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Os Sacramentos, Sinais da Salvação

OS SACRAMENTOS, SINAIS DA SALVAÇÃO


... Os Sacramentos são Celebrações Comunitárias da Fé que explicitam o Projecto Salvador de Deus a acontecer no seio da História Humana. Não são ritos mágicos, mas quando celebrados na Fé provocam a abertura do crente à acção do Espírito Santo de Jesus Ressuscitado, alimentando a sua caminhada como discípulo. São sinais e mediação de encontro para a Igreja para que esta se torna, no mundo, sinal e instrumento do Reino de Deus...


1. Número e Eficácia dos Sacramentos
2. Sentido Cristão do Baptismo
3. Baptismo e Originalidade Cristã
4. Da Imposição das Mãos ao Crisma
5. Confirmação e Evangelização do Mundo

6. A Linguagem Bíblica da Eucaristia
7. A Eucaristia ao Longo da História
8. Eucaristia e o Sangue da Nova Aliança

9. A Reconciliação no Novo Testamento
10. A Reconciliação, Sacramento de Salvação
11. A Santa Unção e a Vitória da Vida

A Santa Unção e a Vitória da Vida



a) A Morte e o Sentido da Vida
1- Sentido do Sacramento da Santa Unção
2- Aprender a Morrer

b) A Santa Unção, Sacramento da Esperança
1- Cristo Venceu a Nossa Morte
2- O Dom da Vida Eterna


a) A Morte e o Sentido da Vida

1- Sentido do Sacramento da Santa Unção

Como os demais sacramentos, também o sacramento da Santa Unção é uma celebração comunitária da Fé. O horizonte deste sacramento é, naturalmente a vitória da vida sobre o sofrimento e a morte. A celebração deste sacramento será tanto mais rica quanto mais se desenvolver dentro de um contexto específico de esperança cristã. Os horizontes da esperança cristã incidem de modo especial na vitória total e definitiva da vida sobre o sofrimento e a morte. Esta vitória é um dom que nos vem de Cristo morto e ressuscitado.

Podemos situar o nascimento do sacramento da Santa Unção no século quinto, altura em que se começam a ungir os doentes com o óleo do crisma (cf. Denz 99). Em 416, o papa Inocêncio I diz que esta unção é um sacramento. Neste período o termo sacramento era entendido no sentido da definição Santo Agostinho: “Sinal eficaz da graça de Deus”. Os penitentes não podiam ser ungidos com o óleo do crisma. Com efeito, os penitentes por estarem temporariamente excluídos da comunidade, não podiam participar das celebrações dos sacramentos (cf. Denz. 315). No século IX, o Concílio de Pavia diz que o sacramento da Santa Unção perdoa os pecados e pode restituir a saúde corporal. Mas reafirma o princípio de que este sacramento não pode ser administrado aos penitentes, excepto se estes se confessarem e receberem o corpo e sangue de Jesus [cf. Denz. 907].

No século XVI, o Concílio de Trento diz que o demónio, durante a nossa vida, anda constantemente a tentar perder-nos. Os esforços e arremetidas maléficos aumentam nos momentos que precedem a morte. O Sacramento da Santa Unção é importante, pois robustece os enfermos, capacitando-os para resistirem aos finais do Demónio.

Temos de reconhecer que esta linguagem fantasiosa se afasta enormemente da teologia bíblica. A Igreja pode criar os sacramentos que achar necessários para exprimir o projecto salvador de Deus a passar pelas situações fundamentais da vida humana. Mas o sentido destas celebrações sacramentais não podem distorcer o património da Fé Apostólica. O sofrimento e a morte são situações profundamente envolventes para a pessoa. O sentido da vida e da morte caminham juntos. De facto, o amor é uma razão que vale tanto para viver como para morrer.

A Celebração do sacramento da Santa Unção é um momento privilegiado para o crente aprofundar o sentido da morte. Ao mesmo tempo é um espaço privilegiado para o Espírito Santo ajudar a pessoa a assumir a vida como tarefa de amor, ao jeito de Jesus Cristo que amou até dar plenamente a sua vida. O sacramento da Santa Unção é um espaço importante para os doentes tomarem consciência da acção do Espírito Santo a actuar força vencedora da morte.

Como ternura maternal de Deus presente nos nossos corações (Rm 5, 5), o Espírito Santo vai-nos introduzindo progressivamente na família de Deus como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho (cf. Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7). É importante que a celebração da Santa Unção seja orientada no sentido de levar os doentes a saborear o amor de um Deus vivo que está connosco nas nossas situações de sofrimento. Com efeito, Deus está nas nossas situações de sofrimento, não como causa desse sofrimento, mas como garantia de vitória sobre toda a forma de sofrimento e de morte.

É importante não fazer do sacramento da Santa Unção um rito mágico com determinados efeitos garantidos, como seja lavar almas do pecado ou dar de modo automático a saúde corporal. À luz da Bíblia, a morte, após uma vida realizada e fecunda, é vista como um acontecimento normal e não como uma tragédia (Gn 25, 8; Jz 8, 32; 1Rs 11, 43). Após a experiência dolorosa do exílio na Babilónia, o povo hebreu tomou consciência de que Deus é o Senhor que premeia os justos após a morte. O Espírito de Deus tem o poder de ir ao Sheol, isto é à morada dos mortos e ressuscitar as sombras de vida que aí habitam. Estes surgirão renovados com outras vestes e outro nome, isto é, com uma nova missão (Zac 3, 1-10; Is 62, 2; 65, 15).

O Novo Testamento diz que Jesus Cristo recebeu as chaves do Sheol, ficando com poder para libertar os que estão sob o demónio da morte (Ap 1, 18; 1Ped 3, 28ss; 4, 5-6; Ef 4, 8-10; Col 1, 18; Ap 20, 1). A ressurreição de Jesus iniciou a dinâmica da ressurreição na marcha da Humanidade. Por outras palavras, todos nós estamos a ressuscitar graças à presença recriadora do Espírito Santo no nosso interior (Flp 3, 8-14; Ef 2, 4-10; Col 2, 12-14). Ao atingirmos a plena integração na Família Divina o sofrimento e a morte serão definitivamente vencidos (Heb 8, 8-13; Rom 6, 4; 8, 29; Ef 2, 10; 2, 15-16; Tit 3, 4-7; 2Cor 5, 17).

O Sacramento da Santa Unção deve ser orientado no sentido de ajudar os crentes de que não estamos talhados para o vazio da morte. Na história, estamos em construção, a qual termina com o acontecimento da morte. O nascimento do homem interior é condição necessária para entrarmos no Reino de Deus (Jo 3, 3). Este nascimento acontece pelo Espírito Santo (Jo 3, 6). À medida em que aprendemos a renascer aprendemos a viver e a morrer.


2- Aprender a Morrer

Mediante o sacramento da Santa Unção, o Espírito Santo conduz os crentes que o celebram para a sabedoria que os capacita para aprender a morrer. Morrer é, na realidade, a derradeira possibilidade de renascer. A consciência da nossa morte ilumina o sentido que a vida tem. Os animais não sabem que um dia morrerão, por isso não têm sentidos para viver. Com efeito, os sentidos da vida e da morte caminham a passo igual. Eis a razão pela qual o horizonte da vida e da morte é mais amplo fase terminal.

Nessa altura descobrimos que há causas que valem para morrer que são exactamente as mesmas que valem para viver: o amor. Jesus ensinou-nos que a densidade máxima do amor se atinge ao dar a vida pelas pessoas que amamos. Quem ama até à morte nasce para a plenitude da vida. Felizes, portanto, dos que gastaram a vida pelas causas do amor. Para estas pessoas, a morte final não tem o sentido de uma tragédia sem saída. De facto, souberam ir morrendo todos os dias ao homem egoísta que há em nós. Este homem egoísta é o homem velho nascido de Adão, o qual torna a morte uma tragédia.

Morrer para dar vida é a maneira mais perfeita de rebentar os muros da própria finitude. O Homem Novo não pode nascer sem que o velho vá morrendo. Não nascemos para a vida nova sem morrer progressivamente à vida velha. A maneira de morrer à vida velha é gastá-la pelas causas do amor. Sábias são as pessoas que sabem ir morrendo, a fim de dar vida aos outros. Há seres humanos que sabem renascer todos os dias para a vida eterna, morrendo em cada dia ao egoísmo que ainda habita o seu coração. A grande missão da nossa vida sobre a terra não é manter a vida mortal, mas edificar a vida eterna.

Muitas pessoas, ao tomarem consciência da proximidade da morte, sentem-se mais profundamente chamadas a gastar a vida pelo amor. No fundo tomaram mais plenamente consciência da grande vocação da pessoa sobre a terra. Com efeito, é o amor torna fecunda a vida das pessoas. Eis a razão pela qual, com o surgimento da proximidade da morte, nasce na nossa consciência um apelo a amar mais plenamente. A morte é o parto fundamental para o nascimento definitivo que foi renascendo mediante opções e realizações inspiradas pelo amor. A consciência da nossa morte é um estímulo e um apelo a criar sentidos para viver com sentido.

O sacramento da Santa Unção é um espaço privilegiado para crescer na sabedoria que gera em nós este sentido profundo da vida. À luz da Fé, a morte é como o rebentar da casca do ovo em cujo interior foi germinando o pintainho, isto é, a interioridade pessoal-espiritual. A temperatura que faz germinar este pintainho é o conjunto das realizações na linha do amor.

Por ser espiritual, a nossa interioridade pessoal não cai sob a alçada da morte, pois transcende a curva natural da vida: nascer, crescer, envelhecer e morrer. O nosso ser exterior ou individual acaba no cemitério. Entra nos circuitos físico-químicos da natureza, como a casca do ovo depois de o pintainho nascer. A nossa interioridade pessoal-espiritual, pelo contrário, está talhada para a plenitude da comunhão universal.

A morte é a porta para a plenitude da vida eterna, dom que nos é concedido por Cristo ressuscitado. Mas, com sabemos, não há ressurreição sem morte. Não há ressurreição gloriosa com Cristo se não houver morte progressiva ao egoísmo. Felizes são os que sabem aproveitar a vida presente para construir a vida eterna, isto é, a vida pessoal-espiritual. Como vimos acima, a razão da nossa vida na história não é apenas prolongar a vida mortal, mas construir a vida eterna. De facto, apenas o nosso ser interior, por ser pessoal e espiritual, tem densidade para ser assumido na plenitude da vida eterna.

Vista a esta luz, a morte é condição para atingirmos a nossa glorificação com Cristo Ressuscitado. Graças ao mistério da Encarnação, a salvação já está ao nosso alcance! O Filho de Deus fez-se nosso irmão, a fim de sermos membros da família divina (Jo 12-14). Mediante o parto derradeiro da morte, nascemos para a vida em plenitude. Nascemos definitiva e plenamente para Deus.

A morte, portanto, é a última possibilidade que nos é dada para conquistarmos a vida eterna. Ao anular o nosso ser exterior ou individual, a morte possibilita a libertação definitiva do nosso ser interior ou espiritual. Esta é a condição para entrarmos na intimidade de Deus, Família primordial. A morte não mata a pessoa. Apenas o nosso ser exterior acaba com a morte. A morte atinge-nos nas coordenadas da finitude de ordem individual, biológica, psíquica, linguística, rácica e espácio-temporal.

Ao ressuscitar, Jesus Cristo tornou-se para nós a Árvore da Vida, oferendo-nos o fruto que nos proporciona a vida eterna: o Espírito Santo. Com seu jeito maternal de amar, O Espírito Santo molda-nos como imagem de Deus, configurando-nos com Cristo e introduz-nos na Família Divina (Rm 8, 14-17; Ga 4, 4-7). Somos gerados de novo pelo Espírito Santo. Jesus insistiu que temos de nascer de novo pelo Espírito Santo. Graças a Cristo ressuscitado, voltamos a ter acesso ao fruto da vida eterna do qual Adão nos tinha privado (cf. Gn 3, 22-24).

O Paraíso, fechado por Adão, foi reaberto para todos nós em Jesus Cristo. De Adão, homem tirado da terra, veio o nosso ser individual, exterior e mortal. Do Novo Adão, Cristo ressuscitado, veio o Homem Novo, espiritual e membro da Família de Deus. Eis a razão pela qual São Paulo chama a Cristo o Novo Adão (Rm 5, 17-19). Ele é a cabeça da Humanidade restaurada. Ele é o medianeiro da reconciliação universal com Deus (2 Cor 5, 17-19). Por Ele veio a plenitude humana, isto é, o Homem assumido e integrado na Comunhão Universal do Reino de Deus.

