste património comunica-o a Tito e a Timóteo (1Tim 6, 20; 2Tim 1, 13-14). Estes, por sua vez, devem comunicá-lo a outros, a fim de não faltarem pessoas preparadas para o ministério (2Tim 2, 2).

Nas cartas pastorais, o diácono é reconhecido como ministro itinerante, isto é, fundador de comunidades, na linha dos sete diáconos, eleitos, como vimos, para serem os apóstolos para os pagãos. Devido à sua missão itinerante, Timóteo é chamado diácono do Evangelho (1Tim 3, 8-13; 2Tim 4, 5). A missão dos presbíteros ou bispos é presidir às comunidades, orientando-as na sua caminhada de crescimento da Fé (1Tim 5, 17). Por isso, utilizando a linguagem helenista, as cartas pastorais designam Tito e Timóteo como “episcopos”, isto é, vigilantes do património da fé. Devem ensinar e coordenar a comunidade (Tit 1, 9; 1Tim 3, 2).

Fazendo o confronto de Actos 20, 17 com Actos 28, 28 e 1Ped 5, 1 com 1Ped 5, 2 conclui-se que os presbíteros e os bispos aí referidos são as mesmas pessoas. Sobretudo são as mesmas funções, como demonstra o confronto da carta de Clemente 44, 1 com 44, 5. Para o Novo Testamento o ministério fundamental é o apostólico. Trata-se dos missionários fundadores de comunidades. Vêm, depois, os chefes de comunidades que continuam a missão apostólica. Daqui, a necessidade de serem fiéis ao património da fé apostólica.


d) A Relação Ministério Comunidade

Mateus entende as comunidades como fraternidades. As diferenças de categorias não têm qualquer lugar na comunidade fraterna, pois esses são os critérios do mundo (Mt 20, 25-26). O Senhor ressuscitado é o único Mestre, por isso não tem sentido que uns membros da comunidade chamam mestre a outro (Mt 23, 4-8). Mateus ainda designa os chefes das comunidades como profetas e doutores (Mt 5, 12; 7, 22; 10, 41; 11, 25; 13, 52; 23, 8-10). A Didaké, escrito deste período, também ainda fala dos Apóstolos (Didaké. 11, 4-6), dos profetas (Didaké. 11, 7-12) e dos doutores (Didaké13, 2). É também esta a visão das cartas pastorais, como acabámos de ver e a visão de São Paulo (1Cor 12, 38).

O evangelho de São João não apresenta qualquer preocupação de tipo ministerial. Não porque as suas comunidades não tivessem ministros, mas porque para ele, o fundamental é a acção do Espírito Santo na comunidade. É o Espírito Santo que conduz a comunidade, a qual está organicamente unida ao Senhor ressuscitado.

Cristo é a cepa da videira e os membros da comunidade são os ramos. O Espírito circula da cepa para os ramos, tornando-os fecundos (Jo 15, 4-6). É o Espírito Santo que dá testemunho do Senhor ressuscitado presente na comunidade (Jo 15, 26). O Espírito Santo tem a missão de completar a missão do Jesus histórico, conduzindo os crentes para a verdade total (Jo 16, 13). Testemunhando Cristo para os membros da comunidade, o Espírito Santo está preparando os crentes para serem testemunhas de Cristo ressuscitado no meio do mundo (Jo 15, 26-27).

O património da Fé, no evangelho de São João, vem através do Apóstolo João, o discípulo amado, e é actualizado pelo Espírito Santo na comunidade. Por outras palavras, a comunicação e a interpretação correcta da doutrina da Fé acontece na comunidade pela acção do Espírito Santo (Jo 19, 35; 21, 24; 1Jo 2, 27).

Em síntese podemos dizer que a razão de ser dos ministérios no Novo Testamento é a edificação da comunidade. Esta, por sua vez, tem a missão de ser sinal de Cristo no mundo. Ele é a o corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 27). O corpo é a mediação de encontro. O mundo conhecerá Cristo na medida em que este se encontra com as comunidades cristãs. A comunidade é a parcela dos pequeninos a quem Deus revela o Seu plano, o qual esteve oculto aos poderosos orgulhosos do seu poder e saber (Lc 10, 21).

Os ministros foram designados pelo Espírito Santo para apascentarem a comunidade que é a assembleia (Ekklesia) de Deus (Act 20, 28). Na comunidade há serviços queridos pelo próprio Espírito Santo (1Cor 12, 28). A sua diversidade corresponde às necessidades das comunidades, não a uma lista preestabelecida (1Cor 12, 28; Ef 4, 11; 1Cor 7, 7; Rm 12, 7). O Novo Testamento não oferece qualquer base para uma leitura sacerdotal do ministério.

Comunidade e Maturidade Cristã



a) A Comunidade Como Realidade Orgânica
b) Atitudes Importantes para Gerar Vida Fraterna
c) Comunidade e Relações Interpessoais
d) A Comunidade Como Espaço para a Liberdade
e) Comunidade e Responsabilidade
f) Parábola Sobre Uma Comunidade Feliz


a) A Comunidade Como Realidade Orgânica

À luz do Novo Testamento, a comunidade é uma realidade orgânica e dinâmica. Eis a razão pela qual São Paulo lhe chama o Corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27). O evangelho de São João diz esta mesma verdade afirmando que os membros da comunidade são os ramos da videira cuja cepa é Jesus Cristo. O sangue que alimenta e fortalece o Corpo de Cristo é, naturalmente o Espírito Santo. Ele é também a seiva que vitaliza e fortalece os circuitos vitais entre a cepa e os ramos da videira. O evangelho de São João diz que o Espírito Santo é a Água Viva que faz jorrar no nosso íntimo rios de Vida Eterna (Jo 7, 37-39; 4, 14).

São Paulo diz que fomos baptizados num mesmo Espírito, a fim de formarmos um só Corpo: “Pois, como o Corpo é um só e tem muitos membros e estes membros, apesar de serem muitos, apesar de serem muitos, constituem um só Corpo, assim também Cristo. De facto, todos nós fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, pois tanto os judeus como os gregos, os escravos ou livres todos bebemos de um só Espírito, a fim de formarmos um só corpo” (1 Cor 12, 12-13).

Isto que dizer que quando estamos a trabalhar para edificar a comunidade, estamos a edificar o Corpo de Cristo. Os membros da comunidade são todos inspirados pela Palavra de Deus e pela acção do Espírito Santo. Todos são coordenados pelos ministérios que articulam a união e interacção dos crentes, a fim de formarem o corpo de Cristo.

Temos de reconhecer que o melhor espaço para os crentes crescerem na Fé são as pequenas comunidades. Quanto mais os crentes crescem na Fé, mais aptos estão para realizar uma profunda acção evangelizadora. Por serem todos membros do Corpo de Cristo, os crentes têm todos a mesma dignidade fundamental, pois todos são filhos de Deus.

A diversidade de funções não altera esta igualdade fundamental dos crentes. Todos são chamados a exercer funções e ministérios na comunidade. Não há verdadeira comunidade se não houver um projecto comum com etapas, metas e objectivos. Os membros da comunidade devem ter a preocupação de desenvolver algumas qualidades importantes para agirem de modo positivo na edificação da comunidade.

Eis algumas das qualidades que os membros da comunidade devem desenvolver:
*Generosidade
*Entrega
*Entusiasmo
*Espírito de diálogo
*Capacidade de escuta
*Caridade
*Sentido de Responsabilidade
*Iniciativa
*Docilidade à acção do Espírito Santo.

No mundo actual é importante criar pequenas comunidades, a fim de as pessoas não se perderem numa massa despersonalizante. Não há comunidade autêntica sem uma amizade leal e verdadeira entre as pessoas que constituem essa mesma comunidade. A comunidade não deve ser muito grande, a fim de todos poderem intervir nos momentos de decisão programação e distribuição de tarefas. O que é decidido e programado em comunidade deve ser respeitado.

Quando as decisões e a programação já não funcionam bem, é altura de se fazer uma revisão e uma nova programação. Não nos podemos esquecer de que a comunidade é um organismo vivo e, como tal, em processo de crescimento. Pretender amarrar a comunidade a decisões e programações estáticas e imutáveis significa bloquear a dinâmica do Espírito na Comunidade.

São Paulo é muito claro neste ponto quando afirma: “Não é que sejamos capazes de algo por nós mesmos. É de Deus que nos vem a capacidade. Na verdade, é ele que nos torna aptos para sermos ministros de uma Nova aliança, não da letra, mas do Espírito Santo. De facto, a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Cor 3, 5-6).

Talvez fazendo-nos algumas perguntas, possamos tomar consciência de alguns aspectos que podemos melhorar em relação à nossa colaboração na edificação da comunidade:
1-Dou-me conta de que eu, como os demais seres humanos, tenho tendência a auto enganar-me e a iludir-me?
2- Tenho consciência de que as motivações reais de muitos dos meus comportamentos e atitudes resultam de motivações inconsciente que não são aquelas que muitas vezes eu pretendo dar para mim mesmo ou para os outros?

3- Dou-me conta de que muitas das minhas desculpas e demissões são fruto da minha preguiça e falta de amor à causa da evangelização?
4- Apercebo-me de que a minha falta de flexibilidade e esforço para entender as razões do outro dificulta a vida dos meus irmãos e limita as minhas possibilidades de realização pessoal?
5- Dou-me conta de que muitas vezes não estou a fazer de Deus a questão primeira da minha vida?

6- Não será que a minha falta de generosidade e espírito de sacrifício me levam a desanimar com grande facilidade, acabando por me demitir face às mais pequenas adversidades? Estou atento para vencer a tentação de pensar que já sei tudo?
7- Sou daqueles que estão sempre dispostos a mudar a vida dos outros, mas não fazem não fazem nada para mudar a própria vida?
8- Quais foram os momentos mais importantes da minha caminhada de crente?
9- Tenho consciência de que os momentos em que fui mais feliz foram aqueles em que fui generoso?

10- Sinto que amo Deus e o tomo a sério are ao ponto de estar disposto a correr riscos como Jesus Cristo e os profetas correram?
11- Como reajo face às mudanças na Congregação e na Igreja?
12- Que valores me motivam mais nesta fase da minha vida e na desejo de me realizar como crente?
13 Quais os crente que recordo com gratidão por terem sido uma mediação especial do amor de Deus para mim?
14- Sinto que outras pessoas, da comunidade ou não, me vão recordar com gratidão porque ficaram mais felizes por se terem cruzado comigo na vida?
15- Quais os talentos que posso aportar á comunidade?
16- Sinto-me comprometido com os outros e tenho consciência de que, para realizar como pessoa tenho de ser um membro corresponsável da comunidade?


b) Atitudes Importantes para Gerar Vida Fraterna

Como sabemos, ninguém se realiza sozinho. Todos sabemos que as pessoas, para viverem felizes, precisam de se sentir aceites e amadas assim como são. Precisamos da estima os outros para nos estimarmos e gostarmos de nós mesmos. Como sabemos, a plenitude da pessoa não está em si mas na comunhão com os demais. Estamos perante o mistério da reciprocidade e da comunhão.

Como sabemos, a pessoa, reduzida a si, está em estado de perdição. O estado de inferno não é mais que a ausência total e definitiva da comunhão. A pessoa apenas pode emergir e estruturar-se de modo equilibrado em contexto de relações de fraternidade e amor. Quando começamos a ser conscientes, já estamos habitados pelos outros: critérios para optar, modos de ver e decidir, escala de valores que os outros inscreveram em nós.

