Baptismo e Originalidade Cristã




a) Sentido Teológico do Baptismo

1- A Prática Baptismal no Novo Testamento
2- O Baptismo das Crianças
3- O Carácter do Baptismo

b) Baptismo no Espírito e Vida Teologal
1- O Alicerce da Vida Teologal
2- A Vida Teologal no Novo Testamento


a) Sentido Teológico do Baptismo

1- A Prática Baptismal no Novo Testamento

Paulo não atribui qualquer eficácia automática ao rito do baptismo. Ele diz expressamente que Cristo não o enviou a baptizar, mas a pregar o Evangelho (1Cor 1, 17). Além disso, diz que o povo hebreu também teve o seu baptismo, sem que isso significasse qualquer garantia de salvação (1Cor 10, 1-3).

A fé não vem da celebração baptismal, mas da pregação da Palavra que é Cristo (Rm 10, 17). O centro da pregação de Jesus foi o Reino de Deus e as suas exigências de fraternidade e comunhão. Jesus relaciona o Reino com o dom escatológico do Espírito Santo, o qual é a dinâmica da \acção salvadora de Deus no coração das pessoas. O Espírito ó dom grande dom Messiânico (Lc 24, 49; Jo 7, 37-39; 4, 21-23; 14, 16-17; 15, 26).

No final dos Evangelhos de Marcos e Mateus, aparece o Senhor ressuscitado ordenando o baptismo de todas as nações (Mt 28, 18-19; Mc 16, 16). É evidente que se trata da prática das comunidades cristãs. O Jesus histórico não se referiu ao ritual do baptismo cristão. Se Jesus tivesse falado explicitamente do baptismo dos pagãos, Pedro e a comunidade de Jerusalém não fariam guerra a Paulo por defender a entrada de pagãos na comunidade pelo baptismo (Gal 2, 7-9; 5, 12; Act 15, 1-3).

A celebração do baptismo cristão está relacionada com o baptismo de João. Jesus iniciou a Sua vida messiânica pelo baptismo de João (Mt 3, 13-17; Mc. 1, 9-11; Lc 3, 21-22). O relato do dom do Espírito na casa de Cornélio é sugestivo para ver o alcance da celebração baptismal dos primeiros cristãos. A proclamação da Palavra desperta no coração da família de Cornélio a Fé. Ainda Pedro anunciava a Palavra e quando os presentes começam a dar sinais de que o Espírito Santo está actuar neles. No entanto, nenhum deles estava baptizado (Act 10, 44).

Pedro e os judeus que o acompanhavam reconheceram que o dom do Espírito Santo precedeu a celebração do baptismo (Act 10, 45). Perante este facto, Pedro reconhece que os membros da família de Cornélio estão aptos para entrarem na comunidade mediante o baptismo, pois já está a actuar neles a força do Espírito Santo (Act 10, 47). Perante este facto, Pedro ordena que os membros da família de Cornélio sejam baptizados (Act 10, 48). O texto sugere que não foi Pedro quem presidiu à celebração baptismal destas pessoas. Pedro, tal como Paulo e os demais Apóstolos não era o baptizador. Esta missão ficava normalmente para os ministros da comunidade. Paulo diz expressamente, que baptizou muito poucas pessoas (1Cor 1, 17).

Mediante o rito baptismal, João Baptista procurava assinalar o resto fiel do povo judeu, a fim de os preparar para acolherem o Messias que estava para chegar. Os discípulos de Jesus, pelo contrário, através do baptismo integravam os novos crentes na comunidade cristã, o espaço adequado para a vivência do baptismo no Espírito. As comunidades viviam uma forte alegria da salvação realizada em Cristo ressuscitado, aguardando a sua vinda gloriosa.

Para o evangelho de São João o baptismo é o sinal do novo nascimento que acontece pelo Espírito Santo. A água, no quarto evangelho, é o símbolo do Espírito Santo (Jo 4, 14; 7, 37-39). Pelo baptismo, o crente é incorporado na comunidade dos filhos que nascem pelo Espírito (Jo 3, 6). Quem não nascer de novo, não pode entrar no Reino de Deus (Jo 3, 3). Nicodemos, apesar de ser um judeu piedoso, ainda não era cristão.