É este o novo nascimento que culmina na nossa divinização. Mas só pela morte entramos nesta plenitude da vida eterna. O Espírito Santo, fruto precioso da Árvore da Vida, é o Espírito de Cristo, pois vem em nome de Cristo inserir-nos na Comunhão Familiar de Deus. Ao morrer, Cristo destruiu a nossa morte. Ao Ressuscitar, restaurou a nossa vida, incorporando-a na comunhão familiar da Santíssima Trindade!


b) A Santa Unção, Sacramento da Esperança

1- Cristo Venceu a Nossa Morte

O Novo Testamento é o testemunho da ressurreição de Jesus Cristo. A vida eterna como participação na Família de Deus é indissociável da ressurreição de Jesus Cristo. A Bíblia proclama a ressurreição da carne no sentido de afirmar a identidade histórica dos ressuscitados. O termo carne, na cultura bíblica, é sobretudo um conceito genealógico e cultural. Para o mundo bíblico, a pessoa está viva na medida em que se relaciona e convive. Segundo a antropologia bíblia, o ser humano privado de relações, convívio e comunhão com os outros está em estado de morte.

O noção de carne na cultura hebraica coincide mais com a realidade interior da pessoa do que com a sua realidade exterior. Podíamos dizer que o homem carne, para o mundo bíblico, é a pessoa como interioridade que se estrutura em relações e forma uma unidade orgânica com toda a Humanidade. Formar uma só carne significa formar uma grandeza relacional, cultural, afectiva que apenas encontra a sua identidade em interligação com os outros. Por isso o varão deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, formando uma só carne (Gn 2, 24).

São Paulo diz que os cristãos são corpo de Cristo, isto é, fazem um todo orgânico com o Senhor ressuscitado. Aplicando isto à questão da prostituição sagrada que acontecia nos templos, São Paulo diz que os cristãos não podem unir-se às prostitutas, pois fariam com ela uma só carne (1 Cor 6, 15b). Este procedimento seria um sacrilégio, pois seria fazer de um membro de Cristo uma só carne com uma prostituta, pois o varão e a mulher fazem uma só carne (1Cor 6, 15a).

Isto é assim, continua São Paulo, pois fazemos uma união com Cristo: “Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito” (1Cor 6, 17). Isto é assim, diz São Paulo porque fomos todos baptizados no mesmo Espírito, a fim de formarmos um só corpo (1Cor 12, 13). Como membros de Cristo, cada um de nós tem a sua função própria (1Cor 12, 27).

É esta a visão do homem carne, na Bíblia. Ao falar da Eucaristia, São Paulo diz que comemos do mesmo pão porque formamos um só corpo (1Cor 10, 17). Os seres humanos estão todos interligados de modo orgânico desde os começos da humanidade. Adão foi constituído como cabeça da Humanidade. Como a cabeça não teve juízo, todo o corpo foi conduzido para o malogro e o fracasso.

Por um só homem, diz São Paulo, o pecado e a morte entraram no mundo, atingindo a todos (Rm 5, 12). Mas Deus escolheu Jesus Cristo como Novo Adão, fazendo dele a nova Cabeça da Humanidade (Rm 5, 17). Agora somos uma Nova Criação em Cristo, o Novo Adão: “Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho e tudo se fez novo. Tudo isto vem de Deus que, em Jesus Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2 Cor 5, 17-19).

A ressurreição da Carne, portanto, é uma realidade a acontecer de modo orgânico. Participamos da condição de Cristo ressuscitado porque fazemos uma unidade orgânica com ele. É algo parecido, diz o evangelho de São João, à união que existe entre a cepa da videira e os ramos. Os ramos vivem e são fecundos apenas na medida em que estão unidos à cepa (Jo 15, 4-6).

O matrimónio é sacramento desta união orgânica que existe entre Cristo e a Humanidade dos eleitos, pois o marido e a esposa formam uma só carne: “Os maridos devem amar as mulheres como os seus próprios corpos. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém jamais aborreceu a sua própria carne. O homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à sua mulher e passarão a ser uma só carne” (Ef 5, 28-31).

A fé bíblica na ressurreição da carne não implica qualquer tipo de restauração biológica. Esta assunção na plenitude da vida eterna realiza-se como Comunhão e incorporação orgânica na Família de Deus. Agora já podemos compreender como a Boa Nova da ressurreição e da Vida eterna em Cristo deve estar no coração da celebração da Santa Unção. É esta a verdade que proclamamos no “Credo” quando dizemos: “Creio na Ressurreição da Carne”.

Mas este termo não é a afirmação de um acontecimento de ordem biológica. A ressurreição, diz São Paulo, é um acontecimento espiritual, não biológico: “Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória. Semeia-se na fraqueza e ressuscita-se na força. Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual. O que digo, irmãos, é que a carne e o sangue não podem tomar parte no Reino de Deus, nem a corrupção não herdará a incorruptibilidade.” (1Cor 15, 42-50).

Do mesmo modo, diz o evangelho de São João, comer a carne de Cristo não significa antropofagia, mas formar uma união orgânica com Cristo ressuscitado no Espírito Santo (Jo 6, 62-63). A nossa união orgânica com Cristo culmina na Comunhão Universal com a Santíssima Trindade: “Que todos sejam apenas um como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Que também eles sejam um em nós” (Jo17, 21). Ao ressuscitar, Jesus Cristo deu-nos a Água Viva, isto é, o Espírito Santo, o qual faz jorrar Vida Eterna no nosso íntimo (Jo 7, 37-39).

Quem come a carne de Cristo participa da salvação que acontece através da ressurreição da carne: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu vou ressuscitá-lo no último dia (…). Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57). Estes textos mostram-nos como a nossa união a Cristo ressuscitado é a fonte de vida eterna. Talvez agora possamos entender como é mais profunda a expressão “Creio na ressurreição da carne,” do que dizer: “Creio na ressurreição dos corpos.”


2- O Dom da Vida Eterna

Celebrar o sacramento da Santa Unção é proclamar a vitória da Vida eterna. A Vida eterna não é uma realidade que apenas será real após a morte. É importante que os enfermos que celebram o sacramento da Santa Unção entendam que a vida eterna já está a emergir no seu íntimo. Após o acontecimento da Encarnação, o divino enxertou-se no humano, a fim de a vida eterna começar a emergir nele já agora.

A Divindade não é uma realidade histórica, mas é uma comunidade de três pessoas empenhadas na História do Homem. Na sua ternura infinita e difusiva, Deus quis que a Humanidade tivesse parte na festa da vida eterna. A plenitude desta vida acontece após a morte mas já está em marcha no processo histórico da humanização. A vida eterna na história está a acontecer como divinização do ser humano na medida em que esta se humaniza.

O Novo Testamento usa expressões muito sugestivas para falar da dádiva gratuita da vida eterna: “Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, de modo que o Filho revele a tua glória. Tu, Pai, deste ao teu Filho poder sobre toda a Humanidade, a fim de ele dar a vida eterna a todos os que lhe entregaste. Pai Santo, a Vida Eterna consiste em conhecer-te, Pai, como único Deus verdadeiro e a teu filho Jesus Cristo a quem enviaste” (Jo 17, 1-3).

São Paulo diz que a vida eterna é o grande dom que Deus oferece em Cristo, nesta fase da plenitude dos tempos: “O salário do pecado é a morte, mas a vida eterna é o dom gratuito que vem de Deus por Cristo, Senhor nosso” (Rm 6, 23). Na Carta a Tito, São Paulo diz que é o mensageiro enviado aos homens, a fim destes conhecerem a verdade da vida eterna: “Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, em ordem à fé dos eleitos de Deus e ao conhecimento da verdade, que conduz à piedade. Assim é fortalecida a esperança na vida eterna, prometida desde os tempos antigos pelo Deus que não mente. Este mistério foi manifestado no devido tempo pela pregação da qual fui incumbido por mandato de Deus, nosso Salvador” (Tit 1, 1-3).

Além disso, acrescenta São Paulo, a vida eterna é um dom totalmente gratuito que Deus nos proporciona mediante a acção do Espírito Santo: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com a Humanidade, ele salvou-nos. Esta salvação não é devida às obras de justiça que tenhamos praticado, mas sim à sua misericórdia, através de um novo nascimento e renovação mediante o Espírito Santo, que ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador. Deste modo, uma vez justificados pela sua graça, vamo-nos tornando herdeiros da vida eterna que já vivemos na esperança” (Tit 3, 4-7).

A vida eterna é a Festa da Família de Deus, onde a Ternura Maternal de Deus, o Espírito Santo, é o princípio que enche o coração de todas as pessoas e anima as relações de comunhão entre Deus e os seres humanos. O livro do Apocalipse descreve de modo maravilhoso a dinâmica amorosa da vida eterna: “Vi então um Novo Céu e uma Nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo. Depois ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: “Esta é a morada de deus entre os homens. Ele habitará com os seres humanos e estes serão o seu povo. Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas passaram”.

O que estava sentado no trono disse: “Eu renovo todas as coisas!” E acrescentou: “Escreve, porque estas palavras são dignas de fé, pois são verdadeiras”. “É verdade: Eu sou o Alfa e o Ómega, O Princípio e o Fim! Ao que tiver sede eu lhe darei a beber gratuitamente da nascente da Água da Vida. O que vencer receberá estas coisas como herança e Eu serei o seu Deus e ele será o meu filho!” (Apc 21, 1-7).

Como vemos, a vida eterna é uma realidade relacional e orgânica. Ninguém possui a vida eterna de modo isolado. Nem Deus, pois a divindade é uma comunhão orgânica de três pessoas. O Espírito Santo, como ternura maternal de Deus é o princípio animador das relações e da comunhão orgânica que constitui a vida eterna. A vida eterna emerge no coração de cada pessoa à medida em que esta se vai realizando na vida presente. De facto, Deus assume e diviniza a pessoa humana na medida em que esta se humaniza, isto é, na medida em que esta emerge como ser espiritual capaz de interacção amorosa.

O evangelho de São João diz que a Encarnação é o princípio da vida eterna: “Mas aos que receberam o Verbo, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue. Também não nasceram de um impulso da carne nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, essa glória que ele possui como Filho unigénito do Pai, cheio de Graça e Verdade” (Jo 1, 12-14).
A vida eterna implica, portanto, a incorporação na Família de Deus que tem como resultado a divinização da pessoa humana. Por outras palavras, a matéria-prima a ser divinizada é o resultado da humanização de cada pessoa. A lei da humanização é um processo histórico que assenta sobre dois pólos: o pessoal e o sócio-cultural. A nível pessoal a humanização acontece como emergência espiritual mediante relações de amor e convergência para a comunhão humana universal. A nível sócio-cultural a humanização acontece como realidade étnica e cultural: Implica a emergência livre das diferenças rácicas, linguísticas, culturais e convergência para a edificação da paz e da fraternidade universal.

A vida eterna é um dom gratuito de Deus que implica a divinização, isto é, uma interacção de tipo familiar com as pessoas divinas. Isto significa, portanto, que a vida eterna é algo que já está em marcha na vida presente. Viver a vida eterna, diz a Primeira Carta de São João, é viver o amor aos irmãos, o único caminho que conduz à comunhão com Deus: “Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. Todo o que tem ódio ao seu irmão é um homicida e vós bem sabeis que nenhum homicida tem dentro de si a vida eterna” (1 Jo 3, 14-15).

Depois acrescenta que a vida eterna é realmente um dom que Deus nos concede e não algo que nós possamos ter isoladamente. Ninguém pode possuir a vida eterna sem o dom que nos vem de Deus através de Jesus ressuscitado. Esse dom é o Espírito Santo: “ É este o testemunho: Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida, quem não tem o filho não tem a vida” (1 Jo 5, 11-12). A vida eterna, por ser pessoal, define-se pela qualidade das suas relações amorosas. A vida eterna e a morte eterna dependem da atitude da pessoa perante o amor, enquanto vive na história.

A Reconciliação, Sacramento de Salvação




a) Enquadramento Histórico
1- Evolução Histórica da Penitência Pública
2- Da Penitência à Confissão
2.1- Os Penitenciários
2.2- Da Penitência à Confissão Julgamento

b) Sentido do Sacramento da Reconciliação
1- Pecado e Projecto Salvador de Deus
2-O Cristão e o Serviço da Reconciliação


a) Enquadramento Teológico


1-Evolução Histórica da Penitência Pública

Como sabemos, a penitência pública, no Novo Testamento, incidia sobre escândalos públicos. Eram essencialmente três as situações de escândalo que levavam à proscrição temporária da comunidade: Homicídio, adultério e apostasia ou negação pública da fé. É importante não confundir a prática da penitência pública com a prática da reconciliação vivida em comunidade. A reconciliação comunitária tinha lugar na própria celebração da Eucaristia. Acontecia, portanto, semanalmente e era extensiva a todos os crentes que sentiam necessidade de se reconciliar com os irmãos. Realizava-se mediante o beijo da paz ou o abraço fraterno com pedido de perdão.

