ALEGORIA SOBRE O PECADO DE ADÃO

I-O FRACASSO DE ADÃO

Adão, na bíblia, significa a Humanidade nos seus primórdios.
O Livro do Génesis diz-nos que Adão foi criado para viver em harmonia com o Criador.
Mas logo no princípio, numa bela manhã cheia de sol e aves a chilrear, aconteceu a tragédia da rotura.

Enquanto caminhavam pelo jardim, Adão e Eva deixaram-se vencer pela tentação de serem iguais a Deus.

A tentação não é pecado. Pecado é ceder às sugestões da tentação. A tentação é uma sugestão subtil que pretende convencer o Homem de que é melhor para nós fazer o contrário do que Deus nos propõe.

Podemos dizer que o pecado é sempre uma oposição ao amor. A experiência ensina-nos que opor-se ao amor não é nunca a melhor opção para a pessoa.

A pessoa humana tem sempre a possibilidade de se opor à vontade de Deus. Mas quando isto acontece, a pessoa humana está fazendo uma opção que a conduz para o caminho do malogro e do fracasso.

No interior da nossa consciência, o Espírito Santo inspira-nos e convida-nos no sentido de fazermos a vontade de Deus.

A tentação, pelo contrário, pretende fazer-nos crer que o nosso bem está em fazermos o contrário do que Deus nos propõe.

Adão deixou-se seduzir pela tentação, recusando-se a dar ouvidos às propostas de Deus. Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo vai-nos interpelando e convidando a olhar a verdade do projecto de Deus.

Com uma ternura infinita, ele sugere-nos que a vontade de Deus coincide exactamente com o que é melhor para nós.

II-ADÃO FACE À TENTAÇÃO

Associando a vontade de Deus com a Árvore da Vida, podemos dizer que as pessoas que optam pelo fruto da Árvore da Vida têm a vida Eterna, (cf. Gn 3, 22).

A Árvore do conhecimento do bem e do mal, pelo contrário, é a arbitrariedade que gera a morte.
Desvinculada da sabedoria a ciência humana é profundamente ambígua.

Privada da sabedoria que confere o sabor da História, do Homem, e do plano criador de Deus, a ciência humana é perigosa.

Todos conhecemos as tragédias que muitas conquistas da ciência trouxeram para a Humanidade.
Dando ouvidos à tentação, Adão preferiu o fruto da Árvore do conhecimento do bem e do mal.

Mas o ser humano muitas vezes prefere decidir-se pelo fruto da árvore proibida, optando pelo capricho revestidos com a capa da autonomia.

A tentação não é pecado. Pecado é a pessoa ceder às insinuações da tentação, pensando que o mal é bem para nós.

Quando isto acontece, a nossa mente fica baralhada e julgar que o mal é bem para nós.
A tentação é uma sugestão que conduz à mentira e ao erro.

Na oração do Pai-Nosso, Jesus ensinou os discípulos a pedir a Deus que não os deixe cair na tentação.

Deus conhece muito bem o que é melhor para nós. Como é fiel e verdadeiro, o seu querer não é um capricho, mas o desejo de que sejamos pessoas realizadas e felizes.

No Livro do Génesis a serpente é apresentada como o símbolo da tentação e da mentira. Como símbolo da mentira, a serpente tentou destruir a amizade que reinava entre Adão e Deus, servindo-se da mentira.

Eis as suas palavras: “Deus disse-vos que se comêsseis o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, morreríeis.

Mas isso não é verdade. Pelo contrário, se comerdes esse fruto, acabais por ser iguais a Deus”.
A tentação não passava de uma insinuação que culminaria no fracasso da morte. Eva deixou-se conduzir pela mentira, comendo o fruto da morte e dando dele ao seu marido.

O pecado atinge o pecador e, além disso, faz ainda outras vítimas.
III-AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO DE ADÃO

Depois de pecar, Adão descobriu as consequências trágicas do seu pecado. Ao descobrir que estava nu, isto é, incapaz de se humanizar deu-se conta que, afinal, não podia ser Deus por si mesmo.

É verdade que Deus tinha sonhado um plano de divinização para o Homem, mas isso é um dom de Deus e não uma conquista do Homem:

“Todos os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de servidão, mas sim um Espírito de filiação que faz de vós filhos, o qual, no vosso íntimo clama: “Abba” ó Pai” (Rm 8, 14-15).

Ao aperceber-se de que estava nu, Adão sentiu-se numa situação de total malogro e fracasso sem possibilidades de se realizar e ser feliz.

Mas Deus mostrou o seu amor total a Adão e Eva, chamando-os e iniciando com eles uma nova relação de amizade.

Adão conhecia o plano de Deus para ele e, portanto, sabia o que era o melhor para ele. Mas em vez de dar ouvidos a Deus, Adão deu ouvidos à tentação, acabando por entrar no caminho do malogro e do fracasso.

Como era a cabeça da Humanidade, Adão conduziu-a para o fracasso. Mas Deus planeia logo a tarefa da restauração, prometendo a Eva o Messias libertador (Gn 3, 15).

O descendente de Eva que vencerá a serpente, ajudando a Humanidade a caminhar de acordo com a vontade de Deus.

O descendente prometido a Eva é Cristo, o qual, ao ressuscitar, nos põe em comunhão íntima com o Espírito Santo que, no nosso coração, nos fortalece e torna capazes de vencermos a tentação.

