Hoje é um Dia de Salvação para nós!




Millennium Park, Chicago EUA



O evangelho de São João diz-nos que Cristo Ressuscitado nos dá a Água Viva que faz jorrar no nosso íntimo a Vida Eterna (Jo. 4, 14). Esta Água viva, acrescenta o mesmo evangelho, é o Espírito Santo que Cristo, ao ressuscitar, nos comunica de maneira nova (Jo 3, 37-39).

Deste modo, ao ressuscitar, Jesus tornou-se o Novo Adão que, através do Espírito Santo, vai corrigindo em nós as distorções operadas pelo pecado do primeiro Adão. O Livro do Génesis diz que o primeiro Adão, devido ao seu pecado, nos fechou as portas do Paraíso (Gn 3, 23-24).

O Novo Adão abriu-nos de novo as portas do Paraíso, como Jesus diz ao Bom Ladrão no momento da sua morte e ressurreição. Eis as palavras de Jesus: “Em verdade te digo que, hoje mesmo, estarás comigo no Paraíso (Lc 23, 42-43).

Segundo o evangelho de São Mateus, no momento em que Jesus morre e ressuscita, os justos começam a ressuscitar com Cristo (Mt. 27, 52).  Portanto, ao vencer a morte, Jesus comunicou-nos o Espírito Santo que é o sangue de Cristo ressuscitado a circular no nosso coração.

De facto, o Espírito Santo é o Sangue da Nova e Eterna Aliança que anima e fortalece a Vida Divina a circular em nós. Por outras palavras, o Espírito Santo é o vínculo maternal que nos incorpora na comunhão da Família de Deus como filhos de Deus Pai e irmãos de Cristo (Rm 8, 14-16).

É também pelo Espírito Santo que Jesus de Nazaré, o Filho de Maria e o Filho Eterno de Deus, sem se confundirem, fazem um e o mesmo Cristo. Por outras palavras, o Espírito Santo é o vínculo maternal que une e dinamiza a interioridade humana de Jesus com a interioridade divina do Filho Eterno de Deus.

Por ser homem connosco Jesus está organicamente unido a todos os seres humanos a partir do coração de cada ser humano. Isto quer dizer que a Humanidade, organicamente unida a Jesus, forma o Cristo total.

A Humanidade, portanto, forma um todo orgânico com Jesus ressuscitado. O evangelho de São João diz que nós somos os ramos da videira cuja cepa á Jesus Cristo (Jo 15, 1-8).

Apesar de ser um homem como nós, Jesus Cristo também pertence à esfera de Deus. Na verdade, a sua interioridade espiritual humana interage directamente com a interioridade divina do Filho de Deus, graças ao Espírito Santo, que é o animador desta reciprocidade amorosa humano-divina.

Por estar organicamente unido a nós, Cristo comunica-nos o Espírito Santo de modo intrínseco, isto é, como sangue do Senhor Ressuscitado, graças à interacção orgânica e dinâmica que nos une.

Associando a ressurreição de Jesus à comunicação do Espírito Santo, o evangelho de São João diz que a carne que Cristo nos dá na Eucaristia é uma realidade espiritual, não biológica (Jo 6, 62-63). Por outras palavras a carne e o sangue que Jesus nos dá a comer é a comunicação do Espírito Santo que nos vivifica e diviniza.

Eis as palavras do evangelho de São João: “E se virdes o Filho do Homem ressuscitar e voltar para onde estava antes. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62- 63).

Isto quer dizer que a Eucaristia é um sacramento que proclama, visibiliza e corporiza a acção salvadora de Jesus ressuscitado a actuar em nós pelo Espírito Santo. É esta a dinâmica do Novo Adão o qual é a cabeça da Nova Criação, como diz São Paulo (2 Cor 5, 17-19).

Com Cristo ressuscitado, a Humanidade atingiu a plenitude dos tempos, isto é, o limiar da ressurreição e integração na comunhão da Família divina. Se Cristo não fosse homem, nós não éramos divinos, pois somos divinizados pelo facto de formarmos uma união orgânica e dinâmica com ele.

Por outras palavras, ao comunicar-nos o dom do Espírito Santo, Jesus Cristo torna-se a fonte da vida eterna para nós. Podemos dizer que Jesus Cristo, ao ressuscitar, colocou a Vida Eterna ao nosso alcance!

