História Pessoal e Ressurreição da Carne




a) No Acto de Morrer, Cristo Venceu a Morte

b) O Apóstolos e a Ressurreição
1- A Pregação dos Apóstolos
2- O Relato das Aparições em São Paulo
3- O Túmulo Vazio não Serve de Argumento
4- A Identidade de Jesus Ressuscitado
5- O Aparecimento das Mulheres

c) A Nossa Identidade Histórica no Reino de Deus

d) A Bíblia e a Ressurreição da Carne


a) No Acto de Morrer, Cristo Venceu a Morte

Fazendo alusão à oração de Jesus no jardim das Oliveiras, a Carta aos Hebreus diz que Cristo fez orações àquele que o podia libertar da morte e foi atendido, devido à sua piedade (Heb 5, 7). Esta libertação da morte, para ser de facto uma libertação da morte deve ser entendida como algo simultâneo ao próprio acto de morrer. Por outras palavras, Jesus não esteve um só momento sob o domínio da morte.

A vitória de Cristo sobre a morte aconteceu pela acção do Espírito Santo em simultâneo com o próprio acto de morrer. A primeira Carta de São Pedro diz que Jesus não podia permanecer sob o domínio da morte, pois nele estava o Espírito Santo, a dinâmica da ressurreição. Jesus é a própria ressurreição como diz o Evangelho de São João: “ Jesus disse a marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido viverá” (Jo 11, 25).

Como o grupo apostólico só fez a experiência do ressuscitado ao terceiro dia, o autor da carta de Pedro diz que Jesus nesse intervalo não esteve sob o domínio da morte. Nesse tempo intermédio entre a ressurreição e as aparições, Jesus esteve profundamente dinâmico. Foi à morada dos mortos, acrescenta a Primeira Carta de São Pedro, levar o Evangelho e ressuscitar os que estavam sob o domínio da morte (1 Pd 3, 18-19).

Graças à união orgânica que existe entre nós e Jesus, o Espírito Santo tem condições para realizar a nossa ressurreição. Jesus, no evangelho de São João, diz que a força ressuscitadora de Cristo na Humanidade acontece graças ao facto de existir uma união orgânica entre Jesus e a Humanidade. Esta união, diz Jesus no evangelho de São João, é idêntica à união orgânica e vital que existe entre Cristo e Deus Pai: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

Devemos entender a ressurreição de Jesus como um acontecimento progressivo a acontecer em simultâneo com o acto de morrer: À medida em que, no alto da cruz, Jesus ia morrendo, a ressurreição ia acontecendo, pela acção recriadora do Espírito Santo. Por outras palavras, à medida que ia morrendo aquilo que no homem é mortal, o imortal ia sendo assumido e glorificado. Isto quer dizer que no momento em que morreu o último elemento do que no homem é mortal, o imortal ou espiritual de Jesus Cristo ficou plenamente ressuscitado e glorificado em Deus.

Deus libertou Jesus da morte, não permitindo que ele estivesse um só momento sujeito à morte. Quando Jesus acabou de morrer estava totalmente ressuscitado. Enquanto a morte ia aniquilando o que no homem é destrutível pela morte, o Espírito Santo ia recriando e incorporando na comunhão divina o que tinha densidade para ser assumido e glorificado na Família da Santíssima Trindade. Portanto, não existe qualquer distância temporal entre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Na verdade, à medida que Jesus ia morrendo, o Espírito Santo ia realizando a vitória sobre a morte. Eis as palavras da Carta aos Hebreus: “Nos dias da sua vida terrena, Jesus apresentou orações e súplicas, com clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade” (Heb 5, 7).

No momento da morte e ressurreição de Cristo, inicia-se a ressurreição da Humanidade. Os que tinham vivido antes de Cristo entraram com ele na plenitude da vida eterna, como Jesus garantiu ao Bom Ladrão: “Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Mateus exprime esta mesma verdade dizendo que, no momento em que Jesus morre, os túmulos começam a abrir-se e os justos a ressuscitar (Mt 27, 52-53).

