O Mistério da Natureza Humana



Mineiro de Carvão, EUA 1938 (fonte: National Geographic)


Pai Santo,
A grandeza da tua sabedoria revela-se de modo admirável no conjunto das tuas obras. 
Mas é na Natureza humana que tu revelas de modo especial 
a tua sabedoria e o teu amor criador.

A natureza humana é um princípio de acção 
que dinamiza e coordena a estruturação do Homem, 
tanto na singularidade das pessoas, 
como na totalidade da comunhão humana universal.

A nível pessoal, a natureza rege a emergência espiritual do ser humano, 
bem como a sua identidade e estruturação pessoal.
A natureza humana apenas realiza a sua perfeição 
com a vida pessoal-espiritual. 
É a este nível que atinge a plenitude em Deus.

Na verdade, a natureza humana concretiza-se em pessoas e a divina também. 
Graças à força criadora da natureza humana, 
a pessoa acontece de modo gradual e progressivo 
como ser livre, consciente, responsável e capaz de amar.
Para isso, a natureza oferece à pessoa uma série de talentos 
que lhe dá a possibilidade de se realizar de modo único, original e irrepetível.

O ser humano começa por ser um dado biológico, 
mas está geneticamente programado para atingir o nível espiritual.
Na verdade, recebemos a nossa identidade genética, isto é, 
o nosso ADN com o seu feixe de possibilidades no momento da nossa concepção.

O conjunto dos nossos talentos genéticos interage 
com os nossos talentos históricos, 
sobretudo com o contexto em que nascemos e nos fomos estruturando.

Nesta interacção o amor é a dinâmica fundamental da estruturação da pessoa. 
Por outras palavras, o nosso ser espiritual emerge em processo histórico 
e a dinâmica que o faz emergir é a força das relações de amor.

A configuração da nossa identidade espiritual 
é o nosso jeito de amar e nos relacionarmos. 
A nossa identidade genética é mortal, 
mas a nossa identidade espiritual é imortal 
e está chamada à Comunhão Universal da Família de Deus.

Ao contrário da identidade genética, 
a identidade espiritual de uma pessoa depende dela, 
pois as pessoas humanas são seres em construção.

Isto quer dizer que a vida espiritual e a comunhão amorosa 
constituem o ponto mais alto da força criadora da natureza humana.
Mas também é verdade que o ser humano, através do pecado, 
é capaz de matar as possibilidades mais nobres da natureza humana.

O pecado é sempre uma oposição às propostas e interpelações do amor. 
Ao dizer não ao amor, o pecador diz não à sua humanização 
e à humanização das pessoas que marca de modo negativo.

A natureza divina não é uma realidade estática e a humana também não. 
A vertente biológica da natureza, 
interagindo com a vertente social e cultural 
constituem o leque primordial dos talentos 
ou possibilidades de realização de cada pessoa.

Como sabemos, o ser humano começa por ser 
o que os outros fizeram dele, 
como diz o evangelho de São Mateus na parábola sobre os talentos:

Uns recebem cinco, outros três, dois ou um (Mt 25, 14-30). 
Ninguém é herói por receber cinco, e ninguém é culpado por receber um.
A heroicidade radica na fidelidade a esses talentos. 
É este o modo de edificarmos a vida eterna.

A luta das ciências contra o envelhecimento e a morte 
estão a conseguir progressos dignos de admiração.
Mas não nos devemos esquecer de que a vocação fundamental do Homem 
não é apenas prolongar indefinidamente a vida mortal, 
mas sobretudo construir a vida eterna.

A vida eterna é a vida pessoal-espiritual. 
À medida que emerge e se estrutura, 
o nosso ser espiritual emerge capacitado para a comunhão universal da Família Divina.

Vale a pena no que São Paulo diz a este respeito: 
“Por isso não desfalecemos. Apesar de em nós, 
o homem exterior caminhar para a ruína e a morte, 
o homem interior renova-se e robustece-se dia a pós dia pelo Espírito Santo.

De facto, a nossa tribulação momentânea 
proporciona-nos um peso eterno de glória, 
muito além do que possamos calcular.
Por isso não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis,
pois as coisas visíveis são passageiras, 
ao passo que as invisíveis são eternas” (2 Cor 4, 16-18).

A natureza humana e a natureza divina 
concretizam-se em pessoas talhadas 
para a comunhão na qual encontram a sua plenitude.

As pessoas humanas estão a realizar-se 
como seres proporcionais às pessoas divinas e, portanto, 
capazes de comungar familiarmente com as pessoas divinas.

Por outras palavras, as pessoas humanas 
não são iguais às divinas, mas são-lhe proporcionais. 
Por isso já pode acontecer comunhão amorosa entre Deus e o Homem.

A pessoa de Deus Pai e a pessoa de Deus Filho 
formam uma interacção orgânica 
ao ponto de Jesus chegar a dizer que "ele e o Pai são um” (Jo 10, 30).
Do mesmo modo a Humanidade, graças ao mistério da Encarnação, 
passou a fazer uma interacção orgânica e dinâmica com Cristo.

No evangelho de São João, Jesus descreve de maneira muito bonita 
a união orgânica da natureza divina com a natureza humana 
através do mistério da Encarnação:

“Eu sou a videira e vós os ramos. 
Quem permanece em mim e eu nele, 
esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em mim, é lançado fora como um ramo e seca. 
Depois é lançado ao fogo e arde” (Jo 5, 6).

Como vemos, a plenitude da natureza humana, é a sua divinização, 
a qual acontece na dinâmica da comunhão orgânica com as pessoas divinas.
  
Pai Santo,
Louvado sejas por esta união orgânica 
que confere plenitude divina à natureza humana.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

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