Querendo afirmar que Deus não criou a Humanidade para a morte, o Livro do Génesis diz que no centro do Paraíso estava a Árvore da Vida cujo fruto dava a Vida Eterna aos que o comessem (Gn 3, 23). Isto quer dizer que a Vida Eterna não é inerente à condição natural do ser humano, mas sim uma graça que nos vem da Árvore da Vida. Depois o Génesis acrescenta que, devido ao seu pecado, Adão ficou impedido de comer o fruto da Árvore da Vida (Gn 3, 24).

Ao ressuscitar, Jesus Cristo abre de novo as portas do Paraíso. Segundo a linguagem da Eucaristia a Carne e o Sangue de Jesus, isto é, o Espírito Santo, é o fruto da Árvore da Vida: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. Na verdade, a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, assim também, quem me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57).

Deste modo, a Árvore da Vida renova-nos e liberta-nos do pecado do velho Adão. É hoje que Cristo Ressuscitado, o Novo Adão, está a fazer emergir em nós o Homem Novo. A Primeira Carta aos Coríntios, diz que o primeiro Adão era apenas um ser vivente, enquanto Cristo Ressuscitado é um espírito vivificante, isto é, a fonte da Vida Eterna (1 Cor 15, 45). Recorrendo à simbologia da Eucaristia, São Paulo diz que estamos organicamente unidos a Cristo, o Novo Adão, pois somos membros do seu corpo (1 Cor 12, 27). Nós só podemos dar frutos de vida na medida em que estivermos organicamente unidos a Cristo, tal como os ramos da videira estão unidos à cepa (Jo 15, 4-5).

A seiva que vem da cepa para os ramos e os torna fecundos é o Espírito Santo. Mediante a presença recriadora do Espírito Santo em nós, somos assumidos e incorporados na Família da Santíssima Trindade.

Isto quer dizer que a plenitude do Homem não é o humano mas o Divino!

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

Colaborar com o Deus Vivo e Verdadeiro (II)

Kyrgyz Yurt, Afeganistão (fonte: National Geographic)



Oração e Sintonia com a Acção de Deus

Procura sentar-te num sítio silencioso durante uns quinze minutos pelo menos. Começa por fazer silêncio antes de começares a dialogar com Deus. Começa por pensar que, no mais íntimo do teu coração, Deus está em ti e por ti. Procedendo assim, a tua mente começa a ficar predisposta para acolher a presença e a acção transformadora do Espírito Santo.

Depois podes iniciar o diálogo com Deus. Tomemos a Divindade a sério. Para nós, cristãos, a Divindade é uma comunhão de três pessoas. Podemos iniciar o nosso diálogo ou com o Pai, de quem somos filhos, ou com o Filho de quem somos irmãos. Também nos podemos dirigir ao Espírito Santo que é, no nosso interior, o amor maternal de Deus. É ele que nos põe em sintonia com o Pai e o filho.

O nosso diálogo com Deus deve ser simples, sem palavras rebuscadas. Devemos usar as palavras mais naturais como fazemos com as pessoas que amamos. Falemos a Deus da nossa vida, sabendo que Deus a conhece e entende muito bem. Digamos a Deus como vão as nossas actividades e as dificuldades que, por vezes nos surgem. Não nos ponhamos a pedir muitas coisas ou a insistir muito num aspecto concreto. Este modo de orar cria em nós uma consciência miserabilista. É verdade que somos pobres e frágeis, mas com Deus podemos tudo.

A nossa atitude, portanto, deve ser de consciencializar a presença de Deus em nós e dar-lhe muitas graças por nos capacitar para podermos fazer maravilhas. Segundo o evangelho de Lucas, Maria tinha uma plena consciência disso: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 46-49).

Oremos e tenhamos a certeza de que a oração é sempre eficaz. Não no sentido de mudar o coração de Deus, mas no sentido de modificar o nosso coração e a nossa mente e capacitando-nos para fazer coisas que nunca seríamos capazes de imaginar. Na medida em que nos transformamos e somos invadidos pela força amorosa e criadora de Deus tornamo-nos mediações de libertação e felicidade para os irmãos.