O evangelho de São João, referindo-se a este momento, chama-lhe a “A Hora de Jesus”. Esta hora, na perspectiva do quarto evangelho, é o momento da glorificação de Jesus Cristo (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14, 2-4). É o momento no qual Jesus ressuscitado é glorificado junto de Deus Pai (Jo 6, 62). É também o momento da difusão do Espírito Santo (Jo 16, 7-8; 7, 37-39).

Em relação à morte cruel sofrida por Jesus, temos de dizer com toda a clareza que, aquilo que agradou a Deus, não foi essa morte bárbara e cruel, mas sim a fidelidade total de Jesus. Na verdade, Jesus apercebeu-se de que os seus inimigos o iam matar, mas apesar disso continuou a realizar fielmente a missão que o Pai lhe confiou.

Sobretudo o evangelho de João acentua esta fidelidade incondicional de Jesus à vontade do Pai: “O meu alimento, diz Jesus, é realizar a vontade daquele que me enviou bem como a sua obra” (Jo 4, 34). E ainda: “O mundo há-de saber que amo o pai e faço como ele me ordenou” (Jo 14, 31). Disse ainda que não procurava a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou (Jo 5, 30).

A partir do acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, a força ressuscitadora do Espírito Santo está plenamente activa na marcha histórica da Humanidade. A ressurreição implica assunção e incorporação da pessoa humana na Família de Deus. Esta acção está em processo, graças à presença dinâmica do Espírito Santo no coração das pessoas.

Em relação à ressurreição da Humanidade esta começa acontecer apenas após a morte e ressurreição de Jesus como diz São João: “No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, exclamou: “Se alguém tem sede venha a mim. E os que crêem em mim que saciem a sua sede. Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de água viva”. Ora ele disse isto referindo-se ao Espírito que iam receber os que cressem nele. Com efeito ainda não possuíam o Espírito, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

Como acabámos de ver, ressuscitamos porque temos uma dimensão espiritual e, portanto, imortal, pois, como proclama São Paulo, a ressurreição não é uma restauração biológica (1 Cor 15, 42-45). Por outro lado, a ressurreição também não se reduz a uma simples imortalidade, pois pressupõe a glorificação, isto é, a assunção e incorporação na Comunhão da Família Divina.

Apesar de implicar esta transformação tão radical, a ressurreição não dilui a identidade histórica da pessoa na Comunhão Universal. A nossa identidade histórica é o jeito de amar que fomos adquirindo ao longo da nossa história. A pós a ressurreição de Cristo, a pessoa é restaurada e glorificada, mediante a sua assunção na comunhão da Santíssima Trindade.

A ressurreição de Cristo inaugura a plenitude dos tempos como diz São Paulo: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama “ABBA”, Papá. Deste modo já não és escravo mas filho e, se és filho, és herdeiro pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7). Na carta aos Romanos, São Paulo repete esta ideia de modo ainda mais explícito quando diz: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).


b) Os Apóstolos e a Ressurreição

1- A Pregação dos Apóstolos

O anúncio de Cristo ressuscitado não foi uma tarefa fácil para os Apóstolos. Os primeiros anúncios da ressurreição de Jesus incluíam apenas aspectos espirituais. Mas à medida que o tempo passa, o Novo Testamento tende a incluir cada vez mais aspectos físicos nos relatos das aparições. Naturalmente que isto acontece para fazer frente às acusações dos judeus que acusavam os discípulos de terem alucinações e de inventarem coisas sobre a ressurreição.

Os apóstolos tentam fazer frente a estas acusações, dizendo que as aparições, mas sim o reconhecimento do Senhor, pois a sua identidade, após a ressurreição continua a mesma que tinha enquanto viveu com eles. Isto quer dizer que o Senhor ressuscitado é o mesmo Jesus com o qual eles conviveram e comeram. Na verdade, os discípulos nunca perguntam ao ressuscitado quem é ele. Acabam sempre por reconhecê-lo!