Daqui a necessidade de ser incorporado na comunidade através do baptismo (Jo 3, 5). Como judeu, ele é filho da carne. Tem de nascer agora pelo Espírito Santo (Jo 3, 6). Deus deu-nos o poder maravilhoso de nos tornarmos filhos de Deus. Dói esta a razão pela qual aconteceu a Encarnação.

Sem confundir a celebração litúrgica do baptismo com o baptismo no Espírito, o Novo Testamento vê, no entanto, uma relação estreita entre baptismo e baptismo no Espírito. A semente geradora de Deus (sperma tou Theou) é o Espírito Santo, não a água (1Jo 3, 9). A água, no entanto, é sinal que coincide com o Espírito e o sangue, isto é, o martírio. O martírio e a água baptismal coincidem com o testemunho do Espírito Santo (1Jo 5, 8). No entanto, o que testemunha na água e no sangue é o Espírito Santo, pois ele conduz-nos para a verdade (1Jo 5, 6-7).

Não restam dúvidas de que os primeiros cristãos incorporavam os novos aderentes na comunidade mediante a celebração baptismal. Esta opção está intimamente relacionada com o facto de Jesus ter sido ungido com o Espírito Santo ao ser baptizado por João. Todos os documentos do Novo Testamento pressupõem o baptismo de Jesus por João. Pelo baptismo da água, o crente é plenamente incorporado na dinâmica do baptismo no Espírito. Ninguém é capaz de reconhecer Jesus como o Messias ressuscitado, a não ser pelo Espírito Santo (1Cor 12, 3). É o baptismo no Espírito que opera nos crentes a compreensão de Jesus Cristo e do plano salvador de Deus.

2- O baptismo das crianças

Como os demais sacramentos, também o baptismo é uma celebração comunitária da fé. A fé que anima esta celebração é a da comunidade e a do baptizando. Como sabemos, não se pode baptizar um adulto se este não tiver Fé Cristã. Ora, uma pessoa não pode ter Fé Cristã sem a acção da Palavra e do Espírito Santo no seu coração. Isto quer dizer que o catecumenato, isto é, o tempo de preparação para o baptismo é já um tempo em que acontece o baptismo no Espírito, embora a pessoa ainda não tenha sido baptizada.

A criança, pelo contrário, é incapaz de ter fé. Daqui, a interrogação que, por vezes, se coloca acerca da validade do baptismo das crianças. No caso de uma criança que viva em contexto familiar de Fé cristã, o baptismo tem pleno sentido. O ser humano não nasce feito. Começamos todos por ser aquilo que os outros fizeram de nós. Os pais não pedem licença aos filhos para os gerar. Do mesmo modo, não lhe pedem opinião sobre a nacionalidade, a língua, ou o contexto cultural de que queriam fazer parte. Todos nós começamos por ser fruto das opções e decisões dos outros a nossa respeito.

A mesma coisa podemos dizer dos pais cristãos que decidem comunicar a sua Fé à criança, inserindo-a, para isso, na Igreja mediante o baptismo. Como sabemos a comunidade cristã é o espaço perfeito para a comunicação e a vivência da Fé. Começamos, portanto, por ser o que os outros fizeram de nós. Mas isto não é o mais importante. O decisivo é o que realizamos e construímos com o que recebemos dos demais.

Eis a razão pela qual os pais têm o direito de comunicar aos seus filhos o que pensam ser o melhor para eles. Eis a razão pela qual uma criança nascida num ambiente familiar cristão reúne todas as condições para ser baptizada. Isto nada tem a ver com a ideia ridícula e sem sentido segundo a qual uma criança não baptizada, se morrer não pode entrar no Céu.

Os sacramentos diz São Paulo referindo-se ao Baptismo e à Eucaristia não são, por si, qualquer garantia de salvação. Os hebreus também tiveram o seu Baptismo e a sua Eucaristia e, não entanto não atingiram a meta da sua salvação. E tudo isto ficou escrito, continua São Paulo, para nos alertar e servir de exemplo (1 Cor 10, 1-6).

No caso do baptismo da criança, a linguagem sacramental não é para ela, mas sim um apelo para a sua família e a comunidade que a acolhe, no sentido de realizar a sua missão. O baptismo de uma criança convida os pais a fazerem do seu lar uma igreja doméstica, isto é, um espaço onde aconteça a partilha da Palavra, a oração e a comunicação do património da Fé.