A penitência pública, pelo contrário, destinava-se apenas aos pecadores públicos. A maior parte dos crentes nunca chegava a ser submetida à penitência púbica durante a vida. Os Santos padres, isto é, os grandes mestres da fé da antiguidade, chamavam à penitência pública a segunda tábua de salvação. É Assim, por exemplo, que Tertuliano, no século III, a designa (De poenit. IV, 7, 9; PL. 1, 1933). É ainda esta a designação utilizada por S. Jerónimo no século V (Epist. Denit. 130, 9; PL. 22, 1115).

A penitência pública orientava-se no sentido da conversão, isto é, da mudança de rumo do pecador que era motivo de tropeço (escândalo) para a comunidade e obstáculo à evangelização. A reconciliação com os irmãos, pelo contrário, era vista como uma exigência de todos os dias, tal como manda o Novo Testamento (Mt 6, 14-15; 5, 23-26). O perdão deve ser constante e tantas quantas vezes seja necessário (Mt 18, 21-22; Lc 17, 3-4). A atitude de perdão faz parte da originalidade cristã. É parte integrante da própria oração (Lc 11, 4; Mt 6, 12).

A lista de pecados que conduziam à exclusão temporária da comunidade foi aumentada no século III. Às três atitudes mencionadas, acrescenta-se o roubo, a magia e a embriaguez frequente. Seria um erro pensar que a penitência pública tinha algo a ver com uma confissão pública dos pecados. A única confissão era a que implicava o acto de pedir perdão aos irmãos (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 11).

No século III começa-se a falar do poder que a comunidade tem de perdoar o pecado. Faz-se referência a Mateus onde se afirma que a comunidade tem o poder de ligar e desligar (Mt 18, 18). O texto de Mateus refere-se, naturalmente, ao baptismo. Os que a comunidade baptizar serão incorporados na comunidade eclesial e, portanto, farão parte do Reino quando Cristo vier. Os que a comunidade rejeitar não serão reconhecidos como fazendo parte dos marcados com o Espírito Santo para o dia da salvação (Ef 4, 30; 1Cor 1, 6-8; 3, 13-17; 2Cor 1, 21-22; 1Tess 1, 10).

A comunidade, além do baptismo, tem ainda uma segunda tábua de salvação. Trata-se da penitência pública. O rigorista Montano, no século III, opõe-se à penitência pública. Diz que a comunidade, embora tenha o poder de usar uma segunda oportunidade de perdão, não o deve utilizar a fim de não estimular outros ao pecado. É Tertuliano quem refere esta tese montanista (Tertuliano, De Cast. XXI, 7). Após uma fase católica, o próprio Tertuliano se torna montanista. Nessa fase, opõe-se a que se readmitam os culpados de certos pecados (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 20). Tertuliano diz que o poder do perdão foi dado à comunidade animada pelo Espírito Santo (De Cast. XXI, 7-10).

Isto demonstra que, no século III, ainda não se separava o ministério do corpo comunitário. Com a sacerdotisação do ministério, esta missão vai ser atribuída, progressivamente, aos ministros. Tertuliano, apesar do seu rigorismo, reconhece à penitência pública um valor equivalente ao do baptismo: “Colocou no vestíbulo uma segunda penitência, a fim de abrir a porta ao pecador que bate. Trata-se, no entanto, de apenas uma segunda possibilidade, pois a primeira penitência (baptismo) foi tornada inútil” [De Poenit. VII, 10].

O Pastor de Hermes, no século II, diz que a penitência pública é um dom da misericórdia de Deus. O pecador que se deixou seduzir pelo Demónio pode ainda ter outra oportunidade (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 66). Nos primórdios do século III, São Clemente de Alexandria dizia que até os justos podem pecar. Foi esta a razão pela qual Deus deixou a possibilidade da penitência como um segundo baptismo [Strom. II, 13].

O baptismo, diz Clemente, é o meio pelo qual o Espírito Santo ilumina o crente e o convida a uma vida nova. É, igualmente, o dom do perdão do pecado (Pedag. I, 6, 29). O Espírito restaura o homem distorcido pelo pecado, ao mesmo tempo que ilumina e convida o crente a viver uma vida renovada. Nos finais do século III, a Didascália já atribui preponderância ao bispo na aplicação da penitência pública. O bispo que negligencia a aplicação da penitência pública desonra a Igreja diante de Deus e dos catecúmenos, ao mesmo tempo que se torna mau exemplo para os jovens [Didasc. II, 10]. Segundo a Didascália, após o período de penitência, a comunidade recebe o penitente. A comunidade ora por ele enquanto o bispo lhe impõe as mãos (Didasc. II, 12-13).

Tertuliano diz que a oração da comunidade é fundamental para esta reintegração do penitente. O Senhor garantiu que, se dois ou mais estiverem unidos em oração, serão atendidos. Como a comunidade é o Corpo de Cristo, a oração da comunidade é oração de Cristo ao Pai (De poenit. VII, 10). São Cipriano, discípulo de Tertuliano, diz que o pecador deve ser readmitido depois de ter feito penitência. No entanto, a demasiada facilidade na readmissão é contrária àquilo que se pretende (De apost. 15).

No século IV, com os baptismos em massa, a vida comunitária dá lugar ao regime de cristandade. Com o desaparecimento das pequenas comunidades, a penitência pública começa a perder sentido. É precisamente deste período o primeiro apelo no sentido de não descuidar a penitência pública. E é assim que Paciano, bispo de Barcelona no século IV, ameaça com as penas do inferno os pecadores que se recusem a fazer penitência pública (Paciano, Exortação à Penit., Parenese, 11; PL. 13, 1082-1090).

Isto é o sinal claro de que a penitência pública está a perder sentido e mesmo a deixar de ser viável. Santo Ambrósio, bispo de Milão, utiliza exortações parecidas à de Paciano. Assim como existe uma ablução baptismal, diz ele, também existe uma penitência pública para os pecados cometidos depois (De poenit. 1). Como já não existem comunidades para impor a penitência, agora são os pecadores públicos que de vem apresentar-se ao bispo, pedir a penitência pública e declarar as razões pelas quais a pedem.

Os pecadores que vivam em situação de escândalo não devem participar na comunhão eucarística antes de fazerem penitência pública (De poenit., 2). Mas os pecadores já não são proscritos das comunidades, corpo de Cristo. Mas não devem comungar o pão consagrado. Como não podem serem excluídos da comunidade corpo de Cristo, tal como o Novo Testamento indica, os pecadores podem ir à missa, mas são excluídos da comunhão do pão eucarístico que é o corpo de Cristo.

Santo Ambrósio distingue claramente entre o arrependimento e reconciliação diária e a penitência pública. O arrependimento e a reconciliação diária é para todos os pecadores e para todos os pecados, enquanto a penitência pública é apenas para os escândalos públicos (De poenit, 2). No século IV, ainda não existia a confissão auricular secreta. Eis a razão pela qual os pecadores deviam pedir a penitência e declarar as razões porque a pediam. Estas razões eram depois lidas em público e muitas vezes afixadas à porta da Igreja. Como é fácil de compreender, esta prática torna-se pouco a pouco insuportável.

São João Crisóstomo (séc. IV) opõe-se a esta prática e diz que a penitência pública não implica confissão dos pecados a um homem. Acrescenta ainda que nenhum homem se deve confessar a outro homem, mas a Deus (Sobre a impossibilidade de compreender Deus, Hom. I-IV, Sources chrétiennes, nº 28, bis, Ed. Cerf, Paris, 1970I. O crente deve mostrar as suas feridas ao Deus que o pode curar, acrescente São João Crisóstomo: “Peço-te, suplico-te e conjuro-te que confesses os teus pecados a Deus sem cessar. Não quero que o faças, como num teatro, diante dos homens, teus companheiros de miséria. Não te peço que reveles as tuas faltas aos homens. Descobre a tua consciência na presença de Deus. Mostra-lhe as tuas feridas e implora-lhe os remédios. Dirige-te a Ele, não como a um censor, mas a um médico. Aliás, não te adianta calares-te, pois Deus conhece tudo. Comunica-lho, portanto. A vantagem é tua. Fala-lhe, a fim de que, depositando nele os teus pecados, te retires liberto. Deste modo, és isento do que uma confissão pública (leitura pública dos pecados dos penitentes) tem de intolerável” [Sobre a impossibilidade de compreender Deus, Hom. V, Sources chrétiennes, nº 28, bis, Ed. Cerf, Paris, 1970, p. 317-319].

No século V, Santo Agostinho fala de três tipos de penitência. Aquela que deve ser feita antes do baptismo. A penitência que o crente deve fazer todos os dias pelos seus pecados diários. Finalmente a penitência pública que incide sobre todos os pecados graves. Mesmo os pecados graves, desconhecidos, devem ser submetidos à penitência pública. Para Santo Agostinho, a penitência pública tem valor igual ao baptismo (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 115). Os pecados de fraqueza não são objecto de penitência pública. Só os pecados de malícia premeditada, devem conduzir à penitência pública (S. Agost. Sermo 352, PL. 39, 154-155).

Nos finais do século V, Salviano de Marselha, leigo casado, critica a imoralidade associada à penitência pública. Em vez de meio de conversão, tornou-se meio de obter privilégios sociais (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 125-126). Nos princípios do século VI, a prática da penitência pública continua em vigor. A vida monástica é concebida como um estado permanente de penitência. É este o testemunho de Gennade de Marselha (Gennade de Marseille, Des dogmes de l’Église, 53-54, PL. 58, 994). Pouco a pouco, a penitência pública torna-se intolerável. Os jovens começam a ser dispensados da prática da penitência pública. Devem, no entanto, fazer penitência em privado (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 148).

Depois, a penitência pública deve ser feita apenas quando o pecador sinta que os seus pecados já são muitos. Deste modo, o povo cristão pode rezar por ele para obter perdão [cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 159]. No século VII, os penitentes públicos eram internados em mosteiros durante a Quaresma, a fim de fazerem penitência neste tempo penitencial. Eis o testemunho do sacramentário Gelasiano: Na quinta-feira santa, os penitentes compareciam na celebração pública. O bispo pronunciava sobre eles a oração da reconciliação (Sacramentário gelasiano, I, 15). Deste modo se vai caminhando para as grandes procissões medievais dos penitentes na semana santa.


2-Da Penitência Pública à Confissão

2.1-Os penitenciários ou a penitência tarifada

A partir do século começam a surgir os penitenciários. Trata-se de guias para os monges inexperientes, a fim de os ajudar na orientação dos penitentes. Os penitenciários são uma forma de determinar a penitência para cada tipo de penitente. É, de facto, a penitência tarifada. Os penitenciários indicam a penitência a aplicar a cada tipo de pecado. Estes penitenciários, portanto, não são mais que listas enormes de pecados reais ou imaginários aos quais se atribui uma penitência bem precisa. Esta prática surge nos mosteiros das ilhas britânicas, mas depressa se espalhou pela Europa.

A noção de penitência nestes manuais de penitência tarifada tem muito pouco a ver com a penitência pública. Orienta-se mais no sentido de orientar as consciências dos crentes. Fazer penitência, na terminologia dos penitenciários, é jejuar durante um período mais ou menos longo (cf. Cyrille Vogel, La pénitence au moyen-âge, Ed. Cerf, Paris, 1969, p. 19).

Os pecados relacionados com a sexualidade, tanto dos leigos como dos clérigos ocupam um lugar de destaque nestes penitenciários. De facto, a partir do século VI nota-se uma interferência cada vez maior da moral nas questões sexuais. Os penitenciários provem bem a visão negativa da sexualidade que vinha da filosofia grega, sobretudo da moral dos estóicos e que marcou tão negativamente a moral da Igreja.

O bispo de Arles, São Cesário (503-542), nos seus sermões, diz que os casados devem abster-se de relações sexuais alguns dias antes de comungar (cf. Cyrille Vogel, Le pécheur et la penitence dans l’Église Ancienne, Ed. Cerf. Paris, 1966, p. 144). Os jovens recém-casados devem abster-se de ir à Igreja durante trinta dias. A razão é que eles devem ter tido relações sexuais por volúpia e não com intenção de procriar (Ibid., p. 145). O varão que teve uma ejaculação nocturna, não deve comungar sem fazer antes penitência (Ibid., p. 145).