2- O Relato das Aparições em São Paulo

Ao atribuir actividades físicas ao ressuscitado, os discípulos estão a afirmar que Jesus ressuscitado mantém a sua identidade histórica. São Paulo, como não conviveu com o Jesus histórico, não o identificou quando o Senhor lhe apareceu: “Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou, quem és tu, Senhor?” Jesus respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues” (Act 9, 4-5).

Na pregação das primeiras quatro ou cinco décadas o túmulo vazio ainda não era utilizado como argumento para falar da ressurreição de Jesus. São Paulo afirma aos Coríntios que a sua pregação sobre a ressurreição de Jesus Cristo se apoia nos testemunhos que os apóstolos lhe comunicaram de viva voz: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras. Apareceu a Pedro (Cefas) e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez. A maior parte destes ainda vive, se bem que alguns já tenham morrido. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar apareceu-me também a mim como a um aborto” (1 Cor 15, 3-8).

Estamos perante o relato mais antigo sobre a ressurreição de Jesus. Foi isto que os Apóstolos anunciaram durante as primeiras décadas da pregação. Aparece o nome de Tiago, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus: Tiago, José, Simão e Judas (Mc 6, 3; Mt 13, 55). No período em que São Paulo escreve a Primeira Carta aos Coríntios, Tiago era o chefe da comunidade de Jerusalém. Na Carta aos Gálatas, São Paulo menciona Tiago, o irmão do Senhor, e afirma que ele era dos principais (Gal 1, 19).

O relato de São Paulo sobre as aparições ainda está profundamente condicionado mentalidade judaica. É esta a razão pela qual entre os nomes das testemunhas da ressurreição não aparece nenhum nome de mulher. Se pudessem aparecer nomes de mulher, em vez de Tiago estaria certamente o nome de Maria. Algumas décadas mais tarde Maria e os irmãos de Jesus são mencionados por São Lucas no Livro dos Actos dos Apóstolos: “E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus com seus irmãos” (Act 1, 14).

A referência explícita a Tiago como mais uma aparição do Senhor ressuscitado significa que o grupo familiar de Jesus teve uma experiência pascal separada da dos discípulos. Não foi por lapso que Paulo não menciona o túmulo vazio como argumento para falar da ressurreição de Jesus. Ele diz expressamente que a ressurreição não é uma restauração biológica, mas uma optimização espiritual da mesma pessoa que viveu na história: “Semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno também há um corpo espiritual. Por isso está escrito: “o primeiro homem, Adão, foi feito um espírito vivente. O segundo Adão um Espírito vivificante”. Mas o primeiro não foi o espiritual, mas sim o terreno. O espiritual vem depois” (1 Cor 15, 44-46).


3- O Túmulo Vazio não Serve de Argumento

A tradição do túmulo vazio está ligada à introdução das mulheres no grupo das testemunhas da ressurreição. Isto aconteceu apenas com os relatos evangélicos, depois dos anos setenta: “Terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto houve um terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela. O seu aspecto era como o de um relâmpago e a sua túnica branca como a neve. Os guardas com medo dele puseram-se a tremer e ficaram como mortos. O anjo tomou a palavra e disse às mulheres: ‘Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou como havia dito. Vede o lugar em que jazia e ide dizer aos discípulos que o Senhor ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis. Eis o que tinha para vos dizer”. Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos. Jesus saiu ao seu encontro e disse-lhes: ‘Salve! ‘. Elas aproximaram-se, abraçaram-lhe os pés e prostraram-se diante dele. Jesus disse-lhes: “Não temais. Ide dizer aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão” (Mt 28, 1-10).