Sem reunir um mínimo destas condições o baptismo da criança, de facto, carece de sentido. Por outras palavras, a família cristã deve ser um alfobre de amadurecimento da Fé. Isto não pode acontecer sem que, nessa família, se viva realmente o baptismo no Espírito. O facto de a criança ser incorporada na Igreja mediante o baptismo significa que está a ser integrada de modo pleno no contexto adequado à vivência do baptismo no Espírito.

Agora já podemos compreender a razão pela qual o Novo Testamento não considera o rito baptismal como um modo mágico de a pessoa se salvar. Por outras palavras, o fundamental para o Novo Testamento, não é a celebração baptismal, mas o baptismo no Espírito. A decisão sobre o momento oportuno para realizar o baptismo das crianças deve ser, como é óbvio, decidida pelos pais. Se realizado de modo consciente, responsável e esclarecido, o baptismo da criança é uma linguagem importante para os pais compreenderem a sua paternidade humana é uma verdadeira mediação da paternidade divina.

Infelizmente, as motivações que levam os familiares de uma criança a baptizá-la não são, teologicamente, válidas. Infelizmente temos de reconhecer que muitos baptismos de crianças são sacramentos nulos como acontece, tal como acontece com muitas celebrações matrimoniais.

Como vemos, a afirmação segundo a qual a celebração baptismal da criança viola a sua liberdade carece de sentido. Na verdade, a vocação fundamental da vida da pessoa humana começa a ser possibilitada desde o berço. Esta vocação fundamental vai encontrando resposta de modo gradual e progressivo, atingindo a sua maturidade na medida em que a pessoa vai realiza o melhor dos talentos que recebeu dos demais. Na medida em que a família viva em ambiente de Fé, pertencer à comunidade cristã será para acriança uma coisa natural.


3- O carácter do baptismo

Em princípios do século XIII, o Papa Inocêncio III diz que aqueles que são baptizados, declarando que não querem tal coisa, não recebem o carácter nem a realidade baptismal [cf. Denz. 411]. Foi esta a primeira referência explícita ao carácter do sacramento do baptismo. Podemos dizer que a afirmação do carácter do baptismo é mais um dos produtos do pensamento medieval cheio de questões e invenções metafísicas.

A princípio, a teoria do carácter sacramental era confusa: No século XV, o Papa Eugénio IV diz os sacramentos do baptismo, da confirmação e da ordem imprimem carácter. Eugénio IV diz que se trata de uma marca indelével que distingue, espiritualmente, determinada pessoa de outra [ibid. 695].

Como podemos ver, a noção de sacramento, neste período, é a de um rito que opera determinados efeitos de maneira automática. O baptismo, a confirmação e a ordem são sacramentos que não podem repetir-se, pois imprimem carácter. O Concílio de Trento reafirma estas noções acerca do carácter sacramental [Conc. Trent. Sessão VII, can. 9]. Segundo o concílio de Trento, esta marca impressa na alma nunca mais poderá apagar-se ou tirar-se [ibid. Sessão XIII, cap. IV, can 4].

A salvação de Deus é um dom gratuito oferecido gratuitamente a todos os homens. Só as pessoas que recusam de modo incondicional a comunhão com Deus e os irmãos não terão parte na comunhão universal da Família de Deus. Os sacramentos não são maneiras mágicas de salvaras pessoas ou fazer que os crentes, membros do mesmo corpo de Cristo se distingam ontologicamente.

Outro aspecto importante é ter presente que não são apenas os cristãos que tomam parte na comunhão Universal do Reino de Deus, onde as pessoas se distinguem, não pelas marcas ontológicas mas pelo jeito e a densidade de amar. Isto significa que a questão do carácter sacramental não passa de um produto cultural próprio do pensamento medieval.

Segundo o Novo Testamento, a selecção dos que tomam parte no Reino de Deus faz-se, não a partir de qualquer marca ontológica, mas sim do jeito como se relacionou com os pobres, com os doentes, com os que não tinham roupa para vestir, com os que não têm apoio especialmente os órfãos e as viúvas (cf. Mt 25, 31-46). Não são os ritos ou cultos que marcam o homem para o Reino de Deus. Só o amor é decisivo (cf. Mt 9, 13; Lc 11, 41-42; Tg 1, 26.27; Rm 12, 1-13; Flp 2, 17; 4, 18).