Na oração não devemos utilizar palavras ou pensamentos negativos. Esse procedimento não altera nem influencia Deus. Além disso devemos ter presente que os pensamentos e as palavras negativas moldam padrões negativistas na nossa mente. Apenas as palavras positivas que exprimem fé na presença de Deus e de gratidão pela sua acção em nós são dignas de Deus.

Ao pedirmos qualquer coisa não deixemos de insistir que se faça a vontade de Deus. Deste modo estamos a reforçar a certeza de que a vontade de Deus, a nosso respeito, é muito melhor para nós do que a nossa própria. Por outras palavras, normalmente o que Deus nos quer dar é muito melhor do que aquilo que nós lhe pedimos. O querer de Deus é muito melhor do que o nosso no que se refere ao nosso bem e felicidade.

Tenhamos a coragem de dizer a Deus com fé: “ponho-me nas tuas mãos, pois sei que o teu querer a meu respeito coincide com o que é melhor para mim”. Procedendo assim estamos a abrir o coração a Deus, permitindo que o manancial infinito a força criadora e salvadora de Deus circule em nós.

São Paulo dá-nos o suporte perfeito para esta confiança em Deus: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados de acordo com o seu desígnio. De facto, àqueles que Deus conheceu antecipadamente também os predestinou, a fim de serem uma imagem idêntica à do seu Filho, o qual se tornou o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8, 28-29).

Depois, passemos da oração para a vida, procurando dar o melhor de nós com a certeza de que, graças à força de Deus em nós, as nossas actividades terão os melhores resultados. Não nos esqueçamos de pedir a Deus pelas pessoas que nos querem prejudicar ou nos maltrataram. O ressentimento, a raiva e o ódio são forças negativas que bloqueiam os circuitos através dos quais circulam as energias activadas em nós pela acção do Espírito Santo e da Palavra de Deus.

Quando surge um problema devemos falar a Deus sobre ele de modo simples e directo e com uma atitude de humildade, como por exemplo: “Eu sei que eu e tu, Espírito Santo, os dois em conjunto, podemos resolver de modo satisfatório todos os meus problemas e dificuldades". Podemos fazer como um filho faz com o pai, a mãe ou um irmão mais velho perguntando a Deus sobre o melhor modo de resolver determinado problema.

A nossa vida corporal, psíquica ou espiritual é em grande parte condicionada pelas nossas emoções. Por outro lado, a nossa vida emocional é profundamente condicionada pelos nossos pensamentos. A oração ajuda-nos a configurar a nossa mente com a Palavra de Deus. Como sabemos, a originalidade do cristão é a vida teologal de Fé, Esperança e Caridade. A vida teologal põe a nossa mente e o nosso coração ao ritmo da revelação de Deus. Quanto mais cresce em nós a vida teologal mais circulam, no nosso íntimo, as energias que nos capacitam para agir com acerto e sucesso no dia a dia. No evangelho de João Jesus garante-nos que veio para que tenhamos vida em abundância (Jo.10,10). O cultivo da vida teologal é o modo mais eficaz de viver em sintonia com as energias de Deus.

Há muitas pessoas vivem habitualmente cansadas, fazendo esforços enormes para obter resultados minúsculos. Isto significa que as suas energias criadoras não flúem normalmente. Além disso, essas pessoas bloqueiam a força criadora de Deus, impedindo-a de circular espontaneamente nem em grande abundância. Estas pessoas não se sentem motivadas para criar, pois sentem-se sem forças para o fazer. Estas pessoas sentem-se tristes. E têm razão, pois o seu estado significa que estão psíquica e espiritualmente e doentes.

O caminho para sair deste sofrimento é desbloquear as vias pelas quais circulam as energias e deixar-se habitar pela força criadora de Deus. Um primeiro passo para superar estas situações é tentar cultivar pensamentos positivos como, por exemplo: “Estar cansado e triste não é uma fatalidade”; “podes mudar esta situação”; “sentes-te permanentemente cansado e triste porque não emergem pensamentos positivos na tua mente. Além disso não deixas que, no teu coração, circule a força do amor de Deus a optimizar as tuas capacidades de amar a Deus e aos irmãos”.