Como vemos, está aqui bem realçado o aspecto da identidade histórica do Jesus que elas conheceram. Segundo o evangelho de São Mateus, os onze foram para a Galileia tal como Jesus lhes ordenou. Aí lhes apareceu e confiou a missão de evangelizar o mundo: “Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram adoraram-no. Alguns, no entanto, ainda duvidavam. Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 16-19). Note-se que para São Lucas as aparições de Jesus ao grupo dos Apóstolos dão-se em Jerusalém.


4- A Identidade de Jesus Ressuscitado

Apesar de manter a sua plena identidade histórica, o modo de existir de Jesus ressuscitado era diferente do modo de existir que ele tinha quando vivia na história. Este mandato de evangelizar os pagãos em pé de igualdade com os judeus é uma conquista das comunidades apostólicas. Se fosse um mandato explícito associado à aparição do Senhor ressuscitado, Pedro e a comunidade da palestina não teriam oferecido resistência à evangelização dos pagãos (cf. Act 10, 9-16). Esta relutância de São Pedro e do grupo de Jerusalém gerou uma tensão forte entre São Paulo e São Pedro. Na Carta aos Gálatas, São Paulo diz que enfrentou são Pedro com dureza, pois ele não estava a agir de acordo com o Evangelho (Gal 2,11-14).

Lc 24, 13-35: O relato dos discípulos de Emaús é dos mais bonitos dos diversos relatos de aparições do ressuscitado. Apesar de manter a sua identidade histórica, o Senhor vive em coordenadas totalmente diferentes. Sem deixar de ser o mesmo, Jesus é de modo diferente. Por isso ele não é imediatamente reconhecido pelos discípulos. Mas na medida em que a comunicação se vai intensificando, os discípulos vão-se apercebendo de que o caminhante é Jesus ressuscitado. Quando têm a certeza que é Jesus este desaparece deixando de se ver (Lc 24, 31). Isto significa que o Senhor ressuscitado não se pode reter em coordenadas espacio-temporais, pois já as transcendeu. Também em São Marcos, as mulheres dizem aos discípulos que vão para a Galileia, a fim de verem o Senhor ressuscitado.


5- O Aparecimento das Mulheres

A partir dos anos setenta, as mulheres são reconhecidas como testemunhas válidas da ressurreição Jesus. O aparecimento das mulheres vai dar origem aos relatos do túmulo vazio. Enquanto as mulheres em São Mateus eram duas, em São Marcos são três (Mc 16, 3-8). O evangelho de São João fala apenas de uma mulher: Maria Madalena. Ao ver o sepulcro aberto, Maria correu a avisar Pedro e João.

Graças à mediação de Maria Madalena, São Pedro e São João são os primeiros a acreditarem na ressurreição de Jesus (Jo 20, 1-10). Só depois de Pedro é que vem a experiência pascal de Maria Madalena. Maria vê dois anjos e, logo a seguir, vê o Senhor, tomando-o pelo jardineiro (Jo 20, 11-16). Ao aperceber-se de que era Jesus, Maria tenta abraçar os pés de Jesus, mas este não lho permite, pois tem de ir para o Pai (Jo 20, 17).

No evangelho de São Mateus, as mulheres lançam-se aos pés de Jesus e abraçam-no sem que Jesus tenha feito qualquer reparo qualquer reparo (Mt 28, 9). No final do evangelho de São João, a afirmação da identidade histórica de Jesus atinge o cúmulo do fisicismo. Há um relato em que aparece Jesus a assar peixe junto ao lago, a fim de os discípulos comerem quando regressarem da pesca. Depois come com eles. Naturalmente que isto corresponde aos procedimentos do Jesus histórico, mas não à realidade do Senhor ressuscitado. No entanto, Este relato sublinha que o jeito de ser do Senhor ressuscitado é o mesmo do Jesus histórico que repartia o pão e o peixe com eles (Jo 21, 9-13). Algumas décadas antes destes relatos, São Paulo dizia que o corpo do Senhor ressuscitado não é uma realidade de ordem biológica, mas sim um corpo espiritual (1 Cor 15, 42-50).