O amor de Deus incarna torna-se presente no interior do amor humano optimizando-o e assumindo-o na comunhão da Família de Deus. O que distingue o cristão dos não cristãos não são marcas na alma, mas a vida teologal, a qual não é mais que a estrutura relacional humana de fé, esperança e amor. A força do Espírito Santo e os horizontes da Palavra potenciam esta estrutura relacional humana para uma densidade teologal de Fé Esperança e amor ao jeito de Deus ou caridade (cf. Mt 5, 43-48).

É esta a diferença que distingue o cristão do não cristão. À medida em que o crente cresce na vida cristã vai saboreando cada vez mais perfeita e profundamente a Palavra de Deus, a qual faz emergir no seu coração a sabedoria teologal que o leva a assumir um jeito novo de se relacionar com os demais seres humanos. Além disso capacita-o para saborear a vida, a história e os acontecimentos e o sentido da Criação com o sabor e os horizontes de Deus.

O evangelho de São Mateus insiste que o cristão é alguém que se distingue dos não cristãos, não por qualquer marca ontológica, mas por um jeito novo de estar na vida: “Vós sois o sal da terra. Ora se o sal perder a força com se há-de salgar? Neste caso não serve para mais nada a não ser para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte, nem se acende a candeia para a colocar debaixo da mesa, mas sim em cima do candelabro, a fim de alumiar todos os que estão em casa. Assim brilhe a voz luz diante dos homens, de modo que vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está no Céu” (Mt 5, 13-16).

É importante compreendermos que os sacramentos do baptismo, da confirmação e da ordem são modos de celebrar o baptismo no Espírito e a evolução da vida cristã dos crentes. Isto é verdade tanto em relação à missão no mundo (baptismo e confirmação) como em relação ao exercício do ministério na comunidade.


b) Baptismo no Espírito e Vida Teologal

1- O Alicerce da Vida Teologal

Podemos distinguir três níveis distintos no ser humano:
*Nível biológico
*Nível psíquico
*Nível pneumático ou espiritual.

Os dois primeiros níveis constituem o nosso ser exterior ou individual. O nível interior do ser humano constitui o seu ser pessoal-espiritual o qual é imortal. O nosso ser exterior é a matriz em cujo seio está a germinar o nosso ser interior, como se fosse o pintainho a emergir dentro do ovo. A vida ao nível pessoal-espiritual exprime-se em atitudes de fé, esperança e amor. A dinâmica relacional de fé, esperança e amor é a expressão da vida pessoal-espiritual humana. A vida teologal é a optimização desta nossa vida pessoal-espiritual.

A teologia tradicional dizia que as virtudes teologais eram infundidas de modo automático pelo rito do baptismo. Já vimos como isto não tem qualquer fundamento. Na verdade, um adulto, para ser baptizado tem de possuir já a Fé, a Esperança e a Caridade. Podemos dizer que a vida teologal capacita a pessoa humana para viver e se relacionar na dinâmica de fé, da esperança e do amor com a força da revelação.

A Revelação de Deus pode projectar luz sobre tantos acontecimentos que parecem tirar todo o sentido à vida. Por outras palavras, a Revelação potencia o sentido daquilo que já o tem e confere sentido àquilo que, à simples luz da razão, parece não o ter. Eis a razão pela qual podemos falar de um sentido um sentido da vida que brota da luz da razão e de um sentido de vida que brota da luz da revelação.

O sentido teologal da vida vai emergindo à medida em que a Revelação ou a Palavra de Deus vai sendo dita pelo Espírito Santo no coração dos crentes. É precisamente pela vida teologal que o cristão se distingue dos demais homens. À medida em que o crente vai crescendo na vida teologal, torna-se sal, luz e fermento no mundo. Não por ser um super-homem mas porque Deus lhe concedeu um Dom que o capacita para realizar uma missão no mundo.