É muito importante que façamos momentos de silêncio, visualizando a presença e acção de Deus no nosso interior. É importante não admitir pensamentos negativos na nossa mente, expulsando-os, cinco, dez, vinte ou cinquenta vezes por dia. Eis ainda outro aspecto importante: Quanto mais cultivarmos atitudes de não julgamento, de perdão, de amor a Deus e aos irmãos, mais os bloqueios vão sendo destruídos e mais circulará a seiva da alegria e felicidade.

As pessoas que carecem de energia estão emocional e psicologicamente desorganizadas. Isto tem um impacto enorme na saúde do seu corpo. Estas pessoas sentem-se constantemente envolvidas em conflitos interiores e problemas de saúde, seja de ordem corporal, psíquica ou espiritual. Precisamos de cultivar uma Fé sólida e uma grande harmonia interior, a fim de o nosso diálogo e encontro com Deus atingir profundidade e dinâmica libertadora. Como sabemos, a Palavra de Deus é o alimento fundamental para crescermos na Fé. As energias espirituais que nos habitam, tanto as de Deus como as nossas são, no nosso íntimo, a fonte do milagre. Deus está em nós e quer o nosso equilíbrio corporal, psíquico e espiritual. A oração no Espírito Santo, fundamentada numa Fé forte é condição fundamental para acontecer, em nós, o milagre.

Com Deus podemos caminhar para uma crescente harmonia da nossa personalidade. Mas não pensemos que Deus actua sem a nossa colaboração. A Fé, a harmonia interior e a paz que dela resulta são mediações excelentes para que as nossas energias interiores se encontrem com as energias de Deus e sejam activadas por elas.

O diálogo com Deus é sempre criador, pois estamos interagindo com a fonte das energias espirituais e criadoras do mesmo Deus. É isto que o evangelho de Lucas quer dizer ao afirmar que o Reino de Deus está dentro de nós (Lc.17,21). Quando sintonizamos com o Espírito Santo que nos habita sentimo-nos melhor, trabalhamos melhor, fazemos melhor, dormimos melhor e facilitamos melhor a realização e felicidade dos que vivem a nosso lado.

Como diálogo com Deus, a oração muda a nossa mente e o nosso coração, alterando profundamente a nossa vida e as relações com os outros. Mas não devemos confundir a oração enquanto diálogo amoroso e familiar com as pessoas divinas com rezas ditas de modo mecânico e segundo um número determinado para obter a devida eficácia. É importante não fazer da oração uma questão de um número determinado de palavras mágicas. Este tipo de rezas não conduz à experiência da acção libertadora de Deus no nosso íntimo.

O próprio Jesus nos previne do perigo de distorcermos a oração, fazendo dela uma questão de formular mágicas: “Nas vossas orações não sejais como os gentios que usam de vãs repetições, pois pensam que, por falarem muito, são mais atendidos. Não façais como eles, pois o vosso Pai do Céu bem sabe do que precisais, antes de lho pedirdes”.

Orar é encontrar-se e comunicar com Deus no nosso íntimo. O Espírito Santo conduz-nos ao diálogo com Deus em termos familiares. Conduz-nos a Deus Pai com sentimentos de filhos e a Deus Filho com sentimentos de irmãos. Como já vimos, é o Espírito Santo que nos introduz na comunhão com as pessoas divinas a qual nos leva depois à comunhão com as pessoas humanas: “O primeiro mandamento é: Escuta Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com todo o teu espírito, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Mc.12,29-30; Mt.22,37-38; Lc.10,27).
Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

Colaborar com o Deus Vivo e Verdadeiro (I)

Monges no templo de Song Pee Nong, Tailândia (fonte: National Geographic)

a) Colaborar com a Acção de Deus em Nós

A presença de Deus em nós não é apenas uma questão teórica. A força e o poder de Deus é real e está disponível em cada momento para fluir de Deus para nós se lhe abrirmos as vias de circulação: “Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o Agricultor. Ele corta os ramos que não dão fruto e poda os ramos fecundos, a fim de darem mais fruto (…). Tal como os ramos não podem dar fruto por si mesmos, mas só permanecendo na videira, assim acontecerá convosco se não permanecerdes em mim (…). Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e assim acontecerá” (Jo.15,1-7).

