Sentido Cristão do Celibato



a) Celibato e Fecundidade na Bíblia

b) Sentido Cristão do Celibato
1- Sexualidade e Relações Humanas
2- Significado de uma Opção Celibatária


a) Celibato e Fecundidade na Bíblia

O Antigo Testamento não considera a virgindade como um valor. A morte de uma mulher enquanto virgem era considerada como um sinal de desgraça e vida perdida. A sua vida assemelhava-se à de uma árvore que secou sem dar fruto. Uma mulher com muitos filhos, pelo contrário, era considerada como uma pessoa agraciada por Deus. Os filhos são a alegria e a plenitude do casamento (Gn 24, 60; Sal 127; Sal 128, 3). Os filhos são a garantia de um casal abençoado por Deus (Ex 1, 21; 1, 26).

A Aliança de Deus com o homem leva consigo a promessa de uma prole numerosa, a qual será causa de bênçãos para a Humanidade (Gn 15, 5; 22, 17). Eis a razão pela qual o filho primogénito é pertença de Deus, pois ele é o primeiro dos grandes dons de Deus. O filho primogénito é como o dízimo das colheitas. Pertence a Deus e, por isso, deve ser resgatado pelos pais. (Ex 34, 20).

Para afirmar que a fecundidade é um dom de Deus, a Bíblia diz que os homens mais importantes da história da salvação nasceram de mulheres estéreis. Estes homens foram um dom de Deus e não obra da fecundidade humana. O eunuco, homem castrado por acidente ou por mutilação, não podia tomar parte na assembleia de Deus (Dt 23, 2). A esterilidade era sempre considerada como um problema da mulher. O homem que tem sémen é fecundo. O eunuco, como não tem sémen, é uma árvore seca. Como não é uma árvore fecunda, o eunuco não pode fazer parte do jardim de Deus, isto é, a assembleia do culto.

O conceito de fecundidade, neste período, limitava-se à capacidade reprodutora. Se uma mulher morria sem filhos, era uma mulher para esquecer. Se era o varão que morria sem filhos, o irmão deste devia ter relações com a viúva para dar descendência ao seu irmão (Dt 25, 5-6). O papel procriador era do varão. A mulher era apenas uma coadjuvante do varão.

Movidos pelo Espírito Santo, os profetas começam a modificar esta forma de ver as coisas. O profeta Jeremias escolheu o celibato para indicar que é melhor não ter filhos que fazê-los membros de um povo corrupto. O profeta Amós diz que os homens que não produzem frutos de vida são como uma donzela que morra virgem (Am 5, 1). A esterilidade que é uma desonra e causa de maldição de Deus não é a incapacidade de procriar, mas sim a vida dos que não cultivam o amor e a fraternidade.

Mesmo que tenham muitos filhos, o ímpio e o injusto não contribuem para o bem do povo de Deus e da Humanidade. Esta esterilidade desonra o homem, pois é resultado das suas escolhas e opções egoístas e fratricidas. O homem é culpado desta esterilidade, não da outra. O juízo de Deus, dizem os profetas, é diferente do juízo dos homens.

O eunuco, diz o profeta Isaías, se tiver uma vida cheia de obras boas pode considerar-se uma árvore fecunda e, portanto, abençoada por Deus. Não tem razões para se considerar um lenho seco, isto é, um ramo sem frutos (Is 56, 3b). Se for fiel à Aliança de Deus, o eunuco terá um monumento e um nome muito mais duradouro que os filhos que por hipótese tivesse deixado. O profeta Isaías diz ainda que o nome do eunuco foi fiel à aliança de Deus não se apagará jamais (Is 56, 4-5).

O livro da Sabedoria diz que vale mais a vida justa de uma pessoa sem filhos, do que ser injusto e ter uma prole numerosa. A memória desta pessoa será imortal, apesar de não ter deixado filhos (Sab 4, 1). Os ímpios, mesmo que tenham muitos filhos não serão recordados com gratidão por ninguém, pois não contribuíram para o bem da Humanidade (Sab 4, 3).