Apesar de não ser uma coisa que cai magicamente do Céu, a vida teologal é um Dom de Deus, não uma conquista do Homem. É a sabedoria que emerge no coração do crente à medida em que o Espírito Santo nos vai fazendo a confidência da Palavra de Deus. Esta confidência projecta luz sobre as grandes questões tais como: Quem somos? Qual o nosso lugar no plano de Deus? Quem é o Deus que nos está criando e salvando em Cristo?

O conteúdo da Fé cristã é o resultado da Revelação de Deus que nos diz quem é e quem somos nós e qual o lugar que ocupamos no sonho criador do amor de Deus. No coração da Revelação divina está o mistério da Encarnação e o sentido que este tem para a nossa vida: “O divino enxertou-se no humano para que este seja divinizado”. Se assim não fosse a Encarnação seria apenas uma visita que Deus nos fez através da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

A salvação, à luz da Revelação, é a nossa própria incorporação na Família Divina como filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus Filho. O Espírito Santo é amor maternal de Deus que nos incorpora na Família da Trindade. A luz maior que ilumina o sentido da vida humana é Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Ele é um homem perfeito, em tudo igual a nós excepto no pecado. Isto quer dizer que faz um todo orgânico connosco. Eia a condição fundamental para acontecer a nossa salvação.

Na verdade, um só é plenamente homem só é perfeito na medida em que está interligado com toda a Humanidade. Ora, se existe um homem que é ponto de união do humano com o divino, então a Humanidade está unida organicamente à Divindade. É esta a razão pela qual podemos dizer que já somos da Família Divina.

Tudo isto o proclama a celebração do baptismo, o que não quer dizer que o faz de modo automático ou mágico. Deus realizou a nossa salvação em Jesus Cristo. Por outras palavras o Salvador dos seres humanos, cristãos ou não, é Jesus Cristo e não os sacramentos. Como sabemos, os sacramentos são apenas para os cristãos, mas isto não quer dizer que apenas os cristãos se salvam. Os sacramentos celebram o plano salvador de Deus e por isso são espaços privilegiados para o Espírito Santo dizer a palavra de Deus no coração dos crentes que os celebram.

Na verdade existe uma relação estreita entre sacramentos e vida teologal, pois os sacramentos são espaços privilegiados para a acção do Espírito e da Palavra de Deus, os pilares da vida teologal. Os sacramentos explicitam o projecto salvador de Deus e o lugar do Homem nesse projecto. Os sacramentos proclamam que apenas os homens que abrem o coração ao amor podem tomar parte na plenitude do Reino.

O pecado é uma resistência ao amor que tem como consequência o auto enroscamento da pessoa. É esta a situação de perdição eterna. Nesta situação, a pessoa está incapacitada para receber qualquer mensagem de amor e, portanto, incapacitada para encontrar a plenitude da comunhão. No estado de inferno, a pessoa não consegue captar qualquer gesto de comunhão. Por isso não tem quem lhe diga: “gosto de ti”.

Na verdade, a plenitude da pessoa não está em si mas na comunhão com os demais. Eis a razão pela qual as três pessoas divinas formam uma comunhão na qual cada pessoa encontra a sua plenitude. É também para esta meta que o Homem está a caminhar. Como sabemos, os biliões de pessoas humanas que existem formam uma só Humanidade, a qual está chamada à comunhão com a única divindade.

Jesus Cristo é exactamente o ponto onde acontece a união orgânica do Humano com o Divino. Foi em Jesus de Nazaré que a Humanidade atingiu a sua plenitude: ser divinizada. Esta verdade revelada por Deus é saboreada mediante a vida teologal de Fé, Esperança \e Amor. É esta Sabedoria que vem do Alto.


2- A vida teologal no Novo Testamento

O evangelho de São João diz que o Espírito Santo testemunha o mistério de Deus e do Homem no interior dos crentes (Jo 15, 26). De modo gradual e progressivo, o Espírito Santo conduz-nos para a verdade plena, capacitando para saborear o sentido da Criação e da Salvação (Jo 16, 13).

São Paulo lembra aos Tessalonicenses a experiência bonita que teve da vida teologal que os animava: “Recordo a dinâmica da vossa fé, o espaço e profundidade do vosso amor, bem como a constância da vossa esperança em Cristo” (1Tess 1, 3). A vida teologal constitui como que as armas com que contamos para a luta contra o mundo marcado pelo fratricídio, desesperança, perda do sentido da comunhão e da solidariedade: “Revistamos a couraça da fé e da caridade, bem como o capacete da esperança da salvação” (1Tess 5, 8b).