Com Deus podemos dominar os problemas do dia a dia. O grande segredo é confiar. Em primeiro lugar confiar em Deus e depois em nós mesmos, pois na medida em que estamos unidos a Deus através de Cristo somos fortalecidos e capacitados para coisas extraordinárias. Podemos ter a certeza de que Deus optimiza as nossas capacidades fazendo que, sem deixarmos de ser os mesmos, passamos a ser profundamente diferentes. Na medida em que permitimos ao Espírito Santo actuar em nós, a força e o poder de Deus passa a circular em nós.

No evangelho de São João, Jesus diz que ele e o Pai são um (Jo 10, 30). Não por se confundirem ou fundirem, mas porque vivem em comunhão orgânica animada pelo Espírito Santo.  Assim acontece connosco se deixarmos que o Espírito Santo alimente esta mesma comunhão orgânica com Deus Pai e Deus Filho. Quando isto acontece, podemos ter a certeza de que o sucesso está garantido.

Agora já podemos compreender a raiz da confiança cristã. Por estar fundamentada em Cristo (a cepa da videira) e no Espírito Santo que é a seiva a circular da cepa para nós, os ramos, esta confiança e segurança não é de modo nenhum presunção ou vaidade. É através da união a Cristo que o poder de Deus flui para nós. São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Estar em sintonia com o Espírito Santo que nos habita é estar em sintonia em sintonia com a força criadora e salvadora de Deus. Esta certeza de gera em nós uma auto confiança enorme capacitando-nos para realizações cheias de sucesso. Mas não pensemos que esta realidade acontece de modo mágico. Sem um empenhamento sistemático da nossa parte, não oferecemos a Deus condições para agir. Possuímos um feixe enorme de energias no nosso íntimo. Mas estas energias só podem ser dinamizadas e orientadas de modo libertador na medida em que estejamos em sintonia com a acção de Deus em nós.

Quando activadas por traumas e experiências muito dolorosas, as energias do nosso ser profundo são activadas de modo desarmonioso e descontrolado, provocando situações de grande sofrimento e distúrbio social. É muito frequente encontrarmos pessoas infelizes e privadas de auto estima. Em geral estas pessoas estão atormentadas por sentimentos de inferioridade e falta de segurança.

A libertação destas pessoas passa pela desdramatização das experiências negativas que estão na base da sua auto estima. Estas pessoas têm de libertar a mente de pensamentos negativos, ocupando-a com outros pensamentos positivos. Se o não puder fazer sozinha pode recorrer a uma ajuda técnica. A este respeito a carta aos Filipenses diz o seguinte: “Tudo posso através de Cristo, o qual me fortalece e capacita” (Flp 4,13).

Os crentes devem repetir este e outros pensamentos semelhantes durante o dia. Pouco a pouco a mente negativa e geradora de fracasso começa a ser um manancial de paz e fortaleza. Porquê caminhar quando posso voar. Esta viragem psíquica e espiritual acontece não só pela nossa técnica de mudar os pensamentos. A técnica apenas oferece condições a Deus para actuar.

Quanto mais difícil for a situação da pessoa maior deve ser o esforço de esvaziar a mente de pensamentos negativos, colocando em seu lugar pensamentos positivos, alimentando a mente com a sabedoria das Escrituras que é o alimento da Fé. É bom repetirmos muitas vezes para nós: “Deus é real e verdadeiro. Eu sei que Ele está comigo e por mim. Eu sei que a Palavra de deus e a presença maternal do Espírito Santo em mim me ajuda a transformar a mente e o coração. A luz de Deus vai emergir no interior da minha mente e do meu coração. Por isso tenho a certeza de que, com ele, vou ter sucesso nas minhas tarefas e empreendimentos. Logo de manhã podemos dizer-nos cheios de confiança em Deus: “Sei que o meu dia vai ser bom”. Se dissermos isto com fé e confiança podemos ter a certeza de que isto vai mesmo acontecer.

Deus é dinâmica amorosa. Deus é amor, dizem as Escrituras (1 Jo 4, 7; 4, 16). A fonte criadora de todas as coisas, portanto, é o amor de Deus. Ora este amor habita em nós (Rm 5, 5). Se lho permitirmos, a força criadora de Deus começa a criar em nós e por nós. Então teremos oportunidade de fazer a experiência de que isto ultrapassa tudo o que podíamos imaginar. Isto é obra de Deus, não nossa. O nosso mérito consiste apenas em desobstruirmos as vias da interacção e circulação da energia de Deus em nós.