Começamos por ser um leque de possibilidades ou talentos recebidos dos demais. Na medida em que somos fiéis aos talentos recebidos realizamo-nos e possibilitamos a realização daqueles que se cruzam connosco na vida. A comunidade fraterna é um espaço privilegiado para o amadurecimento humano. Como estamos a ver, as pessoas não são ilhas, excepto as que optam pelo estado do malogro e do fracasso. Como sabemos, Deus não condena ninguém. Mas a possibilidade da perdição existe. A pessoa que se perde, perde-se por sua própria decisão, não por decisão de Deus.

Uma verdade que nos pode motivar no sentido de nos empenharmos na tarefa da nossa humanização é esta: será eternamente mais divino quem mais se humanizar agora. Humanizamo-nos emergindo e crescendo como pessoas livres, conscientes, responsáveis e capazes de comunhão. Emergir como pessoa é crescer em densidade espiritual e capacidade de interagir amorosamente com os outros.

A comunidade cristã pode e deve ser um espaço privilegiado para a realização pessoal. Tal como acontece com a família de sangue, a comunidade cristã, se for vivida como família de Deus assente, não nos laços do sangue, mas nos laços do Espírito Santo, é um dos principais alfobres de crescimento e maturidade humana. Isto quer dizer que os critérios para o crescimento das relações e da vida comunitária é o da família de Deus.

Não é possível haver crescimento comunitário sem reuniões comunitárias onde aconteça a decisão comunitária, a programação comunitária e distribuição de tarefas que cada qual deve assumir e realizar de modo responsável. A experiência da vida partilhada é fundamental para a pessoa se sentir equilibrada e feliz.

Eis alguns passos importantes para a edificação da comunidade fraterna:
1- Tentar compreender o outro na sua realidade e diferença.
2- É fundamental tentarmos facilitar a realização do outro, aceitando-o nas suas diferenças.
3- Temos de que a pessoa tem muita dificuldade em se realizar se habitualmente se sente rejeitada e sente que os demais pretendem abafar a sua originalidade.
4- Realizar-se é emergir como originalidade pessoal.

5- A pessoa não consegue ser generosa se não se sente estimada e valorizada pelos outros.
6- Exercitar-se no sentido de aprender a confiar nos outros e agir no sentido de merecer a sua confiança.
7- Procurar ouvir com empatia quando os outros exprimem os seus sentimentos ou ideias.
8- Guardar segredo sobre as comunicações dos outros membros da comunidade, a fim de merecer que os outros lhe comuniquem o melhor de si.
9- Não julgar facilmente os outros. Não sabemos as intenções dos demais.

10- Estar atento ao que os outros fazem e valorizar as suas realizações.
11- Prestar atenção às crises de crescimento dos membros da comunidade e às crises de crescimento da mesma comunidade. Na verdade devemos ter presente que não há crescimento sem crises.
12- Procurar ter atitudes geradoras de confiança, e preferir sempre palavras geradoras de esperança.

13- Esforçar-se por comunicar numa linha de verdade e autenticidade.
14- Cultivar o sentido de pertença em relação à comunidade.
15- Tentar conhecer as qualidades dos outros e as próprias.
16- Estar consciente de que o bem que os outros fazem, não deixa de ser bem pelo facto de não ter sido feito por mim ou por não estar de acordo com o meu modo de agir.
17- Estar disposto a falar, quando sinto que isso é útil e escutar os outros nos momentos de elaboração, decisão e programação dos projectos comunitários.

18- Compreender e aceitar a história pessoal das outras pessoas, a fim de ser capaz de as aceitar e melhor as compreender.
19- Tomar consciência de que os outros são um dom de Deus para mim.
20- São os irmãos que Deus me dá, a fim de construirmos a família de Deus, mesmo que não assente nos laços do sangue.
21- Identificar-se com o projecto comum, uma vez que ele resulta da discussão, elaboração e participação de todos.

22- Mostrar-se aberto a novas formas de caminhar em comunidade desde que os objectivos sejam claros e tenham sido decididos e elaborados por todos.
23- Compreender que o empenhamento na edificação da comunidade é um elemento constitutivo da actividade evangelizadora.
24- Reconhecer que ninguém é bom em tudo. É fundamental que todos facilitem a emergência de carismas diversos e aceitar os dons e ministérios dos outros membros da comunidade.

Não devemos esquecer que cada pessoa é única, original e irrepetível. A comunidade é uma realidade orgânica e dinâmica. A comunidade cristã é um espaço privilegiado para as pessoas viverem o baptismo no Espírito. Quando isto acontece, as qualidades da pessoa são consagradas pelo Espírito, tornando-se carismas, isto é, dons em benefício da comunidade. São Paulo afirma o valor teológico da comunidade, dizendo que esta é o Corpo de Cristo (1Cor, 17, 12-22; 12, 13). O Evangelho de João diz que a unidade da comunidade com Cristo é de tipo orgânico, semelhante à unidade da cepa da videira com os ramos (Jo 15, 1-7).

Ser corpo de Cristo significa ser mediação de encontro com Cristo. Cristo Ressuscitado já não tem um corpo físico para que o mundo se possa encontrar com ele. Isto só pode acontecer através dos crentes que são membros do corpo de Cristo. Por outras palavras, o mundo só pode conhecer Cristo através da comunidade. Como espaço privilegiado para a Palavra e a acção do Espírito Santo, a comunidade é um alfobre de vida teologal que é a sabedoria que vem do Alto e se exprime em atitudes de Fé, Esperança e Caridade. A vida teologal é a realidade que constitui a originalidade cristã, capacitando-nos para sermos sal, luz e fermento no meio do mundo (cf. Mt 5, 13ss.).

Como a comunidade é uma realidade orgânica é fundamental haver órgãos para que a organicidade funcione de modo cooperante. É esta a missão dos ministérios na comunidade. Eis o que diz São Paulo a este respeito: “Há diversidade de dons mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum” (1Cor 12, 4-8).

Cristo Ressuscitado é a Cabeça da comunidade, pois esta é o seu Corpo. A presença do Senhor ressuscitado na comunidade é expressa de modo “sacramental” pelos que exercem o serviço da autoridade; estes não actuam em nome próprio, mas como mediações do Espírito Santo para a edificação da comunidade. O seu serviço torna-se, assim, sinal da presença do Senhor na comunidade.

O Espírito Santo é o grande dinamizador desta organicidade comunitária: “Há um só corpo e um só Espírito (...). Há um único Senhor, uma única Fé, um único baptismo. Há um só Deus e Pai de todos que está acima de todos, actua por meio de todos e Se encontra em todos” (Ef 4, 4-6). riqueza da comunidade é, portanto, humano e divina. É importante olhar a comunidade cristã à luz da Fé. Como Corpo de Cristo, a comunidade deve agir organicamente. Para isso deve existir um objectivo comum discutido, decidido e participado por todos.

É fundamental que na comunidade não haja pessoas marginalizadas. Todos devem tomar parte naquilo que a todos diz respeito. Nos diálogos comunitários, na partilha da Palavra e na oração todos devem ser tomados a sério, pois todos são mediações da Palavra e do Espírito Santo. Todos devem estar prontos para falar e para escutar os irmãos. Quem se recusa a escutar os outros com respeito não merece ser escutado. O coordenador deve estar atento para que todos possam falar, impedindo que uns poucos possam monopolizar o diálogo e a palavra. Na medida em que se torna um facilitador da palavra, o coordenador torna-se mediação do Espírito Santo.

Não nos esqueçamos que o Espírito Santo actua de modo privilegiado nos momentos fortes da vida comunitária. É bom saber que o Espírito Santo não prepara pessoas isoladas, mas precisa da mediação da comunidade. É importante termos presente o facto de que não existem comunidades feitas. A edificação da comunidade é um processo e uma tarefa. Para isso é importante que haja na comunidade revisões de vida onde se reveja o programado, a fim de o alterar se a comunidade verificar que este não funciona. Só deste modo de a comunidade pode sentir-se segura de estar a ser fiel ao Espírito Santo e estar a edificar-se como corpo de Cristo.


c) Comunidade e Relações Interpessoais

Sempre que nos relacionamos significativamente com os outros estamos a estruturar-nos como pessoas. Mas além de serem um factor de estruturação pessoal as relações interpessoais são também criadoras de reciprocidade e comunhão fraterna. Através de relações construtivas e sem nos apercebermos disso, começamos a ver pouco a pouco o outro do mesmo modo como ele nos vê a nós. Por outras palavras, o modo como o outro nos trata começa a ser pouco a pouco o modo como o passamos a tratar a ele.

Por outras palavras, as pessoas estão talhadas para a reciprocidade e a comunhão. Por isso se conhecem na medida em que interagem com umas com as outras. Nas nossas relações com os outros encontramos a nossa pessoa na medida em que encontramos a pessoa do outro. É o mistério da reciprocidade.

Mas a dinâmica das relações humanas vai ainda mais longe. Como vimos, é mediante as relações que nos estruturamos psiquicamente mas é também verdade que, através das relações, a nossa realidade espiritual emerge e se vai robustecendo. Por outras palavras, as relações são a uma dinâmica interactiva que faz emergir e crescer a pessoa na sua identidade espiritual básica. Isto quer dizer que a pessoa, por estar talhada para a reciprocidade e a comunhão, não pode emergir e possuir-se senão através das relações com os outros.

É este o mistério do Homem a emergir e a encontrar a sua plenitude através do encontro com os outros. Mas as relações só têm este poder de fazer emergir e configurar a identidade pessoal se tiverem a densidade do amor. A densidade do amor de uma pessoa revela-se nas suas relações com os outros. Como sabemos, as pessoas não são evidentes na sua realidade mais profunda, mas revelam-se através das relações. Quando as relações humanas são fundamentadas no egoísmo, as pessoas encontram-se como seres separados, e competitivos, enroscando-se cada qual para seu lado. A pessoa que se decide de modo incondicional pela vivência de relações fundamentadas no egoísmo estrutura-se de modo gradual, progressivo e irreversível em estado de inferno.

De facto, o inferno é o estado de uma pessoa que decidiu opor-se sistematicamente às relações de amor. Na situação de inferno a pessoa não tem ninguém que lhe diga: “Gosto de ti. Sem ti eu era mais pobre. Dá-me a tua mão e vamos fazer uma festa”. Nas relações de amor, pelo contrário, temos duas pessoas que procuram olhar para além da sua condição de ser único, original e irrepetível para descobrir a unidade orgânica e dinâmica que constitui a base dos seu ser.

Na verdade, cada pessoa é uma concretização da única Humanidade que existe. A Humanidade não existe em abstracto. Não cai das nuvens. Pelo contrário, a única Humanidade que existe emerge no concreto de cada pessoa de modo único, original, irrepetível e capaz de reciprocidade amorosa.

Devido a esta capacidade de amar e comungar, a pessoa, na medida em que emerge, converge para a comunhão Universal. É este o mistério da pessoa que apenas se pode encontrar e possuir na comunhão com os outros. Temos medo de nos perder na dinâmica da comunhão orgânica. Pensamos que, deste modo perdemos a nossa grandeza e glória, acabando por nos enroscarmos na nossa pequenez de ser isolado. Este isolamento impede-nos de nos possuirmos e encontrarmos na nossa riqueza mais profunda. Nada mais errado, pois a pessoa só é verdadeiramente grande na comunhão.