Os filhos são um bem para a Humanidade na medida em que são dons de amor, isto é, seres bem amados, isto é, seres capazes de ajudar a edificar o Homem tal como Deus o sonhou. Os filhos que nascem de um contexto de desamor, no dia do juízo, acusarão aqueles que os geraram, diz o livro da Sabedoria (Sab 4, 6). Por outro lado, os eunucos que fizeram o bem durante a vida terão uma parte honrosa na morada de Deus (Sab 3, 14).

Do mesmo modo, a esterilidade da mulher não é castigo de Deus nem razão para qualquer desonra. A mulher estéril que segue os caminhos de Deus será bem-aventurada. No dia do juízo, encontrar-se-á cheia de frutos. A fecundidade das mulheres estéreis está na qualidade das suas obras (Sab 3, 13).

Como vemos, o conceito de fecundidade vai-se espiritualizando e tornando mais que uma mera questão de procriação. O profeta Isaías diz que a mulher estéril que viveu a Aliança de Deus terá uma prole mais numerosa do que a mulher que procriou (Is 54, 1-4). O seu esposo destas mulheres é Jahvé o qual é sempre fiel (Is 54, 5-7). A mulher estéril, diz o Livro da Sabedoria, pode ser profundamente fecunda (Sab 3, 12-13).

Por outras palavras, a fecundidade que Deus ama são as atitudes que geram fraternidade, paz, alegria, justiça, misericórdia. Não é por acaso que os Actos dos Apóstolos diz que o primeiro pagão a ser convertido foi um eunuco, o superintendente da rainha Candace da Etiópia: “O Anjo do Senhor falou a Filipe e disse-lhe: “põe-te a caminho e dirige-te para o Sul, pela estrada que desce de Jerusalém para Gaza, a qual se encontra deserta”. Filipe pôs-se a caminho e foi para lá. Ora, um etíope, eunuco e alto funcionário da rainha Candace, da Etiópia, e superintendente de todos os seus tesouros, que tinha ido em peregrinação a Jerusalém, regressava, na mesma altura, sentado no seu carro, a ler o profeta Isaías (…).

Partindo desta passagem da Escritura, Filipe anunciou-lhe a Boa Nova de Jesus. Pelo caminho encontraram uma nascente de água e o eunuco disse: “Está ali uma nascente de água! Que me impede de ser baptizado? Filipe respondeu: “Se acreditas de todo o coração, isso é possível”. O eunuco respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” e mandou parar o carro. Filipe e o eunuco desceram à água e Filipe baptizou-o” (Act 8, 26-38).

A opção celibatária de Jesus insere-se, naturalmente, nesta perspectiva teológica. Já não nos será difícil entender a razão pela qual Jesus Cristo optou pelo celibato. O evangelho de São João diz que ele é a fonte de uma nova fecundidade que faz de nós filhos de Deus: “Mas a quantos o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas de Deus. E o Verbo fez-se homem e habitou entre nós” (Jo 1, 12-14).

Segundo os ensinamentos de Jesus, a vida fecunda é um apelo que Deus nos faz todos os dias. A fecundidade amorosa não está limitada aos períodos fecundos da procriação. Pelo contrário é um deve de todos os dias. Eis o significado do ensinamento da figueira chamada a dar figos durante todo o ano (Mt 21, 18-20; 7, 15-20). O profeta Jeremias dizia que a esterilidade de vida será punida por Deus (Jer 6, 14-15; 6, 26; 7, 11; 7, 25).

Segundo os critérios do Novo Testamento a fecundidade de uma vida mede-se pelo bem que a pessoa faz e não pelo número de filhos que se tem. Há mesmo homens e mulheres que permanecem celibatários para serem mais fecundos, dizem os evangelhos e Paulo (Mt 19, 12ss; 1Cor 7, 7-8; 2Cor 6, 6; 1Tim 4, 12).