c) A Nossa Identidade Histórica No Reino de Deus

Mediante a sua ressurreição, Jesus ficou totalmente diferente, embora, a sua identidade histórica ficasse rigorosamente a mesma. A ressurreição, portanto, não é um regresso à vida que o ser humano tinha antes de morrer. O evangelho de São Mateus tem um ensinamento muito importante sobre a condição espiritual dos ressuscitados. Eis as suas palavras: “Estais enganados, pois desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. Na ressurreição nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos. Serão como anjos no Céu” (Mt 22, 29-30).

Enquanto vivemos na história somos seres com uma interioridade pessoal-espiritual a emergir dentro do nosso ser exterior. Podemos dizer que o nosso ser interior emerge dentro do nosso ser exterior como o pintainho dentro do ovo. Servindo-nos desta imagem, podemos dizer que a morte é o momento em que nasce o pintainho. A partir desse momento, o nosso ser biológico começa a entrar nos circuitos físico-químicos da natureza, enquanto o nosso ser espiritual, por ser pessoal, é assumido na comunhão das pessoas divinas.

Semeia-se corpo natural, diz São Paulo, e ressuscita-se corpo espiritual (1 Cor 15, 44). A nossa incorporação em Deus acontece porque fazemos uma unidade orgânica com Cristo: “Os que comem a minha carne e bebem o meu sangue vivem em mim e eu neles. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, os que comem a minha carne e bebem o meu sangue viverão por mim” (Jo 6, 56-57). No evangelho de João, Jesus diz que ele é a cepa da videira e nós os ramos. Os ramos apenas podem dar fruto se estiverem unidos à videira.

A tradição chama corpo glorioso à configuração histórica da pessoa. É uma maneira de afirmar a identidade histórica dos ressuscitados. Ao falar do corpo glorioso, a tradição afirma que o corpo dos ressuscitados não é uma grandeza biológica, mas sim uma realidade espiritual. É a configuração da nossa emergência temporal ou, se quisermos, o modo de a pessoa comunicar com os outros, a partir da sua realização na história.

No Reino de Deus, todos os eleitos dançam o ritmo do amor. Mas cada qual dança com o jeito que foi adquirindo na história. Este jeito de dançar o ritmo do amor foi treinado e adquirido através do modo como nos realizámos pessoalmente. Fora da comunhão do Reino, a pessoa não encontra a sua identidade, pois a plenitude da pessoa não está em si mas na reciprocidade do amor. Isolada da comunhão, a pessoa não se possui nem conhece plenamente. As pessoas que estão em estado de perdição, isto é, reduzidas a si, não têm corpo glorioso, pois são incapazes de comunicar e comungar com alguém. Isto quer dizer que Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria decisão. A pessoa apenas se possui dando-se. Só se encontra plenamente na reciprocidade da comunhão.

A seiva que alimenta a nossa união a Cristo é o Espírito Santo. É a Água viva que faz jorrar vida eterna no nosso íntimo (Jo 4, 14; 7, 37-39). Na base da nossa realização pessoal está uma cadeia de decisões, opções, escolhas e acções orientadas no sentido do amor. Já vimos que ninguém se pode realizar sozinho. À medida em que o ser humano se realiza como pessoa constitui-se um ser com os demais. Eis a razão pela qual os outros são mediações para nos realizarmos, mas não podem programar nem executar a nossa realização. Por outras palavras, os outros podem favorecer ou condicionar a nossa realização pessoal, mas a última palavra é sempre nossa. Aqui radica o fundamento da nossa dignidade e também da nossa responsabilidade.