Por outras palavras, a plenitude da pessoa não está em si, mas na reciprocidade da comunhão. O ser humano não é capaz de ser bom antes de alguém ter sido bom para ele. A pessoa muito marcada pela maldade dos outros torna-se azeda e agressiva. Normalmente está sempre numa atitude de defesa. Por outras palavras, a bondade precisa de uma calda de amor para emergir e se fortalecer. Na verdade, o amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

Um dos principais frutos da humanização da pessoa humana é a bondade. Quando dizemos que determinada pessoa é muito humana, no fundo estamos a dizer que é uma pessoa muito boa. Humanização, realização pessoal e bondade são aspectos interrelacionados e acontecem como processo histórico. Somos seres em construção histórica. Eis a razão pela qual um ser humano, para se dizer, tem de contar uma história. Quando nos queremos comunicar em profundidade sentimos necessidade de contar a nossa história. Por estar em realização histórica, a pessoa humana estrutura-se de modo gradual e progressivo.

A força que estrutura e faz avançar a realização pessoal é o amor. Só o amor possibilita uma boa estruturação pessoal. É esta a razão pela qual o mal amado emerge como pessoa complicada, mal estruturada e condicionada nas suas possibilidades de realização. Nascemos com um leque de talentos que são a condição básica da nossa realização pessoal. Ninguém é herói por ter recebido muitos talentos. Também não somos culpados se o feixe das capacidades que recebemos é limitado. A heroicidade, portanto, está na fidelidade aos talentos que recebemos. A bondade cresce na medida em que o ser humano se realiza numa linha de fidelidade aos talentos que recebeu.

Com a emergência do Homem a vida deu o salto para o espiritual, o qual é interior, definitivo e eterno. Com o aparecimento da vida pessoal-espiritual surgiu na marcha da evolução a capacidade de amar. Como vemos, a vida espiritual e eterna emerge no interior do provisório e do mortal. O nosso ser pessoal-espiritual brota gradual e progressivamente dentro do nosso ser exterior como o pintainho dentro do ovo. Por outras palavras, no interior do nosso ser individual emerge o nosso ser pessoal-espiritual.

Com o aparecimento da vida pessoal-espiritual sobre a terra surge a vida que vence o vazio da morte. Com a vida pessoal a Criação torna-se proporcional ao Criador. Na verdade, a divindade é pessoas em relações e a humanidade também. Eis a razão pela qual, com o aparecimento da Humanidade surge a possibilidade da Encarnação, isto é, da interacção orgânica e dinâmica entre as pessoas divinas e as humanas.

É verdade que as pessoas humanas não iguais às pessoas humanas, mas são proporcionais. Por outras palavras, é possível acontecer interacção e comunhão orgânica entre a Humanidade e Divindade. Deus talhou a humanidade para a bondade, condição para acontecer comunhão com a Divindade. Ao amar os outros, o ser humano emerge como pessoa e possibilita a realização pessoal dos outros.

Como vemos, os seres humanos que gastam a vida pelas causas do amor merecem uma estátua, isto é, um reconhecimento por parte da Humanidade. Foram capazes de se estruturar como pessoas e ajudaram os outros neste parto difícil da emergência pessoal-espiritual. Como sabemos, ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado.

Podemos dizer com toda a verdade que a pessoa, ao amar os outros, está a ser fiel ao amor com que foi amada. A lei do amor é esta: O amor dos outros capacita-nos para amar. Os seres humanos mal amados ficam a amar mal, isto é, com bloqueios, condicionamentos e tropeções. Neste caso, a pessoa é vítima, não culpada. O Amor dos outros faz-nos sentir aceites, valorizados e tomados a sério.

Quando sentimos que os outros nos valorizam gostamos de partilhar o que fazemos e sentimo-nos capazes de ir mais longe. O amor dos outros optimiza as nossas capacidades para assumirmos papéis e tarefas no interior da vida familiar e na sociedade. E Deus, sem nos substituir, torna-se presente! De facto, no coração do amor humano acontece sempre o Espírito Santo, a ternura maternal de Deus que nos introduz no próprio diálogo amoroso da Santíssima Trindade (Ga 4, 4-7; Rm 8, 14-17).

O amor e a comunhão humana, portanto, são optimizados e ponto de encontro com o amor e a comunhão com Deus. Emergir como pessoa é adquirir a matéria-prima que Deus acolhe e assume na própria comunhão divina. É esta a dinâmica da divinização. Na verdade, a plenitude da Comunhão Humana acontece mediante a incorporação na Comunhão Divina.

A interioridade pessoal emerge em cada ser humano de modo único e irrepetível, enriquecendo deste modo o património humano com uma novidade. Isto quer dizer que uma pessoa nunca está a mais, pois ninguém é a cópia de alguém na dinâmica da comunhão universal. Além disso, sempre que nos recusamos a amar uma pessoa estamos a impedi-la de desabrochar numa novidade que nunca mais poderá acontecer. O pecado é sempre uma oposição ao amor. Procedendo deste modo, a pessoa está a bloquear a sua humanização e a humanização dos outros.

A vocação fundamental de cada ser humano consiste em responder às propostas que o amor nos faz no concreto do nosso dia a dia. Como vemos, pecamos contra a Humanidade sempre livre e responsavelmente bloqueamos a sua emergência em nós e naqueles que se cruzam na nossa vida. A nossa consciência é o altifalante através do qual o Espírito Santo nos convida a amar os irmãos no concreto dos acontecimentos do dia a dia.

Por outras palavras, o amor é o único caminho para provocarmos o nascimento da Humanidade em nós e nos que se cruzam connosco na vida. Amar é sempre decidir pelo nosso bem e pelo bem do outro. O amor depende da decisão de cada pessoa, pois ele é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão. Quando elegemos o outro como nosso próximo, o amor acontece e realiza-se através de opções, escolhas, decisões com o jeito do bem-querer.

Amar implica também acolher os gestos de fraternidade dos outros. O amor é a opção certa para edificarmos em nós e nos outros o projecto da Comunhão Orgânica Universal. A alegria é o primeiro fruto da fidelidade às propostas do amor. Emerge no coração dos que se abrem aos outros como fruto do Espírito Santo que está em nós e connosco, mas nunca em nosso lugar (Ga 5, 22). A alegria não emerge nunca no coração das pessoas que se fecham ao amor.

O ser humano que vai dando o melhor de si no sentido do amor, sente-se contente de ser quem é. No coração das pessoas que procuram exercer a bondade não tem lugar essa tristeza que aperta o coração quando o bem acontece aos outros. A inveja é tanto mais forte quanto mais a vida de uma pessoa foi marcada pelas recusas de amor dos outros. A alegria é, pois, o fruto da presença do Espírito Santo no coração da pessoa que procura ser fiel aos talentos que recebeu de Deus através dos outros. As pessoas que se humanizaram mediante a vivência do amor são peritas na arte de imprimir o sentido e o sabor da festa no tecido das relações humanas.


d) A Comunidade Como Espaço para a Liberdade

Quando Deus pensou em criar o Homem, estava a pensar numa obra-prima. Uma das características fundamentais da pessoa é o facto de ter a possibilidade de se tornar livre. É importante não confundir liberdade com livre arbítrio. O livre arbítrio não é a liberdade, mas é a possibilidade de a pessoa se tornar livre. Na verdade, o livre arbítrio é a capacidade psíquica de a pessoa optar pelo bem ou pelo mal.

O ser humano torna-se livre na medida em que opta pelo bem. De facto, o ser humano não nasce feito. Faz-se, fazendo. Realiza-se, realizando. Constrói-se, construindo. Por outras palavras, Deus não criou o Homem feito, a fim deste poder ter parte na sua própria realização pessoal. Este facto é condição para que o ser humano possa chegar a ser livre. A pessoa humana não nasce livre, mas sim com a possibilidade de se tornar livre. Essa possibilidade, como vimos acima, é o livre arbítrio. A pessoa humana não pode chegar a ser livre sem exercitar o livre arbítrio. Mas não basta exercitar o livre arbítrio para que a pessoa se torne livre. É preciso optar no sentido do amor.

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão. A liberdade, portanto, é uma conquista do Homem em construção. Podemos dizer que a liberdade resulta de uma vida comprometida. Por outras palavras, a liberdade é um estado adquirido que resulta de uma vida vivida como processo de libertação. À medida em que vai emergindo, a liberdade capacita a pessoa para se relacionar amorosamente com os outros e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.

Agora já podemos compreender como a liberdade é sempre um bem. O mesmo não poderíamos dizer do livre arbítrio, pois este é, como vimos, a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal. Deus é infinitamente livre, mas não livre arbítrio, pois não pode optar pelo mal. Além disso, as pessoas divinas são infinitamente livre e não uma liberdade em construção. Muitas vezes, quando ouvimos as pessoas falar da liberdade, estas estão simplesmente a falar do livre arbítrio.
Como vemos, a pessoa humana, como ser em construção emerge e cresce como ser pessoal optando na linha do amor. À medida em que cresce como pessoa, o ser humano emerge como interioridade espiritual livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa. Agora podemos compreender melhor a lei da humanização que podemos definir do seguinte modo: “Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal”.

Em perspectivas cristãs, esta Comunhão Universal é o Reino de Deus. Na verdade, o ser humano é uma pessoa em construção em todos os aspectos do seu ser. É este o sentido profundo das palavras de Jesus no evangelho de São João quando afirma: “O que comete o pecado é escravo” (Jo 8, 34).

À luz das Escrituras, o Espírito Santo é o grande protagonista deste processo da libertação humana. Logo no princípio da Criação, quando o hálito de Deus, isto é, o Espírito Santo, entrou para o interior do Homem primordial, este tornou-se um ser vivo (Gn 2, 7). O livro do Génesis quer dizer que esta é a intervenção de Deus na criação do Homem, a qual não aconteceu com nenhum animal. Esta intervenção especial de Deus significa que o Espírito Santo está sempre presente no nosso íntimo, embora nunca nos substitua.

Como ternura maternal de Deus, o Espírito Santo interpela, ilumina e convida no sentido de optarmos e agirmos na linha do amor. Embora não nos substitua, o Espírito Santo optimiza as nossas capacidades de agir segundo os apelos do amor. Deste modo, o Espírito Santo se torna em nós e connosco, o grande protagonista da nossa libertação ou crescimento em liberdade.

São estas as palavras de Jesus ao afirmar que ele foi consagrado pelo Espírito Santo para ser o nosso libertador. Eis as palavras de Jesus no evangelho de São Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres e a libertação aos cativos” (Lc 4, 18). São Paulo diz que Cristo nos libertou para sermos realmente livres (Gal 5, 1).

A pessoa humana não nasce livre, mas o Espírito Santo, no nosso íntimo, torna-se o grande protagonista do nosso processo de libertação, isto é, do crescimento da nossa liberdade. As condições sociais, políticas, económicas ou culturais podem facilitar ou dificultar o processo do crescimento da liberdade humana, mas não são capazes de destruir o que o ser humano já é como pessoa livre. Por outras palavras, não é pelo facto de uma pessoa estar na cadeia que deixa de ser livre. Uma pessoa nestas condições está limitada nas possibilidades de exercitar o seu livre arbítrio, mas o seu nível de liberdade realizada não fica destruído por este facto.