O padrão da moral estóica era o padrão natural da sexualidade animal. São Cesário dizia que os animais apenas têm relações sexuais em períodos bem determinados, isto é, os períodos fecundos. Assim devem ser também os homens, diz ele (Ibid., p. 146-147). Para defender esta visão estreita faziam-se afirmações sem qualquer fundamento científico e mesmo contra a verdade dos factos. Afirmava-se, por exemplo, que os filhos concebidos no período das regras da mulher, em domingo ou em dia santo, nascem leprosos, epilépticos ou possessos do Demónio (Ibid., p. 146).

Os primeiros penitenciários, como dissemos, surgem nos mosteiros da Irlanda, da Inglaterra e da Escócia. Os mais antigos datam do século VI, como dissemos atrás (cf. Cyrille Vogel, La pénitence au moyen-âge, Ed. Cerf, Paris, 1969, p. 20). No século VIII alguns destes penitenciários bem como a prática da penitência tarifada estava difundida no para o continente europeu (Ibid., p. 20).

Neste período já estamos longe da vivência comunitária da Fé. As pessoas sentem-se desorientadas e por isso sentem necessidade de se dirigirem aos monges. A orientação espiritual, neste período, consiste essencialmente em conduzir as pessoas à prática da ascese. Os penitentes, agora, devem fazer uma confissão detalhada dos seus pecados.

O monge impõe a penitência e o pecador encontra-se justificado perante Deus. Nesta altura pensa-se que o penitente, depois de ter cumprido a penitência imposta pelo monge, adquire automaticamente o perdão [Ibid., p. 21]. Mas não se pense que havia a noção de absolvição como mais tarde vai surgir. Basta pensar que os monges, neste período, não eram presbíteros.

O sucesso dos penitenciários deve-se ao facto de a penitência pública ser já totalmente inviável. Agora, o pecador pode recorrer à penitência em segredo, tantas vezes quantas sentir necessidade. Agora, o penitente chega junto do monge, confessa os pecados e vai cumprir a penitência. Depois volta para receber a confirmação do perdão que, pouco a pouco, é feita em forma de absolvição.

Já não existe a reintegração na comunidade, simplesmente porque não há comunidade. Em vez disso, atribui-se à absolvição o poder mágico de obter o perdão de Deus e limpara alma da mancha do pecado. A reconciliação e o perdão de Deus passam a ser entendidos como uma questão ritual. Os penitenciários não pressupõem qualquer caminhada de conversão e comunhão com Deus. Cada acto penitencial é isolado dos demais. A vida cristã fica reduzida a penitências isoladas umas das outras. As tarifas ou penitências impostas eram, por vezes, muito longas. Assim, por exemplo, o penitenciário do pseudo Teodoro (século VIII) impõe quatro anos de jejuns por um acto de fornicação.

Noutro caso, impõe dez anos de jejuns a um homicida e onze por um falso juramento (cf. Cyrille Vogel, La pénitence au moyen-âge, Ed. Cerf, Paris, 1969, p. 28-29). Como esta prática se tornava inviável, cria-se a teoria das redenções ou comutações penitenciais, que consistia em substituir os períodos longos de jejuns por outros actos mais curtos e menos difíceis.

Deste modo surgem um conjunto de pequenas penitências como genuflexões, recitação de salmos, vigílias, esmolas ou encomenda de missas. Recorria-se ainda à substituição vicária, a fim de facilitar a vida aos senhores ricos. Segundo a substituição vicária, um senhor rico podia pagar certa quantia a um monge ou a um leigo para este jejuar por ele (Ibid., p. 29).

Estas redenções ou comutações vão dar origem aos maiores abusos, como se pode calcular. Por exemplo, três anos de jejuns são substituídos por uma quantia de dinheiro paga ao monge. Agora já não é preciso o monge jejuar pelo penitente. Do mesmo modo, um ano de jejum é substituído por trinta missas, o que implica entrada de divisas para os monges. Os monges que até este período não eram presbíteros, começam a ordenar-se, a fim de poderem dizer missas.

Os penitenciários dos séculos X e XI indicam explicitamente a quantia a pagar por cada missa (Ibid., p. 29). Com a questão das redenções deixa existir o prazo findo o qual o penitente voltaria a pedir a absolvição. No século XII, Pierre de Chantre, encontra a solução: o essencial da expiação é a confissão oral dos pecados. Por outras palavras, após a confissão oral a expiação está feita no essencial. Uma vez que a expiação está feita no essencial, pode dar-se a absolvição no próprio momento da confissão dos pecados (Ibid., p. 31).

Como vemos, estamos a chegar à confissão auricular com todo o seu peso mágico de per5dão automático dos pecados. A prática da confissão estende-se a toda a Igreja durante o XII. O Concílio de Latrão (século XIII) procura corrigir os abusos ligados às redenções. Como a confissão dos pecados constitui o essencial da expiação, as penitências são substituídas pela obrigação de confessar todos os pecados mortais. O perdão é concedido logo no momento da confissão mediante a fórmula “Eu te absolvo”.

A questão do perdão, daqui em diante é uma questão automática associada ao rito da absolvição. Por outro lado, como a confissão dos pecados constitui o essencial da penitência, põe-se a questão da confissão em perigo de morte e no caso de ausência do ministro. Surgem casos de confissões feitas a um amigo, a um companheiro de viagem ou a um vizinho (Ibid., p. 31).

Nos princípios do século XIII, Roberto de Flamesbury, no seu penitenciário, fala de três tipos de penitência:
1- A penitência pública solene. Esta é imposta aos fiéis no princípio da Quaresma. A penitência solene implica o uso da cinza e do cilício.
2-A penitência pública não solene. Esta modalidade é constituída pelas peregrinações penitenciais a santuários famosos ou a participação nas cruzadas.
3- A penitência privada. A forma da penitência privada realiza-se entre o confessor e o pecador.

A penitência solene não é mais que um resto da antiga penitência pública. As cruzadas são consideradas penitências públicas não solenes. Mas o modo mais frequente de realizar a penitência pública não solene, no século XIV é a participação nas procissões penitenciais com flagelação pública.

Pouco a pouco as duas primeiras formas de penitência foram decaindo, ficando apenas a privada que vingou até aos nossos dias. Esta forma privada de penitência passou a chamar-se o sacramento da penitência ou da reconciliação (cf. Cyrille Vogel, La pénitence au moyen-âge, Ed. Cerf, Paris, 1969, p. 33-35).


2.2-Da Penitência à Confissão Julgamento

Com o desaparecimento da vida comunitária, a penitência pública começa a ser algo cada vez mais intolerável. O penitente apresentava-se ao bispo ou ao presbítero pedindo a incorporação nas listas dos penitentes públicos. A fim de justificar o seu pedido declarava os pecados que o levavam a tomar tal decisão. O ministro, então, inseria-o nas listas dos penitentes públicos.

Para a penitência poder conservar o seu carácter público, liam-se em público as listas dos pecados que levavam os penitentes à petição da penitência, dizendo quem foi a pessoa que fez tais pecados. Isto tornava humilhante a condição dos penitentes públicos. Pouco a pouco começam a desaparecer os pecadores que pedem a penitência.

São Leão Magno (século V) considera esta prática como inadequada. Escreve uma carta aos bispos europeus dizendo-lhes que as listas dos pecados conhecidos em segredo não devem ser lidas em público, pois esta prática humilha os penitentes [Denz. 145]. O papa São Leão Magno aconselha, então, que a confissão dos pecados seja feita ao sacerdote, em segredo. O ministro reza pelo pecador, pedindo a Deus que lhe sejam perdoados os pecados (Denz. 145).

No século V ainda não existe, como vimos, a ideia de absolvição como modo automático de perdoar os pecados. O papa diz que mediante a confissão dos pecados o crente submete a juízo a sua consciência, a fim de não adiar a sua conversão (Denz. 147). À medida em que a penitência pública cai e se generaliza a confissão esta começa a ter cada vez mais o sentido de um julgamento.

O princípio evangélico de não julgar começa a ter uma excepção: o tribunal da penitência mediante o qual o ministro faz um juízo da gravidade do pecado dos penitentes. No século IX, como dissemos, espalha-se por toda a Europa. No século XII, a confissão é considerada um elemento fundamental da expiação de pecado. Afirma-se que o pecador deve abster-se da comunhão eucarística enquanto não tiver cumprido a penitência imposta em segredo pelo ministro. A absolvição, no entanto, é dada logo no momento da confissão.

No século XV, o Concílio de Florença declara solenemente que o perdão acontece pelo pronunciamento da fórmula “eu te absolvo” (Denz. 699). O Concílio de Latrão já tinha ordenado que os crentes se confessassem uma vez ao ano. Aconselhava-se que esta confissão se fizesse durante a Quaresma (Denz. 437). O Concílio de Florença reafirma a obrigação da confissão na Quaresma, como tinha mandado o concílio de Latrão.

No século XVI, o Concílio de Trento reagindo contra as afirmações dos protestantes, diz que as pessoas que tenham caído em pecado grave têm, mediante o sacramento da penitência, a justificação e recuperam os méritos perdidos pelo pecado (Denz. 807). Na Igreja antiga, os Santos Padres chamavam a penitência pública de segundo baptismo ou segunda tábua de salvação. O Concílio de Trento diz que o sacramento da penitência é a segunda tábua de salvação (Denz. 807). O Concílio de Trento diz que a reconciliação operada pelo sacramento da penitência se deve ao poder de perdoar que Cristo deu aos sacerdotes.

O texto de Mateus que tinha uma intenção comunitária, agora começa a ser lido na perspectiva de um poder dado aos ministros. Os ministros, agora, passam a ser vistos como medianeiros entre Deus e os homens. Eles estão revestidos do poder de perdoar os pecados mediante a fórmula “Eu te absolvo” (Denz. 807).

O sacramento da penitência é, verdadeiramente, um julgamento. Começa-se a falar do tribunal da penitência. O ministro é o juiz que profere a sentença. O penitente é o réu que é condenado mediante a imposição de uma penitência. O sacramento da penitência, diz o Concílio de Trento, distingue-se do baptismo, pois no baptismo o ministro não é juiz (Denz. 894).

Com efeito, para o Novo Testamento, o sacramento do perdão é o baptismo, no qual o ministro não é um juiz. O Concílio de Trento diz que a absolvição é um verdadeiro acto judicial (Denz. 919). O arrependimento, mesmo o mais perfeito, não é eficaz enquanto o pecador não formar o propósito de se confessar (Denz. 898). Não é assim que o Novo Testamento vê a dinâmica da reconciliação com Deus a qual é a restauração da comunhão com Deus, operada pelo Espírito Santo. Ainda em princípios do século XX, o papa Pio XI afirmava que o sacramento da penitência, além do perdão do pecado mortal, restitui a abundância dos dons e méritos de Cristo, perdidos pelo pecado (Denz. 2193).


b) Sentido do Sacramento da Reconciliação

1-Pecado e Projecto Salvador de Deus

O pecado é a recusa da pessoa humana a viver em dinâmica de amor. Para o Novo Testamento, o pecado revela-se na recusa em eleger o irmão outro como nosso próximo. É no interior do coração que o homem elege ou rejeita o outro como próximo. O pecado que mancha e afasta de Deus é a recusa do homem a aproximar-se dos outros como irmãos.

A conversão é a mudança de rumo. Converter-se é passar da atitude habitual de auto enroscamento para uma atitude de abertura e comunhão com os irmãos. O pecado brota sempre do interior do homem (Mc 7, 2-13). O Espírito Santo é o princípio de comunhão que restaura o homem e o incorpora numa dinâmica de comunidade fraterna. Pelo baptismo no Espírito, os crentes são incorporados na comunidade que é o corpo de Cristo (1Cor 12, 13).

O Espírito Santo, no nosso interior ajuda-nos a descobrir as dimensões do nosso pecado. O Espírito Santo não gera nunca sentimentos de culpa. Os sentimentos de culpa são fruto do nosso superego. O Espírito gera em nós um sentido esclarecido de pecado, fazendo-nos ver aspectos em que podemos melhorar face às exigências do amor, a fim de nos realizarmos como pessoas e facilitarmos a realização dos outros.

A celebração do sacramento da reconciliação é um espaço privilegiado para os crentes saborearem o projecto do amor salvador de Deus e, deste modo, anunciarem o ano da graça, isto é, a plenitude dos tempos da salvação. Mas para isso a reconciliação tem de se tornar um sacramento, isto é, uma celebração comunitária da Fé que, ao lado das outras, proclama o projecto salvador de Deus.