A nossa realização pessoal-espiritual, portanto, é o conteúdo da nossa identidade histórica. Agora já podemos compreender que cada ser humano, à medida em que se realiza, está a edificar-se como pessoa livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa. Isto quer dizer que seremos eternamente a pessoa que realizarmos na história. A recriação e optimização operada pela ressurreição consistem na nossa divinização que acontece pela nossa incorporação na Família Divina.

É verdade que Deus diviniza o que somos como realização humana. Mas a humanização é tarefa nossa. Isto quer dizer que será eternamente mais divino quem mais se humanizar na história. Deus criou-nos inacabados e deu-nos a missão histórica de nos criarmos a partir do que recebemos dos outros. Jesus Cristo veio restaurar as distorções do pecado de Adão. Por isso ele é, como diz São Paulo, o Novo Adão (Rm 5, 17-19). No momento da sua morte e ressurreição, o Novo Adão reabriu-nos as portas do Paraíso e a Humanidade ficou com acesso ao fruto da Vida Eterna. Quando estava para morrer e ressuscitar, Jesus disse ao Bom Ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Deste modo, o Paraíso fechado à Humanidade pelo pecado de Adão, foi reaberto por Jesus Cristo.

Ao ser assumida na Comunhão Universal dos ressuscitados com Cristo, a pessoa humana é optimizada nas suas possibilidades de se relacionar amorosamente. Isto quer dizer que na comunhão universal do Reino de Deus a identidade da pessoa não é anulada mas optimizada. A simples imortalidade não é parte importante da Boa Nova do Evangelho. No coração do Evangelho está a ressurreição como condição de plenitude para a pessoa humana.

A ressurreição em Cristo implica a assunção, ou seja, a plena incorporação na Comunhão da santíssima Trindade. À luz da ressurreição, a morte natural é o parto final, a derradeira possibilidade de renascer para a plenitude. A morte é o acontecimento que possibilita o nascimento total. Nesta perspectiva, o amor surge como a única razão válida para viver e para morrer. Por outras palavras, tanto vale viver para amar como morrer por amor.

O nosso ser pessoal-espiritual não é atingido pela morte natural. Pelo contrário, fica liberto das amarras e condicionamentos do nosso ser exterior, individual, egocêntrico, constantemente impelido a girar sobre si mesmo. Portanto, não basta ser imortal para atingir a plenitude da vida. As pessoas que estão em estado de inferno são imortais, mas não estão na plenitude dos ressuscitados em Cristo.


d) A Bíblia e a Ressurreição da Carne

A Bíblia tem uma visão orgânica e interactiva da Humanidade. O termo carne (Basar), quando aplicado ao Homem, não é de ordem biológica, mas antes de tipo genealógico e orgânico. O varão e a mulher, ao juntar-se, formam uma só carne (Gn 2, 24). São Paulo, falando da prostituição, dá este argumento para dizer que tal comportamento não é permitido aos crentes. O cristão é membro do Corpo de Cristo (1Cor 6, 15a). Ligar-se à prostituta é tornar-se membro, isto é, uma união orgânica com a prostituta (1Cor 6, 15b).

O cristão está organicamente ligado a Cristo pelo Espírito Santo: “Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito” (1Cor 6, 17). Fomos baptizados no mesmo Espírito para formarmos um só corpo com Cristo (1Cor 12, 13). Somos membros de Cristo, cada um com sua função própria (1Cor 12, 27). Ao falar da Eucaristia, Paulo diz que comemos do mesmo pão e, por isso, formamos um só corpo (1Cor 10, 17).

Segundo a visão bíblica, a Humanidade forma um todo orgânico e interactivo do qual Adão é a cabeça. Por um só homem o pecado e a morte, diz São Paulo, entraram no mundo, atingindo a todos (Rm 5, 12). Eis a razão pela qual Deus pensou em suscitar uma Nova Cabeça para a Humanidade: Jesus Cristo. Através desta nova cabeça, Deus derramou no coração dos homens o Espírito Santo, o qual vence a morte e o pecado.