A Bíblia diz que Deus é Amor (1 Jo 4, 7-8). Isto quer dizer que Deus é uma dinâmica perfeita de bem-querer que tem como origem cada uma das pessoas divinas e como meta a comunhão trinitária. Se Deus é amor infinito, então Deus é Liberdade Infinita, pois, como vimos mais acima, a liberdade é a capacidade de se relacionar amorosamente com as outras pessoas e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.


e) Comunidade e Responsabilidade

Crescer como pessoa responsável é uma tarefa que ninguém pode realizar por nós. Mas também é verdade que ninguém é capaz de se tornar verdadeiramente responsável sem se relacionar com as outras pessoas, pois somos seres que se realizam em relações com os outros. Eis alguns passos importantes para ajudar a pessoa a crescer como ser responsável, consciente e livre:

*Quando nos comprometemos a fazer uma coisa, devemos executá-la. Na verdade, se desiludimos as pessoas, elas deixam de acreditar em nós. Pelo contrário, quando levamos avante os nossos projectos e cumprimos com os nossos compromissos, as pessoas começam a levar-nos a sério.

*É fundamental que nos responsabilizemos pelos nossos actos sem cair na tentação de nos desculpar, deitando as culpas em cima dos outros. Quando assumimos a responsabilidade das nossas atitudes e acções estamos a dizer mais ou menos isto aos outros: Eu quero ser o autor da minha própria realização. Eu sei que não me posso realizar sozinho, mas também sei que jamais seria uma pessoa livre e responsável se me demitisse da minha realização pessoal ou tentasse delegar essa tarefa noutras pessoas. Por outras palavras, cada um de nós está chamado a tomar conta da sua vida e do seu crescimento pessoal.

*Devemos assumir com plena consciência o cumprimento dos nossos deveres e realizando atentamente as nossas tarefas.
*É importante não ficarmos à espera que sejam os outros a lembrar-nos a hora ou o cumprimento dos nossos deveres.
*Sejamos responsáveis pelos nossos compromissos, a fim de nos tornarmos dignos de confiança.
*Quando alguém depositar confiança em nós e nos comunicar um segredo, saibamos guardá-lo só para nós, a fim de não nos tornarmos traidores em relação aos nossos amigos. A pessoa que trai a confiança que alguém depositou em si, não é digna da confiança de ninguém.

*Não sejamos precipitados e evitemos agir de modo irreflectido. Habituemo-nos a usar a cabeça antes de agir, a fim de actuarmos de modo consciente e responsável. Quando medimos as consequências dos nossos actos estamos a capacitar-nos para decidir optar de modo muito mais acertado. Além disso, o nosso modo de agir será muito mais responsável. Uma pessoa irreflectida e precipitada pode comprometer o sucesso da sua vida num momento. Com efeito, só na medida em que as suas decisões sejam previamente pensadas e amadurecidas, o ser humano crescerá como pessoa responsável.

*Não deixemos de realizar os nossos projectos e cumpramos fielmente os nossos compromissos.
*Quando tivermos um trabalho para fazer, procuremos realizá-lo a tempo e horas, a fim de nos auto controlarmos e merecermos a confiança das outras pessoas. As pessoas que procuram agir de acordo com estes princípios crescem verdadeiramente como seres responsáveis. Uma pessoa responsável adquire normalmente uma grande credibilidade junto das outras pessoas. Na verdade, as pessoas que habitualmente realizam os trabalhos que tinham para realizar dão provas de saberem gerir a sua vida e isto desperta admiração nas outras pessoas.

A liberdade e a responsabilidade de uma pessoa crescem sempre que esta cumpre os seus deveres e compromissos. Podemos dizer que a responsabilidade é a capacidade que a pessoa tem de responder de modo fiel e adequado aos deveres, compromissos e talentos que possui. Como capacidade humana, a responsabilidade é algo que cresce através do exercício. Por outras palavras, quanto mais uma pessoa procura agir de modo responsável mais cresce em responsabilidade. Como sabemos, ninguém nasce responsável. Mas vamo-nos tornando responsáveis de modo gradual e progressivo.

Deus convida-nos a ser responsáveis, pois é este o caminho para chegarmos à comunhão ele e os irmãos na Comunhão do Reino. Deus toma-nos muito a sério e pede-nos para agirmos de acordo com as possibilidades que temos. É esta a maneira de nos tornarmos verdadeiramente responsáveis.

Uma pessoa encontra-se na vida com um leque de possibilidades que constitui os seus talentos. O leque de talentos de cada pessoa é único, original e irrepetível. Ser sensato e responsável, portanto, é dar o melhor de si de acordo com os talentos que tem, tal como Jesus ensinou (cf. Mt 25, 14-30). Como capacidade de responder de modo de modo fiel e adequado aos deveres, compromissos e talentos recebidos, a responsabilidade cresce em conjunto com a consciência e a liberdade.

É como ser consciente que a pessoa descobre o leque das suas possibilidades de realização, tanto de tipo pessoal como social. Como ser livre, a pessoa decide agir de modo fiel e adequado aos seus talentos. A liberdade, como vimos, é a capacidade de se relacionar amorosamente com os outros e de interagir de modo criativo com as coisas e os acontecimentos.

Pelo facto de estar intimamente relacionada com a consciência e a liberdade, a responsabilidade não é uma capacidade estática oposta à novidade da vida. Pelo contrário, confere à pessoa o sentido adequado para agir, tanto na linha do amor aos irmãos, como nas interacções criativas em relação às coisas e aos acontecimentos.


f) Parábola Sobre Uma Comunidade Feliz

Era uma comunidade cristã amadurecida... Os seus membros tomavam Deus e os irmãos a sério. Conviver nesta comunidade significava ter a sorte de encontrar pessoas livres, conscientes e responsáveis. Tinham uma forte consciência da sua pertença comunitária. Por isso cultivavam a fraternidade entre si. Todos sabiam que o fundamental é eleger o outro como alvo de bem-querer.

Entendiam muito bem que o amor é o caminho do amadurecimento e felicidade humana. Ninguém ignorava que o amor não se confunde com paixão ou simples emoção. Amar é eleger o outro como alvo de bem-querer, aceitá-lo e valorizá-lo, apesar de ser diferente de mim ou do que eu gostaria que fosse. Além disso, o amor implica agir de modo a facilitar a realização e felicidade do outro.

Naquela comunidade, as pessoas sentem-se responsáveis pelas próprias tarefas, procurando agir de modo a edificar a comunidade. Todos são iguais, apesar da diversidade de carismas, ministérios e capacidades. Todos se sentem estimados e valorizados naquilo que fazem. Por isso não há pessoas desenquadradas ou marginalizadas. Este facto faz que cada qual procure render o melhor dos seus talentos. Naquela comunidade não há parasitismo, mediocridade ou fraude.

As pessoas sorriem alegres, pois têm sentidos para viver. Como todos são tomados a sério, O contributo de cada um é estimado por todos. Naquela comunidade não há cobardes nem heróis. Aquelas pessoas sabem que recebemos os talentos uns dos outros. O nosso mérito está apenas em fazê-los render. Todos têm tarefas para realizar, mesmo os menos dotados ou possibilitados.

As pessoas tomam todas parte no que a todos diz respeito. Ninguém se sente excluído. As pessoas compreendem que a meta da comunidade é chegar à plena comunhão. Graças ao sentido que aquelas pessoas têm do amor, encontram condições para optar e decidir de acordo com a sua realização e o bem comum da comunidade. Ninguém imagina o bem pessoal como inimigo da comunidade ou vice-versa.

Além do trabalho há espaços de convívio e descanso, a fim de que não falte qualidade às suas vidas. Todos sabem cantar e partilhar a alegria. Aprender, naquela comunidade, não é tarefa aborrecida, pois ninguém pretende ensinar coisas inúteis para a fraternidade e a realização pessoal. As pessoas sentem-se livres para pensar e falar. Todos estão suficientemente amadurecidos para amar.

Há lugar para a originalidade de cada um, pois todos sabem que as pessoas são únicas, originais e irrepetíveis. Todos se olham nos olhos. No seu olhar e no modo de sorrir há transparência e sabor a verdade e lealdade. Quando olham para o jeito de ser e viver naquela comunidade as pessoas percebem que é disto que todos temos fome.

As atitudes das pessoas entre si coincidem com as aspirações mais profundas e autênticas do coração humano. O gesto mais espontâneo entre as pessoas da comunidade é estender a mão e dizer bom dia ou boa noite. Esta comunidade é fruto de muitas decisões, escolhas, opções e compromissos de vida.

Nas celebrações da Fé, a comunidade sente-se o sujeito celebrante. Sabe que a presidência tem um sentido sacramental, pois exprime a presidência de Cristo. Mas na partilha da Palavra todos se sentem livres e motivados para intervir, pois sabem que são mediação do Espírito para os irmãos. Procuram orar segundo o Espírito Santo, a fim de não caírem em meras repetições ou atribuir um efeito mágico a rezas sem conteúdos de vida ou horizontes de Fé teologal.

Apesar de possuírem um elevado nível de maturidade humana e cristã, as pessoas têm consciência de estar em realização. Aquela comunidade é um espaço privilegiado para a acção do Espírito Santo. Em termos cristãos, a comunidade é um espaço de fraternidade e comunhão. As pessoas sentem que os outros são um dom de Deus para si e procuram ser dom para os outros. Não são família segundo os laços do sangue, mas procuram construir a família de Deus, a qual assenta nos laços do Espírito santo.

Uma comunidade cristã, dinamizada pelo amor fraterno e o Espírito Santo, é um espaço privilegiado para fazer a experiência de Cristo Ressuscitado no seu meio. Depois, torna-se sinal da presença de Deus para o mundo. É isto que significa ser corpo de Cristo, isto é, mediação de encontro das pessoas com Cristo Ressuscitado. As relações, na vida da comunidade, são interpessoais e de amizade.

Existe um objectivo comum para o qual todos procuram convergir. Ninguém se sente mais que os outros, pois são todos membros do corpo de Cristo (1 Cor 12, 13; 10, 17; 12, 27). Todos têm a mesma dignidade fundamental: pessoas humanas, filhos de Deus e irmãos uns dos outros. As diferenças são apenas de tipo funcional, não essencial. De facto, os membros do corpo têm todos a mesma densidade e nível ontológico ou espiritual. É o mesmo princípio de organicidade que circula e alimenta a vida em todos. Cristo é a cepa e todos são ramos alimentados pela única seiva que vem da cepa (Jo 15, 1-7).

O projecto de vida é elaborado e decidido por todos. Não é cristã a comunidade onde as pessoas não são tomadas a sério. A presidência, Na comunidade, tem densidade sacramental: Exprime e significa a presidência de Cristo que é a cabeça do corpo. Na comunidade amadurecida não há homens faz tudo, os quais são um veneno para a vida comunitária. É melhor todos a fazer pouco, que poucos a fazer tudo.

Uma comunidade amadurecida é um espaço privilegiado para a vivência do Baptismo no Espírito que é a dimensão pentecostal da vida cristã. Nesta comunidade o Espírito diz a Palavra no coração das pessoas pela mediação dos irmãos, das escrituras e dos sinais dos tempos. As pessoas que têm a sorte de viver em comunidades amadurecidas crescem enormemente na vida teologal de Fé, Esperança e Caridade, que é o amor ao jeito de Deus.

Cada membro da comunidade sente-se livre para dizer o que pensa; mas, ao mesmo tempo, sente o dever de dar a palavra ao irmão e escutá-lo, pois ninguém é dono da verdade. Uma comunidade amadurecida gera cristãos adultos, isto é, pessoas amadurecidas na vida teologal e, portanto, capazes de ser sal, luz e fermento no mundo. Cristo precisa de cristãos amadurecidos, a fim de transformar o mundo e conduzir a Humanidade para o Reino de Deus.