A Fé é profundamente poderosa e capaz de vencer as forças negativas do medo, da ansiedade, dos ressentimentos e de nos capacitar para realizarmos maravilhas que, sem ela, nunca poderíamos realizar. As atitudes das pessoas são mais importantes do que os factos em si. Seja qual for o acontecimento, a atitude que tomamos face a ele é mais importante do que o próprio acontecimento. O modo de pensar sobre um acontecimento pode derrotar a pessoa ainda mesmo antes de fazer algo. Um pensamento positivo é capaz de modificar ou ultrapassar as dificuldades relacionadas com o acontecimento.

As pessoas dominadas por um complexo de inferioridade vêem os factos através de uma lente sombria e triste. Se estas pessoas começarem a alimentar a Fé com a Palavra e deixar o Espírito Santo actuar em si dentro de pouco tempo e sem saber bem como, fazem a experiência de que as coisas estão mesmo a mudar. Deixando-se transformar pela força de Deus, a pessoa vai passando pouco a pouco do sentimento de derrota para a sensação de vitória.

É um facto importante Deus estar em nós e por nós. Isto não quer dizer que, pelo facto de estar por nós esteja contra alguém. Deus é amor e por isso nunca se vinga de ninguém. É muito perigoso brincar com Deus. Não porque Deus se vingue, pois Deus nunca se vinga. Mas é perigoso brincar com Deus, pois isso é o sinal evidente de que a pessoa entrou no caminho do malogro e do fracasso.

É muito importante que a pessoa saiba que a vontade de Deus a seu respeito coincide rigorosamente com o que é melhor para a pessoa. Por esta razão é bom para a pessoa dizer-se com frequência: “Sinto-me seguro, pois sei que Deus está comigo e me ama mais que qualquer outra pessoa. Eis o que a este propósito diz a segunda Carta aos Coríntios: “Por isso não desfalecemos, pois ainda que o homem exterior se vá degradando, o interior renova-se e fortalece-se mais e mais em cada dia que passa” (2Cor.4,16).

Este texto magnífico revela que São Paulo tinha uma experiência magnífica da presença e da acção de Deus em nós. Para aprofundarmos esta experiência da acção de Deus em nós é importante pararmos, concentrarmo-nos e tentar visualizar a presença deste Deus Vivo e Verdadeiro a actuar em nós e através de nós. Segundo a Bíblia, o coração é o núcleo essencial da personalidade onde se joga a tarefa de optar por Deus e os irmãos ou contra Deus e o próximo. Depois de tentarmos visualizar com a mente e a imaginação este núcleo essencial da personalidade e a acção de Deus em nós, podemos dizer algo parecido com isto:

“Deus está no meu interior ajudando-me e guiando-me. Por isso tenho a certeza de que este é um dia de libertação e salvação para mim. Sei que os factos deste dia, graças à presença de Deus em mim e por mim vão ser adequadamente resolvidos, acabando por ser positivos”.

Tenhamos a certeza de que isto não é mera auto-sugestão, mas exercício da Fé. Graças a este exercício, começamos a dar espaço à circulação da força criadora de Deus em nós. Procedendo assim, podemos verificar com alegria como a força criadora e libertadora de Deus está a realizar mudanças significativas em nós, capacitando-nos para enfrentar os acontecimentos e construirmos de modo positivo a nossa vida.

Na medida em que a nossa mente comece a ser habitada com os conteúdos da Palavra de Deus e por pensamentos de confiança em Deus e de auto estima, começamos a agir sem medo, sem ansiedade e sem angústia. Como resultado desta mudança, começamos a ser capazes de minimizar e ultrapassar os obstáculos, dizendo com São Paulo: “Se Deus está por nós quem pode estar contra nós?” (Rm.8,31).