O Novo Testamento reconhece que o alimento da vida teologal é a Palavra de Deus: “Ouvimos falar da vossa Fé em Jesus Cristo. Tomámos conhecimento da vossa caridade para com todos os santos (crentes). Tudo isto devido à vossa esperança na glória que nos está reservada nos céus. Vós tendes conhecimento disto pela Palavra da Verdade, isto é, o Evangelho” (Col 1, 4-5).

Esta Palavra é segredada no coração dos crentes pelo Espírito Santo, o qual gera em nós uma sabedoria que nos capacita para conhecermos Jesus Cristo: “Rogo ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo que vos conceda o Espírito da sabedoria e revelação para bem o conhecerdes” (Ef 1, 17).

A fé alimenta a esperança. Esta é confirmada pela acção do Espírito Santo: “A esperança não nos deixa confundidos, pois o Amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

Na situação presente, o homem precisa de fé porque não vive na evidência. Precisa de esperança porque não é uma plenitude conseguida. Mas a plenitude virá pelo amor. Após a morte a fé já não é necessária. Fica apenas o amor como dinâmica de plenitude do Reino de Deus: “Hoje, conheço de maneira imperfeita. Depois, conhecerei exactamente como sou conhecido por Deus, isto é, na evidência. Agora, subsistem estas três: a Fé, a Esperança e a Caridade. Mas a maior é a caridade” (1Cor 13, 12-13).

A esperança recebe da fé o conteúdo daquilo que espera. Este conteúdo é a revelação de Deus que confere os seus horizontes à fé. A esperança, portanto, não incide sobre simples ideias humanas, mas é alimentada pela revelação do projecto de Deus: “Permanecei firmes na fé e inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes” (Col 1, 23a). Os discípulos são felizes, pois é-lhes revelado o mistério (segredo) de Deus. Muitos profetas e reis quiseram conhecer este mistério e não puderam (Mt 11, 23-24).

A vida teologal desenvolve-se e cresce gradualmente. A revelação vai progredindo. O homem não é capaz de captar, de uma vez por todas, o plano de Deus. Ao receber o dom da revelação, o crente é constituído testemunha do amor de Deus entre os homens. Sem o acontecimento da Palavra, a fé não pode acontecer. “Como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão se não houver quem lhes pregue?” (Rm 10, 14).

A Palavra acontece na dinâmica da vida comunitária animada pelo Espírito Santo. A Palavra alimenta a vida teologal. Esta vida, por seu lado, capacita os crentes para serem mediações da acção revelacional do Espírito para os homens. A caridade é a síntese e a cúpula da vida teologal., pois dinamiza a Fé e robustece a Esperança: “O amor tudo crê. O amor tudo espera” (1Cor 13, 7).

Como podemos observar, a vida teologal constitui um todo. Concretiza-se em atitudes marcadas pela fé, pela esperança e pelo amor. A vida teologal constitui a originalidade da vida cristã. Confere ao crente o sentido pleno da fraternidade humana, a qual encontra a sua plenitude na incorporação da Família Divina. Somos todos irmãos, pois somos membros da Família de Deus (Ef 2, 19).

A vida teologal vislumbra a dignidade humana no seu alcance mais profundo e pleno. Como diz a Carta aos Gálatas, não somos servos, mas filhos de Deus e herdeiros do Seu Reino (Gal 4, 4-7). Graças ao facto de sermos membros da família de Deus, não há sentido para diferenças. O crente não faz qualquer acepção baseada na raça, na língua, na cor ou no sexo (Gal 3, 26-28).

Animado pela vida teologal, o crente saboreia a alegria da reconciliação que Deus realizou com a Humanidade em Cristo. Os crentes tornam-se ministros desta reconciliação no mundo (2Cor 5, 18). Vivem as relações com os homens, com o sabor da Nova Aliança (2Cor 3, 6). Graças a Jesus Cristo Ressuscitado, estão criadas as condições para que os seres humanos tenham acesso a Deus no Espírito Santo (Ef 2, 18).