Caminhos de Maturidade Humana e Cristã




a) Maturidade e Relações Humanas
b) Atitudes Geradoras de Maturidade
c) Passos Para a Maturidade do Amor
d) Maturidade e Atitudes Responsáveis
e) Esperança Cristã e Maturidade
f) Comunidade e Maturidade de Fé



a) Maturidade e Relações Humanas

Quando nos relacionamos significativamente com os outros, estamos a estruturar-nos como pessoas. As relações humanas, além de serem um factor de estruturação pessoal são também criadoras de reciprocidade interpessoal. Assim, sem nos apercebermos disso, começamos a ver pouco a pouco o outro do mesmo modo como ele nos vê a nós, isto é, tendemos a tratar o outro do mesmo modo como ele nos trata a nós. De facto, as pessoas estão talhadas para a reciprocidade e a comunhão. Conhecem-se na medida em que interagem com as outras pessoas. É através das relações que encontramos a nossa pessoa e a pessoa dos outros.

Mas a dinâmica das relações humanas vai ainda mais longe, pois não só nos estruturamos psiquicamente, mas a nossa realidade espiritual emerge através das relações de amor e comunhão. Por outras palavras, as relações são a dinâmica interactiva que faz emergir e crescer a pessoa na sua identidade espiritual. Isto quer dizer que a pessoa, por estar talhada para a reciprocidade e a comunhão, só pode emergir e possuir-se através das relações com os outros. É este o mistério do Homem a emergir e a encontrar a sua plenitude através do encontro com os outros.

Mas as relações só têm este poder de fazer emergir e configurar a identidade pessoal se tiverem a densidade do amor. A densidade do amor de uma pessoa revela-se nas suas relações com os outros. Como sabemos, as pessoas não são evidentes na sua realidade mais profunda, mas revelam-se através das relações. Quando as relações humanas são fundamentadas no egoísmo, as pessoas encontram-se como seres separados e competitivos, enroscando-se cada qual para seu lado. A situação de inferno é o estado da pessoa que decidiu opor-se de modo sistemático e incondicional às relações de amor. Na situação de inferno a pessoa não tem ninguém que lhe diga: “Gosto de ti. Sem ti eu era mais pobre. Dá-me a tua mão e vamos fazer uma festa”. Nas relações de amor, pelo contrário, temos duas pessoas que procuram olhar para além da sua condição de ser único, original e irrepetível para descobrir a unidade orgânica e dinâmica que constitui a base da comunhão que as liga.
Como sabemos, a Humanidade não existe em abstracto, nem cai das nuvens. Na verdade, cada pessoa é uma concretização da única Humanidade que existe. Por outras palavras, a Humanidade emerge no concreto de cada pessoa de modo único, original, irrepetível e capaz de reciprocidade amorosa. Devido a esta capacidade de amar e comungar, a pessoa, na medida em que emerge, converge para a comunhão universal. Estamos, pois, perante o mistério da pessoa humana, este ser que apenas se pode encontrar e possuir na comunhão com os outros. Fomos talhados por Deus à sua imagem e semelhança. Isto quer dizer que nos enganamos quando temos medo da comunhão fraterna.

Por vezes pensamos que, introduzindo-nos na dinâmica da comunhão, podemos perder a nossa grandeza acabando por nos enroscar na pequenez do nosso ser isolado. O isolamento condiciona a nossa capacidade de nos possuir e encontrar em profundidade. De facto, a pessoa só é verdadeiramente grande na comunhão, pois a plenitude da pessoa não está em si, mas na reciprocidade da comunhão.

É através das relações que nós nos humanizamos. De facto, ninguém é capaz de ser bom, por exemplo, antes de alguém ter sido bom para ele. Do mesmo modo, uma pessoa que tenha sido muito marcada pela maldade dos outros torna-se azeda e agressiva. Normalmente está sempre numa atitude de defesa. A bondade precisa de uma calda de amor para emergir e se fortalecer. O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

Um dos principais frutos da humanização da pessoa é a bondade e a capacidade de amar. Quando dizemos que determinada pessoa é muito humana, no fundo estamos a dizer que é uma pessoa boa e capaz de amar os demais. Humanização, realização pessoal e bondade são aspectos interrelacionados. A pessoa vai-se humanizando de modo gradual e progressivo.

Com efeito, somos seres em construção histórica. Eis a razão pela qual a pessoa, para se dizer, tem de contar uma história. Eis a razão pela qual, ao querer-nos comunicar em profundidade sentimos necessidade de contar uma história, isto é, a nossa história. A força que estrutura e faz avançar a realização pessoal é o amor. É por esta a razão que o mal amado emerge como pessoa mal estruturada e condicionada nas possibilidades de uma realização com sucesso.

Nascemos com um leque de talentos que são a condição básica da nossa realização pessoal. Como sabemos, ninguém é herói por ter recebido muitos talentos, do mesmo modo que ninguém é culpado por receber um feixe das capacidades limitado. Com a emergência do Homem, a vida deu um salto para o nível espiritual, o qual é interior, definitivo e eterno. Com o aparecimento da vida pessoal-espiritual surgiu na marcha da evolução a capacidade de amar. Isto quer dizer que a vida espiritual humana emerge no interior do provisório e do mortal. O nosso ser espiritual brota gradual e progressivamente dentro do nosso ser exterior como o pintainho dentro do ovo. Por outras palavras, dentro do nosso ser individual emerge o nosso ser pessoal cuja identidade é espiritual. Com o aparecimento da vida espiritual sobre a terra surge a vida que vence o vazio da morte.

Com a vida pessoal a Criação torna-se proporcional ao Criador. Na verdade, a Divindade é pessoas em relações e a Humanidade também. Eis a razão pela qual, com o aparecimento da Humanidade surge a possibilidade da Encarnação, isto é, da interacção orgânica e dinâmica entre as pessoas divinas e as humanas. É verdade que as pessoas humanas não são iguais às pessoas divinas, mas são-lhe proporcionais, pois pode acontecer interacção e comunhão orgânica entre a Humanidade e Divindade.

Deus talhou a humanidade para a bondade, condição para acontecer comunhão com a Divindade. Ao amar os outros, o ser humano emerge como pessoa e possibilita a realização das outras pessoas. Podemos dizer que os seres humanos que gastam a vida pelas causas do amor merecem uma estátua, isto é, um reconhecimento por parte da Humanidade. Foram capazes de se estruturar como pessoas e ajudaram os outros neste parto difícil da emergência pessoal-espiritual.

Como sabemos, ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado. Isto quer dizer que a pessoa, ao amar os outros, está a ser fiel ao amor com que foi amada. A lei do amor pode ser equacionada assim: O amor dos outros capacita-nos para amar. Por seu lado, as pessoas mal amadas ficam a amar mal, isto é, com bloqueios, condicionamentos e tropeções. Estas pessoas são vítimas, não culpadas.

Como bem sabemos, o amor dos outros faz-nos sentir aceites, valorizados e tomados a sério. Isto faz crescer em nós a auto estima, potenciando as nossas capacidades de criatividade e realização. Com efeito, quando sentimos que os outros nos valorizam, gostamos de partilhar o que fazemos e sentimo-nos capazes de ir mais longe. O amor dos outros optimiza as nossas capacidades para assumirmos papéis e tarefas no interior da vida familiar e na sociedade. E Deus, sem nos substituir, torna-se presente! De facto, no coração do amor humano acontece sempre o Espírito Santo, a ternura maternal de Deus que nos introduz no próprio diálogo amoroso da Santíssima Trindade (Ga 4, 4-7; Rm 8, 14-17).

O amor e a comunhão humana, portanto, são ponto de encontro com o amor e a comunhão com Deus. Emergir como pessoa é adquirir a matéria-prima que Deus acolhe e assume na própria comunhão divina. A fraternidade humana, portanto, encontra a sua plenitude na Comunhão Divina. A pessoa emerge como ser único, original e irrepetível. À medida em que se realiza, a pessoa oferece à comunhão humana universal a novidade de uma realização que nunca existiu e nunca mais voltará a existir. Isto quer dizer que uma pessoa nunca está a mais, pois ninguém é uma cópia de outro no encontro da comunhão universal.

Por outro lado, sempre que nos recusamos a amar uma pessoa estamos a impedi-la de desabrochar nessa novidade que nunca mais poderá acontecer. É por esta razão que o pecado é sempre uma oposição ao amor. Procedendo deste modo, a pessoa está a bloquear a sua humanização e a humanização dos outros. A nossa vocação fundamental, portanto, consiste em responder às propostas que o amor nos faz no concreto do nosso dia a dia. Portanto, pecamos contra a Humanidade sempre que de modo livre e responsável bloqueamos a nossa humanização ou a humanização daqueles que se cruzam connosco na nossa vida.

A nossa consciência é o altifalante através do qual o Espírito Santo nos convida a amar os irmãos no concreto dos acontecimentos do dia a dia. O amor é, pois, o único caminho para as pessoas provocarem o nascimento da Humanidade nelas e nas que vivem a seu lado. Por ser uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão, o amor depende sempre de nós. Ninguém é capaz de nos obrigar a amar. Amamos quando elegemos o outro como nosso próximo. Amar não só implica fazer bem aos outros, mas também acolher os seus gestos de solidariedade e fraternidade dos outros em relação a nós. A perfeição do amor não acontece num amor unidireccional, mas na reciprocidade da comunhão.

O amor é a única dinâmica interactiva que conduz à Comunhão Orgânica Universal. A alegria é o primeiro fruto da fidelidade ao amor. São Paulo diz que a alegria emerge no coração dos que se abrem aos outros como fruto do Espírito Santo que está em nós e connosco, mas nunca em nosso lugar (Ga 5, 22) O ser humano que vai dando o melhor de si no sentido do amor, sente-se feliz e realizado, isto é, contente por ser quem é. No coração das pessoas que amam não há lugar para esse azedume que aperta o coração quando o bem acontece aos outros. A inveja é tanto mais forte quanto mais frustrada, isto é, menos realizada, for uma pessoa. Por detrás desta frustração, normalmente há profundas cicatrizes provocadas pelas recusas de amor de outros. As pessoas que se humanizam mediante a vivência do amor são peritas na arte de imprimir o sentido e o sabor da alegria e da festa no tecido das relações humanas.


b) Atitudes geradoras de Maturidade

Para serem felizes, as pessoas precisam de se sentir aceites e amadas assim como são. Com efeito precisamos dos outros para encontrarmos a nossa plena realização, pois a plenitude da pessoa não está em si, mas na reciprocidade da comunhão com os outros. Reduzida a si, a pessoa está em estado de fracasso e malogro total. O estado de inferno não é mais que a pessoa enredada em si mesma e, portanto, privada da comunhão com as demais pessoas humanas e as divinas.

Na verdade, a pessoa emerge e estrutura-se em contexto relacional de amor. Por outras palavras, é apenas em contexto de amor e comunhão que a pessoa se pode encontrar e possuir de modo pleno. Os seres humanos começam por ser um leque de possibilidades recebidas dos demais. Na verdade, as pessoas não são ilhas. Por isso, aquelas que fecham o coração à dinâmica da salvação, isto é, à reciprocidade do amor e da comunhão se encontram em estado de malogro total. Além disso, ao fecharem as portas às relações de amor com os outros não têm a veste necessária para participar no banquete da comunhão universal com Cristo.