A Bíblia, usando um símbolo bonito, diz que, no centro do Paraíso, estava a árvore da Vida. Os seus frutos davam vida eterna às pessoas que os comessem (Gn.2,9). Ao ser expulso do Paraíso, Adão ficou sem a possibilidade da vida eterna (Gn.3,22). Deus enviou o Seu Filho que nos comunicou a vida de Deus em grandeza humana. Ele é a Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna mediante o dom da ressurreição (Jo.6,55-58). O fruto da Árvore da Vida Eterna é o Espírito Santo que enche o nosso coração e a nossa mente com a força de Deus, activando o melhor das nossas energias somáticas, psíquicas e espirituais. No nosso íntimo, diz o evangelho de São João, o Espírito Santo é uma Água Viva a jorrar Vida Eterna (Jo.4,14; 7,37-39).

O Espírito Santo é o amor maternal de Deus. Ele é princípio animador de relações de amor e vínculo de comunhão orgânica. O Espírito Santo difunde a força de Deus no nosso íntimo, activando e optimizando o manancial das nossas energias espirituais, as quais são um potencial maravilhoso de comunhão com os irmãos e de interacção criativa com todas as coisas.

Para conseguirmos esta sintonia espiritual com Deus é importante esforçarmo-nos por esvaziar a mente de pensamentos negativos como medo, ansiedade, vingança, ressentimento, ódio ou sentimentos de culpa. Vale a pena repetir uma frase que Santa Teresa gostava de dizer: “Tudo passa excepto Deus”. Frases como esta e tantas outras parecidas têm um efeito directo e eficaz sobre a nossa mente e o nosso coração. É verdade que os pensamentos geram as palavras. É certo que as palavras veiculam e dão corpo aos pensamentos. Mas também é verdade que as palavras modificam profundamente a nossa maneira de pensar. Por outras palavras, não é indiferente o facto de repetirmos para nós mesmos certas afirmações positivas ou citações da Escritura. Esta maneira de proceder vai modificando a nossa mente, ajudando-nos a ser mais positivos na nossa maneira de pensar e agir.

Como amor de Deus derramado nos nossos corações, o Espírito Santo é, no nosso íntimo, a certeza do perdão e do amor de Deus, bem como da nossa salvação: “Foi também em Cristo que ouvistes a Palavra da Verdade, o Evangelho que vos salva. Foi também em Cristo que acreditastes e fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido, o qual é a garantia da nossa herança da salvação, a fim de tomarmos posse dela no dia da Redenção” (Ef 1, 13-14).

A Palavra de Deus é a força interior que nos limpa e põe em comunhão com Deus: “Vós já estais limpos pela Palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim que eu permaneço em vós” (Jo.15,3-4). Deus é a fonte de todas as energias. Com efeito, as energias cósmicas são criação de Deus. A mais nobre e potente destas energias é o Amor. O próprio Deus, fonte destas energias, é Amor

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O Mistério da Natureza Humana



Mineiro de Carvão, EUA 1938 (fonte: National Geographic)


Pai Santo,
A grandeza da tua sabedoria revela-se de modo admirável no conjunto das tuas obras. 
Mas é na Natureza humana que tu revelas de modo especial 
a tua sabedoria e o teu amor criador.

A natureza humana é um princípio de acção 
que dinamiza e coordena a estruturação do Homem, 
tanto na singularidade das pessoas, 
como na totalidade da comunhão humana universal.

A nível pessoal, a natureza rege a emergência espiritual do ser humano, 
bem como a sua identidade e estruturação pessoal.
A natureza humana apenas realiza a sua perfeição 
com a vida pessoal-espiritual. 
É a este nível que atinge a plenitude em Deus.

Na verdade, a natureza humana concretiza-se em pessoas e a divina também. 
Graças à força criadora da natureza humana, 
a pessoa acontece de modo gradual e progressivo 
como ser livre, consciente, responsável e capaz de amar.
Para isso, a natureza oferece à pessoa uma série de talentos 
que lhe dá a possibilidade de se realizar de modo único, original e irrepetível.

O ser humano começa por ser um dado biológico, 
mas está geneticamente programado para atingir o nível espiritual.
Na verdade, recebemos a nossa identidade genética, isto é, 
o nosso ADN com o seu feixe de possibilidades no momento da nossa concepção.

O conjunto dos nossos talentos genéticos interage 
com os nossos talentos históricos, 
sobretudo com o contexto em que nascemos e nos fomos estruturando.