Por isso agora, como diz São Paulo, se nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus somos incorporados na família de Deus (Rm 8, 14-17).

Adão e Eva compreenderam que a infidelidade à vontade de Deus deixa a pessoa incapaz de atingir a sua plena realização.

Esta experiência interpela os seres humanos a abrir o coração e a mente ao plano de Deus que, por ser infinitamente sábio, sabe o que é melhor para nós.

Ao mesmo tempo, como Deus é infinitamente bom, quer sempre o que é melhor para nós.
IV-ADÃO E O MISTÉRIO DA INIQUIDADE

O Livro do Génesis diz que Deus, à medida que ia fazendo surgir as obras da Criação, exclamava de contentamento, pois achava que a sua obra era boa (Gn 1, 12; 18; 21; 25; 31).

Mas logo a seguir, o Livro do Génesis, diz que Deus ficou desencantado, pois o Homem, com o seu pecado distorceu o plano criador de Deus (Gn 6, 13-22).

Mas Deus insiste e renova a sua Aliança com Noé (Gn 6, 17-18).
O relato do dilúvio é um relato alegórico para dizer que o pecado destrói o Homem. O Livro do Génesis associa a morte com o pecado de Adão:

“Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado porque tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3, 19).

É verdade que a morte como acontecimento natural não tem a ver com o pecado. Mas podemos dizer que o pecado é sempre gerador de morte, mas morte não natural.

É neste sentido que devemos entender o relato do fratricídio de Caim ao matar Abel. Também é neste sentido que devemos interpretar os homicídios, isto é, mortes não naturais que têm manchado a História de sangue humano.

Também quando matamos as possibilidades de humanização nos irmãos, estamos a matar o irmão, impedindo-o de emergir.

V-SALVOS PELO NOVO ADÃO

“Portanto, como pela falta de um só veio a morte, para todos, assim também pela fidelidade de um só veio a vida para todos. De facto, assim como pela desobediência de um só homem todos caíram no fracasso do pecado, assim também pela obediência de um só todos são restaurados (Rm 5, 18-19).


Deus correu o risco de criar o Homem como ser dotado de livre arbítrio, isto é, com a capacidade psíquica de escolher pelo bem ou pelo mal. O livre arbítrio é a possibilidade de a pessoa humana se tornar livre.


A liberdade é sempre um bem, mas a pessoa humana, dotada de livre arbítrio, pode recusar-se a ser livre, optando pelo mal. A liberdade é a capacidade de se relacionar amorosamente com os outros e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.


A liberdade humana é, portanto, o resultado de uma cadeia de opções na linha do amor.
Mas o livre arbítrio é a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal, isto é, pelo amor ou contra o amor.


Só a dinâmica do amor humaniza o ser humano, fazendo-o emergir como pessoa livre, consciente, responsável e capaz de comunhão amorosa.


Se assim não fosse, a pessoa era fatalmente um ser humanizado e, portanto, livre. Mas a verdade não é esta, pois, como sabemos, a pessoa não nasce livre, mas com a possibilidade de se tornar livre.


Na verdade, se temos a possibilidade de nos tornarmos livres, isto quer dizer que não somos livres de modo fatal.


A liberdade é uma das dimensões principais do homem humanizado. Um ser humano profundamente desumanizado é uma pessoa muito pouco ou quase nada livre.


Com efeito, temos a possibilidade de dizer não à nossa realização se assim for a nossa preferência.

É precisamente aqui que radica a possibilidade do pecado, isto é, a possibilidade de dizermos não ao amor.


O pecado mutila a pessoa do pecador e bloqueia a humanização das vítimas das suas recusas de amor.


As pessoas não são ilhas. A Humanidade forma uma interacção de tipo orgânico, tanto para o bem como para o mal.


Com a sua capacidade de optar contra o amor, o ser humano é capaz de criar roturas graves no tecido das relações humanas.


As nossas acções, tanto as positivas como as negativas têm consequências pessoais e consequências sociais e históricas.


No sentido do bem podemos dizer que as consequências pessoais do nosso agir são a nossa realização e crescimento pessoal.


No sentido do mal são os bloqueios interiores que resultam das nossas recusas de amor. Do mesmo modo, as consequências sociais e históricas do nosso agir podem ser positivas ou negativas.


As positivas são os ritmos humanizantes que vamos inscrevendo no tecido social através do bem que fazemos.


Estes ritmos formam uma dinâmica que possibilita a marcha humanizante da sociedade. As consequências sociais e históricas de tipo negativo são os ritmos negativos das nossas recusas de amor.


Estas forças de bloqueio dificultam a marcha da humanização. A lei do amor é esta: “Ninguém é capaz de amar, antes de ter sido amado, e o mal amado ama mal, mesmo quando dá o melhor de si”.


Isto quer dizer que o sucesso de uma realização humana passa sempre pelo amor. Assim como a componente básica da nossa vida corporal é a água, a componente básica da nossa vida pessoal-espiritual são as relações de amor.


Isto faz-nos compreender a importância do amor para a realização das pessoas e das sociedades, bem como a gravidade fundamental do pecado.


Não exageramos nada se dissermos que o amor é a origem e a plenitude do Universo, pois Deus é Amor (1 Jo 4, 16). Como obstáculo à humanização do Homem, o pecado atinge o ser humano no seu próprio coração.Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

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