Humanizar, portanto, é emergir e robustecer-se como pessoa, ao mesmo tempo que converge para a comunhão universal. Por outras palavras, a experiência das relações e da vida partilhada é fundamental para a pessoa se sentir equilibrada e feliz. Isto quer dizer que a fraternidade e o amor são a calda própria para o crescimento e amadurecimento da pessoa humana.

Eis alguns aspectos importantes para melhorarmos a nossa capacidade e aptidão de nos realizarmos em relações fraternos.
*Tentarmos compreender o outro na sua realidade mais profunda.
*Treinarmo-nos na arte de facilitar a realização dos outros, aceitando as suas diferenças, pois a pessoa não consegue realizar-se de modo satisfatório se os outros rejeitam ou impedem a emergência da nossa originalidade e unicidade pessoal.
*Tomar consciência de que não pode haver crescimento em maturidade sem nos dispormos a aceitar o outro por ser o que é e não por fazer o que eu quero que ele faça.
*Aprender a confiar realmente nos outros e a agir de modo a merecer a sua confiança.

*Estar atento ao que os outros fazem e valorizar as suas realizações. Por outras palavras, aprender a reconhecer as coisas boas que os outros fazem e felicitá-los por isso.
*Estar atento às crises de crescimento das pessoas com quem vivemos e tentar ajudá-las a ultrapassar essas mesmas crises. Na verdade, não há crescimento sem crises.
*Nas conversas e convívios procuremos utilizar palavras que exprimam esperança, rejeitando as conversas pessimistas e negativas.
*Tentar não dar guarida no nosso coração aos sentimentos negativos como ressentimentos ou planos de vingança.

*Procuremos estar atentos para que as nossas relações com os outros se processem numa linha de verdade e autenticidade.
*Cultivemos o sentido de pertença em relação à família ou aos grupos dos quais fazemos parte.
*Tentemos conhecer as qualidades dos outros e as próprias e compreender que o bem que os outros fazem não deixa de o ser só porque não foi feito por nós.
*Procuremos compreender e aceitar a história das outras pessoas, a fim de sermos capazes de as aceitar e compreender.
*Lembremo-nos com frequência de que os outros são um dom de Deus para nós, pois são mediações fundamentais para a nossa realização pessoal.

*Não nos esqueçamos de que seremos nós com os outros que faremos parte da Família de Deus, a qual não assenta nos laços do sangue mas sim numa comunhão orgânica animada pelo Espírito Santo.
*No contexto da nossa família ou da nossa comunidade de Fé procuremos estar abertos a novas formas de caminhar em grupo, desde que haja objectivos claros e elaborados por todos.
* Procuremos ser conscientes de que ninguém é bom em tudo. Eis a razão pela qual o Espírito Santo suscite nas comunidades uma grande diversidade de talentos e carismas, capacidades e ministérios.

*Deixemos que os outros sejam iguais a si mesmos, pois este é a maneira mais plena de amar. Na verdade, cada pessoa é única, original e irrepetível. Amar uma pessoa, portanto, implica permitir que a sua novidade de ser único, original e irrepetível possa emergir. Não nos esqueçamos de que é uma sorte encontrar na vida pessoas livres, conscientes e responsáveis. Estas pessoas são mediações muito especiais de Deus para a realização e felicidade dos outros. Estas pessoas vivem o amor como a arte de eleger o outro como alvo de bem-querer, aceitá-lo e valorizá-lo, apesar de ser diferente de nós.

*Assim como os outros não são a nossa medida, também nós não temos o direito de pretender ser a medida dos outros.
* Procuremos avivar a consciência de que estamos a caminhar para a comunhão universal, a qual assenta na convergência das diferenças e não numa fusão de seres reduzidas a meras cópias uns dos outros.
*Avivemos com frequência a nossa esperança, lembrando-nos de que estamos a caminhar para a plenitude do amor que é a Comunhão Universal. Na verdade, o amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

*Os seres humanos que têm a sorte de conviver com pessoas de grande maturidade emergem como plantas em jardim bem cultivado e irrigado. Procuremos ser assim para os outros e eles darão muitas graças a Deus por nos terem encontrado na vida.
*Procuremos ser pessoas que põem o amor e a fraternidade em primeiro plano, não marginalizam nem provocando o aparecimento de pessoas desenquadradas ou marginalizadas. Podem os ter a certeza de que, deste modo, muitas pessoas nos procurarão, olhando-nos nos olhos com muita alegria e gratidão.

*Podemos estar seguros que, na medida em que formos crescendo em maturidade, mais profunda e transparente será a nossa alegria, e o nosso sorriso terá mais sabor a verdade e a lealdade. Ao descobrirem em nós esta riqueza humana, as pessoas sentem-se encantadas e compreendem é disto que os seres humanos estão famintos. Na verdade, o ser humano está talhado para a comunhão universal.

*Tenhamos sempre presente de que as pessoas amadurecidas não são pretensiosas ou arrogantes. Estas pessoas, apesar de possuírem um elevado nível de maturidade, têm consciência plena de serem pessoas em construção. Eis a razão pela qual estas pessoas não estagnam na caminhada da sua realização pessoal.
*Quanto mais crescemos em maturidade pessoas, mais consciente nos tornamos do que ainda nos falta para atingirmos a plenitude do amor.
*Quanto mais amadurecidos formos mais crescem em nós os horizontes da fraternidade universal, a qual ultrapassa os horizontes estreitos das raças, das línguas, das nacionalidades, das culturas ou da condição sexual.

*O crescimento em maturidade leva as pessoas a considerar-se cada vez mais membros de uma Família Humana Universal. A sua Fé faz-lhes ver que a Família de Deus não assenta nos laços do sangue, mas sim na acção do Espírito Santo que, no interior de cada ser humano, faz dele filho de Deus Pai e irmão de Deus Filho (Rm 8, 14-17). A fraternidade humana, de facto, assenta no próprio plano de Deus que nos criou à sua imagem, a fim de nos acolher amorosamente como membros da sua Família.

São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). O evangelho de São João, querendo afirmar a união orgânica da Humanidade com Deus, diz que Jesus Cristo é a cepa da videira e nós os ramos (Jo 15, 1-7). A seiva que vem da cepa para os ramos e os torna fecundos é o Espírito Santo.


c) Passos Para a Maturidade do Amor

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão. O amor acontece sempre em relações geradoras de liberdade e criatividade. Dizer que o amor realiza significa dizer que a pessoa, na medida em que ama, realiza.

Eis algumas atitudes que exprimem a força que o amor tem para estruturar a pessoa e gerar comunhão:
*O amor modela e capacita o coração para o dom e a gratuidade.
*Aceita os defeitos do outro, apesar disso exigir renúncia e sacrifício.
*Sublinha as qualidades do outro e congratula-te com os seus sucessos.
*Não está sempre a exigir disponibilidade da parte do outro, mas procura estar disponível quando este precisa de si.
*Quando dá uma opinião ou aconselha alguém procura comunicar sempre o melhor da sua experiência e do seu saber. O egoísmo, pelo contrário, leva a pessoa a reservar sempre o melhor para si.

*Rejubila com os sucessos do outro como se de sucessos próprios se tratasse. A pessoa egoísta, pelo contrário, tende a ver sempre no sucesso do outro um mal para si.
*O jeito de se dar da pessoa que ama é de tal modo discreto e gratuito que o outro não se apercebe do sacrifício que, muitas vezes, está a ser feito em seu favor.
*A pessoa que ama não se afasta do outro por causa dos seus fracassos.
*O amor capacita a pessoa que ama para uma doação cada vez mais plena e gratuita. Eis a razão pela qual a pessoa que ama de verdade é sempre a primeira a ser recordada nos momentos de sofrimento ou dificuldades.
*A pessoa que ama evita magoar, mas não deixa de dizer a verdade pelo simples facto de que o outro pode não gostar.

*A pessoa que ama é transparente no seu modo de se relacionar.
*Aceita o outro, apesar dos seus defeitos, pois sabe que a pessoa não se reduz aos defeitos que tem. Por isso o ser humano sente que seria mais pobre se não se tivesse cruzado com as pessoas que o amaram a ajudaram a realizar-se como pessoa. Tudo isto nos faz compreender como Jesus tinha razão ao resumir o Evangelho ao mandamento do amor.

Eis as suas palavras no evangelho de São João: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei. Por isto é que todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35).

Olhando para Jesus podemos compreender o que é amar:
*Amar é eleger o outro como alvo de bem-querer, aceitando como é e agir de modo a facilitar a sua realização e felicidade. Podemos desmontar e concretizar esta definição em atitudes e no jeito de nos relacionarmos com os irmãos.
*Amar implica estar presente nas horas difíceis, pois o amor tende sempre para a convergência da comunhão.
*Amar significa edificar de modo cooperante e não na concorrência desleal.
*Amar é ajudar o outro a gostar de si, valorizando as suas realizações e empenhamentos, mesmo quando não correspondem aos nossos interesses.

*Amar é ajudar o outro a superar a solidão e ajudá-lo a suportar os fardos com que a vida, por vezes, nos carrega.
*Amar é facilitar o amadurecimento do outro, dando-lhe oportunidades para que se realize com pessoa livre, consciente e responsável.
*Quem ama nunca substitui. Pelo contrário, ajuda sem se sobrepor.
*O amor ajuda a pessoa a compreender que é melhor do que receber.
*Amar é ajudar o outro a descobrir sentidos para viver de modo empenhado e feliz.
*Amar é ser capaz de ficar calado quando se está magoado, esperando a oportunidade certa para dialogar serenamente.

*Amar é acreditar no outro e não pretender que a minha opinião é a única válida.
*Amar é cultivar a arte de saber escolher como tema de conversa e passatempo assuntos agradáveis ao outro.
*Amar é também estar atento e saber calar-se quando percebe que a conversa está a cansar o outro.
*Amar reconhecer as qualidades do outro e não girar obsessivamente em volta dos seus defeitos.
*Amar é ser capaz de partilhar não só o que tenho, mas sobretudo o que sou.
*Amar é entender que a disponibilidade para escutar e acolher é mais importante do que os presentes.

*Amar é aceitar as diferenças, a fim de o outro ser tal como é e não pretender que ele seja uma cópia de mim mesmo.
*Ama mais e melhor quem dá o primeiro passo na linha da reconciliação. Foi assim que Deus agiu para connosco em Jesus Cristo.
*Amar é estar atento e verificar se o outro está precisando de mim. Não basta pensar: “quando quiser que venha ter comigo”.
*Ama mais quem se antecipa, a fim de ser dom para o outro. Amar é estar disposto a morrer a muitos planos e gostos para dar ao outro a possibilidade de sentir acolhido e amado.

*Jesus levou o amor até à sua expressão máxima: “Dar a vida pelo amigo”. O nosso amor será tanto mais perfeito quanto mais nos aproximarmos desta meta.
*O amor modela o nosso coração para a comunhão e capacita-nos para sabermos edificar a nossa casa sobre a rocha firme.
*Amar é a veste indispensável para participarmos no banquete do Reino de Deus.

No seu hino ao amor, São Paulo menciona algumas atitudes fundamentais para a pessoa que quer tomar o amor A sério. Eis algumas das suas afirmações: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor sou como um sino que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça toda a ciência e os mistérios. Ainda que eu tenha uma Fé tão grande que seja capaz de transportar montanhas, se não tiver amor nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bem e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente e prestável. O amor não é invejoso. Não é arrogante nem orgulhoso. O amor não procura o seu próprio interesse e nada faz de inconveniente. O amor não guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. O amor tudo desculpa. Acredita sempre. Tudo suporta e tudo espera. O Amor jamais passará” (1 Cor 1-8).