Mediante as celebrações sacramentais com dinâmica comunitária, os cristãos vão-se tornando crentes amadurecidos e aptos a ser sal, luz e fermento no meio do mundo. No fundo tornam-se, como João Baptista, um profeta do Altíssimo: “E tu, menino, será chamado profeta do Altíssimo, pois irás à sua frente a preparar os seus caminhos, a fim de dar a conhecer ao seu povo a salvação pela remissão dos seus pecados, graças ao coração misericordioso do nosso Deus” (Lc 1, 78).

É mediante os sacramentos que os cristãos se tornam adultos na vida teologal de Fé, Esperança e Amor ao jeito de Deus. Jesus pede aos discípulos para imitarem o amor misericordioso de Deus, a fim de se tornarem seus filhos: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36). Na medida em que os cristãos que celebrarem de modo vivo e comunitário o sacramento da reconciliação tornam-se anunciadores do amor misericordioso de Deus.

Para São Paulo, Deus Pai mostrou o seu rosto misericordioso ao enviar-nos Jesus Cristo: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de toda a misericórdia e Deus de toda a consolação” (2 Cor 1, 3). A Carta a Tito diz que, em Jesus Cristo, Deus mostrou plenamente o seu amor para connosco, pois estamos salvos pela gratuidade do seu amor. “Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram ficámos a compreender que ele nos salvou. Esta salvação não aconteceu pelos actos justos que tenhamos praticado, mas porque, pela sua misericórdia, fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo que ele derramou em abundância sobre nós, por meio de Jesus Cristo” (Tit 3, 4-6).

Dirigindo-se aos pagãos, a primeira carta de Pedro diz-lhes que eles não faziam parte do povo de Deus, mas agora sim, pois em Cristo, obtiveram, a misericórdia da salvação: “Vós outrora não éreis povo, mas agora sois povo de Deus. Não tínheis alcançado misericórdia, mas agora já a alcançastes” (1 Pd 2, 10).

Celebrar o amor misericordioso de Deus no sacramento da reconciliação é adquirir um jeito de amar semelhante ao de Deus. Nas Bem-aventuranças aparece a obtenção da misericórdia de Deus associada à misericórdia para com os irmãos: “Felizes os misericordiosos, pois estes alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Amar os irmãos é tornar-se testemunha da misericórdia de Deus. No evangelho de Lucas, Jesus pede-nos para sermos misericordiosos como o nosso Pai do Céu é misericordioso (Lc 6, 36).

O sacramento da reconciliação é um espaço privilegiado para o Espírito Santo fazer compreender aos crentes que a Humanidade, graças a Jesus Cristo, já faz parte da Família de Deus. No momento da sua ressurreição, os que o precederam na marcha da história foram com ele assumidos e incorporados na comunhão da Família Divina. Os que vêm depois, como é o nosso caso, vamos sendo divinizados à medida em que, mediante o amor, nos vamos humanizando.

No momento da nossa morte somos assumidos e incorporados na comunhão da Santíssima Trindade. Isto acontece assim porque formamos uma união orgânica e dinâmica com Jesus Cristo. Ele é realmente a cabeça da Nova Criação como diz a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios (2 Cor 5, 17-18). Cristo ressuscitado é o portador da Água Viva que, como diz o evangelho de São João, faz emergir torrentes de Vida Eterna no nosso íntimo (Jo 4, 14; 7, 37-39).
O evangelho de São João diz que a união da Humanidade com Cristo é de tipo orgânico. Estamos unidos a Cristo como os ramos da videira estão unidos à cepa (Jo 15, 1-7). A seiva vivificante e fecunda que recebemos da cepa é o Espírito Santo. No momento da sua morte-ressurreição Jesus abre as portas do Paraíso à Humanidade, tal como ele declarou ao Bom Ladrão (Lc 23, 43). Com Cristo chegou o tempo da libertação dos cativos. Agora é o tempo em que os cegos podem recobrar a vista e os coxos podem começar a caminhar (Lc 4, 18-21).

É tudo isto que a reconciliação celebra na medida em que se torne um sacramento, isto é, uma celebração comunitária da Fé. Cristo é o centro do plano salvador de Deus. Nele se realiza a Nova e Eterna Aliança. Por parte de Deus assina o Filho Eterno de Deus, encarnando e introduzindo-nos na Família de Deus. Por parte do Homem assina Jesus de Nazaré, homem em tudo igual a nós, total e incondicionalmente fiel a Deus.

Ele é a Árvore da Vida plantada no centro do Paraíso. Agora já temos acesso ao fruto que nos dá a Vida Eterna (cf. Jo 6, 51). A Nova Aliança é o vinho bom que vem no fim (cf. Jo 2, 1-10). É a fonte da Água fresca da Vida Eterna: “Mostrou-me depois um rio de Água Viva, resplandecente como cristal, o qual saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade, junto à margem do rio, está a Árvore da Vida (...) cujas folhas servem de medicamento para todas as nações” (Apc 22, 1-2).

É esta a Terra da Vida Eterna, onde não há mais luto, nem lágrimas. O sofrimento, a dor e o ódio são totalmente banidos desta cidade: “Vi, depois, um novo Céu e um nova Terra. O primeiro Céu e a primeira Terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do Céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo. E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: ‘esta é a morada de Deus entre os homens ’. Deus habitará com eles, os quais formarão o Seu Povo. O mesmo Deus estará com eles e será o seu Deus. Enxugará todas as lágrimas dos seus olhos. E não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas passaram. O que estava sentado no trono afirmou: ’Eis que renovo todas as coisas” (Apc 21, 1-5 a).

Jesus Cristo tomou Deus e o Homem a sério. Por isso é o Centro do projecto salvador de Deus. Ao aprofundar as dimensões da sua recusa ao amor, o crente descobre o apelo à conversão, isto é, a mudar de atitude, tornando-se mais fiel às exigências do amor. Ao mesmo tempo, vive mais profundamente a alegria de sentir perdoado por Deus. Podemos dizer que a celebração do sacramento da reconciliação é a festa do perdão de Deus e da filiação divina. Todo o pecado está perdoado em Cristo. Só o pecado contra o Espírito não tem perdão, dizem os evangelhos (Mt 12, 31-32; Mc 3, 28-30; Lc 12, 8-10).

A proclamação do perdão não é um acto de julgamento feito por um homem. É a proclamação da gratuidade do perdão total de Deus. É ainda um apelo a aceitá-lo no concreto da vida através de atitudes de reconciliação e solidariedade fraterna. Segundo a leitura do Evangelho, a reconciliação com Deus acontece pelo jeito de viver e não pelo rito.

A teologia tradicional afirmava que não se deve absolver o penitente que não dê provas de arrependimento. A celebração sacramental da reconciliação é um espaço privilegiado para o crente aprofundar a gratuidade do perdão de Deus e entender a importância de perdoar aos irmãos: Se Deus, o ofendido, tomou a iniciativa da reconciliação, então eu não perco a minha dignidade quando tomo a iniciativa da reconciliação. Pelo contrário, aproximo-me mais de Deus, amor incondicional

Celebrado comunitariamente, o perdão de Deus não tem nada de comum com a ideia mágica do perdão obtido através da fórmula mágica da absolvição. Por outras palavras, o ministro, ao absolver, não está a exercer um poder metafísico de limpar as manchas do pecado nas almas. A celebração do sacramento da reconciliação proclama o amor incondicional de Deus que nos reconciliou consigo em Cristo. O evangelho de São Lucas diz que ama mais quem for mais perdoado (Lc 7, 47). A experiência do perdão conduz-nos ao amor agradecido a Deus e a agir de modo semelhante face aos irmãos.

Este não cessa de se renovar à imagem de Deus que o criou (Col 3, 9-10). Ainda que o homem exterior vá envelhecendo e decompondo, o novo renova-se diariamente pela acção do Espírito Santo (2Cor 4, 16). O Espírito vai-nos transformando de glória em glória, a fim de reflectirmos progressivamente, a imagem do próprio Deus (2Cor 3, 17-18).

É esta a dinâmica da Água Viva a jorrar vida eterna no interior do ser humano (Jo 4, 14). Deste modo, o Espírito Santo vai robustecendo em nós esse homem interior, chamado à comunhão total com Deus (Ef 3, 14-16). Vivido como celebração sacramental comunitária, o sacramento da reconciliação vai modelando o coração dos crentes de acordo com o seguinte conselhos da Carta aos Efésios: “Sede bondosos e compassivos uns com os outros. Perdoando-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo. Sede imitadores de Deus como filhos muito amados” (Ef 4, 32-5, 1).


2- O Cristão e o Serviço da Reconciliação

Mediante a celebração sacramental do perdão de Deus, o Espírito Santo ajuda os crentes no sentido de se sentirem perdoados e capacita-os para gestos mais profundos de perdão e reconciliação com os irmãos. Como vemos, na medida em que seja uma celebração comunitária da Fé, o sacramento da reconciliação, como os demais sacramentos, é um espaço privilegiado para o crescimento da vida teologal dos crentes.

Quanto mais um cristão vive e experimenta a graça do perdão, melhor compreende a gravidade das rupturas deste mundo que geram tanta morte e opressão. Como sabemos, o pecado é capaz de inscrever forças de morte e opressão no tecido das instituições políticas, sociais, económicas, culturais, bem como nos espaços de divertimento e prazer.

O pecado é até capaz de levar o homem a inscrever forças de morte e opressão no próprio tecido da matéria. Pela primeira vez na história, o homem comprimiu, na matéria, forças de morte capazes de pôr fim à história da humanidade. O pecado é sempre gerador de morte. Face ao amor incondicional de Deus que perdoou de modo total e definitivo, o cristão compreende melhor a importância de ser agente de reconciliação no meio do mundo.

Por outras palavras, ser obreiro de reconciliação entre os homens é, afinal, ser construtor de um futuro melhor para a Humanidade. À medida em que cresce na sabedoria que vem da Palavra de Deus, o cristão compreende como são infantis e desumanas as atitudes dos que, em nome da sua dignidade, se recusam a perdoar aos irmãos. A Palavra de Deus faz-nos compreender como os dogmatismos ideológicos de tipo político, económico ou religioso têm sido, ao longo da história, geradores de sofrimento, morte e rupturas desumanas.

O cristão, iluminado pela Palavra de Deus, sabe que o coração humano está talhado para a fraternidade universal. A nossa meta é a Família Universal de Deus! Os grupos humanos que, em nome de um homem diferente, cultivam a violência, a morte, a intolerância e a recusa de perdão, estão a impedir o pleno nascimento da Humanidade que emerge de modo único, original e irrepetível em cada homem.

É certo que reconciliação não significa demissão face às exigências da justiça e dos direitos humanos. A paz de Cristo não se edifica sobre a sujeição às injustiças e violências que os sistemas vão criando. A maneira de vencer a força desumanizante do pecado, no entanto, não é aumentar a desumanização. Jesus Cristo distinguia muito bem o pecado do pecador. Ele sabia muito bem que a sua missão é destruir o pecado e não o pecador. A maneira eficaz de se opor às forças homicidas do pecado é criar fontes de fraternidade, diálogo, partilha, solidariedade e comunhão.

Quanto mais as comunidades cristãs a alegria libertadora da reconciliação mas aptas estão a ser mediações do Espírito Santo que quer implantar a paz de Cristo no mundo. Por outras palavras, os cristãos estão chamados a ser agentes de reconciliação na marcha da história humana. A Igreja, na medida em que se constitua em comunidades fraternas e reconciliadas será, no mundo, uma força fundamental de reconciliação entre os homens. Nesta dinâmica, a celebração da reconciliação já nada tem a ver com ritos ou cultos com pretensões mágicas de perdão.

Os não cristãos não celebram o sacramento da reconciliação e Deus também os reconciliou consigo em Cristo: “Cristo é a nossa paz, pois de dois povos fez um só, destruindo o muro que separava os judeus dos pagãos, anulando a lei de Moisés com seus preceitos e prescrições, a fim de criar uma Nova Humanidade, trazendo, deste modo, a paz” (Ef 2, 14-16). Esta reconciliação é universal e incondicional, pois Deus não leva mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19).

Agora, a norma certa para os homens se encontrarem com Deus é o Espírito Santo, pois só Deus sabe o que convém e agrada a Deus. Por outras palavras, o princípio de encontro e comunhão com Deus é-nos dado pelo Espírito Santo que é Deus. Paulo diz que só o espírito humano conhece o que vai dentro do homem. Do mesmo modo, acrescente ele, só o Espírito Santo conhece o que vai dentro de Deus. Deus deu-nos o Espírito Santo para agirmos em perfeita conformidade com Deus: “Quem conhece as coisas de um homem a não ser o espírito humano que o habita? Assim também ninguém conhece as coisas de Deus a não ser o Espírito de Deus” (1Cor 2, 11).