3- Baptismo no Espírito e Compromisso Cristão

Antes de Cristo, a revelação já acontecia no povo bíblico. Os profetas eram arautos privilegiados desta revelação. Pouco a pouco os profetas iam chamando a atenção do povo para a justiça e a bondade de coração como os pilares do encontro e da comunhão com Deus. As opções, decisões e atitudes que tomamos em relação aos outros são condição fundamental para o encontro com Deus.

Isaías diz que o culto, sem a vivência da justiça e a defesa dos desprotegidos, sobretudo órfãos e viúvas, não tem qualquer validade (Is 1, 10-17). Jeremias denuncia as lamúrias de um povo que se punha a clamar: Templo, templo do Senhor. Enganam-se, pondo a sua esperança de salvação no templo e no culto (Jer 7, 4). A Salvação não está aí. Mas se deixarem de oprimir os débeis (órfão, viúva e peregrino), se não fizerem juízos injustos e não derramarem sangue inocente, podem estar seguros que Deus estará com eles (Jer 7, 5-7).

Os cultos e sacrifícios são criação dos homens, diz o profeta Jeremias e Deus não precisa de tais coisas nem as prescreveu (Jer 7, 21-22). Deus está cansado desse povo desonesto, continua o profeta Jeremias. Praticam a mentira e, depois, vêm com lamúrias para o templo. Estão simplesmente a auto enganar-se, pois tudo isso é vão (Jer 9, 3).

O Novo Testamento segue a mesma linha. Denuncia o cultualismo legalista divorciado da vida. O que Deus quer é a misericórdia, não os ritos e sacrifícios (Mt 9, 23). Os fariseus, criando normas e leis, estão a anular a lei fundamental do amor ao pai e mãe (Mt 16, 6-7). Os fariseus representam um tipo de pessoas que honra Deus com os lábios, mas o seu coração está longe do Senhor. É vão o culto que realizam, ensinando aos homens doutrinas que não passam de preceitos humanos (Mt 15, 8-9).

Graças à revelação que faz o crente crescer na sabedoria teologal, os cristãos sabem que a coisa mais sagrada para Deus é o Homem. O Homem é a única imagem que Deus fez de Si. Todas as outras são feitas pelos homens. O Amor a Deus passa pelo amor a esta imagem que Deus criou de si mesmo (1 Jo 4, 7). Não pode acontecer comunhão com Deus sem que esta passe pela comunhão com os homens. Isto significa que o crente não pode viver a sua vida descomprometido das tarefas históricas e da solidariedade com os homens, de modo particular com os mais desfavorecidos.

O cristão não será sal, luz ou fermento, confundindo-se com os que actuam, orientados por ideologias e não movidos pelos horizontes da vida teologal. O seu compromisso tem o selo da vida teologal, na medida em que as suas opções têm o selo do serviço à causa da humanização do homem. A eficácia da Igreja no mundo não depende do número dos baptizados, mas da força teologal que vai actuando como fermento, sal e luz no tecido social, político, económico ou cultural da Humanidade.

Como diz o evangelho de São Mateus, se o cristão perde a força da vida teologal torna-se um sal que perdeu a força e, portanto, já não serve para nada (Mt 5, 13-16). Se o cristão actua com os horizontes estreitos das ideologias é uma pura inutilidade no mundo. A humanidade precisa dos crentes na medida em que estes sejam uma consciência teologal na história.A Igreja não é eficaz na medida em que é poder. É sacramento e sabedoria teologal na medida em que, no seu interior, a autoridade se realiza como serviço (Mt 20, 25-27; Lc 22, 25-27).

A vida teologal conduz os crentes a compromissos que apontam para um novo jeito de ser homem. Os que vivem o baptismo no Espírito não se pertencem a si, mas à causa de Cristo (Rm 8, 9b). O cristão que informa as suas opções e compromissos com a densidade teologal torna-se verdadeiramente corpo de Cristo no meio dos homens (cf. 1Cor 10, 17; 12, 27).

As opções com cunho teologal são mediação da uma mediação privilegiada para a acção do Espírito na história dos homens. A vida teologal é um dom para os cristãos saborearem o pleno de Deus com os horizontes da Revelação. Ao mesmo tempo é uma força transformadora no meio do mundo, pois capacita os crentes para se comprometerem no mundo com um jeito novo de amar.

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