Na verdade, o amor é imortal, pois Deus é Amor (1 Jo 4, 7). O nosso jeito de amar é a nossa identidade espiritual, a qual é eterna. Como vemos, a vida eterna emerge no interior do tempo mediante a dinâmica das relações de amor. A nossa maturidade espiritual coincide com o nosso jeito de amar e nos relacionarmos com os outros.

A nível biológico, a nossa identidade são as nossas impressões digitais e o nosso ADN. A nível social é o nosso nome, naturalidade, data de nascimento e filiação. A nível espiritual, a nossa identidade é o jeito de nos relacionarmos e comungarmos com os outros. Na Comunhão Universal da Família de Deus dançaremos eternamente o ritmo do amor, mas com o jeito que tivermos treinado na História, pois somos seres em realização histórica. Por outras palavras, o nosso ser pessoal espiritual terá eternamente a configuração que foi adquirindo na História, através do jeito da nossa realização na História.


d) Maturidade e Atitudes Responsáveis

Crescer como pessoa responsável é uma tarefa que ninguém pode realizar por nós. Mas também é verdade que ninguém é capaz de se tornar verdadeiramente responsável sem se relacionar com as outras pessoas, pois somos seres que só podem realizar-se em relações. Eis alguns passos significativos para o nosso crescimento como pessoas responsáveis:

*Quando nos comprometemos a fazer uma coisa, executá-la.
*É fundamental que nos responsabilizemos pelos nossos actos sem cair na tentação das desculpas fáceis ou deitar as culpas para cima dos outros. Quando assumimos a responsabilidade das nossas atitudes e acções estamos a afirmar-nos e a estruturarmo-nos com este sentido: A pessoa, para se tornar verdadeiramente responsável deve treinar-se no sentido de tomar conta da sua vida e da sua realização pessoal.

*Devemos assumir com plena consciência o cumprimento dos nossos deveres, realizando as nossas tarefas.
*É importante não ficarmos à espera que sejam os outros a lembrar-nos a hora ou o cumprimento dos nossos deveres.
*Sejamos responsáveis pelos nossos compromissos, a fim de nos tornarmos dignos de confiança.
*Quando alguém depositar confiança em nós e nos comunicar um segredo, saibamos guardá-lo só para nós, a fim de não trairmos os nossos amigos. A pessoa que trai a confiança que alguém depositou nela não é digna da confiança de ninguém. Habituemo-nos a usar a cabeça antes de agir, a fim de actuarmos de actuarmos como pessoas responsáveis.

Quando nos habituamos a medir as consequências dos nossos actos estamos a estruturar uma personalidade verdadeiramente responsável. Uma pessoa que age habitualmente de modo irreflectido e precipitado nunca chegará a ser verdadeiramente uma pessoa responsável. Na medida em que as nossas decisões são previamente pensadas e amadurecidas, estamos a edificar-nos como uma pessoa responsável.

*Não deixemos de realizar os nossos projectos e sejam os fiéis aos nossos compromissos.
*Quando tivermos um trabalho para fazer, procuremos realizá-lo a tempo e horas, a fim de nos auto controlarmos e merecermos a confiança das outras pessoas. Podemos ter a certeza de que a nossa responsabilidade crescerá na medida em que formos fiéis aos nossos deveres e compromissos. Na verdade a responsabilidade é a capacidade que a pessoa tem de responder de modo fiel e adequado aos deveres, compromissos e talentos que possui.

Como acontece com todas as outras dimensões humanas, a nossa responsabilidade é algo que cresce através do exercício. A pessoa humana não nasce responsável, tal como não nasce consciente ou livre. Mas vamo-nos tornando responsáveis de modo gradual e progressivo. Deus não nos criou acabados, a fim de sermos responsáveis pela nossa realização e, deste modo, sermos autores de nós mesmos.

Ser responsável, portanto, é dar o melhor de si de acordo com os talentos que tem, tal como Jesus ensinou (cf. Mt 25, 14-30). Como capacidade de responder de modo de modo fiel e adequado aos seus talentos, projectos e compromissos, a responsabilidade cresce em conjunto com a consciência e a liberdade. Como ser consciente, a pessoa descobre o leque das suas possibilidades de realização, tanto de tipo pessoal como social. Como ser livre, a pessoa decide agir de modo fiel e adequado aos seus talentos e é capaz de assumir compromissos face às outras pessoas.

A liberdade é a capacidade de se relacionar amorosamente com os outros e de interagir de modo criativo com as coisas e os acontecimentos. Como capacidade associada à consciência e à liberdade, a responsabilidade não é uma capacidade estática, isto é, oposta a dinâmica da realização pessoal.


e) Esperança Cristã e Maturidade

A esperança é uma dimensão fundamental da vida da pessoa. A pessoa humana não nasce feita. O futuro de uma pessoa é aquilo que lhe falta para essa pessoa atingir a sua plenitude. Uma pessoa sem esperança é uma pessoa bloqueada na sua capacidade de sonhar a sua realização e a sua plenitude na comunhão universal do Reino de Deus. Mediante a esperança a pessoa antecipa um resultado positivo ou uma expectativa que se apresenta como promissora de um futuro bom. É pela porta da esperança que a pessoa entra positivamente na dimensão do futuro.

Iluminada pela Palavra de Deus, a esperança adquire horizontes novos e que muito para além daquilo que o Homem podia sonhar. A esperança cristã capacita a pessoa para saborear a vida, a história e o Universo com os critérios e os horizontes do próprio Deus. Quando a esperança é optimizada pela Palavra de Deus recebe o nome de esperança teologal ou esperança cristã. Neste caso, deixa de ser apenas a capacidade humana de a pessoa se projectar para o futuro indefinido.
Pelo contrário, a esperança cristã é um dom de Deus. É o resultado da acção do Espírito Santo que vai modelando o nosso coração com essa capacidade de se projectar num futuro bem definido, pois engloba a plenitude do projecto salvador de Deus.

Podemos dizer que a esperança cristã é a esperança humana optimizada pela acção do Espírito Santo que nos capacita para olharmos o nosso futuro dentro do projecto dos horizontes da revelação de Deus. Iluminado pelo Espírito Santo e a Palavra de Deus, o crente começa a saber ler os acontecimentos à luz do plano amoroso de Deus para a Criação. A esperança cristã, portanto, não é um desejo vago e informe do coração humano que deseja um futuro melhor. Pelo contrário, apoia-se no conhecimento do Deus que se revela nas Escrituras, e na certeza de que este Deus é fiel e verdadeiro.

Olhando o mistério de Deus à luz da História da Salvação e à luz da sua própria experiência de Deus, o crente compreende que o Deus da esperança não nos desilude, pois realiza sempre o que promete. Por outras palavras, o conteúdo da esperança cristã surge para os crentes como algo claro e definido com o qual eles procuram configurar os seus projectos de vida.

Como podemos ver, a esperança cristã, ultrapassa os muros estreitos da vida terrena abrindo-nos o horizonte da participação na Família de Deus como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho. Mas isto não quer dizer que ela nos afaste ou aliene dos compromissos terrenos. Pelo contrário, fortalece-os, pois a esperança dá aos crentes novos motivos para agir.

À medida em que a Fé vai amadurecendo, o crente sabe que Deus não nos criou acabados, a fim de sermos seus colaboradores na obra da nossa realização. Na verdade, a pessoa faz-se, fazendo. Cria-se, criando. A esperança assegura-nos que a nossa realização pessoal tem uma dimensão espiritual, a qual encontra a sua plenitude na comunhão da Vida Eterna. A Fé cristã é uma luz que ajuda o crente a compreender o plano de Deus. A esperança, por seu lado, lança o crente em direcção ao futuro, dando-lhe a garantia de que o projecto amoroso de Deus vai incorporar e dar plenitude à nossa realização na história.

A vida teologal ou cristã tem, além da Fé e da Esperança a vertente caridade, isto é, a capacidade de amar ao jeito de Deus. Falando deste tripé da vida teologal, São Paulo diz o seguinte: “Agora permanecem estas três coisas: a Fé, a esperança e a caridade. Mas a maior delas é a caridade” (1 Cor 13, 13).

O amor é a única que tem densidade eterna. Na verdade, a nossa identidade espiritual coincide com o nosso jeito de amar e comungar com os outros. A Esperança cristã confere aos crentes uma coragem e alegria renovadas. Além disso dá-nos coragem para correr riscos, fazendo-nos compreender que é através dos nossos compromissos históricos que vamos edificando aquilo que seremos eternamente na Família de Deus.

A Esperança cristã capacita-nos para sermos capazes de integrar numa história com sentido as dificuldades e sofrimentos que não conseguimos eliminar. Tenho a certeza, diz São Paulo, de que os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a alegria e felicidade que o futuro nos aguarda em Deus (Rm 8, 18).

Movidos pela Esperança, os cristãos têm mais capacidade de viver em união com a vontade de Deus. A Carta aos Efésios diz que os cristãos de Éfeso, antes de se terem convertido ao Evangelho de Cristo, viviam sem esperança e sem Deus no mundo (Ef 2,12). Na verdade, os que não têm esperança não saboreiam os acontecimentos e a vida como fazendo parte de um projecto de amor e salvação.

Pela fé, os cristãos sabem que o Espírito Santo está no seu íntimo e podem contar com esta presença que facilita de modo admirável a nossa realização pessoal e o amor aos irmãos. Se acolhermos a presença do Espírito Santo no nosso íntimo a sua luz ajuda-nos a encontrar as saídas acertadas para edificarmos de acordo com o Deus da esperança.

A confiança neste Deus fiel e verdadeiro robustece a nossa esperança ajudando-nos a encontrar as respostas e as soluções certas para as dificuldades do dia a dia. A esperança cristã confere aos crentes a certeza que a sua vida tem sentido, pois leva no seu coração a certeza do sucesso. A esperança dá-nos a certeza de que Deus está empenhado com as nossas coisas, capacita-nos para nos sentirmos seguros e capazes de enfrentar as tarefas e dificuldades da vida.

Na medida em que nos faz ver a presença amorosa de Deus na nossa vida, a fé confere conteúdo à nossa esperança. Movido pela esperança, o cristão sente-se um filho muito amado de Deus. Eis o que diz a Carta aos Efésios: “E foi assim que Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, a fim de sermos santos e irrepreensíveis no amor, caminhando na sua presença. Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos, por meio de Jesus Cristo, de acordo com o beneplácito da sua vontade” (Ef 1, 4-5).

São Paulo convida os cristãos de Roma viverem alegres na Esperança, pacientes nos sofrimentos e fiéis na oração (Rm 12, 12). Como vimos, o alimento da Esperança Cristã é a Palavra de Deus. É esta a razão pela qual São Paulo, referindo-se às Escrituras diz: “Tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para alimentar a nossa esperança” (Rm 15, 4).

A vida cristã é um jeito teologal de viver. É isto que nos distingue dos outros seres humanos. Quanto mais crescemos na vida teologal, mais Cristo se torna o centro da nossa vida. São Paulo diz que o cristão adulto na fé tudo é referido a Cristo, quer se trate de viver quer de morrer. “Para mim, viver é Cristo e morrer é um lucro” (Flp 1, 21).

A Esperança dá-nos a certeza de que não estamos abandonados por Deus, diz o profeta Jeremias: “Conheço muito bem os projectos que fiz para vós, diz o Senhor. Eu fiz planos para prosperardes e não para serdes aniquilados. Os meus planos são o fundamento da esperança num futuro bom. Então chamareis por mim. Far-me-eis a vossa oração e eu escutar-vos-ei” (Jer 29, 11-12).