Por isso, as normas feitas pelos homens são válidas na medida em que tiverem como finalidade dar espaço à acção do Espírito Santo na comunidade. São Paulo diz que é o Espírito Santo que nos capacita para sermos uma força transformadora no meio do mundo: “Não é que sejamos capazes de algo por nós mesmos. A nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez capazes de sermos ministros de uma Nova Aliança. Não da letra, mas do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito dá vida” (2Cor 3, 5-6).

Ser agente de reconciliação não é ser ingénuo. Não significa ignorar ou ocultar rupturas, opressões, violências ou tensões. O serviço da reconciliação supõe a capacidade profética de as pôr a claro e denunciar. Não para pôr os homens uns contra os outros, mas para convidar os homens a superá-las. O maior fruto da reconciliação é a paz, a felicidade e a plenitude da vida ou seja, a comunhão universal do Reino de Deus.

Podemos dizer que o maior fruto da celebração da reconciliação é fazer dos cristãos agentes de reconciliação profética no mundo e, deste modo, ajudar a edificar o Reino de Deus entre os homens. Os cristãos não são o grupo dos reconciliados com Deus, em oposição aos outros homens.
A Igreja não é a parcela dos salvos no meio de uma humanidade condenada. O sacramento da reconciliação celebra a situação de Nova Aliança em que se encontra a Humanidade: Reconciliação ou perdão escatológico e filiação divina. A originalidade do cristão consiste em ser o portador desta revelação para os homens. A Igreja é a parcela de humanidade que celebra, vive e proclama os horizontes teologais da reconciliação com Deus. Sempre que o homem se dispõe a viver a reconciliação e a fraternidade está a aceitar o dom da reconciliação e da filiação divina.

A Reconciliação no Novo Testamento




a) Reconciliação e Espírito Santo
1-O Pecado e a Ira de Deus
2- Nova Aliança e Reconciliação Universal

b) Reconciliação e Cultos Propiciatórios
1- O Culto Não Reconcilia
2- Reconciliação e Presença de Deus
3- Comunidade Cristã e Reconciliação


a)Reconciliação e Espírito Santo

1- O Pecado e a Ira de Deus

A Antiga Aliança fundamentava as relações do Homem com Deus no esquema simplista de a transgressão gera castigo e a fidelidade gera bênção e felicidade. Deus não quer o pecado. Por isso virá um dia que Deus vai destruir os pecadores, a fim de erradicar o pecado da face da terra. Nesse dia só escapará o grupo dos justos, os quais formarão o pequeno resto fiel.

O dia em que Deus vai realizar a punição dos pecadores passa a ser conhecido como o dia da ira de Yahvé. Este dia de tragédia para a Humanidade é um dia de acção de graças para os justos. O Dia da ira é um dos temas centrais dos escritos apocalípticos, bem como dos escritos do judaísmo posterior aos profetas.

Aparece sempre ligado à ideia da salvação de um pequeno Resto Fiel. O dia da ira é o que mais tarde se veio a chamar de dia do juízo. A intenção destes escritos é sobretudo dar força aos justos que sofrem para serem fiéis a Deus e parece que a vida dos pecadores corre melhor que a deles. Eis a razão das grandes ameaças em relação aos pecadores e a promessa da alegria que aguarda os justos.

Por outras palavras, ao lado da ameaça de tragédias e sofrimentos em relação aos pecadores, os textos apocalípticos realça a alegria e a plenitude de vida que aguardam os justos no dia da intervenção de Deus. Mais que um sentido trágico da vida, os textos apocalípticos são um grito de esperança para os que gastam a vida a fazer o bem e a servir o Senhor. Os justos são designados por pequeno resto ou como resto fiel. O “Shalom Messiânico”, isto é, a felicidade, a paz e a prosperidade dos tempos messiânicos serão o grande dom final que Deus vai conceder aos justos.

O Dia da Ira é ameaçador, mas apenas para os pecadores. O profeta Isaías diz que Deus, nesse dia, vai fazer justiça e punir a maldade. O Senhor tem um exército celeste, constituído por uma multidão de anjos preparados para executar o castigo divino. Os homens olharão uns para os outros cheios de terror. Hão-de gemer como uma mulher que está para dar à luz. O Sol e a Lua deixarão de brilhar (Is 13, 4c-10). Os habitantes da Terra serão destruídos e reduzidos a um pequeno número, o pequeno resto dos fiéis (Is 24, 6).

Deus conduzirá este resto Fiel e com ele reinará em Jerusalém (Is 24, 23). Nesse dia, os justos que tenham falecido ressuscitarão, a fim de tomarem parte neste Reino Glorioso que Deus vai formar (Is 26, 19). Esse será o dia da vingança. Só o pequeno resto dos justos será salvo. (Is 35, 4).

Então o Senhor Deus habitará para sempre na Jerusalém restaurada e a promessa feita a David será plenamente realizada (Is 55, 3-5). A Nova Jerusalém não precisará de luz, pois no seu centro está a glória de Deus, a qual forma a luz eterna da Nova Jerusalém. E Deus habitará para sempre no meio dos justos (Is 60, 19-21). A salvação do resto fiel será realizada pela presença do próprio Deus no seu meio (Is 63, 9). Nesses dias Deus vai suscitar novos céus e uma nova terra e o “Shalom”, o conjunto das bênçãos de Deus vai encher a Cidade de Deus (Is 65, 17-18).

Os pecadores escusam de pôr a esperança no Templo ou no culto. Nenhuma casa pode Ter a pretensão da presença de Deus. A “shekinah” (o ponto da Terra sobre o qual incide o olhar de Deus) é o coração dos humildes e dos pecadores que se converteram. Não são os cultos e sacrifícios que obtêm a salvação e a benevolência de Deus, mas sim a misericórdia para com os fracos e os desprotegidos. É esta atitude de coração que purifica e obtém o perdão dos pecados (Is 1, 12-19). O senhor vai punir através do fogo. Julgará os pecadores pelo fogo e a espada. Muitas vão ser as vítimas da ira divina naquele dia (Is 66, 15-16). O resto fiel permanecerá para sempre com o Senhor. Os cadáveres dos pecadores serão causa de pânico e horror para os justos. O fogo que os punirá não se extinguirá jamais (Is 66, 18-24).

O profeta Jeremias diz que o templo, no dia da ira, será destruído (Jer 26, 9) e o Senhor entregará os pecadores ao fio da espada. O flagelo estender-se-à sobre a terra, a qual ficará deserta devido ao fogo da cólera de Deus (Jer 25, 29-37). Apenas o resto fiel será salvo (Jer 31, 7-8). Nesse dia, Deus fará com este resto fiel uma Nova Aliança, a qual não vai fundamentar-se na letra da Lei mas no dom do Espírito Santo, o qual habitará no coração dos fiéis (Jer 31, 31-34).
O profeta Ezequiel viveu a dura experiência do exílio dos judeus na Babilónia. Interpreta os sofrimentos do exílio como sendo o início do dia da ira. Por isso faz apelo aos judeus para que convertam, a fim de escaparem ao dia da ira que se está a avizinhar. Só os fiéis serão escolhidos para habitarem na Nova Jerusalém. Esta vai ser restaurada juntamente com a casa de David, pois Deus é fiel e verdadeiro.

O dia do Senhor está próximo, dizia Ezequiel. O Senhor vai derramar a Sua cólera sobre os caldeus que estão a maltratar o povo de Deus. Mas os judeus infiéis serão punidos e sofrerão o mesmo castigo dos caldeus. Aproxima-se o tempo. O dia está próximo. Nesse dia nem o ouro ou a prata os poderão salvar (Ez 7, 5-19). Os justos vão ser assinalados, a fim de escaparem à ira do Senhor. Todos serão exterminados, excepto os assinalados na fronte. Estes constituirão o pequeno resto poupado por Deus (Ez 14, 22). Deus vai conceder um coração e um espírito novo aos que restarem fiéis, os quais serão reconduzidos para Jerusalém onde encontrarão a felicidade, a paz e a prosperidade (Ez 11, 17-19).

Os poderosos vão ser humilhados. Os simples e os pobres vão ser exaltados: “Retira a tiara. Depõe a coroa. As coisas vão mudar, pois o humilde será exaltado e o que está no alto será humilhado (Ez 21, 30-31). O dia da ira atingirá a terra inteira. Será um dia de punição para todos os povos (Ez 30, 3s). Nesse dia os céus ficarão encobertos. As estrelas e os demais corpos celestes deixarão de brilhar. As trevas cobrirão a Terra (Ez 32, 7-8).

À frente do rebanho de Deus, isto é, o pequeno resto, o Senhor vai colocar um pastor que sairá da casa de David. Então Yahvé será o único Deus e o descendente de David o único pastor. Israel terá uma paz sem limites (Ez 34, 11-25). Os que forem achados fiéis serão restaurados no seu coração. O Senhor vai transformar o seu coração de pedra, infundindo neles o Espírito Santo (Ez 36, 24-28). O povo, no exílio, está a sofrer uma situação de destruição e morte. Parece um montão de esqueletos ressequidos. Mas estes ossos vão ser reanimados e ressuscitar, graças à acção do Espírito de Deus (Ez 37, 5-12). A nova Jerusalém terá doze portas, cada qual com o nome de uma tribo de Israel (Ez 48, 31-35).


2- Nova Aliança e Reconciliação Universal

O Novo Testamento reconhece em Jesus o Messias prometido a David (2Sam 7, 12-16). É ele o anunciado o anunciado pelos profetas, o medianeiro da reconciliação Universal. Para realizar esta missão foi ungido com a plenitude do Espírito Santo (Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22; Lc 4, 10-21).

A Nova Aliança acontece em Cristo que é o Homem Novo. Além de realizar as promessas messiânicas, Jesus torna-se o salvador não só dos judeus como de toda a Humanidade. Ele veio como Novo Adão, tornando-se a cabeça da Nova Humanidade: “O Senhor Deus disse: “eis que o Homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da Árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre. Então, o Senhor Deus expulsou Adão do Jardim do Éden (…). Depois de ter expulsado o Homem colocou a oriente do jardim uns Querubins com uma espada flamejante, a fim de guardarem o caminho da Árvore da Vida” (Gn 3, 22-24). São Paulo diz que Cristo é o Novo Adão, a cabeça da Nova Humanidade reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-19).

Ele é a Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna, diz o evangelho de São João: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a Vida Eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia, pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Quem come a minha carne a bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57).

O fruto da Árvore da Vida é o Espírito Santo, o qual faz de nós ramos fecundos (Jo 15, 4-6). O Paraíso sonhado pelo livro do Génesis torna-se finalmente realidade. Os que são animados pela seiva da Árvore da Vida, o Espírito Santo, participam da Vida Eterna, sendo organicamente incorporados na Família de Deus, como diz São Paulo: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes no temor. Pelo contrário, recebestes um Espírito de adopção graças ao qual clamamos “Abba”, isto é, Papá. E se sois filhos sois também herdeiros. Herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Jesus Cristo, se formos fieis como ele, sofrendo pelo Evangelho como Ele sofreu” (Rm 8, 14-17).

O Reino de Deus é a comunhão dos reconciliados, os que têm direito a habitar na casa de Deus como membros da Família Divina. Todos comem dos alimentados pelo do fruto da Árvore da Vida: “Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à Árvore da Vida e poderem entrar nas portas da cidade” (Apc 22, 14). A vida nova em Cristo não é uma questão de sujeição a um código ético rigoroso e com normas bem estruturadas. Viver a comunhão dos salvos em Cristo é estar orgânica e dinamicamente unido a Jesus ressuscitado mediante o Espírito Santo.

Ponhamos um exemplo: comparemos a Humanidade ferida pelo pecado a um limoeiro doente e envelhecido pela ferrugem situado no pomar de agricultor especializado em boas castas de fruta. Apesar de ser de alta qualidade, o limoeiro está a dar frutos péssimos, em virtude da doença que o atingiu. O proprietário do pomar tinha um interesse muito especial por este limoeiro. Por isso tinha pena de o arrancar e lançar ao fogo. Foi então que lhe veio a ideia de enxertar um raminho do limoeiro que ainda estava são numa laranjeira jovem e robusta. Agora, sem deixar de ser limoeiro, recebe a seiva da laranjeira sadia e começa a robustecer-se progressivamente. Em breve começa a dar limões de excelente qualidade. O enxerto não destruiu a natureza do limoeiro, pois ele dá limões e não laranjas. Mas a seiva da laranjeira optimizou a fecundidade do limoeiro e a qualidade dos limões.