Jesus veio inaugurar a família de Deus. Esta não é constituída pelos laços do sangue, mas sim pelos laços do Espírito Santo. O homem nasce para a Família do Reino de Deus através de um novo nascimento, o qual acontece pelo Espírito Santo (Jo 3, 6). Para o novo Testamento é mais fecundo quem ama mais. É pelo amor que os seres humanos serão julgados (Mt 25, 31-46). Segundo estes critérios, o maior mal que pode acontecer ao homem é tornar-se estéril. A esterilidade, nesta perspectiva, é uma opção da pessoa humana. Acontece pela decisão de enterrar os talentos que Deus nos concedeu através dos outros (Mt 25, 14-30).



b) Sentido Cristão do Celibato

1 - Sexualidade e Relações Humanas

A constituição morfológica e fisiológica do nosso corpo está talhada para uma interacção sexual. Podemos dizer a mesma coisa da nossa vida psíquica. A sexualidade é um instinto vital que marca os indivíduos até ao nível genético. Somos portadores de cromossomas sexuais. Somos seres sexualmente entretecidos, tanto a nível biológico como psíquico. Estamos talhados para a relação, para o face a face amoroso. Ninguém vê directamente o seu próprio rosto. Apenas vemos de modo directo o rosto dos outros.

Devido à presença envolvente da sexualidade, as nossas relações são todas sexuadas. Não devemos confundir este termo com relações sexuais ou genitais. Dizer que as nossas relações são sexuadas significa que é como seres sexuados que nos relacionamos com os outros. A sexualidade confere às nossas relações o carácter da diferença. Isto a todos os níveis: relações sociais, profissionais, desportivas, culturais ou as relações entre pais e filhos. Diferença, aqui, não quer dizer melhor ou pior. Significa que reagimos de modo diferente consoante nos relacionemos com pessoas da nossa condição sexual ou de condição sexual diferente.

É importante termos consciência deste facto, a fim de vivermos as nossas relações de modo consciente e sem tabus ou sentimentos de culpa. Foi Deus que nos quis assim. Devemos aceitar esse facto e orientar a nossa afectividade no sentido do amor e da comunhão fraterna. De facto, a nível humano, a sexualidade atinge a sua perfeição no amor. Relações sexuais sem amor reduzem o outro a mero objecto de prazer. Procriar sem amor é pecado.


2 - Significado de uma opção celibatária

Nascemos para renascer. A pessoa humana não nasce acabada. Somos chamados a realizarmo-nos a partir de um leque de possibilidades que recebemos. Começámos por ser o que os outros fizeram de nós: Os evangelhos dizem que uns recebem cinco talentos, outros três, dois, ou um. Ninguém é culpado por ter recebido um. Também ninguém é herói por ter recebido cinco (Mt 25, 14-30; Lc 19, 12-27).

O importante é o modo como nos realizamos com os talentos que recebemos dos demais. A pessoa não é igual aos talentos que recebeu, mas sim aos que realiza. O homem realiza-se, realizando; faz-se, fazendo. Por isso somos julgados por termos ou não feito render os talentos. Uma pessoa é fecunda na medida em que gera vida humana. Não é o número de filhos que torna uma vida fecunda, mas a densidade de amor com que esses filhos foram acolhidos e preparados para a vida. Isto só pode acontecer através de uma história de amor, o que é muito mais que o mero acto de procriar. A fecundidade de uma pessoa mede-se, portanto, em termos de humanização. Uma vida será tanto mais fecunda quanto mais for agente de humanização para si e para o outros.

Quantas crianças procriadas sem amor! Muitas destas, porém, foram acolhidas e bem amadas. Hoje são homens e mulheres felizes e realizados. Os pais humanos destas pessoas são os que as acolheram e amaram, possibilitando-as para uma vida feliz. De facto, ninguém é capaz de amar antes de ser amado. O mal amado ama mal, isto é, com condicionamentos e bloqueios. É vítima, não culpado. De qualquer modo recebeu condicionamentos que limitam a sua realização. Em termos evangélicos, o pior mal que pode acontecer a uma pessoa é ser estéril, isto é, não dar frutos de humanização. É culpavelmente estéril a pessoa que se recusa a amar. É a figueira estéril que não tomar parte no pomar da vida (Mt 21, 19-20; Mc 11, 13-20; Lc 13, 6-7).