A esperança cristã confere aos crentes a certeza de que a Palavra de Deus acontecerá, pois a sua fidelidade é inabalável. Mesmo nos momentos de dificuldades, a esperança dá-nos a certeza de que não estamos sós, pois Deus é fiel. Em resposta a um pedido de ajuda de São Paulo, Deus respondeu: “Basta-te a minha graça, pois o meu poder libertador é perfeito quando se trata de ajudar a fraqueza” (2 Cor 12, 9).

Segundo o Evangelho de São João, Jesus robustece a esperança dos Apóstolos, garantindo-lhes que apesar da sua morte estes nunca serão esquecidos: “Agora estais abatidos, mas ver-vos-ei de novo e haveis de vos alegrar e já ninguém poderá tirar-vos a vossa alegria” (Jo 16, 22). A Carta aos Colossenses indica uma norma sábia para o amadurecimento da esperança: “Colocai a vossa mente nas coisas do alto e não nas terrenas” (Col 3, 2). Quanto mais a nossa mente e o nosso coração se deixam possuir pela Palavra de Deus, mais se robustece a nossa fé e mais sólida fica a nossa esperança.

O Salmo 126 diz que aos crentes semeiam na esperança colherão com alegria, pois Deus não falha: “Os que semeiam com lágrimas vão ceifar com cânticos de alegria. Os que saem chorando, ao levar a semente para a sementeira, voltarão com canções de alegria trazendo os molhos de espigas consigo” (Sal 126, 5-6).

A Palavra de Deus vai germinando no coração dos que a acolhem uma esperança com pleno sabor a plenitude. Isto faz dos crentes arautos da esperança libertadora de Cristo, como diz a Primeira Carta de São Pedro: “Acolhei Cristo nos vossos corações, a fim de estardes preparados para responder aos que vos procuram sobre as razões da vossa Esperança” (1Pd 3, 15).

Os horizontes da nossa esperança assentam sobre os dados da fé e não na evidência. A Esperança assegura-nos de que havemos de nos encontrar face a face com o nosso Deus. Nessa altura conhecê-lo-emos directamente, tal como somos conhecidos por ele (1 Jo 3, 2). A esperança dá-nos a garantia de que apesar dos sofrimentos da vida presente, Deus tem para nós uma plenitude onde a nossa alegria não terá limites nem condicionamentos. O único limite será a nossa capacidade de saborear a alegria e felicidade infinita de Deus: “Bem aventurados os que agora chorais, pois haveis de rir” (Lc 6, 21).

Fomos criados para a felicidade. A nossa esperança dá-nos a certeza de que este plano amoroso de Deus se realizará. A nossa fé diz-nos que a Palavra de Deus e o Espírito Santo actuam em perfeita harmonia. A Palavra para nos revelar o sentido do plano salvador de Deus. O Espírito Santo para tornar a Palavra fecunda, isto é, realizando em nós o que a Palavra significa, pois a Palavra de Deus é eficaz graças à acção do Espírito Santo.

A Carta aos Hebreus diz que Abraão é um modelo de Esperança. Apesar de a evidência sugerir o contrário, Abraão confiou em Deus, abrindo o seu coração à esperança. Graças a esta esperança, Abraão confiou no Senhor. E foi assim que ele obteve aquilo que esperava. É sinal de maturidade tomar a sério a Palavra de Deus e agir em conformidade com ela. O Cristão amadurecido na fé sabe que Deus nunca desilude. Eis as palavras da Carta aos Hebreus: “E assim, depois de ter esperado com paciência, Abraão recebeu o conteúdo da promessa” (Heb 6, 15).

A Esperança cristã é cristocêntrica. O conteúdo da promessa, isto é, o horizonte da nossa salvação, é a participação na Festa da Família de Deus com Cristo ressuscitado. Nessa festa dançaremos o ritmo do amor com o jeito com que tivermos treinado agora no processo da nossa realização histórica. A Esperança cristã, portanto, capacita-nos para vermos a nossa meta com o olhar do próprio Deus.

Isto quer dizer que as lentes da esperança optimizam e ampliam a luz da nossa inteligência. A esperança alcança a nossa plenitude com Deus, a qual não se reduz aos bens do corpo, pois atinge aponta para a plenitude da comunhão universal do Reino de Deus. Por outras palavras, a esperança cristã ultrapassa os muros estreitos da vida que morre, abrindo-nos os olhos do coração para contemplarmos, não apenas os bens da Terra, mas também os bens do Céu.

Mas isto não quer dizer que a esperança cristã distrai os crentes dos compromissos históricos. Pelo contrário, a Palavra de Deus envia-nos para o mundo com critérios diferentes dos do mundo. Os cristãos, diz o evangelho de São Mateus, são sal, luz e fermento no meio do mundo (cf. Mt 5, 13-16). A esperança garante-nos de que havemos de viver para sempre como membros da Família Deus, isto é, filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho. Isto quer dizer que à luz da esperança cristã, os sofrimentos e a própria morte não são entendidos como tragédias sem sentido (Rm 8, 18).

Depois de uma vida gasta ao serviço do bem e do amor aos irmãos, o cristão, amadurecido e alimentado por uma vida por uma esperança robusta, compreende perfeitamente estas palavras de São Paulo: “Por isso não desfalecemos. E mesmo se em nós o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se todos os dias. Com efeito, a nossa momentânea e leve tribulação proporciona-nos um peso eterno de glória além de toda e qualquer medida. Não olhamos para as coisas visíveis, pois estas são passageiras. Pelo contrário, olhamos para as realidades invisíveis que são as eternas” (2 Cor 4, 16-18). Fundada no acontecimento da ressurreição de Jesus Cristo, a esperança cristã dá-nos a certeza de que não estamos a caminhar para o fracasso final de uma morte sem saída, mas para a plenitude da Vida Eterna.


f) Comunidade e Maturidade de Fé

A comunidade é uma realidade orgânica e dinâmica. Eis a razão pela qual São Paulo lhe chama o Corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27). O evangelho de São João diz que os membros da comunidade são os ramos da videira cuja cepa é Jesus Cristo. O sangue que alimenta e fortalece este Corpo de Cristo é, naturalmente, o Espírito Santo. Ele é a seiva que vitaliza e fortalece os circuitos vitais entre a cepa e os ramos da videira. O Espírito Santo é a Água Viva que faz jorrar no nosso íntimo rios de Vida Eterna (Jo 7, 37-39; 4, 14).

Nós fomos baptizados num mesmo Espírito, diz São Paulo, a fim de formarmos um só Corpo: “Pois, como o Corpo é um só e tem muitos membros e estes membros, apesar de serem muitos, constituem um só Corpo, assim também Cristo. De facto, todos nós fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, pois tanto os judeus como os gregos, os escravos ou cidadãos livres todos bebemos de um só Espírito, a fim de formarmos um só corpo” (1 Cor 12, 12-13).

Isto que dizer que quando trabalhamos para edificar a comunidade, estamos a edificar o Corpo de Cristo. Os membros da comunidade são todos inspirados pela Palavra de Deus e pela acção do Espírito Santo. Quanto mais os crentes crescem na Fé, mais aptos estão para realizar uma acção evangelizadora eficaz. Por serem membros do Corpo de Cristo, os crentes têm todos a mesma dignidade fundamental, pois todos são filhos de Deus.

A diversidade de funções e ministérios não altera esta igualdade fundamental dos crentes. Todos são chamados a exercer funções e ministérios na comunidade. Não há verdadeira comunidade se não houver um projecto comum com metas e objectivos. Para serem membros válidos na edificação da comunidade, os crentes devem procurar desenvolver algumas qualidades importantes.

Eis algumas qualidades importantes para a edificação da comunidade:
*Generosidade
*Entrega
*Entusiasmo
*Espírito de cooperação
*capacidade de diálogo
*Disponibilidade para escutar
*Caridade
*Sentido de Responsabilidade
*Iniciativa
*Docilidade à acção do Espírito Santo.

Não há comunidade autêntica sem uma amizade leal e verdadeira entre as pessoas que a constituem. A comunidade não deve ser muito grande, a fim de todos poderem intervir nos momentos de decisão programação e distribuição de tarefas. O que é decidido e programado em comunidade deve ser respeitado. Quando as decisões e a programação já não funcionam bem, é altura de se fazer uma revisão e, se necessário, elaborar uma nova programação.

Não nos podemos esquecer de que a comunidade é um organismo vivo e, portanto, em processo de crescimento. Pretender amarrar a comunidade a decisões e programações estáticas e imutáveis significa bloquear a dinâmica do Espírito Santo. São Paulo afirma que é o Espírito Santo que torna os membros aptos para a acção evangelizadora: “Não é que sejamos capazes de algo por nós mesmos. É de Deus que nos vem a capacidade. Na verdade, é ele que nos torna aptos para sermos ministros de uma Nova aliança, não da letra, mas do Espírito Santo. De facto, a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Cor 3, 5-6).

Para nos tornarmos mais conscientes da importância do nosso agir na edificação da comunidade podemos colocar-nos algumas questões fundamentais:
1-Dou-me conta de que eu, como os demais seres humanos, tenho tendência a auto enganar-me e a iludir-me?
2- Procuro tornar-me consciente das motivações mais profundas do meu agir? Tenho de tomar consciência de muitas vezes as motivações dos meus comportamentos e atitudes resultam de motivações inconsciente que não são as motivações que eu pretendo apresentar para mim ou para os outros?

3- Dou-me conta de que muitas das minhas desculpas e demissões são fruto da minha preguiça e falta de amor à causa da evangelização?
4- Apercebo-me de que a minha falta de flexibilidade e esforço para entender as razões do outro dificulta a vida dos meus irmãos e limita as minhas possibilidades de realização pessoal?
5- Dou-me conta de que muitas vezes não estou a fazer de Deus a questão primeira da minha vida?
6- Não será que a minha falta de generosidade e espírito de sacrifício me levam a desanimar com grande facilidade, acabando por me demitir face às mais pequenas adversidades? Estou atento para vencer a tentação de pensar que já sei tudo?

7- Não serei eu daqueles que estão sempre dispostos a mudar a vida dos outros, mas nada fazem para mudar a própria vida?
8- Quais foram os momentos mais importantes da minha caminhada de Fé?
9- Dou-me conta de que os momentos em que fui mais feliz foram aqueles em que fui generoso?
10- Tomo a Fé e o Evangelho a sério, ao ponto de estar disposto a correr riscos como Jesus e os profetas correram?
11- Como reajo face às mudanças e às interpelações do novo na comunidade?
12- Que valores me motivam mais nesta fase da minha vida e no desejo de me realizar como apóstolo?

13 Recordo com gratidão alguns crentes que tenham sido mediações especiais do amor de Deus para mim?
14- Sinto que outras pessoas, da comunidade ou não, me vão recordar com gratidão porque ficaram mais felizes por se terem cruzado comigo na vida?
15- Quais os talentos que posso aportar á comunidade?
16- Sinto-me comprometido com os outros e tenho consciência de que, para me realizar como crente tenho de ser corresponsável na vida da comunidade? Não podemos esquecer-nos de que a comunidade forma uma união orgânica. Nenhum membro pode demitir-se ou alhear-se sob pena de bloquear ou entravar o crescimento da mesma sob pena de não crescer e impedir o crescimento dos outros.