Foi o que Deus fez em relação à Humanidade. Mediante o mistério da Encarnação, a Divindade enxertou-se na Divindade. Este enxerto não destruiu a natureza humana. Pelo contrário, optimizou-a e capacitou-a para dar frutos de vida eterna. A Humanidade ficou enxertada na Árvore da Vida cujo tronco é Jesus Cristo e cujas raízes é a Segunda pessoa da Trindade que, pelo Espírito Santo, faz uma unidade orgânica com Jesus de Nazaré.

Animadas pela seiva da Árvore da Vida, o Espírito Santo, as pessoas formam uma realidade orgânica nova a que a Bíblia chama uma nova criação: “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era velho passou. Eis que tudo se fez novo! Tudo isto vem de Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, e nos confiou o ministério da reconciliação. De facto, foi Deus quem reconciliou o mundo consigo, em Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação” (2 Cor 5, 17-19).

Como vemos, a reconciliação da Humanidade com Deus é um dom gratuito realizado por Céus em Cristo. Eis o que São Paulo diz a este respeito: “Com efeito, quem, entre os homens, conhece o que vai no coração da pessoa, a não ser o próprio espírito do homem. Assim, também, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus que nos faz compreender o que Deus amorosamente nos concedeu” (1 Cor 2, 11-12).

O Espírito Santo é a ternura maternal de Deus. No nosso coração é um princípio animador de relações e comunhão amorosa com Deus e os homens. São Paulo diz que apenas pelo Espírito Santo estamos organicamente unidos a Cristo: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo não pertence a Jesus Cristo” (Rm 8, 9).

Não devemos concluir deste texto que só os cristãos pertencem a Cristo. Trata-se de uma qualidade de coração e não de um rótulo ou um título. O Espírito Santo, diz a Carta aos Romanos, é o Amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Será eternamente mais divino, isto é, comungará mais com as pessoas divinas, quem mais tiver treinado na história a capacidade de comungar com as pessoas humanas.

É pelo Espírito Santo que se vai robustecendo em nós o homem interior, cuja densidade é espiritual. É certo que o homem exterior vai envelhecendo e perdendo qualidades, mas o interior, graças à acção do Espírito Santo, renova-se e fortalece-se constantemente graças à acção do Espírito Santo (2 Cor 4, 16-17). O evangelho de São João diz que o homem interior, isto é, a dimensão pessoal-espiritual do ser humano vai renascendo e ganhando robustez pela acção do Espírito Santo (Jo 3, 6).

A Carta aos Gálatas menciona alguns dos frutos que a nossa vida vai produzindo quando está organicamente unida a Cristo e animada pelo Espírito Santo: “Mas os frutos do Espírito Santo são amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, gentileza e auto controle. Contra estas coisas não há lei” (Ga 5, 22-23).

São estes os limões de alta qualidade do limoeiro enxertado na laranjeira robusta e jovem! Eis a razão pela qual a nossa vida só será fecunda se permanecermos unidos a Cristo. Quando estamos unidos a Cristo somos como os ramos da videira que dão bons frutos na medida em que permanecem unidos à cepa: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Os ramos não podem dar fruto por si. Serão fecundos na medida em que estiverem unidos à videira. Do mesmo modo vós não podeis dar fruto se não estiverdes unidos a mim” (Jo 15, 4-5).

O Espírito Santo é o grande dom messiânico que realiza em nós a filiação divina (Gal 4, 4-7). Por outras palavras, é o Espírito Santo que restaura em nós o homem distorcido pelo pecado: “Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo em Cristo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2 Cor 5, 19). Só o pecado contra o Espírito Santo não tem perdão (Mt 12, 31-32; Mc 3, 28-30; Lc 12, 8-10).

O pecado contra o Espírito Santo significa a oposição sistemática e incondicional à acção do Espírito Santo no nosso coração. A Nova Humanidade assumida na Família de Deus é fruto do mistério da Encarnação, diz o evangelho de São João (Jo 1, 12-14). O Espírito Santo é uma fonte a jorrar vida eterna no nosso coração (Jo 7, 37-39; cf. Jo 4, 14).

O Espírito Santo é, portanto, o obreiro da nossa reconciliação com Deus. É também o Espírito Santo que nos capacita para vivermos a reconciliação e o perdão com os irmãos. É certo que o Espírito Santo não nos substitui, mas é ele que nos capacita se o deixarmos actuar em nós. São Paulo convida os cristãos da Galácia a deixarem-se conduzir pelo Espírito, a fim de viverem como pessoas reconciliadas com Deus (Gal 5, 13-18). Quando a comunidade cristã, animada pelo Espírito Santo, vive e celebra o sacramento da reconciliação torna-se, verdadeiramente Corpo de Cristo, isto é, sacramento da reconciliação da Humanidade com Deus em Cristo (1Cor 12, 13).

Eis o sentido e a dinâmica do sacramento da reconciliação na vida da comunidade cristã. Podemos dizer que a celebração sacramental da reconciliação está para a comunidade, como a comunidade dos reconciliados com Deus e os irmãos está para o mundo. Como sacramento da Nova Humanidade reconciliada em Cristo, a comunidade é o sinal da festa do Reino onde os homens são todos irmãos, pois são membros da Família de Deus.

A comunidade, diz a Carta aos Efésios forma um corpo animado por um mesmo Espírito (Ef 4, 1-6). Os pecadores, graças à acção do Espírito Santo, são restaurados e incorporados como filhos na Família Divina (Lc 12, 11-32). A comunidade cristã é para o mundo o sacramento da Humanidade reconciliada e convidada para o Banquete da Salvação (Lc 16, 14-24).

Todo o que se une a Cristo forma com ele um só Espírito (1Cor 6, 17). Com efeito, os que vivem unidos ao Senhor ressuscitado são membros do Corpo de Cristo (1Cor 6, 15). Os que vivem em comunhão com Cristo formam com Ele uma união orgânica, pois ele é a cepa e nós os ramos (Jo 15, 1-8). Só mediante o Espírito Santo podemos compreender o mistério de Cristo, diz a primeira Carta aos Coríntios (1Cor 12, 3).

A paz que brota do Espírito Santo no coração dos crentes é chamada, no Novo Testamento, de paz de Cristo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos, pois o Senhor está próximo. Por nada vos deixais inquietar. Pelo contrário, apresentai os vossos pedidos a Deus mediante orações e preces de acção de graças. Então, a paz de Cristo que ultrapassa a nossa inteligência guardará a vossa mente e os vossos corações em Jesus Cristo” (Flp 4, 4-7).

Podemos dizer que este é o grande fruto da reconciliação celebrada e vivida na comunidade cristã. Deus deu-nos através do Seu Filho o penhor do Espírito (2Cor 1, 21-22). Passamos assim para a Nova Aliança, a qual acontece no Espírito, e não na letra (normas, ritos, preceitos e leis religiosas). De facto, a letra mata, mas o Espírito é fonte de vida, diz São Paulo (2 Cor 3, 6). A interacção e comunhão intrínseca com o Espírito Santo são um dom do Cristo ressuscitado (Jo 7, 39; Act 2, 32-33). Mediante esta interacção intrínseca com o Espírito Santo, Deus concretiza a Nova Criação (2Cor 5, 17).

Esta Nova Criação é espiritual, não carnal. O Novo Adão, Cristo ressuscitado, não é carnal como o primeiro Adão, mas é espiritual como São Paulo diz de modo muito bonito na primeira Carta aos Coríntios: “Semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno também há um corpo espiritual. De facto, é assim que está escrito: “O primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente. O último Adão é um Espírito vivificante. Mas o primeiro não foi o espiritual, mas o terreno. O espiritual vem depois (1Cor 15, 44-46).

Como vemos, a reconciliação com Deus é verdadeiramente uma recriação do Homem através de Cristo ressuscitado, como diz a Segunda Carta aos Coríntios (2 Cor 5, 17-19). O plano de Deus, diz a Carta aos Gálatas, é que sejamos, realmente, novas criaturas (Gal 6, 15). Como mensageiros da reconciliação de Deus, somos embaixadores de Cristo. Temos a missão de interpelar os homens no sentido da reconciliação (2Cor 5, 20b). Conscientes da reconciliação operada por Deus em Cristo, os cristãos celebram e proclamam a Comunhão Universal da Humanidade no Reino de Deus (Ef 1, 13-14).

A Carta aos Efésios diz que já estamos marcados com o selo do Espírito Santo para dia da Salvação (Ef 4, 30). A reconciliação da Nova Aliança é total e definitiva. Por isso já não precisamos de inventar ritos mágicos com pretensões de eficácia automática. A condição de viver e aceitar a reconciliação oferecida por Deus é a reconciliação com os irmãos. Sem esta atitude, não acontece para nós qualquer tipo de reconciliação (Mt 6, 14).

O dom está feito. Por isso, não há necessidade de cultos ou oferendas pelos pecados (Heb 10, 18). Jesus Cristo é o homem incondicionalmente fiel a Deus. Por isso, como diz a Carta aos Colossenses aprouve a Deus reconciliar consigo todas as coisas consigo através de Cristo (Col 1, 19-20).


b) Reconciliação e Cultos Propiciatórios

1-Os Cultos Propiciatórios São Inúteis

O Novo Testamento é muito explícito ao afirmar que o culto não reconcilia o homem com Deus. Já os profetas do Antigo Testamento tinham acentuado esta ideia com muita ênfase (cf. Is 1, 10-18). Antes de iniciar a participação em qualquer culto, o homem deve reconciliar-se com o seu próximo (Mt 5, 24).

A reconciliação com Deus é uma iniciativa de Deus, não o resultado de um culto realizado pelo homem (2 Cor 5, 17-19). Pelo dom da reconciliação, Deus perdoa de modo definitivo o pecado do homem, mediante acção do Espírito Santo que restaura a reciprocidade de amor e comunhão com Deus. O perdão do pecado não é uma questão de lavar manchas na alma do ser humana. Os ritos e os cultos não reconciliam com Deus. A mesma coisa acontece com o templo. Este não é uma mediação mágica que garanta o encontro e comunhão com Deus.

O profeta Jeremias denunciava a hipocrisia dos judeus que se punham a gritar pelo templo de Deus como se este fosse uma garantia de salvação. Tudo isso não passa de palavras de mentira, diz Jeremias (Jer 7, 4-7). O rei Salomão, no primeiro livro dos reis (cf. 1 Rs 8, 27), diz que Deus não habita em templos feitos pela mão do homem. Os Actos dos Apóstolos repetem duas vezes esta afirmação de Salomão (Act 7, 48; 17, 24).

Os evangelhos sinópticos querem afirmar esta mesma verdade quando afirmam que o véu do templo de Jerusalém se rasgou no momento da morte de Jesus (Mt 27, 51; Mc 15, 38; Lc 23, 45). Os quatro evangelhos afirmam que o templo da Nova Aliança é Cristo ressuscitado (Jo 2, 10-21) e a comunidade cristã na medida em que é Corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 12-13; 12, 27). Como portador do Espírito Santo, Jesus ressuscitado é a mediação do encontro do homem com Deus.

A primeira Carta de São Pedro diz membros da comunidade são as pedras vivas do templo onde Deus habita (1 Pd 2, 5). Cristo, por seu lado, é a pedra que serve de alicerce a este templo (1Ped 2, 4). É neste templo que acontece a reconciliação com Deus, mediante o culto no Espírito e na Verdade, o único culto que agrada a Deus (Jo 4, 21-23).

Na Nova Aliança todo o pecado é perdoado (2 Cor 5, 17-19). Só o pecado contra o Espírito não tem perdão (Mt 12, 31-32; Mc 3, 28-30; Lc 12, 8-10). A Carta aos Hebreus insiste em que a reconciliação da humanidade acontece em Cristo ressuscitado. Jesus é o Sumo-sacerdote, isto é, o medianeiro da comunhão do homem com Deus. Jesus não é sacerdote por pertencer à tribo dos sacerdotes, isto é, por ser levita. Jesus pertencia à tribo de Judá. Esta tribo nada tinha a ver com funções cultuais. Jesus é o nosso sumo-sacerdote por ser o Messias ressuscitado. Por isso, ele é sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, rei de Salém, e não segundo a ordem dos sacerdotes do culto do templo, isto é, os levitas (Heb 7, 15).

Se a reconciliação tivesse sido realizada pelo culto levítico, diz a Carta aos Hebreus, não havia necessidade de Cristo, pois neste caso os homens estariam reconciliados com Deus. Jesus não pertencia à tribo dos sacerdotes. Veio como Sumo-sacerdote, isto é, medianeiro da reconciliação definitiva entre Deus e o homem (Heb 7, 11). Realiza esta missão ao oferecer ao homem a possibilidade de interagir de modo intrínseco com o Espírito Santo.