Nesta interacção o amor é a dinâmica fundamental da estruturação da pessoa. 
Por outras palavras, o nosso ser espiritual emerge em processo histórico 
e a dinâmica que o faz emergir é a força das relações de amor.

A configuração da nossa identidade espiritual 
é o nosso jeito de amar e nos relacionarmos. 
A nossa identidade genética é mortal, 
mas a nossa identidade espiritual é imortal 
e está chamada à Comunhão Universal da Família de Deus.

Ao contrário da identidade genética, 
a identidade espiritual de uma pessoa depende dela, 
pois as pessoas humanas são seres em construção.

Isto quer dizer que a vida espiritual e a comunhão amorosa 
constituem o ponto mais alto da força criadora da natureza humana.
Mas também é verdade que o ser humano, através do pecado, 
é capaz de matar as possibilidades mais nobres da natureza humana.

O pecado é sempre uma oposição às propostas e interpelações do amor. 
Ao dizer não ao amor, o pecador diz não à sua humanização 
e à humanização das pessoas que marca de modo negativo.

A natureza divina não é uma realidade estática e a humana também não. 
A vertente biológica da natureza, 
interagindo com a vertente social e cultural 
constituem o leque primordial dos talentos 
ou possibilidades de realização de cada pessoa.

Como sabemos, o ser humano começa por ser 
o que os outros fizeram dele, 
como diz o evangelho de São Mateus na parábola sobre os talentos:

Uns recebem cinco, outros três, dois ou um (Mt 25, 14-30). 
Ninguém é herói por receber cinco, e ninguém é culpado por receber um.
A heroicidade radica na fidelidade a esses talentos. 
É este o modo de edificarmos a vida eterna.

A luta das ciências contra o envelhecimento e a morte 
estão a conseguir progressos dignos de admiração.
Mas não nos devemos esquecer de que a vocação fundamental do Homem 
não é apenas prolongar indefinidamente a vida mortal, 
mas sobretudo construir a vida eterna.

A vida eterna é a vida pessoal-espiritual. 
À medida que emerge e se estrutura, 
o nosso ser espiritual emerge capacitado para a comunhão universal da Família Divina.

Vale a pena no que São Paulo diz a este respeito: 
“Por isso não desfalecemos. Apesar de em nós, 
o homem exterior caminhar para a ruína e a morte, 
o homem interior renova-se e robustece-se dia a pós dia pelo Espírito Santo.

De facto, a nossa tribulação momentânea 
proporciona-nos um peso eterno de glória, 
muito além do que possamos calcular.
Por isso não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis,
pois as coisas visíveis são passageiras, 
ao passo que as invisíveis são eternas” (2 Cor 4, 16-18).

A natureza humana e a natureza divina 
concretizam-se em pessoas talhadas 
para a comunhão na qual encontram a sua plenitude.

As pessoas humanas estão a realizar-se 
como seres proporcionais às pessoas divinas e, portanto, 
capazes de comungar familiarmente com as pessoas divinas.

Por outras palavras, as pessoas humanas 
não são iguais às divinas, mas são-lhe proporcionais. 
Por isso já pode acontecer comunhão amorosa entre Deus e o Homem.

A pessoa de Deus Pai e a pessoa de Deus Filho 
formam uma interacção orgânica 
ao ponto de Jesus chegar a dizer que "ele e o Pai são um” (Jo 10, 30).
Do mesmo modo a Humanidade, graças ao mistério da Encarnação, 
passou a fazer uma interacção orgânica e dinâmica com Cristo.

No evangelho de São João, Jesus descreve de maneira muito bonita 
a união orgânica da natureza divina com a natureza humana 
através do mistério da Encarnação:

“Eu sou a videira e vós os ramos. 
Quem permanece em mim e eu nele, 
esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em mim, é lançado fora como um ramo e seca. 
Depois é lançado ao fogo e arde” (Jo 5, 6).

Como vemos, a plenitude da natureza humana, é a sua divinização, 
a qual acontece na dinâmica da comunhão orgânica com as pessoas divinas.
  
Pai Santo,
Louvado sejas por esta união orgânica 
que confere plenitude divina à natureza humana.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias