Relações Pais-Filhos (IV)



4) A Criança é Moldada 
Pelo Contexto Familiar


A Criança é um feixe enorme de possibilidades de realização humana. Mas estas possibilidades, para poderem emergir, precisam de um contexto de relações amorosas. Cada vez que manifestamos apreço pelas realizações de uma criança estamos a facilitar a emergência do melhor que há nela. Não nos esqueçamos de que a pessoa faz-se, fazendo. De facto, é realizando, que nos realizamos.

À medida que as crianças fazem emergir o melhor que há nelas, vão-se estruturando e solidificando como pessoas: temperamento, carácter, personalidade. A pessoa humana é um ser em processo de humanização. A lei da humanização é: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal. A emergência pessoal significa não apenas o crescimento físico, psíquico e social, mas igualmente o seu crescimento pessoal-espiritual. Assim como a pessoa só pode emergir e realizar-se em relações interpessoais de amor, do mesmo modo só pode atingir a plenitude na comunhão com os outros.

O melhor critério para avaliarmos o grau de humanização de uma família ou de uma sociedade é repararmos no que fazem pelas crianças. Felizes das crianças que crescem em contexto familiar, escolar, social e cultural marcado pelo amor e a abertura à criatividade. As coisas que a criança consegue fazer de modo mais sério é brincar e ouvir histórias. Qualquer destas actividades treinam-na para enfrentar situações e discernir em momentos de dificuldade.

Quando contamos histórias às crianças estamos a ajudá-las a sonhar com os olhos abertos. É um modo excelente de as ajudar a ser adultos criativos. Além das histórias que as fazem sonhar, as crianças precisam de modelos com os quais se possam identificar. É bem conhecido o papel fundamental da imitação no desenvolvimento da personalidade da criança. As crianças dão-se conta do que somos, não pelo que dizemos mas sim pelo que fazemos.

Os melhores presentes que os pais podem preparar para os seus filhos é um modelo de realização pessoal feliz e dispensar-lhes todos os dias alguns minutos de atenção. Os pais que ensinam os filhos a programar, decidir e executar planos de acção e projectos de vida estão a comunicar-lhes sabedoria. Esta sabedoria é mais importante para a sua felicidade do que a ciência que vão adquirir nas escolas.

Lembremo-nos de que as crianças precisam mais de modelos do que de pessoas sempre dispostas a corrigir. Não é bom pedagogo, isto é, educador, o adulto que impede a espontaneidade e a emergência da originalidade de uma criança. Os nossos comportamentos bem como aquilo que fazemos despertam nas crianças o desejo de se realizarem de acordo com o modelo que observam em nós. É assim que elas começam a sonhar e a idealizar o seu futuro. Na verdade, o futuro para a criança é ser como o pai, o irmão mais velho ou a mãe.

Assim como precisam de modelos, as crianças precisam de muitas ternura e amor, sobretudo quando se portam mal. Os pais são a grande mediação de Deus para as crianças crescerem seguras e felizes. Mas também é verdade que os filhos são um grande dom de Deus para os pais. Não nos esqueçamos de que as crianças têm tendência a viver e agir de acordo com a fé e confiança que os pais e educadores depositam nelas. Há dois modos de destruir a felicidade de uma criança: dar-lhe castigos injustos e iniciá-la na prática do erro e da mentira.

Os pais não devem desanimar quando lhes parece que os filhos desprezam os seus conselhos. Podem ter a certeza de que esses conselhos ficam registados para toda a vida como pontos de referência na mente dos filhos. Os valores e o amor semeados no coração das crianças nunca mais desaparecerão. Estes dados vão funcionar como ponto de referência nos momentos em que têm de discernir e ter critérios para programar, decidir e agir de acordo com o bem.

O amor dos pais actua no interior dos filhos como força estruturante que os capacita para amar e se realizarem de modo satisfatório e feliz. É importante que os pais tenham presente que os seus filhos crescem depressa. Em geral, os pais são as últimas pessoas a aperceberem-se de que eles já não são crianças.

É importante que os pais tenham consciência de que os seus filhos estão a crescer, não para serem filhos, mas sim para serem pais e mães dos seus netos. Tendo presente esta verdade fundamental, mais fácil lhes será deixá-los desabrochar e, mais tarde, cortar o cordão umbilical, quando os filhos despertarem para outro amor.

É importante que os pais não tentem encerrar os filhos nos moldes que aprenderam dos seus pais. Compreendam que eles, pais, viveram noutros tempos e foram moldados com padrões culturais e dados científicos diferentes. Não mintam às crianças, pois a mentira acaba sempre por se descobrir, dando origem a desilusões nas crianças.

Os pais e educadores devem ter cuidado, a fim de não tratarem as crianças como seres inferiores. São seres com toda a dignidade de pessoas humanas. Apenas lhes falta a maturidade física e as experiências para agirem como pessoas amadurecidas. Os pais não podem esquecer-se de que o maior sucesso da sua missão é dar aos filhos a possibilidade de se realizarem como pessoas livres, conscientes, responsável e capazes de comunhão amorosa.

A criança é um barro que está a ser modelado pelos outros: pais, escola, meio ambiente e outras mediações. Mas os educadores não podem concluir a tarefa, pois o decisivo é o que os filhos decidem fazer com o que receberam deles. É verdade que a pessoa humana começa por ser o que os outros fizeram dela. Mas o mais importante é o que a pessoa faz com o que os outros fizeram dela.

Não nos esqueçamos de que a criança é um feixe de possibilidades ou talentos que ainda tem de realizar. Os pais são os primeiros a inscrever esses talentos ou possibilidades nos seus filhos. Ela vai viver a sua história com os padrões que os pais tenham inscrito nela. Isto demonstra que o jeito de os pais se relacionarem com os seus filhos possibilita ou condiciona a sua realização futura. A tarefa da educação e o modo de os pais se relacionarem com os filhos é uma arte parecida à do escultor que, pouco a pouco, vai fazendo emergir uma obra de arte cujo resultado final nem ele próprio adivinhava.

O facto de a criança estar constantemente a imitar os adultos não é obstáculo à sua originalidade pessoal. Tudo isto nos faz compreender a razão pela qual os pais devem estar conscientes da importância do seu modo de agir na estruturação da personalidade da criança. Assim, por exemplo:

*Se as crianças crescem em contexto de fé, aprendem a ser crentes.
*Se crescem em ambientes onde as pessoas tomam a vida a sério, aprendem a comprometer-se com os valores.
*Se crescem em ambientes muito críticos aprendem a criticar e a ser intolerantes.
*Se vivem em ambientes sem ternura e amor, tornam-se inseguras, agressivas e ciumentas.
*Se vivem em ambientes demasiado marcados pela inveja tornam-se invejosas e doentiamente competitivas.
*Se vivem em ambientes onde são valorizadas e encorajadas tornam-se confiantes e portadores de uma forte auto estima.

Utilizando a imagem bíblica do barro, podemos dizer que a argila humana se vai modelando através das relações. Ao nível da criança, as relações são, sobretudo, estruturantes, isto é, moldam-na e conferem-lhe uma configuração cujos traços perdurarão para o resto da sua vida. A sabedoria popular sintetiza isto de modo sugestivo quando diz: “O que o berço dá a tumba o leva”. Isto é em grande parte verdade, tanto para o bem como para o mal. Daqui a importância de estabelecermos com ela relações de amor, ternura, mas também ternura. O entretecido de relações familiares em que a criança vai crescendo, capacitam-na para se relacionar bem ou mal ao longo da vida. Como sabemos, os seres humanos não são ilhas. Na verdade, ninguém se pode realizar sozinho e muito menos as crianças.

A felicidade das crianças faz-se de pequenas coisas. Os pais sabem a importância de um passeio ao supermercado, a compra de um gelado ou biscoito, um caderno para pintar ou um pequeno livro de histórias. Mas por vezes as coisas agravam-se quando a criança começa a pedir brinquedos caros. Todos sabemos como, por vezes, não é fácil ir ao encontro dos desejos dos filhos. Ninguém ignora os enormes sacrifícios que certos pais fazem para que o filho possa ter aquele cereal muito bom para a sua alimentação, mas que é muito caro. Quando os pais não podem oferecer certos brinquedos electrónicos caros devem explicar isso com muita clareza e verdade aos seus filhos.

Temos de ter consciência de que as crianças de hoje são bombardeadas com uma publicidade agressiva.  Elas conhecem o nome de produtos caros e os encantos que a publicidade lhes atribui. É muito provável que as crianças, depois de algum tempo, comecem a pedir esses produtos. Todos sabemos como nestes casos não é fácil dizer não. Sobretudo custa dizer-lhes que não podem ter os brinquedos que os pais dos seus colegas já ofereceram aos filhos deles.

Outro aspecto importante a ter presente na educação das crianças é a questão do dinheiro. É importante ajudar as crianças a compreender o valor do dinheiro e o papel que este joga nas nossas vidas. É fundamental ajudar as crianças a gerir o seu dinheiro e a ensiná-las a poupar logo de pequeninas.

Os pais não devem esquecer-se de que as crianças que são bem acompanhadas correm menos riscos de cair em comportamentos destrutivos e socialmente perturbadores. Quanto mais envolvidos estiverem os pais na vida dos filhos, mais seguros estes se sentem e mais tentarão responder à fé que os pais depositam neles. Eis alguns pontos importantes a ter em consideração neste acompanhamento:

*Estabeleça tempos para estarem juntos. Decida um tempo semanal para fazerem qualquer coisa em conjunto fora da rotina do dia a dia. Mesmo que não seja mais que ir tomar um gelado fora.
*Mais que tentar constantemente saber onde os filhos foram, procure conhecer os seus amigos e os pais destes.
*Sempre que possível esteja em casa quando os seus filhos voltarem da escola. A zona de perigo para o uso das drogas é a saída da escola, pela tarde, quando nenhum dos pais está presente.
*Estudos recentes demonstraram que crianças e adolescentes que comem pelo menos cinco vezes por semana com os pais têm muito menos probabilidades de se envolverem em problemas de droga e álcool.

*É importante que os pais desenvolvam um clima de diálogo com os filhos. Procure saber como vão as coisas na escola. Seja claro sobre os valores a ter em conta: seja totalmente claro, fazendo-os compreender que não quer que eles consumam droga. Explique-lhes com clareza que droga nunca e em lugar nenhum.

*Seja um bom ouvidor. Não se ponha logo a dar receitas morais quando o filho ou a filha lhe fazem um desabafo. Pelo contrário, faça-lhes perguntas e comunique-lhes força e coragem. Resuma e sublinhe o que o filho lhe comunicou, a fim de lhe demonstrar que entendeu bem a comunicação.

*Dê respostas honestas. Não afirme o que não conhece. Em caso de dúvida e incerteza prometa encontrar a resposta certa e verdadeira.
*Não se descontrole para não ter de acabar com o diálogo. Tente aprofundar as questões, mesmo que o filho tenha feito declarações chocantes.
*No dia a dia procure ser um exemplo para os filhos. Não queira que eles façam aquilo que lhes diz, mas antes actue como quer que eles actuem.

*Crie regras em diálogo com os filhos. Depois acentue que há consequências para a infracção a essas regras.
*Não faça ameaças vazias ou sem efeito. Cumpra os castigos previstos e não acrescente outros arbitrariamente. Sobretudo nunca seja injusto.
*Estabeleça a hora do toque de recolher e seja rigoroso. Mas esteja preparado para renegociar, sobretudo em ocasiões especiais.
*Escute os seus instintos. Não tenha medo de intervir se o seu sexto sentido lhe indicar que algo está errado.

*Encoraje o seu filho e felicite-o quando acontece uma coisa boa. Este encorajamento dá-lhe força para não cair em experiências destrutivas. Recompense o bom comportamento dos seus filhos. Se puder ser, a recompensa deve acontecer logo a seguir ao acto. Nestes momentos manifeste-lhe muito carinho e apreço.

*Acentue as coisas positivas que observar nos comportamentos dos seus filhos. Este procedimento tem mais impacto e mais força para levar o seu filho a fazer o bem do que uma multidão de proibições.

O “não” também faz parte da arte de educar. Mas para dizer um não construtivo é preciso amar de verdade. Na arte de educar, o “não” é tão importante como o “sim”. É verdade que só mais tarde as crianças e os adolescentes poderão compreender a importância e o alcance de certos “nãos” que os irritaram e deixaram cheios de raiva. Só o amor é razão válida para dizer de modo construtivo um “sim” ou um “não”.

É preciso um grande amor para ser capaz perguntar ao filho adolescente: “Onde vais?” Ou então: “Com quem vais?” Também é preciso muito amor para dizer ao filho adolescente: “Deves estar em casa à hora determinada.” É preciso ter um grande amor para ter a coragem de dizer ao filho ou à filha adolescente: “Aquele amigo com quem andas agora não é boa companhia.”

É preciso ter um amor grande para obrigar a criança a ir ao supermercado no dia seguinte a pagar os bombons que tirou na véspera e não pagou. Mas também é preciso ter muito amor para não substituir um filho, apesar de saber que pode haver tropeções e cabeçadas pelo caminho. É preciso querer muito aos filhos para os obrigar a comer cereais, frutas, ovos e leite, enquanto muitos dos seus amiguinhos bebem refrigerantes, comem batatas fritas ou gelados.

É preciso amar muito para obrigar as crianças e adolescentes a comer à mesa, apesar de eles dizerem que os seus amigos comem no sofá, enquanto vêem televisão. É preciso amar muito para obrigar os adolescentes a levantar a loiça da mesa. Também supõe muito amor ser capaz de esperar uma hora e meia até eles limparem o quarto, tarefa que a mãe teria feita em vinte minutos.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias


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