É esta a condição fundamental para o homem ser assumido na Família de Deus (Rm 8, 14-17; Ga 4, 4-7). Nenhum outro homem podia ter esta pretensão. Com efeito, o homem Jesus, diz a primeira carta a Timóteo é o único medianeiro entre Deus e o Homem. Para a Carta aos Hebreus, a prova de que Jesus não realizou a reconciliação através do culto é o facto de Jesus pertencer à Casa de Judá e não à casa de Levi (Heb 7, 13).

O Senhor ressuscitado está permanentemente no santuário onde Deus habita, isto é, no céu, pois Deus não habita nos santuários feitos pela mão do homem (Heb 8, 1-2). Agora, junto de Deus, Jesus exerce permanentemente as funções de medianeiro da reconciliação no santuário verdadeiro, pois foi feito por Deus e não pelo Homem.

O Salmo 110 garantia aos reis da casa de David que eram sumos-sacerdotes segundo a ordem de Melquisedec, rei de Salém. Jesus, como descendente de David, foi entronizado no céu, onde ficou sentado à direita de Deus (Act 2, 32-33; Rm 1, 3-5). Foi assim que ele se tornou sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedec (Heb 7, 15). Foi constituído medianeiro da reconciliação através de uma vida imortal (Heb 7, 16).

Na Nova Aliança os cultos foram suprimidos, pois não fazem falta (Heb 7, 18). Cristo está junto de Deus Pai, comunicando-nos permanentemente o Espírito Santo (Act 2, 33). O caminho do Santo dos Santos está aberto, pois no momento da morte de Jesus o templo que separava o Santo dos Santo do povo, rasgou-se de alto a baixo (Mt 27, 51; Mc 15, 38; Lc 23, 45.46). Eis a razão pela qual a Nova Aliança já não precisa de sacerdotes para fazer cultos, tornando-se assim medianeiros entre Deus e os homens (Heb 8, 7).

Antes da morte e ressurreição de Cristo, o Santo dos Santos estava fechado (Heb 8, 8). A Carta aos Hebreus justifica esta argumentação recorrendo a um bonito texto do profeta Jeremias: “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei com a casa de Israel e a casa de Judá uma Nova Aliança (...). Esta será a Aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Imprimirei as minhas leis no seu espírito e gravá-las-ei nos seus corações. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Já ninguém precisa de ensinar o seu irmão, dizendo: conhece o Senhor. Naqueles dias, diz o Senhor, todos me conhecerão do menor ao maior. Os levitas pretendiam realizar a justiça de Deus condenando, julgando e matando os pecadores.

Segundo o livro do Deuteronómio, os levitas, para agradar a Deus, diziam não conhecer pai, mãe, irmãos e os próprios filhos (Dt 33, 9). Jesus, pelo contrário, não tem vergonha de acolher os pecadores que santifica. Os levitas consideravam-se consagrados a Deus por serem capazes de matarem o irmão, o vizinho e o amigo (Ex 32, 26-29).

Jesus, pelo contrário, compreende, acolhe os pecadores. A sua missão é destruir o pecado, não pecador. A destruição do pecado acontece no coração da pessoa humana, graças à acção do Espírito Santo. A Carta aos Hebreus diz que Jesus é um Sumo-sacerdote misericordioso que compreende as fraquezas humanas. Por ter sido tentado, Jesus compreende e é capaz de socorrer os que são tentados (Heb 2, 17-18).

Jesus Cristo realizou a reconciliação da Humanidade com Deus de uma vez por todas (Heb 9, 25-26). Eis a razão pela qual já não temos necessidade de sacrifícios, cultos ou oferendas pelo perdão do pecado (Heb 10, 18). Os ministros das comunidades cristãs não são sacerdotes para oferecer cultos a Deus, mas pessoas consagradas ao serviço do Evangelho, diz a primeira Carta aos Coríntios: “Não sabeis que os ministros do culto vivem do que é do templo? Os que servem o altar vivem do altar. Do mesmo modo, o Senhor quis que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho” (1Cor 9, 13).

A Lei, segundo os judeus acreditavam, tinha sido dada por Moisés. Eis a razão pela qual o evangelho de São João diz que a Lei veio por Moisés, mas esta lei não salva. A graça salvadora de Deus, pelo contrário, não veio por Moisés, mas por Jesus Cristo (Jo 1, 17). A meta proposta por Jesus não é a prática de leis preceitos e ritos cultuais. A meta é ser perfeito como o Pai do Céu que ama a todos e a todos perdoa (Mt 5, 48). Actuando deste modo, Jesus tornou-se medianeiro da paz, reconciliando judeus e pagãos (Ef 2, 14).

Mediante o Espírito Santo, Deus capacita-nos para sermos medianeiros da Nova Aliança, a qual não assenta na letra que mata mas no Espírito que vivifica (2Cor 3, 6). Onde está o Espírito Santo há liberdade e nunca a escravidão (2Cor 3, 17). A Lei criava divisões entre os seres humanos, dividindo-os entre puros e impuros, justos e pecadores, judeus e pagãos ou então entre homens e mulheres.

Cristo ao criar estas diferenças superou as desigualdades ligadas a estas divisões da Lei (Col 3, 9-11). A circuncisão e todas as outras práticas de tipo legalista não valem nada. O que vale é o homem novo, recriado no Espírito Santo (Gal 6, 15). A circuncisão que Deus quer é a renovação do coração, diz a Carta aos Filipenses: “Nós é que somos os verdadeiros circuncidados. Prestamos culto a Deus no Espírito de Deus” (Flp 3, 3). O evangelho de São João vai nesta mesma linha dizendo o culto da Nova Aliança nada tem a ver com sacrifícios de vítimas para aplacar a ira de Deus. O culto que Deus ama é realizado em Espírito e verdade (Jo 4, 21-23). A Carta aos Colossenses diz que o apego às normas, aos preceitos ou aos ritos apenas servem apenas para alimentar uma falsa sabedoria, uma piedade afectada e uma severidade ascética sem valor (Col 2, 21-23).

2- Reconciliação e Presença de Deus

A aspiração mais profunda do coração humano é a participação na plenitude de comunhão com Deus. O homem foi criado por Deus. Isto quer dizer que esta aspiração profunda resulta do facto de o ser humano ter sido criado para a comunhão com Deus. Este plano de Deus e esta aspiração do coração humano foram realizados em Cristo. O Senhor ressuscitado proporcionou-nos uma interacção intrínseca com o Espírito Santo, graças à qual nos tornamos membros da Família Divina.

Por isso os cultos do Antigo testamento que pretendiam o perdão e a comunhão com Deus foram suprimidos. Agora a mediação deste encontro é Jesus Cristo e não o templo: “Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior que o templo” (Mt 12, 6). O evangelho de São Marcos diz que Jesus, após a expulsão dos vendilhões, declara a universalidade do templo (Mc 11, 17).

A atitude de Jesus perante o templo significava que ele tinha consciência de que o templo era nenhuma garantia mágica de comunhão com Deus. O templo era considerado um lugar sagrado e reservado exclusivamente a judeus. Se um pagão se atrevia a entrar no templo era imediatamente morto à pedrada. Jesus declara a universalidade do encontro e da comunhão com Deus. Esta atitude de Jesus é fundamentada no profeta Isaías que profetizou o seguinte: “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56, 3-7).

Ainda no contexto da expulsão dos vendilhões do templo, os evangelistas põem na boca de Jesus uma citação do profeta Jeremias segundo a qual os judeus andavam iludidos ao fazerem do templo uma garantia uma garantia mágica de salvação: Cometem roubos, adultérios e homicídios, diz Jeremias. Depois, vêm ao templo e exclamam: Estamos salvos! Eis a razão pela qual Deus vai destruir esta casa onde invocam o meu nome (Jer 7, 4-14).

O profeta Jeremias chaga a chamar ao templo um covil de ladrões porque os que lá iam matavam, exploravam e oprimiam os mais fracos (Jer 7, 5-6). Pensavam apagar o seu pecado através de cultos e ritos. Depois iam ao templo pensando apagar os pecados com ritos de expiação. Jeremias diz-lhes que tudo isso não passa de mentiras inventadas pelos homens (Jer 7, 21-23).

Os judeus conheciam muito bem estas passagens da Escritura. Os quatro evangelhos são unânimes em pôr na boca de Jesus referências a estas profecias. A presença de Deus, no meio dos homens, não está ligada a um lugar sagrado nem a ritos ou cultos, mas à partilha da Palavra de Deus, à comunhão fraterna, à oração e ao encontro com Deus no Espírito Santo.

Os evangelhos indicam bem como as idas de Jesus ao templo eram profundamente incómodas para os profissionais da religião. Era lá que Jesus anunciava o Reino de Deus: “Os príncipes dos sacerdotes e os escribas, bem como os chefes do povo, procuravam perdê-lo” (Lc 19, 47). O povo, logo de manhã, ia ter com Jesus ao templo para o ouvir (Lc 21, 37-38).

Os pagãos, reconciliados com Deus, já fazem parte da família divina. Já não são peregrinos de passagem na casa de Deus (comunidade). Pelo contrário, são concidadãos dos Santos, isto é, dos membros da comunidade dos eleitos (Ef 2, 18-19). Cristo é a pedra angular deste templo. Os crentes, unidos a Cristo, formam a habitação de Deus (Ef 2, 20-22).

Romper com a comunhão fraterna, diz São Paulo é tornar-se réu do corpo e sangue de Cristo (1Cor 11, 27). A comunidade animada pelo Espírito Santo forma o corpo de Cristo (1Cor 12, 13; 10, 17; 12, 27). Na perspectiva do Novo Testamento a pretensão de operar o perdão de Deus através de ritos que actuam de modo mágico é negar o Espírito Santo.


3-Comunidade cristã e reconciliação

O Novo Testamento concebe a comunidade como o espaço fundamental para a vivência da reconciliação. A comunidade é o lugar da correcção fraterna e do perdão (Lc 17, 4). No caso de surgir um escândalo público, as comunidades aplicavam a proscrição temporária, a fim de o pecador tomar consciência da gravidade do seu comportamento (Gal 1, 7-8; Act 5; 5, 20-24). Era imposta uma penitência relacionada com o teor do pecado (2Cor 2, 6; 2Tess 3, 6ss; Apc 2, 22). A comunidade é a última instância na prática do castigo e da proscrição (Mt 18, 15-18).

A correcção destina-se a salvar o pecador e não a condená-lo. Procedia-se de modo gradual e progressivo:
Ø Exortação em particular (Mt 18, 15);
Ø Repreensão em pequeno grupo, caso a repreensão particular não tenha produzido efeito (Mt 18, 16);
Ø Exclusão temporária e penitência imposta pela comunidade (Mt 18, 18).

Após o tempo determinado para a exclusão e a penitência ter sido cumprida, o pecador era readmitido. Paulo pede à comunidade de Corinto a readmissão de um pecador público que já tinha tido um castigo suficiente (2Cor 2, 6). O mesmo se passa na primeira Carta a Timóteo (1Tim 5, 22).

Os cristãos não foram chamados a julgar, mas a perdoar. Os crentes não podem esquecer que o perdão aos irmãos é condição para viver a reconciliação com Deus (Mt 6, 14). Os membros da comunidade devem ser solidários, procurando ajudar os pecadores a superar o seu pecado. São Paulo diz aos cristãos da Galáxia que devem levar os fardos uns dos outros, a fim de cumprirem a Lei de Cristo (Gal 6, 1). Entre os gestos comunitários para exprimir o perdão e a reconciliação entre os membros da comunidade praticava-se o beijo da paz ou o abraço fraterno na Eucaristia (Didaké 14, 1-2).

Paulo insiste em que o pecador público seja proscrito até mudar de atitude (1Cor 5, 11-13). As reuniões comunitárias que não sejam espaço de partilha e comunhão causam mais danos que proveito (1Cor 11, 17-21). Os crentes serão reconhecidos como discípulos de Cristo se eles se amarem uns aos outros (Jo 13, 35). Pecar contra a comunidade é ferir o corpo de Cristo (1Cor 11, 27). É mentir ao Espírito Santo (Act 5, 3-4). Mesmo que o irmão nos ofenda sete vezes por dia, se pedir perdão, deverá ser perdoado (Lc 17, 4). Quando o servo perdoado se recusou a perdoar ao seu irmão, não ficou perdoado pelo do Senhor (Mt 18, 26-32). O perdão de Deus é uma realidade que acontece de modo orgânico. Acolhemos o perdão de Deus se vivermos na comunhão com os irmãos.