O matrimónio é sacramento desta comunhão orgânica que une a Humanidade e a sua Nova Cabeça, isto é, Cristo ressuscitado: “Os maridos devem amar as mulheres como sua carne. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo, pois ninguém jamais aborreceu a sua própria carne. Na verdade, o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à sua mulher e passarão a ser uma só carne” (Ef 5, 28-31).

É neste sentido que Paulo fala do marido como cabeça dessa união orgânica, fecunda e dinâmica que é o marido e a esposa. Eis o que diz a carta aos Efésios: “O marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo, e da qual ele é o Salvador” (Ef 5, 23). Na carta aos Filipenses, o conceito de carne é não apenas aplicado à união do marido e da esposa, mas à união do povo hebreu: “Também eu poderia confiar na carne. Se os outros o fazem, quanto mais eu poderia fazê-lo: Fui circuncidado ao oitavo dia. Sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim. Sou hebreu, filho de hebreus. Quanto à Lei, fui fariseu. Quanto ao zelo, persegui a Igreja de Deus. No que se refere à justiça da Lei vivi irrepreensivelmente” (Flp 3, 4-6). São Paulo sente-se um membro integrado e interactivo desse todo orgânico que é o povo hebreu.

Jesus chamou Satanás a Pedro, pois este não entendia a missão messiânica de Jesus segundo Espírito Santo, mas segundo a carne (Mt 16, 23). Numa outra ocasião, Jesus abençoa a fé de Pedro, dizendo-lhe que não foi a carne nem o sangue quem lho revelou o mistério de Cristo, mas o Pai que está nos céus (Mt 16, 16-17).

Do mesmo modo, a visão bíblica da ressurreição da carne não é a de um acontecimento biológico mas sim espiritual: “Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória. Semeia-se na fraqueza e ressuscita-se na força. Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual. O que digo, irmãos, é que a carne e o sangue não podem tomar parte no Reino de Deus. A corrupção não herdará a incorruptibilidade.” (1Cor 15, 42-50).

O Evangelho de São João, ao falar da Eucaristia, revela já a preocupação de se defender da acusação de antropofagia. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e ressuscitá-lo-ei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim eu nele. (Jo 6, 32-63)

Comer a carne e beber o sangue, portanto, significa entrar em reciprocidade de comunhão no Espírito de Deus. “A carne (biologia) não serve para nada. O Espírito é que dá vida. As palavras que vos disse são Espírito e Vida.” (Jo 6, 63b) Cristo é a cepa da videira e nós os ramos. Os ramos vivem e dão fruto na medida em que permanecem unidos à cepa (Jo 15, 4-5). A seiva que circula e alimente esta unidade orgânica é o Espírito Santo (1Cor 12, 13; 6, 17). Jesus tem a plenitude do Espírito Santo, diz o evangelho de São João: “Aquele que Deus enviou refere as palavras de Deus, pois Deus não lhe deu o Espírito por medida” (Jo 5, 34).

Os antigos profetas reis foram ungidos com o Espírito de Deus. Jesus Cristo, pelo contrário, possui a plenitude do mesmo Espírito. É o Espírito Santo que dinamiza a união entre nós e Cristo, bem como entre Cristo e o Pai: “Que todos sejam um como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Que também eles sejam um em nós” (Jo17, 21).

No interior dos que bebem a Água Viva que Jesus tem para nos dar, isto é, o Espírito Santo, começa a jorrar uma fonte de vida eterna (Jo 4, 14; 7, 37-39). O Espírito Santo é o portador de uma vida nova, a qual é a própria vida de Deus: O que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito (Jo 3, 6). Por isso São Paulo diz que todos aqueles que são movidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus (Rm 8, 14). Foi-nos dado o poder de nos tornarmos filhos de Deus, não pela vontade do Homem nem pelo impulso da carne, mas pelo querer de Deus. Foi para isto que o Verbo Encarnou (Jo 1, 12-14).

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