A virgindade ou celibato por amor do Evangelho é um dom que Deus concede a algumas pessoas. Deus não pede uma opção deste tipo a todos os crentes. A pessoa que faz esta opção deve sentir que está a escolher o melhor para si. Ao agir assim, a pessoa sente que esta é a maneira de ter uma vida mais fecunda.

O celibatário sabe que fez a melhor escolha para si, mas não pretende impô-la aos outros. Os carismas são diferentes e acontecem segundo a originalidade de cada pessoa. Não somos seres feitos em série. Cada pessoa é única, original e irrepetível. Uma pessoa a quem tenha sido dado o dom de se consagrar à causa do Evangelho de modo celibatário será menos fecunda se optar doutro modo.

Não está a ser plenamente fiel aos seus talentos. Mas seria completamente errado pensar que a opção pelo celibato, só por si, é superior à opção pelo matrimónio. Neste aspecto, a pessoa deve optar segundo sente ser o melhor para si. Será este o modo de ter uma vida mais fecunda e, portanto, atingir uma realização mais plena e ser mediação de realização para os outros. A parábola das virgens insensatas diz que estas não entraram no Reino de Deus (Mt 25, 1-13). Na Igreja há uma grande diversidade de dons ou carismas. Aquilo que é a melhor opção para uma pessoa pode não o ser para outra.

O celibatário que opta assim para se consagrar ao Reino de Deus não é um desenraizado em termos familiares. Ele deve empenhar-se seriamente na edificação da Família de Deus, sabendo que esta não assenta nos laços da carne e do sangue, mas sim nos laços do Espírito Santo: “Todos os que são movidos pelo espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas o Espírito de adopção graças ao qual chamais “Abba”, papá. Se sois filhos sois igualmente herdeiros. Herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8, 14-16).

Se o celibato é vivido em função do Reino de Deus, a sua vida será muito fecunda em termos de edificar família. A fecundidade espiritual, na história, é muito mais duradoira que a fecundidade procriadora: Cristo, São Bento, Santa Clara, São Francisco, Madre Teresa de Calcutá e tantos outros fundadores de famílias espirituais cuja fecundidade se prolonga pelos séculos fora. Estas pessoas, apesar de não terem procriado, deixaram na história uma multidão de filhos e filhas que prolongam a sua obra pelos séculos fora.

A opção celibatária adquire um sentido muito especial na consagração religiosa. O religioso está chamado a viver em comunidade. A construção da comunidade é a edificação da família de Deus, a qual não assenta na carne e no sangue mas no Espírito Santo: “Mas aos que receberam Cristo, aos que crêem nele, deu-lhes o poder se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue ou do impulso da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 12-13).

Deus é a primeira realidade familiar. Ainda antes de existir o Universo já existia uma comunhão familiar de três pessoas. Esta é a nossa vocação fundamental: ser membros da família de Deus (Ga 4, 4-7). Para pertencermos à Família de Deus temos de nascer de novo mediante o Espírito Santo, diz o evangelho de João (Jo 3, 6). Vista nesta óptica, a vocação religiosa completa a linguagem sacramental do matrimónio. As pessoas que casam estão chamadas a edificar uma família humana cuja plenitude acontecerá na incorporação do Reino de Deus que é a Família Divina.

A vida religiosa proclama que a família de Deus assenta, não nos vínculos da carne e do sangue, mas nos laços do Espírito Santo: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21). A esta luz torna-se claro que a paternidade e a maternidade humana são mediações da paternidade e maternidade divina.

No Céu já não existem laços de sangue. Na plenitude da ressurreição os seres humanos são totalmente pneumáticos, isto é, “como os anjos de Deus” (Lc 21, 34-36). Na medida em que as famílias se abram à acção do Espírito Santo começarão a abrir-se à comunhão para lá dos laços do sangue. O Espírito Santo abre o nosso coração à fraternidade, condição para sermos filhos do Pai do Céu. Do mesmo modo, Na medida em que as comunidades religiosas se abram ao Espírito Santo, tenderão a constituir-se cada vez mais como famílias que cujos vínculos assentam nos laços do Espírito Santo.

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